Navega à vontade que a Sanzala é segura, mesmo que te pareça lenta!
A Minha Sanzala: Outubro 2008
recomeça o futuro sem esquecer o passado

31 de outubro de 2008

meu semba



Afinal de contas porque ando a divagar se posso simplesmente estar calado?
Dentro de cada um de nós existe um mundo interior, de pensamentos e sentimentos. Sei que é invisível porém tem uma força enorme esse interior mundo.
O meio ambiente que nos rodeia, com todas as suas alterações momentâneas, permanentes ou ocasionais, é o resultado da nossa atitude mental que predomina. O mundo externo é o reflexo do interno.
Exemplifico, se conseguir encontrar as palavras certas. Há dias que um dia de chuva tem algo de maravilhosamente belo e outros em que é uma grande chatice. Portanto, podemos mudar o mundo exterior mudando o mundo interior.
Bem, vistas as coisas, medindo os prós e os contras, é melhor não divagar por hoje.

Sanzalando

30 de outubro de 2008

eu queria tanto

Eu queria tanto ir. Sabes, não sabes? Se eu pudesse eu ia. Mesmo sabendo que o meu ir se calhar ia contra a tua vontade.
Se eu fosse se calhar eu ia ouvir dizer que não devia ter ido, que não ia comer o teu pão, beber a tua água e tocar a tua alma.
Mas eu queria tanto ir. Queria brincar na areia, pés descalsos como fazia quando era kandengue, jogar ao garrafão, trouxa-lavada, picles e outras coisas como o prego.
Mas eu queria tanto ir e voltar a ter a gargalhada facil, olhar inocente.
Eu queria tanto ir, esvazear as tantas garrafas de vinho barato, desenvelhecer antes de ser atirado num buraco.
Eu queria tanto ir e continuar a ser banal.

Sanzalando

29 de outubro de 2008

esperança

Observo o teclado do computador com o olhar fixo na esperança que as letras se ordenem em palavras para que eu as utilize. Encontro uma palavra e, palavra puxa palavra, ela parece que me pede que eu fale dela.
- Traços negros em fundo branco, neste meu caso concreto, as letras se conjugam num som cujo o significado procuro.
Cliques e claques da força de martelar as teclas se fundem no ambiente proporcional do meu êxtase. Estas palavras são minhas filhas. Eu sempre as sonhei. Ou não. Legítimas, ou não. Enfim, rezo a uma virgem inspiração na esperança de encontrar as ditas palavras que procuro.
Afinal de contas eu o que tenho é esperança de vir a ter esperança de ter futuro um dia.

Sanzalando

28 de outubro de 2008

PARABÉNS

(clique sobre a imagem para ampliar)

Sanzalando

um dia especial


Vou olhar-me ao espelho? Tentar recordar todas as caras que tive? Poucas ficaram na memória, umas esqueléticas a contrastar com outras a dar para a bolinha, todas sem qualquer significado marcante. Um cabelo negro farto, rebelde na risca ao lado, deu lugar a um grisalho reles de meio centímetro, vulgaridade. Umas orelhas que imitavam um aeroplano deram lugar a uns lindos pavilhões auriculares que cada vez mais se escusam a ser meros suportes de próteses oculares que escondam o olhar pagado do tempo feito.
Bah!
Olhar o espelho e pensar o que eu podia ter feito e que ficou por fazer numa qualquer estante da minha imaginação, já coberta de teias de aranha, pó fino de muitas cores em que mais tarde os arqueólogos se iram debruçar na tentativa de desvendar a minha existência, não me leva a remédios mentais.
Olho ao espelho apenas para me ver quando me tenho saudades.
Hoje vou é olhar para a janela.
Já sei que não vou ver nada. A neblina espessa continua a pairar no meu coração e as sombras escurecem-me a alma. Ponho as mãos magoadas sobre o frio vidro das janelas. Sinto alívio mas não o descanso de ter andado a escavar os alicerces da minha existência. Vejo a impaciência do vento como que se estivesse à espera que eu abrisse a janela. Ouço o silêncio do nada a toldar-me o corpo.
Toca o telefone. Eras tu. E tu. Tu. Tantos tus.
Sorri e passei a ter um dia feliz.


