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A Minha Sanzala: Setembro 2005
recomeça o futuro sem esquecer o passado

30 de setembro de 2005

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - XXII

De volta ao meu canto solitário, o silêncio da noite interrompido pela doce música da chuva a cair sobre uma cidade adormecida, continuo a escrever-te a mensagem que não sei qual será o destino que tomará.
Durante o breve instante de um gole de cerveja tenho a sensação de fim-de-tudo. Vêem-me à memória as madrugadas, as nossas bebedeiras, as músicas e nossas próprias conversas. Tudo alegoria, das horas em que estivemos juntos, desse efémero pedaço de tempo em que sei que não estive sozinho. Mas podes acreditar, será com satisfação que vou guardar separadamente essa parte da qual tu és a parte especial. Porque na verdade, há um sentimento latente de continuidade nisto tudo, e de acordo com ele as nossas vidas prosseguem, como se persistissem, atrás de alguma coisa, ou atrás de nada. Mas faz-me bem saber que nossas vidas estiveram em paralelo um dia, e que é possível que voltem a estar em sintonia num outro dia qualquer.
Hoje acordei triste. A alma pesava e o corpo doía em cada centímetro dele. Estava estampado na minha cara que não seria produtivo o dia que estava ali à minha espera. Que mais logo estaria aqui a escrever-te engordado na melancolia, deixando nódoas salgadas neste papel pardo onde te escrevo.
Mas um telefonema mudou tudo.
Uma amiga, colega dos tempos em que se usava tranças e se vestia Lafiness ligou para me fazer um convite. E que convite! Ela convidava-me para mais logo irmos dançar, ouvirmos uma música e bebermos um ou outro copo.
Primeiro instinto foi dizer que não. Felizmente o som não saiu da boca pelo que não chegou ao outro lado da linha. Falámos e de tanto falar esqueci-me que tinha acordado triste. No balanço da conversa lá disse que sim.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

29 de setembro de 2005

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - XXI

Olho-te nos olhos todos os dias, mesmo não vendo os teus olhos, mesmo não podendo sentir o teu perfume aqui a meu lado.
Continuo mantendo a esperança, mesmo quando digo que não me é importante, de que a mensagem escrita em papel amarelado e enviado numa garrafa cor de âmbar com destino incerto te chegue às mãos. Sei que o zulmarinho não me iria fazer a desfeita de não cumprir esta missão. Mas mesmo assim continuo a escrever-te, sem saber o que farei a este papel pardo onde caligrafo-me.
Todas as noites do ontem, definitivamente dormidas sobre lâminas, sacudiram as minhas emoções, tiraram-me do eixo em que seguia a rotação dos meus dias. Sempre que reencontro um velho amor eu penso em ti. Penso em como conversaríamos sobre determinadas situações, sobre assuntos aparentemente tabus, sobre tanta coisa ou sobre coisa nenhuma. Sinto uma vontade enorme de dizer-te coisas que eu nunca te disse. Tenho vontade de chorar como eu nunca chorei sobre ti, deixando cair as minhas lágrimas no teu corpo. Tenho vontade de te abraçar e permanecer abraçado até que nos separem, até que nos arrancassem do carinho.
Mas tento não perder o controle, parecer seguro, inteiro, sério para que tu entendas que eu preciso, nesse momento, de optar novamente, de rebobinar e voltar a dar. Ainda que não seja possível. Ainda que me digas tudo o que gostarias de me dizer e que eu não queira ouvir. Ainda que penses que as nossas vidas estão tão afastadas e eu já não saiba de onde sou, onde és tu, onde é apenas a história contada num compêndio não escrito ainda.
Guardo tudo o que vivemos até então, do carinho protagonista aos segredos que nos surpreenderam, das noites em claro conversando, das juras trocadas.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

28 de setembro de 2005

Bebendo café e viajando

Às vezes preciso escancarar portas,
abrir as janelas
e deixar o vento entrar,
destravar os cintos da insegurança
e descolar
para olhar a terra de longe,
comer ginguba sentado na lua,
escorregar pelas pontas das estrelas,
dançar no ventre das nuvens,
sonhar em outros planetas...
e dar gargalhadas com os cometas...

Às vezes preciso ficar só...
Com um papel e uma caneta
para dar cor ao coração
e colocar mais alegria no viver
encantar a felicidade
e não me esquecer dos sonhos!.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - XX

Nesta nova mensagem eu queria lembrar-te tantas coisas minhas. Tudo o que sei ou senti desde que nasci até te ter conhecido na forma em que nasceu este amor por ti, por vezes doentio, outras vezes distante e outras aparentemente esquecido, mas fervilhando cá dentro.
Não gostaria de falar mais na opção, porque essa já faz parte do passado, vive-me tatuada na alma, e como sabes não posso rebobinar e dar de novo, porém ela está intrinsecamente ligada a mim. Na outra mensagem, com tanto de amor como de arrependimento, mostrei-me-te. Agora queria que tu descobrisses coisas que nem sonhaste, que nunca viste, que nunca soubeste. Queria que me desvendasses como a transparência deste zulmarinho que se espraia a meus pés, desfazendo-se num lençol salgado de lágrimas choradas.
Mas eu não faço ideia se recebeste a outra e já estou eu a caminhar para uma nova. Sempre fui assim, como sabes. Impulsivo obsessivo. Quero-te e não te tenho. Mas se se te tivesse estarias tu feliz comigo e eu estaria em paz comigo? Será que tu me queres também nesta minha forma de estar e ser? Como vês continuo a ser a eterna dúvida. Continuo a ter a certeza das minhas indefinições.
Se eu, depois de todo este tempo, continuo a ser o mesmo, sujeito a raios e flores, a calor e à indiferença, à vaidade e irreverência, independente na caminhada, de pé, como gostarias tu que eu fosse? Objectivo, como tantas vezes me obrigam ser? Como seria eu sem ter a capacidade de sonhar? Depois de eu ter batido com a porta, naquela opção optada no meio de incertezas certas da altura, perdi a noção do exacto e dos sentimentos. As minhas atitudes, os meus reflexos e o meu norte perderam o foco e eu, aos poucos, tornei-me num ponto de interrogação. Fiz uma opção que não posso dizer se foi a melhor. Mas eu decidi. O que aconteceu dali para frente, assumo a responsabilidade, não sou pessoa de fugir, inventar, omitir, tornou-se um pesadelo que só tu podes acordar.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

