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A Minha Sanzala: Caminhos (3) - quero ser vento
recomeça o futuro sem esquecer o passado

29 de junho de 2007

Caminhos (3) - quero ser vento

De volta ao caminho, matutando nas palavras sábias dos mais velhos, saboreando as frases dos mais novos, caminho em busca da minha porta, que sei está algures por mim entreaberta como na espera de mim.
Dou voltas e voltinhas, caminho dentro da alma e ouço o sibilar do vento como se estivesse a me cantar uma canção de embalar.
Não é aquele vento que leva tudo de arrasto como que a fazer remoinhos de areia que vem do deserto e mais parece alfinetes que me picam as pernas nuas de quem anda de calções e calça uns nonkakos. È um vento suave que lhe ouço parece canção de namorar, um som magnífico se eu soubesse o que é que isso quer dizer mas te traduzo na minha palavra desconstruída que é uma silêncio de carícia.
Eu sei que este matutar me está a levar aos anos de calções, futebol de rua, gargalhadas inofensivas, namoros inconsequentes e irresponsáveis, aos cacimbos da manhã, à asma da humidade que vem do mar e que serve de desculpa para tudo quando convém, aos tempos em que queria ser vento, sobrevoar o jardim da vizinha que faz de conta não sabe quem eu sou só porque sabe eu lhe gosto mais que muito e ela não quer nem saber disso e chegar à sua janela e lhe sibilar como agora lhe estou a ouvir, numa canção de amor. Mas às vezes eu queria ter o seu poder, de abrandar ou enfurecer conforme lhe está ou não de feição, ficando tão forte que não há força que lhe sustenha e me consiga levantar do chão me arrancando os pensamentos que me trazem uma lágrima a rebolar na cara, deixando um carreiro de sal.
Mas agora eu queria ser este vento que ouço com música de amor e poder sair por aí e lhe abraçar com ternura, com a minha leveza lhe acariciar o corpo num gesto de carinho como se fosse seda mais pura que a pura seda.
Mas afinal de contas já não ando de calções e de nonkakos, já não jogo à bola na rua, já não gargalho inofensivamente.
Mas afinal eu tenho mesmo é saudade de sentir o cacimbo do mar e de querer ser vento ainda.


Sanzalando

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WebJCP | Abril 2007