Sanzalando

27 de outubro de 2008

42 - Estórias no Sofá – Estevanov e o doido

Encontrei Estevanov sentado no sítio do costume à hora habitual.
O sitio mais não é que o que agora resta da traseira do que era o Kinaxixe. A hora era qualquer uma pois é coisa que ele não faz é sair dali.
Tantas vezes lhe perguntei o nome. Outras tantas me respondeu Estevanov. E para mim ficou a ser mesmo o Estevanov sem mais dúvidas ou pés na retaguarda.
Já lhe conheci louco. Ele me disse que não. Não era e nunca tinha sido louco.
Foi desde que se lembra motorista de General Soviético. Um Conselheiro, repetia ele, como que a querer dar importância. Não sei de quem porque ele me respondia só que era Conselheiro. Okey, pensava eu em ter que aguentar mais uma desinformação.
- Estevanov, tu com tanta bebida e tanta ganza em cima não podes ser normal. Lhe dizia eu todas as vezes para iniciar a conversa, lhe despertar ideais.
- Me disseram que beber bebidas com álcool mata as células da cabeça. Né?
- Sim, portanto com essa bebedeira que tens faz para ai uns quinze anos…
- Te enganas, pula. As células que se morrem são as mais fracas, as que não aguentam a pedalada, que já não fazem falta e nem atrapalham mais os circuitos.
- E…
- Portanto, me ficam as células fortes, logo te digo que não sou louco, apenas mais inteligente, porque só tenho as células fortes.
Era hora de mudar de assunto e caminhar para outras estórias.
Conta-me então uma tua estória.
- Era chófer de general soviético, esse Conselheiro que já te falai muitas vezes.
- Sim, eu sei. Não precisas repetir.
- Um dia, ele saiu numa depressa mais rápida que o vento e esqueceu voltar. Me deixaram aqui de viatura distribuída e desconseguia de saber onde eu trabalhava mais, Uns diziam era ali, outros acolá. Para não perder o meu tempo aproveitei o consumista automóvel e virei chófer de táxi. Ia fazendo uns esquemas, tas a ver. De vez enquando ia numa repartição e perguntava de serviço. Me diziam silêncio e lá ia eu fazer mais uns fretes.
- … abanando a cabeça de sim lhe respondi com silêncio também.
- Um dia, desqueci mais porquê, me levaram o carro e ainda me engaiolaram lá no São Paulo.
Me soltaram uns meses depois que eu perdi a conta. A única coisa que sei é que eles disseram que eu sabia demais e por isso era melhor para mim eu ficar ali. Me esqueceram, eu acho.
- Não fazias mais nada na vida antes? Não te meteste com garinas que nem devias?
- Me ensinaram só de ser motorista. Era só mesmo chófer, de farda e tudo.
- hum…
- Me soltaram e eu nem lhe fui procurar. Ela me encontrou. Eu vivia do esquema, no esquema. Ela me foi fazendo ficar assim luado, já nem tinha dores na alma. Lhe possuía assim umas tantas vezes no dia. Era até não conseguir mais. O esquema acabou. Me fui virando no álcool. Todos os álcois. Hoje me vez aqui a pedir, mas eu já fui pessoa de farda limpa. Eu já tive paixões que até me faziam sentir borboletas a voar à minha volta. Eu já tive assim de mulher à minha volta, a me pedir um esquena.
- Tens filhos?
- Não. Me apaixonei sem dar conta. Ela me dizia que como eu não havia outro. Os outros só queriam cama e eu queria diálogo, lhe queria ouvir. Mas o esquema nos foi tirando tempo que o tempo dela acabou bem cedo. Acho também me tirou paciência que agora tenho é demais.
- Já conseguiste fugir do esquema?
- Falta combu… quando lhe arranjo ainda esquemo uma de matar saudade.
- És doido, Estevanov.
- Te digo, pula, doido mesmo és tu que não és coxo, não és gago, não és cego e te perdes aqui a falar comigo. Quem é que é o doido afinal?