27 de setembro de 2005

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - XIX

Volto para perto do zulmarinho. Se eu disse que pouco me importava com a garrafa que atirei com um destino em que vários factores a poderiam encaminhar, mesmo para o que eu não havia pensado, estava a mentir. Estava a mentir-me. Passam-se os dias e eu nada sei dela, recebendo na volta das ondas a inquietação e ansiedade, uma vontade enorme de escrever outra mensagem em tinta permanente, num papel pardo, porque mais resistente ao tempo.
Sentado na areia, deliciando-me com o som do zulmarinho a espraiar-se quase a meus pés, salpicando-me de quando em vez com uma sua lágrima, penso retomar do início todo o processo que me foi doloroso, penoso, mas ao mesmo tempo aliviante.
Escrevo-te, sem saber qual vai ser o destino que darei a este pedaço de papel.
De tudo o que eu te disse ou te queria dizer, o que realmente é importante é que eu fiz uma opção. Fiz uma opção segundo uma ponto de vista, segundo uma maturidade que se calhar não tinha, segundo pressupostos que poderiam até nem serem reais.
Mas foi uma opção.
Mas podes ter a certeza que ainda me dói, que me incomoda, mas ao mesmo tempo não teve a força de me afastar de ti. Machuca e enlouquece. Criou um espaço vazio dentro da minha vida, continua a testar a minha força e eu só vou saber se sou capaz de continuar a enfrentar a minha decisão reagindo e reafirmando a todo o momento que foi bom ter-me afastado de ti para melhor poder compreender-te.
Será esta mais uma das minhas mentiras que me prego?
Não se trata de falta de amor, das muitas diferenças ou de olhares que não foram olhados em troca de cumplicidades.
Tratou-se de uma tentativa de compreender como a minha vida funcionaria sem ter – te por perto.
Pareço-te melodramático, poeta pimba num serão para multidões, porém escrevo-te as prosas poéticas que me vão na alma. O teu perfume, o teu calor, o teu ar, as tuas tristezas e alegrias, estão tatuadas na minha alma.
Hoje não te escrevo perfumado em vapores vínicos, escrevo-te sabendo que o que faço, somente não sei qual o destino destas letras.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

26 de setembro de 2005

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - XVIII

Hoje, mais uma vez, resolvo olhar para mim. Nem um sinal vem desde lá, do destino que lhe caiu em sorte.
A escuridão da solidão caiu sobre mim desde que resolvi atirar aquela garra para longe de mim, para dentro do zulmarinho, com a esperança, mesmo por mim negada, que ela chegue a algum destino e entregue a minha mensagem escrita em papel amarelado. Sei que ela foi bem rolhada por isso o sal desse zulmarinho não lhe desfez a alma, a essência, a existência.
Mas hoje, olhando para mim decido que queria estar com amigos, ver filmes em que eu não sou o artista principal, comer pipocas, beber cervejas geladas, rir e esquecer que parei com a vida num determinado momento. Pouco me importa se tenho ou não emprego, porque sei que estou a ficar velho e ainda não descobri se tenho uma depressão ou se é apenas o remoer da consciência de não ter tomado as medidas certas nas horas certas. Eu que um dia pensei em ser psicólogo estou aqui pregado nas minhas dúvidas e incertezas habituais. Não é possível continuar a pensar como penso.
Ainda hoje me torturo por não ter feito algumas escolhas, por ter seguido caminhos impensadamente, não ter pesado os prós e os contras. Tenho feito de tudo um pouco, mas pouco de tudo. Penso no bem estar alheio e esqueço-me do que eu gosto. Amigos? Todos ocupados. Assim como eu.
Preguiça ou inércia de sair à rua e ver a vida lá fora.
Descobri que não sou inteligente, nem burro. Só sou limitado pela dúvida. Limitado pelos excessos de sentimento, por uma cela invisível e forte como rocha. Carrego um fardo pequeno e não tenho a força que pensam que tenho ou então ele é demasiado pesado.
Já disse que não quero apaixonar-me novamente. Pois é a que tenho é uma paixão daquelas de tirar o fôlego. Intensa e devastadora, de tremer e suar. Arrepiar a pele e desencadear todas as fantasias desta vida.Sou invisível como a minha cela. Na verdade se estou dentro da minha cela ninguém me pode ver.
Acho que vou abrir uma outra garrafa de vinho. O vinho dá-me sono lá pela terceira ou quarta taça, ou far-me-á caminhar pelos sonhos da vida vivida. Pelo menos penso eu, já que não me lembro quando isso acontece. O aborrecido é que depois acordo e tudo continua na mesma. Acrescentando-se a dor de cabeça.
Quero voltar a dançar, mas a verdade é que tenho medo. Quando danço desligo do mundo, sou eu e a música. Já me disseram que flutuo quando danço. Eu sei levitar mas não vejo quando o faço pelo que não consigo dançar sobre as ondas do zulmarinho e deixa-me levar até perto da garrafa que um dia atirei ao mar e até hoje não a vi de volta, nem sei o rumo que tomou.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

25 de setembro de 2005

Porque hoje é Domingo


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Porque é Domingo Hoje, 11:57
Forum: Conversas de Café
Mermão, me vim sentar contigo e verter uma birras geladinhas goela abaixo, fazendo uma paragem na ficção que me tem entretido na leitura de escrever. Porque hoje é Domingo e um gajo não é de ferro tem de fazer uma ou outra pausa porque seguidinha só mesmo uma. Tás-me a ver, mermão, olhar o zulmarinho todos os dias e ficar na esperança de ver um bilhete qualquer a esvoaçar assim por cima dela como se uma gaivota fosse? Um gajo precisa mesmo de pausar, pôr os carretos no lugar, receber os raios de sol que me partem na voracidade de ser mais escuro qe o branco da luz artificial.Porque hoje é Domingo, bebo umas e outras curtindo os salpicos do zulmarinho que parece quer invadir o nosso poiso.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

24 de setembro de 2005

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - XVII

Enquanto revejo os filmes que vivi ou sonhei, um sentimento de incapacidade me acompanha, diante dos factos desta vida. E por mais que eu tente, não consigo ver uma luz no fim do túnel, uma garrafa reluzente gritando que está ali. Ouço as ondas do zulmarinho, conto as muitas birras geladas que verti, conto as vezes que olhei para lá da linha recta que é curva na tentativa de chegar bem mais longe.
Com a chegada do Outono não me apetece sentar na mesa da Esplanada, ouvir os mesmos lamentos das mesmas pessoas que não conseguem levantar voo. Ouço os meus porque os considero uma doença incurável. Frutos de amores proibidos, cicatrizam-me a alma em pequenos fragmentos fibróticos de raivas contidas.
A culpa deve ser destes óculos rectangulares nesta minha cara de palerma... Durante anos de pensamentos irregulares a minha luta é para que eu me leve menos a sério. Fracassei. Não me consigo libertar desta Sagrada Esperança de caminhar sobre pensamentos e ideias minhas, não consigo navegar por mares escolhidos por mim sem ter um sentimento de culpa sempre por trás.
Noites de cacimbo, frias, que gelaram-me até aos ossos, chuvas tropicais que me molharam até à alma. Mosquitos zunindo toda a noite em voos rasantes à espreita de um pouco de mim a descoberto. Sempre por tua causa, sempre por causa do teu perfume.
E agora que te mandei uma mensagem escrita em papel amarelado dentro de uma garrafa de cor de âmbar, aqui estou a tentar curar-me do arrependimento arrependido de tê-lo feito, numa mistura de alegria sem par.
Aqui estou eu a pensar, ao mesmo tempo que sou espectador do filme em que me projecto, as venturas e desventuras de um louco. É como louco, apenas como louco, que desejo ser conhecido por mim. Fracassei.
Nem o raio de uma garrafa cumpre o seu objectivo. Talvez a culpa não seja dela, talvez.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

