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A Minha Sanzala: 41 - Estórias no Sofá – Carta de Arnaldo
recomeça o futuro sem esquecer o passado

11 de outubro de 2008

41 - Estórias no Sofá – Carta de Arnaldo

Ali está Arnaldo sentado no seu canto. Ele sempre se senta nesse canto quando a saudade lhe aperta. Me apetece dizer que Arnaldo sufoca de saudade, assim num cada vez mais frequentemente, e quando isso lhe acontece ele escreve cartas. Acho ele tem uma colecção tão grande que faz inveja nos coleccionadores de verdade.
Lhe falo coisas à toa para ver ele se acorda dessa saudade que lhe afoga. Me responde com palavras mais pequenas de duas letras. Os olhos não se mexem nem para ver donde lhe falo.
Lhe olho de lado para um papel que descansa no seu ladoe consigo ler a sua redonda letra:

Querida amiga, espero que estejas bem de saúde. Melhor ainda, espero que estejas mesmo feliz. Te estou a escrever não é para pedir desculpas porque eu penso que não tenho motivo para tas pedir. Te escrevo mesmo só porque faz tempo que estas palavras me rebolam na cabeça com vontade de sair. Não sei se são os meus sentimentos que vão escritos nestas palavras ou se é apenas um relato das coisas feito pela minha cabeça. Acho vai sair assim tudo junto parece é uma misturada muito grande que nem eu vou depois descobrir, mas que eu tenho que te dizer isso é mais que certo. Talvez assim tu e eu nos possamos entender no meu interior.
Eu sei que, por muito tempo, controlei as minhas emoções. Pelo menos assim me pereceu. Podia eu até calhado dizer-te que te queria que eu sabia que nunca me ia enamorar assim numa de pés para a cova, pois estava certo que nunca me ia enamorar com coração e tudo. Mas depois que te repensei foi um secretamente crescente de amor nascido. Fui atrás dos teus passos, segui as tuas palavras, saboreei os teus perfumes. De verdade que nem sei bem que é que aconteceu.


Parei aqui de ler porque tinha de virar a folha e eu não ia fazer isso assim sem pedir com licença e disse mais umas outras palavras ao Arnaldo para lhe acordar desse afogamento. Me desligou como se eu não estava nem ali. Continuei a falar, acho lhe falei do tempo, da luz do céu até parecia fotografia. Lhe recebi o silêncio. Foi assim num repente que lhe perguntei se podia ler o que é que ele estava a escrever. Me respondeu com encolher de ombros que eu interpretei é um sim e logo virei a folha e continuei a ler me esquecendo de lhe dizer um obrigado pá.



Acho brinquei com o fogo e me queimei. Eu não queria viver isto que vivo agora. Eu queria continuar a ser livre e não um manso cabrito que sofre de amor. Mas eu acho enlouqueci quando me deste esperanças, ou fui eu que fiquei cego de amor e me confundi. É verdade que passei uns belos momentos até sentir as verdades futuras, até começar a sentir o medo do amor e recomecei a desprender-me e desconsegui. Antes pelo contrário. Me desliguei do medo e recomecei a viver esse momento como o momento mágico da vida. Enlouqueci. As tuas carícias, os teus beijos. Tudo o que sonhei estava a sentir através dos teus sussurros e dos teus acenar de sinais que eu percebia.
Fui feliz. Esqueci os meus medos. Empolguei.
Mas afinal sucedeu o que o meu coração sempre me dizia. A felicidade diminui com o passar dos dias. Me aconteceu isso num progressivamente sentir vindo de ti. Vi que o brilho do teu olhar já não me olhava com o mesmo brilho. Senti num sentir que até parece cobra que escapavas furtivamente da minha vida dedicada a ti. E eu ali sentado à espera das tuas carícias, dos teus sinais, dos teus beijos. Fugias assim por entre os meus dedos mais rapidamente tinhas entrado.
O tempo me foi abrindo os olhos enquanto o coração chorava as lágrimas da dor sentida. Eu estava à espera que tu te entregasses assim que nem eu. Mas foi-te um amor volátil. Mas é assim a realidade. Chorarei em silêncio até à última vez, até ao meu destino mais próximo. Não te negarei os meus sentimentos de antes, não te nego os de agora e os do futuro logo a gente os vai ver. Sei que te escrevo palavras se calhar sem sentido, se calhar para libertar os meus fantasmas, se calhar para te esquecer.
Não, esta carta não é uma forma de fazer queixas, lastimar ou chorar-me porque não te sentes igual que nem eu.
Se calhar esta carta é apenas mais um equívoco. Quem sabe?


Arnaldo olhava em frente com olhos de quem não está a ver nada. Tinha uma folha em branco à sua frente. Lhe voltei a falar e lhe perguntei se ainda ia escrever mais. Me olhou num olhar triste e me respondeu:
- Quem é que sabe o que é o futuro?

Sanzalando

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WebJCP | Abril 2007