Sanzalando

26 de outubro de 2008

(04) Texto Pedido - NADA


Sanzalando

25 de outubro de 2008

dor de cabeça

Vá lá. Dói-me a cabeça. Mas o que é isto de reflectir? O que é isso de pararmos para pensar? Mas se é assim é porque é assim e não vale a pena perdermos tempo matutar. Chamaste-te Maria e tu Manuel, ele Joaquim. Porquê? Mas o porquê aqui tem algum significado? Foi um acaso. Mas porque é que eu vivo onde vivo. Porque sim. Mas porque é que sou como sou? Porque sim. Se eu soubesse a resposta dalguma destas perguntar alguma coisa ia mudar? Já me basta ter de pôr gravata para parecer alguma coisa. Insignificante, por exemplo. Não higiénico, também. Mas para quê perguntar-me isto tudo.
Mas porque é que eu só vejo os meus defeitos se eu sei que também tenho virtudes?
EH. Tudo porque me dói a cabeça.

Sanzalando

24 de outubro de 2008

o que é real

Me vejo aqui sentado de corpo a voar pelas esferas do vento. Ver, sentir e acreditar nesta realidade como se fosse uma borboleta no seu voo entrecruzado a caminhar no ar.
Duas linhas irreais. Falo irrealmente. Descubro que ainda sou capaz de caminhar no ar. Basta-me querer!
Já me transpiram as mãos, a realidade não é como nós cremos que seja, é simplesmente como ela é.
Saltam-me os olhos da cara porque os sonhos podem ser pesadelos.
Afinal de contas o que é real?
A esperança sei que é.

Sanzalando

23 de outubro de 2008

espaço em branco

Me acabo de descobrir que existe em mim um bocado que ainda não foi descoberto. Além do lado escuro da minha vida ainda tenho o lado não descoberto. Isto é que estou a ficar que nem um baralho de cartas depois de bem misturadas.

Isto tudo foi mesmo mais porquê? Porque me perguntei em voz alta o que é que eu quero mesmo da vida. E a resposta foi um longo silêncio que ainda não terminou.

Será que não há um bocado de mim que conheça essa parte e diga a resposta assim num bem alto para eu não ficar com dúvidas?


Sanzalando

22 de outubro de 2008

Outono em mim


TSSSSS que já está a ficar é de manhã. Abro só um olho de cada vez para ver se ainda não são horas de acordar, mas me desengano porque o dia está a romper, o vento sopra porque é tempo dele soprar com força que até arranca as folhas das árvores e as palmeiras até que parece dançam um semba que não lhe ouço.

Chiça que ainda por cima está de chuva e o barulho do vento mais a da chuva me fazem apetecer ficar aqui com os dois olhos fechados a escutar a música deles.

Tsssss, tem mesmo de fazer força para combater essa coisa da inércia, que devia estar de férias e me deixar ficar aqui deitado que nem um sorna.

Mas afinal de contas quem é que vai notar se eu apareci ou não?


imagem: Museu da Escravatura - Luanda
Sanzalando

21 de outubro de 2008

marinheiro de água doce

Deixo percorrer na minha cabeça as mais que muitas ideias que lhes apetecem aparecer. Hoje mesmo estou aqui a olhar assim como que para muito longe que eu nem consigo ver de verdade mas só mesmo num ver de pensar.
Vou num barco que visto de desde lá do céu parece assim uma casaca de noz, o cordame range parece está a cantar uma canção de dor e o vento não pára de assoprar como que a me mostrar que tem força para me levar.
Parece vou na aventura do caos, à procura de tempestades que me rasguem as frágeis velas da minha casaca de noz.
Contra a canção de dor eu me canto canções de embalar. Me deixo adormecer em mar alto como se eu fosse um marinheiro.
Ai uê, mamãe, acho de me ter lembrado agora que eu não sei nem nadar por isso é melhor eu ir assim numa de ir a pé, devagar, olhar as estrelas e sonhar.