23 de setembro de 2005

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - XVI

Eu sei que a vida não foi feita para ser fácil, isso é facto. O motivo de estar aqui, vivendo a minha vida, chorando sobre o leite derramado, lastimando ter perdido o vinho que não bebi, não ter dado os abraços que não dei, ter deixado para trás sonhos que podiam ter sido realidade e por causa de fantasmas pintados a carvão na minha alma foram simplesmente abandonados ou apagados, está num nível bem mais elevado do que eu possa imaginar. A nossa passagem por esta vida serve para, entre outras coisas, que se aprenda algo de valor. Quando nos damos conta disso, começamos a reflectir sobre um sentido maior que existe por trás de tudo que está ao alcance dos olhos, paramos para observar e tentar entender a razão de cada pequeno elemento que encontramos à nossa frente. E muitas vezes fracassamos, porque isso escapa ao nosso entendimento. Mas não temos que entender, a ideia não é essa. Estamos aqui para viver e pronto. Por isso muitas vezes me ponho a pensar se tudo o que acontece, ou deixa de acontecer, na minha vida tem um propósito. Será que eu realmente tenho que passar por situações que me deixam infeliz por vários momentos? Será que tudo poderia ser diferente se as atitudes, a minha e a de outros, fossem diferentes? Ou tudo está programado para ser assim e eu não tenho o poder para mudar?
Será que vou ter de deixar de dar as minhas corridinhas na espuma do zulmarinho, de estar sempre a olhar para um bombordo qualquer na vã esperança de encontrar a resposta que anseio e que digo que pouco me importa? Pois sempre que acabo de correr, de olhar para a Esplanada vazia, me dá para ver os filmes da vida, umas vezes a cores, outras a preto e branco, umas vezes com som sofisticado, outras mudo.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

22 de setembro de 2005

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - XV

"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Usando as garrafas...fazendo novo o Zulmarinho - XV Hoje, 19:38
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Silêncio...No vazio do quarto, ensurdecido pelo som melancólico de uma banda qualquer de adolescentes, afundo-me no silêncio do meu interior, procuro-me.
Passam-se os dias à velocidade vertiginosa de 24 horas por dia e eu continuo sem novidades de uma simples garrafa que leva dentro dela parte de mim. Não tenho a menor ideia onde ela andará, em que mares navegará. Se ela se tivesse partido ou afundado eu teria conhecimento, pois as desgraças sei-as sempre.
Reflicto no que se tem tornado esta vida. Divagando e confuso fecho os olhos para melhor ver os pensamentos. O tempo arrasta-se e confunde-se com o vacilante pulsar do coração, cansado ou apenas exausto de passar uma vida a bombear sangue pelas minhas entranhas, alimentando um corpo que trás dentro de si arrependimento, ódio autofágico das incertezas, das decisões não tomadas nas horas certas, sempre desejando que o segundo a seguir passe, esquecendo que existe o segundo presente.
Os sons da cidade me despertam do torpor e caio em mim, sem ruído ou sobressalto. Parece-me ouvir o som do zulmarinho no seu vai e vem constante e ritmado das 7 ondas. Será essa uma das ondas que me trás o que eu digo que não me interessa?
Essa música que ouço seria interpretada de forma diferente se tivesse sido tocada noutros tempos? Seria ela subestimada com toda certeza, mas hoje ela faz sentido, todo o sentido do mundo. Toda uma época que é feita de mudança. Mudam-se os corpos, mudam-se os pensamentos, mudam-se as correntes e as modas. Mudam-se, que eu não me consigo mudar. Mil tentativas feitas e nem uma resultou. Volto sempre ao interior de mim e igual ao anterior.
Neste escuro da vida, qualquer fresta de luz faz-me lembrar o teu sorriso, lindo na sua frieza, apaixonante na sua malícia, inebriante na sua maldade. Pudesse eu definir-te!
És tudo o que eu queria e ao mesmo tempo és quem mais me faz mal.
O que posso eu fazer para me livrar deste tumor no cérebro que nenhum exame é capaz de detectar, que não ocupa espaço, sem afectar nenhuma função importante para que eu possa viver em paz? O teu ar, o teu perfume, tudo de ti está sempre dentro de mim.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

21 de setembro de 2005

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - XIV

"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Usando as garrafas...fazendo novo o Zulmarinho - XIV Hoje, 18:52
Forum: Conversas de Café

Mais uma corridinha na areia molhada pelo zulmarinho e nada. Não tenho novidades. Se eu tivesse posto uma WebCam, ligada a um satélite qualquer eu saberia onde ela estava neste momento. Mas… pouco importa. Ela deve estar a seguir o seu rumo, sem atropelos, sem interferências. Deve ser esta a vida de uma garrafa em alto mar.
De regresso a casa, ao meu cantinho, ao único lugar do mundo onde tenho a solidão por companheira e conselheira, onde posso rever todos os filmes que vivi, gargalhar ou chorar, sem reprovações ou aplausos, continuo a rever o filme da minha paixão. De quando a vi, de quando lhe senti.
Pior do que magoar o coração de alguém é magoar o nosso próprio coração. Eu queria ter-me apaixonado pelas coisas certas. No meu conceito, coisas certas são aquelas coisas com vida que nós amamos e que estão dispostas a amar-nos ou, pelo menos, a não ignorar-nos. São aquelas coisas que desejamos com ardor, que queremos agarrar e jamais largar, aquelas coisas pelas quais às vezes sentimos uma febre inexplicável, arrepios de frio em dia de calor e pelas quais fazemos coisas que jamais pensaríamos ser capazes de fazer.
Mas eu, se tiver que escolher, num universo de umas cem coisas, 99 das quais eu sei que são coisas certas, eu opto sempre pela única coisa errada do cardápio. É sistemático, infalível e indomável.
Paixão, diga-se de passagem, é impassível de controlo. Eu não consigo simplesmente entregar-me a um relacionamento se não me deu aquele frio característico na barriga, se não senti aquele pulsar, se... não me entregar de corpo e alma. Se eu fizesse isso, jamais chamaria de relacionamento. Entendo isso, no máximo, como uma boa maneira de fazer o tempo passar. Não quero parecer frio e menos ainda pretensioso, mas a verdade é que eu já amei muito e não aceito qualquer coisa para disparar o meu coração. Nunca aceitaria outra coisa no meu coração para ocupar o lugar dela, somente para o ter preenchido. Tudo culpa da vida, que me fez assim.
Porque ontem fiquei arrasado por ter visto uma criança a chorar e não ter podido fazer nada? Ela apenas queria o colo da mãe, o carinho da mãe, sentir o perfume da mãe.
Eu ainda estou tatuado por dentro.
Porque afinal eu pareço ser um perfeccionista, quando para escolher uma simples garrafa para levar uma mensagem até ao início do zulmarinho, esperança minha, tive que a escolher pelo método da comparação?
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