Sanzalando

20 de outubro de 2008

hoje escrevo com os olhos




(tentando arrumar as imagens perdidas nas viagens da solidão)

Sanzalando

19 de outubro de 2008

o mar de mim


Às vezes consigo ouvir o mar e lhe vejo milhares de gaivotas na areia da praia como se fosse um dia de verão.

Meus olhos se enchem de mar quando lhe vejo a espraiar ao ritmo do bater do coração.

Mas têm sido poucas vezes as que ouvindo o mar eu lhe consigo escutar.

Mas têm sido raras as vezes que lhe vejo parece me está a chamar.
Às vezes me apetecia estar fundido num abraço de água, seguir no meu bote de imaginação e como uma carícia lhe navegar numa melodia de serenidade. Às vezes me apetece ver os segredos nas mensagens das ondas como se um código fosse.
Às vezes o mar me entra e me afogo de nostalgia.



Sanzalando

18 de outubro de 2008

duvidosamente duvido



Eu sei que devia estar ali mas não estou. É um devia de dever moral. Umas vezes sinto que seria uma obrigação. Engano-me. Posso, não?


Mas a verdade é que eu devia estar ali. Devia, o que não sei é mesmo se devo.
Um dia me disseram que os sentimentos morrem. Duvidei. Duvido. Modificam-se. Ou não. Mas se morrem, estão mortos e portanto não voltam. Pelo menos para mim que não acredito em fantasmas.
Enganei-me outra vez? É claro que posso, ou não?
Mas afinal de contas porque é que eu te sinto perto de mim, por vezes reles, outras pressionante, outras intensa e não estás onde devias? Lá, sossegadamente lá.

Não entendo como posso perder este tempo a pensar-te.
Já sei. Estas poucas linhas, tal como tu, não deviam estar aqui.


Sanzalando

17 de outubro de 2008

já sei que sou um Outubro

Correm-me pela cara lágrimas caté me parecem é de sangue. Já sei que ninguém as vê. Lágrimas de impotência, de tristeza e de vazio. Já sei que ninguém as vê.

Só eu que as vejo, que as sinto. Só eu que as choro.

Afinal de contas não sou mais do que sou e tenho que convencer-me que nada sou, nem frio nem calor, nem noite nem dia, mero espectador duma vida.

Mais nada sou que as minhas pegadas e as minhas recordações.

Sou um Outubro cinzento a ver se me encontro.




Sanzalando

16 de outubro de 2008

viajarei ao deus dará


Acho vou mesmo entrar no mundo, lhe viajar e lhe conhecer todos os cantos mesmo os que sejam redondos que nem rotundas. Me apetece viajar para lá das estrelas, desviar-me de asteróides. Motor para isso. O que é que é mais rápido que o pensamento? Me diz só se para viajar é preciso tocar com as mãos.

Olha só essa paisagem linda que está que nem aí na mão que faz a sementeira. Agora põe o calor insuportável, lhe bota o cheiro nauseabundo que vem da lixeira que fica quase que nem a cem metros, lhe coloca os mosquitos e outros insectos visíveis mais os invisíveis. Deu mesmo o quê?

Nas estrelas não podemos nem tocar. Olhar apenas e deixar o sonho nos levar para lá da realidade.

Galáxias que me tornam insignificante.

Vou viajar num mágico pincel de pensamentos.

imagem da internet
Sanzalando

15 de outubro de 2008

introspecção ao vazio

Dia cheio depois duma noite agitada. Imagina só assim uma orgia mental que até parece te estão a arrebentar com a cabeça, saiu um almoço com amigos daqueles que bebem mais que a própria pipa e comem mais que um supermercado acabado de abrir.
Chego a casa e directo no duche. Aqui, quando a água me empapava todo é que eu me assustei num assustar que acho até me gritei para dentro. A minha alma se tinha ausentado. Foi dar uma volta. Eu não conseguia pensar em nada, assim como nada parecia estar a acontecer à minha volta. Fiquei estático enquanto a água me cobria. Pensei eu estava cego pois o vazio da minha cabeça apanhava os olhos também. Paralisei-me por instantes. Desalmei-me de todo. Olhava-me para dentro e via o nada. Me derreteu o corpo através do medo de poder ficar assim para sempre. Eu sem alma. Eu a circular desalmado, carregado de vazio numa dor poética. Afinal de contas já alguém me tinha dito que quem não sabe povoar a sua solidão nunca saberá ficar sozinho na multidão. Mas também não era preciso eu ficar assim num repente sem ser avisado, preparado, treinado.
Saí do banho. Deitei-me e logo desatei a sonhar que estava a sonhar. Lutei materialmente com a minha alma e foi esta que venceu.
Hoje, quando reflicto neste episódio sinto que perdi umas horas desfeitas em vazios.
Afinal de contas todas as dores e felicidades têm os seus tempos.