20 de setembro de 2005

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - XIII

"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Usando as garrafas...fazendo novo o Zulmarinho XIII Hoje, 18:48
Forum: Conversas de Café

Projecto na parede do pensamento os filmes que penso ter vivido.
Eu não cheguei a fazer a tatuagem que me tinha proposto fazer, tal como muitos outros fizeram nos anos mais idos. Muitos deles quiseram marcar no corpo uma vivência, uma passagem que não foi indelével. Eu cheguei a escolher o desenho e o lugar, mas não fiz, porque eu não gosto de coisas definitivas. Um símbolo e um ano. O símbolo era ela, bem definida e identificável, o ano era o ano que lhe conheci, que lhe tive. Bem visíveis no braço direito. Definitivamente ficavas-me ligada à carne, coisa que eu não gostaria que tivesse acontecido. Mas a verdade é que tudo está a ficar definitivo para mim e isso começa a preocupar-me em demasia. Concluo que afinal acabei tatuado por dentro, o que é definitivamente mais definitivo, é a mais dor dorida porquanto não há remédios à venda contra esse mal. A outra, com uma cirurgia lá me conseguiria ver livre dela, ficando uma cicatriz que, com o passar dos tempos, haveria a possibilidade de nem me lembrar do que era aquilo. Mas por dentro…? Agora não sei o que devo fazer mais. É melhor dar tempo ao tempo, esperar que garrafa cor de âmbar chegue a um seu destino, sem pressas, sem atropelos, siga apenas à velocidade da sua sorte.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

19 de setembro de 2005


a Lua de Luanda Ontem Posted by Picasafoto by Di

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - XII

"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Usando as garrafas...fazendo novo o Zulmarinho XII Hoje, 19:48
Forum: Conversas de Café

Eu gostava mesmo era de saber onde pára a garrafa neste instante.
Passaram-se uns dias e não há notícias dela. Terá ela já ultrapassado a linha do Equador? Terá ela conseguido suportar o calor?
Em boa verdade digo que todos os dias vou fazer a minha corridinha na areia molhada beijada pelas ondas do zulmarinho, sempre com os olhos postos na imensidão azul na esperança de ver, ou devolvido ou uma nova, com a resposta do outro lado da linha. Todos os dias têm sido corridas em vão. E todos os dias digo que isso não me interessa, penso que eu não conto com uma resposta.
Olho para a Esplanada, janelas fechadas, algum ruído, pouca gente, sinais de que o Verão acabou. Só gente sentada a ler o periódico ou o último romance saído numa livraria perto dali. Ninguém sabe que passei horas escrevendo uma mensagem em papel amarelado e que a atirei numa garrafa para o âmago desse zulmarinho. Porque agora são novas gentes. Agora são pessoas que fugiram da mistura de povos que para aqui vêem em busca da tosta corporal, do bronzeado que mais não é que o betume de camuflagem do passar dos tempos, carregando baterias para mais uns meses de rotinas e correrias para lado nenhum.
Depois venho para casa, onde solitariamente revejo todos os segundos da vida vivida, sempre na esperança de ter um sinal.
Os CDs estão intocáveis. Quero o silêncio absoluto, quero ouvir-me pensar.
Como estará ela, passado todo este tempo? Será que ela guarda alguma memória, alguma recordação, mesmo que seja vaga?
Os meus cabelos vão lentamente branqueando, as pregas da cara vão-se acentuando, os olhos já não brilham como brilharam. E ela? O perfume dela ainda será o mesmo?
Projecto na parede do pensamento os filmes que penso ter vivido.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

17 de setembro de 2005


Outra rosa, outro perfume Posted by Picasa

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - XI

Eu lamento muito. Já estou arrependido de não ter posto um chip para saber onde ela está agora. Se ao menos ela soubesse os pontos cardinais… será que ela tem sentido de orientação no enorme vazio de zulmarinho onde presumivelmente se encontra? Não é que conte ter algum retorno. Mas às vezes…
Já estou com saudades da angústia, sacrifício e ritualidade com que pus de mim naquela mensagem. Já estou com saudades de mim, da minha transparência, de desnudar o meu ego.
Eu juro que tentei escrever, pelo prazer de escrever. Queria escrever coisas que não fossem exactamente sobre a minha própria história de amor naufragado, mas ao fim de contas, o que eu queria escrever com sinceridade disfarçada de humor ácido, saiu uma mensagem melancólica, um arrependimento de amor. Olho para o espelho e vejo que só tenho andado em círculos. Embora eu beije outra boca neste exacto momento da minha vida, não me consigo livrar do passado. Tenho que admitir sou o primeiro a dizer que eu sou piegas, nostálgico e coisas que tal, depois dizer que não me estou a esforçar para me livrar dos sonhos que já foram sonhados. Tudo verdade.
Eu gostava mesmo era de saber onde pára a garrafa neste instante.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

16 de setembro de 2005

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - X

Neste exacto instante aquela garrafa está por aí, nas águas profundas do zulmarinho, esse Oceano que me separa de ti, que é a nossa fronteira. Ou não. Talvez venha a alcançar o seu destino seguindo a rota perfeita, contrariando correntes, ventos e marés, mantendo a minha vontade de chegar ao seu ponto final. Ou talvez tenha sucumbido a alguma tempestade, tenha sido cuspida de volta pelo próprio zulmarinho num ponto mais ou menos escondido deste final dele. Ou poderá ter chocado com o casco de algum navio e se tenha partido em mil cacos. Ou talvez se tenha perdido nalgum mar de ilusões e se tenha apaixonado por uma sereia.
Porque o amor é essencialmente uma ilusão. Quem vai saber?
Agora, livre do fardo de escrever uma mensagem de arrependimento, enterrados os mortos e exorcizados os fantasmas, é hora de encarar a vida.
Retorno a casa, fecho as janelas e encerro-me rodeado de escuridão prometendo não entrar nesse zulmarinho até ter algum sinal do fim da linha.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