Sanzalando

14 de outubro de 2008

solteira culpa

Nestes caminhos perdidos em que o norte se mistura num sueste a dar para o poente dum qualquer põe-te a andar daqui, eu gostava de culpar alguém da minha má sorte e desafortunada fortuna de pós de muitas eras. É verdade que já ouvi alguém dizer que a culpa era dos genes, destino marcado nas células, outros que era por causa da infância fracassada, dos pais e das mães. Já ouvi tanta coisa que acho tudo ficou assim num sumário imaturo de desculpas para esconder os erros próprios.
Hoje eu gostava de dizer que a culpa era da infância, da mãe, do vizinho, de sei lá de quem, que eu me queimava nuns cigarros que faziam fila indiana para serem consumidos na quase centena diária. Gostava de dizer que a culpa era do pai, da vizinha, da filha, de sei lá de quem que eu fiquei agarrado nesta coisa de dizer o que penso.
Gostava de dizer que a culpa é dos meus avós por eu ser assim esbelto, rápido a pensar e lento a decidir.
Eu gostava era mesmo de culpar alguém.
Não havendo, a culpa fica solteira.

Sanzalando

13 de outubro de 2008

presentemente instante

Acho tenho de deixar de me levar pela intuição e fazer mesmo o que é que me está a apetecer.
No futuro nem lhe vou pensar, porque o agora está a passar e o depois a gente mais logo vai ver como foi.
Por isso agora mesmo, neste presentemente instante, vou deixar a voz de lado e vou ver só com os olhos, mesmo com eles fechados a olhar-me para dentro. Vais ver ainda vou ver um brilho qualquer num céu cinzento.

Sanzalando

12 de outubro de 2008

num domingo qualquer eu te conto

Me vesti com roupa lavada que até parece é nova. Me atirei de casa para a rua movimentada dos passeios de domingo. Escolhi o restaurante que fica mais perto da praia com a mesa mais indiscreta de modo que eu lhe consiga ver toda. Ou quase.
Bebi a cerveja e atirei o meu olhar em todas as direcções. É hora de escolher a virtualidade que me acompanhará na refeição. É, depende de onde meus olhos vão parar assim eu escolho o que vou comer.
É domingo e não é dia de se comer assim numa de solidão solitária. E há que escolher a companhia, boa companhia.
O garçon já me perguntou umas tantas vezes se já escolhi. Não sei se ele se refere na companhia ou na ementa. Mas uma depende da outra e vice sem verso.
Meus olhos parece estão a ficar cada vez mais exigentes, ou cegos. Desconseguem fixar um objectivo definido.
Peço nova cerveja. Já comi um pouco de pão com manteiga. Continuo a fazer navegar os meus olhos na areia dourada da praia.
Acho hoje é mais um dia de comer na solidão.
Não, hoje não é dia de comer, pelo que paguei as duas cervejas, o pão e a manteiga e com os bolsos vazios regresso a casa.