15 de setembro de 2005

Usando as Garrafas...fazendo um novo Zulmarinho IX

Passos firmes, seguros, mostrando uma serenidade que há muito não mostrava, mesmo um certo ar de felicidade, levam-me até à areia beijada pelas ondas do zulmarinho. Corpo desnudado, aproveito para refrescar-me com as lágrimas que ele teima em deitar para o ar e que o vento faz com que cheguem a mim.
Numa mão a garrafa escolhida com a mensagem escrita no papel amarelado, hermeticamente fechada, noutra a taça de vinho, previamente cheia. Um discurso dito em silêncio, um erguer da taça aos céus como que a desejar boas correntes e bons ventos, o levar desta à boca e beber tudo de uma forma entendida e, numa sequência sem intervalos, atirar a garrafa, com toda a força que tinha, para a alma, para o mais próximo possível da linha do horizonte, que parece delimitar este mar que vai fazer a fineza de a levar até a um destino.
Já de costas para o zulmarinho, terminado todo o ritual, penso se algum dia receberei uma mensagem em resposta ao meu arrependimento.
Não é que conte com isso. Não espero por isso, com ansiedade doentia. Mas porque então fui à beira mar, sentei-me na areia e esperei que a maré baixasse e atirei com toda a força a garrafa âmbar em direcção ao alto mar? A resposta é simples: porque ninguém em sã consciência ousa duvidar do poder do acaso. Volto para a minha cadeira junto à mesa de madeira queimada pelo Sol, o CD continua a repetir-se. Enumeráveis as vezes que ele rodou, atirando-me para uma forma solitária de estar acompanhado. Desligo-o. À minha frente duas garrafas vazias e uma com um pouco de vinho, desrolhada, que verto para dentro de mim sem a intermediária taça. Papeis desarrumados, muitos deles amarfanhados como que a mostrar alguma raiva, algum descontrolo momentâneo, algum vazio neuronal.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

14 de setembro de 2005

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - VIII

Bebo o que resta na minha taça, enquanto de olhar erudito escolho a garrafa que vai levar a minha mensagem até ao destino que ela à sorte escolherá.
Dou-me conta de que a garrafa escolhida não tem rolha. Porque raio gosto mais desta garrafa que das outras? Que tem ela a mais que as outras não têm? A sua cor deve proteger melhor as folhas de papel de cor amarelada da acção noviça dos raios de Sol. Tiro com os dentes a que veio com a garrafa de vinho. Aproveito para encher a minha taça e observo com todos os cuidados e mais alguns se tem imperfeições. Parece-me larga demais. Pensando bem, ao fim de contas é melhor, pois evitará, de uma maneira mais eficaz, que a água deste zulmarinho destrua o conteúdo que foi custoso de criar.
Enrolo o papel onde há, para além do texto, um endereço de e-mail, sem necessidade de o dobrar e vincar. Faço-o como um ritual, com um ar solene, pelo que julgo transparecer-me na cara um misto de tristeza e alegria, de sonho e de estar bem acordado.
Nenhum nome, nenhum dado pessoal, nada que indique ou insinue a identificação do remetente, nem mesmo o país de origem. Não consta a data porque esta mensagem é intemporal. Nada liga a mensagem a esta Esplanada à beira do fim do zulmarinho onde há uma escada que desce até o nível da areia e revela uma praia um pouco afastada da cidade.
Bebo mais um pouco. Fico a admirar esta divina obra de arte.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

13 de setembro de 2005

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - VII


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Usando as garrafas...VII Hoje, 19:13
Forum: Conversas de Café
Bebo mais uma taça de vinho, olho o zulmarinho como a querer surfar nas suas ondas, num querer arrumar do turbilhão de ideias, para poder continuar.
Penso que a tua vida não parou, que tiveste momentos altos e baixos, que tiveste lágrimas correndo-te pela cara, gargalhadas em festas aparentemente intermináveis, o sangue sempre te correu pelo corpo, uma vezes devorando-te, minando-te a capacidade de pensar, outras vezes enchendo-te de vida e fulgor. Viveste nunca pensando na minha existência.
Esta não é uma mensagem de amor, acredita!
É uma confissão de arrependimento!
Levaste-me ao paraíso e ao mesmo tempo ao mais profundo abismo do inferno, mas mesmo assim eu ainda sonho e desejo-te. Ardentemente! Agora, mais do que nunca.
A estória da mensagem, da garrafa atirada ao zulmarinho e a hipótese remota dela chegar a ti nada mais é do que uma lenda. As lendas são lindas, mas não passam disso mesmo, de lendas.
Tenho que escolher a garrafa onde colocarei esta mensagem escrita em papel amarelado, escrita numa caligrafia que não é a desenhada de outros tempos nem usando gatafunhos que presumivelmente se pareceriam com letras, palavras ou frases. Está simplesmente legível, nos tons claros e escuros da tinta permanente. Não há borrões nem salpicos. Antes de enrolar as folhas vou mesmo ter de escolher a garrafa. Esta escolha vai determinar a forma de colocar a mensagem, sendo, portanto, uma decisão importante.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

12 de setembro de 2005

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - VI

Este vinho sabe-me mesmo bem. É de facto bom. Caro mas presumivelmente bom.
Pela janela exageradamente aberta entra a brisa que vem do zulmarinho trazendo os sons impuros que desligo quando deles me apercebo, ficando-me pela solitária solidão de ter uma missão entre mãos: escrever-te a mensagem que irá ao sabor das ondas, das correntes e do vento na minha vontade de chegar onde eu gostaria que chegasse. Ao sabor da sorte para um destino, que embora desejado não será de todo possível controlar.
A caneta não falha. Eu posso ter dúvidas na escolha das palavras, nas frases que te quero dirigir, mas tudo o resto tem de estar na perfeição, não só porque mereces mas também porque muita coisa está aqui em jogo. Quero que entre nós permaneça a transparência, a claridade de sermos nós. Quero que saibas da pureza dos meus sentimentos, das formas dos meus fantasmas, das cores dos meus pesadelos e, fundamental, quem eu te sou.
Ainda me resta um pouco de juventude, que me impulsiona a levantar a cabeça e andar em frente, que me faz querer-te mais do que nunca, devorar-te compensando todo o tempo perdido. No mais, tudo se foi e apenas ficou a pergunta se a felicidade realmente existe. O que eu sei é que não vou passar o resto dos meus dias amaldiçoando o momento em que olhei os teus olhos pela última vez e cometi a loucura de me guiar pelo instinto, pela incapacidade de ser racional, por ter optado pela opção do mais fácil em detrimento do que devia ter sido uma decisão realmente calculada, amadurecida. Foi um fazer contas de cabeça sem usar a prova dos nove, sem cantar pelos dedos. Foi um impulso selvagem da irreverência da idade. Momento irreflectido que me está a ser muito caro.
O Zulmarinho hoje está assim como que revoltado, salpicando as suas lágrimas para a minha cara, empurrando a sua aragem contra o meu rosto fazendo-o arrepiar. Meio copo de vinho e logo aqueço.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

11 de setembro de 2005


Um perfume de rosa Posted by Picasa

10 de setembro de 2005

Usando as Garrafas...fazendo um novo Zulmarinho V


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Usando as garrafas...V Hoje, 20:11
Forum: Conversas de Café
Hoje, quase uma vida inteira depois, sentado nesta Esplanada, olhando o zulmarinho que cada dia que passa vai ficando mais arrepiado do frio que lhe entra pelas ondas, parecendo mesmo aquilo que é costume chamar de mar picado. Em cada novo dia deixa transparecer nas suas ondas um início de revolta, uma raiva contida que se liberta nos salpicos, que mais não são que as suas lágrimas. Bebo mais um pouco deste vinho presumivelmente bom. Vejo que as pilhas do leitor de CD estão a dar as sua últimas descargas de corrente. Quantas vezes já ouvi o CD Missangas? 2? 3? Que importa se este foi o que escolhi para criar o ambiente propício para que a mensagem seja escrita no mais puro dos sentimentos, nas mais claras ideias e na mais solitária solidão. Peço a alguém para me arranjar uma novas. Não posso ser perturbado. Não o quero ser! Tenho de estar eu e o meu pensamento. Tenho que ter todas as linhas do pensamento bem alinhavadas, só quero estar a pensar em ti, quero ter-te comigo, saborear cada aragem do teu perfume, cada gota do teu suor. Quer sentir-te para melhor pensar a mensagem que te escrevo e que colocarei numa das garrafas que tenho à minha frente e que ainda não escolhi, não sabendo se tu ou outro alguém a lerá.
Tudo aquilo que eu tinha pensado como mais importante do que a minha própria felicidade desabou. De forma paulatina se criaram encruzilhadas, labirintos, linhas rectas e tracejadas, formas geométricas aleatórias que ousei chamar de vida. Pouco mais resta que ruínas da vida que escolhi, pedaços dispersos de um enigma indecifrável, frases soltas que se interligam de forma não textualizada. Eu que abri mão de ti em nome de tanta coisa, estou aqui sentado sozinho, como sozinho estarei doravante, pensando no que perdi, no que ganhei, enfim, fazendo um balanço da minha vida para tentar me reerguer e concluir que ela não passou de um enorme empreendimento mal sucedido.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

9 de setembro de 2005

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - IV

Bebo uma taça de vinho. Degusto-a. Paro para olhar o zulmarinho que se vai escurecendo, notando-lhe gelado. Conheço-o tão bem que me basta o olhar para saber como ele está. Não me consegue esconder a alma.
Volto-me para o papel de cor amarelada, caneta de tinta permanente bailando na mão. À minha frente continuam as três garrafas a serem escolhidas mais uma meia cheia de vinho tinto caro e por isso presumivelmente bom.
Nada daquilo que me tem motivado a ficar me deu alegria, assim como não sei se a teria encontrado a teu lado. Eu preciso escrever. Eu preciso de me ver livre do peso da infelicidade, apesar de ter tido dois caminhos a seguir que me poderiam conduzir, isoladamente, à felicidade ou à paz. Ter-te conhecido, ter-te vivido, ter-te tido, mudou a linha do destino. Fez com que uma vida que poderia ter sido simples e pacata, que tinha tudo para ser coroada pelo êxito que gente normal como eu normalmente alcança, se transformasse num grande fracasso, numa nascente de ansiedade, numa torrente de desejo. Simplesmente porque desde aquele dia eu senti muitas vezes a infelicidade. A incapacidade de gerir sentimentos que me contrariam, que acendem ou pagam os fogos dentro de mim, que criam labirintos que são medonhos ou belos, que ma fazem sorrir ou chorar numa incerteza certa e repetitiva de discernir fria e correctamente, fez com que nunca mais fosse feliz e esquecesse o teu brilho, o teu perfume, o teu ar, o teu jeito de amar em pecado que me conduziram ao mesmo tempo ao paraíso. És a personificação da serpente no meu caminho. Já fiz milhares de projecções a nosso respeito, a vida que nós dois poderíamos levar estando juntos e agora vivo desertificado por essas conjecturas sonhadas, por linhas paralelas do querer e dever. Bebo mais um pouco do vinho da solenidade. Reparo nos muitos escritos feitos por pares enamorados no tampo da mesa de madeira queimada pelo sol. Olho para o escuro zulmarinho. Paro para absorver cada linha do que penso.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - III


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Usando as garrafas...fazendo novo o Zulmarinho - III Hoje, 00:20
Forum: Conversas de Café
Bebendo mais meia taça de vinho, pego na caneta de tinta permanente, que essa o tempo não pode apagar, pois senão permanente não seria a tinta. Neste instante lembro-me que existe nos tempos modernos uma coisa mais usual, o e-mail. Mas se eu enviasse o e-mail teria que pôr o destinatário, deixaria de ser a sorte, os ventos ou as marés a ditarem o rumo. Serias tu, só tu a receber. Não. É mesmo melhor continuar com a ideia inicial e manter a esperança que ela chegue lá, ao início do zulmarinho, podendo atracar num porto qualquer, ou quiçá, dobrar o cabo e ir para outros mares, outros destinos.
Mas com toda esta incerteza continuo a ter-te em mente. Esta mensagem, escrita em caligrafia desenhada ou imprensa em novas tecnologias, mas enviada aproveitando a força da minha alma, a minha barreira, o zulmarinho, pode ter um destinatário ao acaso. Mas é para ti, que só eu sei quem é e a falta que me faz. Nossos destinos estão peremptoriamente separados, numa dicotomia aparentemente impossível de reverter. Ao mesmo tempo em que aceito a distância que nos é imposta concedo-me o direito de sonhar com um amor possível.
Eu queria ficar contigo, viver-te.
Mas entende, se ainda não o fiz é por absoluta incapacidade. Eu simplesmente não posso deixar tudo e ir ter contigo numa daquelas aventuras de sonhador. Sei que sou utópico, que sou livre-pensador, mas tenho ambos pés na terra, criando em mim a contradição da minha existência. Há pessoas que dependem de mim, da minha presença física, do meu suporte. Aqui estou porque sempre tive o defeito incorrigível de ser responsável e de me sentir responsável pela felicidade alheia. Fico por medo de decepcionar, não a mim que me conheço como conheço a palma das minhas mãos, como conheço as rugas da tua geografia corporal, como conheço o perfume que transpiras. Fico porque não seria feliz contigo e com o sentimento de culpa ferindo-me os ombros, as costas e a alma. Só que eu não sabia que naquele dia e naquela hora eu havia abdicado de toda e qualquer possibilidade de ser feliz.
Bebo mais mais taça de vinho, olho o zulmarinho e estou aqui e estou ali, no lado de lá da linha recta que afinal é curva.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

8 de setembro de 2005


Neste irei de Luanda ao Namibe Posted by Picasa

7 de setembro de 2005

Usando as garrafas...fazendo novo Zulmarinho - II


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Usando as garrafas...fazendo novo o Zulmarinho - II Hoje, 19:51
Forum: Conversas de Café
Decidido, pego num maço de papel, de aparência envelhecida e de cor levemente amarelada. Por momentos não faço contas ao tempo que demoraria a chegar ao destino. Ao destino sorteado na lotaria de ventos e marés. Mas seria romântico se fosse escrito à mão, com uma letra impecável, com a caligrafia desenhada do tempo dos meus avós, contudo, será com demasiado esforço que conseguiria. Ainda pensei bem em imprimir a mensagem, o que não tiraria dela a essência, mas apenas o charme. Mais uma decisão para a última hora. Preparo o cenário perfeito para a execução do acto solene. Abro uma garrafa de vinho tinto. Escolhido pelo preço e não pela qualidade. Afinal não tenho nenhum conhecimento sobre o assunto e concluo que se é caro é bom. Sei que posso errar, mas... Torço para que seja realmente bom.
Sobre a mesa de madeira queimada pelo sol que tantas vezes passa quente por esta Esplanada disponho à minha frente as três garrafas pré-escolhidas, ao que lhes junto a quarta, a do vinho acabado de pedir. Mais próximo de mim, a taça, meia cheia ou ainda meia vazia. Ponho a tocar um CD do João Afonso, Missangas. Da primeira à última faixa, ininterruptamente, e com a função de repetir indefinidamente, tantas quantas fossem necessárias. Um ritual disfarçável, uma tentativa de estar fisicamente longe sabendo que a mente estava já lá, no destino preconcebido porem não sei se atingível.
Abro totalmente a janela grande que me separa do zulmarinho e da sua praia, de modo a ficar com uma visão panorâmica desse salgado que é ao mesmo tempo a minha alma e a minha barreira. Sinto o cheiro característico, a brisa e o vento já quase frio do final da tarde. Ouço ao longe vozes falando alto e cantando. Abstraiu-me de todos os sons, abstraiu-me de todas as influências externas.
Bebo duas taças de vinho como se água fosse, apenas para sentir o clima apoderar-se do lugar. Agora é apenas a mesa, a cadeira, as garrafas, o vinho, o maço de papel, as músicas, a janela imensa, o zulmarinho, eu e o sentimento que já transborda. Ponho-me a escrever.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

6 de setembro de 2005


Neste carro irei do 4 de Fevereiro ao Cacuaco Posted by Picasa

Usando as garrafas das birras antigas

Olho o zulmarinho. Ele está ali. Sereno, alucinadamente ouço-o como que a chamar-me numa voz doce que nem na mais serena das recordações encontro igual. Voz inimitável. Irresistivelmente enamorada. É mesmo a doce voz do amor.
Sento-me na esplanada, boa parte da manhã dediquei-me à escolha da garrafa perfeita para enviar as minhas mensagens. As mensagens que quero que a corrente do meu contentamento, emaranhadamente no zulmarinho, mas leve até ao início dele. Não quero uma garrafa qualquer, transparente e impessoal. Tenho especial preferência pelas garrafas verdes e também pelas de cor de âmbar. Revirei armários, estantes e caixotes e fico espantado com o facto de que os fabricantes têm substituído as embalagens de vidro por embalagens de plástico. Onde fica o encanto desta vida em que a beleza perde o seu lugar para a coisa prática? Esvaziei algumas garrafas que estavam pela metade, coloquei umas três ou quatro lado a lado, a fim de que pudesse escolher pelo critério da comparação. Sem qualquer explicação aceitável para esta atitude que mostra um misto de infantilidade e de esperança infundada. Quiçá um desejo recôndito.
Talvez as birras bebidas em outras esplanadas, noutros tempos, noutras dimensões. Mas acho que não bebi tanto assim, que tenha passado a ser um alucinado perfeccionista.
Mas escrever a mensagem. Que mensagem devo eu escrever. Quem lerá aquilo que eu escrever? É para ser lida por alguém, afinal? Há alguém especial que eu queira que leia a mensagem que irá pelo zulmarinho, na garrafa que perfeitamente escolhi usando a comparação?
Há que considerar, ainda, os efeitos das marés, da lua, dos ventos e do destino. Talvez ela chegue ao Brasil, pare por Cabo Verde, fique em S. Tomé e nunca chegue ao início do zulmarinho. Na verdade tal facto não me importa realmente. O que me importa mesmo é que eu tente que ela chegue lá, no lá que é o início da vida, o principio da minha existência, no lá que é o meu sonho. Eu preciso de me livrar da frustração, da dor, da decepção, do arrependimento e mesmo até do amor que persistentemente pulsa dentro de mim.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

5 de setembro de 2005

Aqui começou o Outono


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Começou o Outono no fim do Zulmarinho. Hoje, 20:42
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Mermão, que parece mesmo que Outono aqui chegou.
Foi um mês, mermão, em que fiquei, te vou dizer, com todos os músculos em plena forma. Desde os da mastigação até mesmo outros que eu não sabia que tinha, só lhes conheci porque doiam de os fazer trabalhar.
Mas num é necessário mesmo fazer essa cara, mermão, que eu já te explico.
Durante um mês, avilo, eu fiz ginástica sem sentir que estava a fazer essa coisa que parece que dá trabalho. Ele era coridas, jogos de bola, mergulhos nas ondas deste final de Zulmarinho, trabalho mesmo na forma de trabalhar, voltar e fazer mais essas coisas todas com gosto.
Mas hoje, mermão, a casa voltou a ficar assim como que vazia. Silêncio só cortado pelo matraquer de teclas. As vozes e gargalhadas de gente feliz é agora já saudade.
O corpo esbelto, carregado de pujança e viralidade vai voltar a ficar flácido, paulatina e devargamente, matacu quadrado de cadeira de personal computer, voz afinada de silêncios repetitivos.
Hoje aqui se iniciou ou Outono. Mas como eu vivo de Verão, mermão, só sei que lá, do outro lado, onde começa o Zulmarinho, vai começar o Verão.Assim, mermão, vou escolher uma garrafa, ou várias, para pôr as minhas mensagens e esperar que elas cheguem lá, levadas pelas correntes do meu contentamento.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

4 de setembro de 2005

Loucamente no Zulmarinho


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Loucamente Zulmarinho Hoje, 02:04
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Me sento na esplanada, ouço o marulhar desse zulmarinho a se espreguiçar na areia. Na verdade, mermão, ele a esta hora parece um pretomarinho pois só lhe vejo mesmo os reflexos das luzes que vistos daqui parecem almas se reflectindo nele e se estendem como a querer se dirigir a mim e me abraçar. Naquilo que lhe consigo descobrir ele me parece querer dizer segredos, mesmo dos que vêm de lá da linha recta que é curva, mesmo do início dele.
Hoje te falo em surdina para não atrapalhar a calma desse zulmarinho, que sinto sem lhe ver, que aproveita a noite para descansar e reflectir de coisas que lhe passam na alma e ele me segreda depois como que a querer dar-me luzes.
Tudo que um dia era, hoje já não é mais. Tudo está perdido, tudo está acabado, tudo pertence a um passado já consumado que não pode ser reescrito e cujos prazeres não podem ser resgatados, todas as estórias foram já te escritas, te foram já contadas, mas continuas a querer saber de como vou conseguir te ocupar os ouvidos e a tua atenção, sem parecer que sou uma mente louca.
Tu sabes, mermão, que por muito tempo fui obcecado por conseguir um plano inicial que me tirasse deste fundo de abismo: meu plano perfeito para a felicidade plena tinha sumido no fogo das promessas mas eu não conseguia aceitar desfazer-me dele... e tentei até a loucura, mas desisti antes do fim da minha vida e sinto que ainda tenho tempo para um recomeço...Mesmo vendo que há cambas que têm medo de começos.
Porque quando tudo dá errado e sinto que nada vai melhorar, tento me apoiar no que resta dele e tento traçar um plano B para ser feliz... Mas nessas horas, mermão, em que elimino da minha alma todos os resíduos daquilo que se perdeu, me resta muito pouco para me apoiar e aparecem os amigos próximos com o suficiente para me ajudar. Sabes, mermão, que detesto a metade deles, mas mantenho-lhes o telefone na agenda porque sei que um dia qualquer precisarei deles, porque é consciente de que sou um inútil que não consegue fazer nada sozinho.
Assim num repente, mermão, dá-me uma luz e verifico que não preciso de amigo nenhum.
Se paro para pensar verifico que estou assim mesmo por causas de pessoas. O que vale mesmo, mermão, é cortar o mal pela raiz e me livro das pessoas, porque as pessoas são o mal do mundo e da minha desgraça particular.
Depois, mermão, a luz fica mais brilhante, vês melhor, pensas melhor e mais longe e verificas que a desgraça não é tua, é deles, dos outros mesmo.
É nesta altura, mermão, que costumo bater com a cabeça na mesa de cabeceira e acordo.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

2 de setembro de 2005

Um outro Amor no Zulmarinho


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Amor no Zulmarinho Hoje, 23:56
Forum: Conversas de Café
Vamos botar umas e outras pela goela abaixo e falar de coisas que só a nossa vontade apetece ter de falar. Coisas que só mesmo a gente gosta de falar e ouvir. Pouco importa se alguém ali ao lado ouve ou coisa que valha. Mermão, sabes que contigo só falo mesmo o que me apetece e quando tal acontece. Hoje te vou falar de amor e do não amor:
O amor não é o que te faz sair do chão e te transporta para sítios que nunca sonhaste. O nome disso é avião. O amor é outra coisa.
O amor não é uma coisa que se esconde dentro de ti e não se mostra para ninguém. Isso se chama egoísmo. O amor é outra coisa.
O amor não é uma coisa que te faz ficar sem respiração e sem fala. O nome disso é mesmo bronquite asmática. O amor é outra coisa.
O amor não é uma coisa que chega de repente e te transforma em refém. Isso se chama terrorista. O amor é outra coisa.
O amor não é uma coisa que voa alto e deixa marca por onde passa. Isso se chama pombo com diarreia. O amor é outra coisa.
O amor não é uma coisa que tu podes prender ou jogar fora quando bem entenderes. Isso se chama lixo. O amor é outra coisa.
O amor não é uma coisa verde que lançou uma luz sobre ti, te levou a ver as estrelas e te trouxe de volta com algo dele dentro de ti. Isso se chama ET. O amor é outra coisa.
O amor não é uma coisa que se esconde e que, quando encontrado, pode mudar o que está diante dos teus olhos. Isso se chama controle remoto da TV. O amor é outra coisa.
O amor não é uma coisa de pele que faz o seu corpo arder. O nome disso é alergia. O amor é outra coisa.
O amor não é algo que expõe tudo o que há no teu interior. O nome disso é Raio X. O amor é outra coisa.
O amor não é alguém que causa uma dor profunda no âmago do teu ser. O nome desse gajo é mesmo proctologista. O amor é outra coisa.
Desculpa mermão se desconsegui falar o que queria falar mas cadavez custa mais falar por causa das loiras geladas que já não só lubrificam a goela como toldam a mente.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca

1 de setembro de 2005

Desculpas no Zulmarinho


"Fio": Um café na Esplanada

carranca
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Desculpas num Zulmarinho Hoje, 18:37
Forum: Conversas de Café
Mermão, cada vez faz mais eco na minha mona. Cada vez parece que estou a delirar no pensamento.
Assim sendo, avilo, vou emborcar umas quantas para poder não só olear a goela como também nublar o cérebro e esquecer as temporadas que passámos juntos, que conversámos conversas de lá e de cá, que discutimos sobre o ontem e o amanhã que é mais importante que esse ontem que foi há muito tempo.
Nas nossas conversas, mermão, para além das bebidas bebidas, das nostalgias vividas, dos sonhos mágicos que sonhámos, desfrutámos em pequenas doses, sem atracções ou ligações que fossem duradoiras e comprometidas porque um dia podia chegar a um final e um dos dois podia ficar traumatizado assim como que a chorar o leite derramado apanhado por uma esponja e reaproveitado, assim do estilo de enriquecido com muita sujidade. Agora, mermão, qualquer circunstância me é traída na memória, mesmo as minhas ideias peregrinas, as discussões são distorcidas pelo tempo, as falhas que durante um mês certinho, fiz com os cambas que me ligaram, que queriam estar comigo, que queriam ouvir de viva voz a minha voz nas estórias que mesmo não tendo existido não seriam menos verdadeiras, as baterias dos móveis que servem para ligar e receber até se esgotarem, esgotaram-se nas minhas falhas.
Só te posso dizer, mermão que ainda não acabou a minha vida menos ortodoxa e circunspecta de estar na forma corporal dum corpo esbelto e ginástico na força de o forçar a fazer o que ele não queria, pois eu sei que ele só pedia cama ou sofá.
Me imaginas só sentado a ver o zulmarinho a se espreguiçar na areia, mas na verdade te digo, camba que o vi muitas vezes, como muitas vezes os olhos se fechavam e só os ouvidos o conseguiam sentir.
Bebo, mermão, não na forma de despedida, mas apenas na forma de te pedir desculpa dos deslizes, das falhas.
No meu olhar, mermão, vais ver sempre uma gota do zulmarinho.

Sanzalando em Angola
Carlos Carranca


WebJCP | Abril 2007