Sanzalando

11 de outubro de 2008

41 - Estórias no Sofá – Carta de Arnaldo

Ali está Arnaldo sentado no seu canto. Ele sempre se senta nesse canto quando a saudade lhe aperta. Me apetece dizer que Arnaldo sufoca de saudade, assim num cada vez mais frequentemente, e quando isso lhe acontece ele escreve cartas. Acho ele tem uma colecção tão grande que faz inveja nos coleccionadores de verdade.
Lhe falo coisas à toa para ver ele se acorda dessa saudade que lhe afoga. Me responde com palavras mais pequenas de duas letras. Os olhos não se mexem nem para ver donde lhe falo.
Lhe olho de lado para um papel que descansa no seu ladoe consigo ler a sua redonda letra:

Querida amiga, espero que estejas bem de saúde. Melhor ainda, espero que estejas mesmo feliz. Te estou a escrever não é para pedir desculpas porque eu penso que não tenho motivo para tas pedir. Te escrevo mesmo só porque faz tempo que estas palavras me rebolam na cabeça com vontade de sair. Não sei se são os meus sentimentos que vão escritos nestas palavras ou se é apenas um relato das coisas feito pela minha cabeça. Acho vai sair assim tudo junto parece é uma misturada muito grande que nem eu vou depois descobrir, mas que eu tenho que te dizer isso é mais que certo. Talvez assim tu e eu nos possamos entender no meu interior.
Eu sei que, por muito tempo, controlei as minhas emoções. Pelo menos assim me pereceu. Podia eu até calhado dizer-te que te queria que eu sabia que nunca me ia enamorar assim numa de pés para a cova, pois estava certo que nunca me ia enamorar com coração e tudo. Mas depois que te repensei foi um secretamente crescente de amor nascido. Fui atrás dos teus passos, segui as tuas palavras, saboreei os teus perfumes. De verdade que nem sei bem que é que aconteceu.


Parei aqui de ler porque tinha de virar a folha e eu não ia fazer isso assim sem pedir com licença e disse mais umas outras palavras ao Arnaldo para lhe acordar desse afogamento. Me desligou como se eu não estava nem ali. Continuei a falar, acho lhe falei do tempo, da luz do céu até parecia fotografia. Lhe recebi o silêncio. Foi assim num repente que lhe perguntei se podia ler o que é que ele estava a escrever. Me respondeu com encolher de ombros que eu interpretei é um sim e logo virei a folha e continuei a ler me esquecendo de lhe dizer um obrigado pá.



Acho brinquei com o fogo e me queimei. Eu não queria viver isto que vivo agora. Eu queria continuar a ser livre e não um manso cabrito que sofre de amor. Mas eu acho enlouqueci quando me deste esperanças, ou fui eu que fiquei cego de amor e me confundi. É verdade que passei uns belos momentos até sentir as verdades futuras, até começar a sentir o medo do amor e recomecei a desprender-me e desconsegui. Antes pelo contrário. Me desliguei do medo e recomecei a viver esse momento como o momento mágico da vida. Enlouqueci. As tuas carícias, os teus beijos. Tudo o que sonhei estava a sentir através dos teus sussurros e dos teus acenar de sinais que eu percebia.
Fui feliz. Esqueci os meus medos. Empolguei.
Mas afinal sucedeu o que o meu coração sempre me dizia. A felicidade diminui com o passar dos dias. Me aconteceu isso num progressivamente sentir vindo de ti. Vi que o brilho do teu olhar já não me olhava com o mesmo brilho. Senti num sentir que até parece cobra que escapavas furtivamente da minha vida dedicada a ti. E eu ali sentado à espera das tuas carícias, dos teus sinais, dos teus beijos. Fugias assim por entre os meus dedos mais rapidamente tinhas entrado.
O tempo me foi abrindo os olhos enquanto o coração chorava as lágrimas da dor sentida. Eu estava à espera que tu te entregasses assim que nem eu. Mas foi-te um amor volátil. Mas é assim a realidade. Chorarei em silêncio até à última vez, até ao meu destino mais próximo. Não te negarei os meus sentimentos de antes, não te nego os de agora e os do futuro logo a gente os vai ver. Sei que te escrevo palavras se calhar sem sentido, se calhar para libertar os meus fantasmas, se calhar para te esquecer.
Não, esta carta não é uma forma de fazer queixas, lastimar ou chorar-me porque não te sentes igual que nem eu.
Se calhar esta carta é apenas mais um equívoco. Quem sabe?


Arnaldo olhava em frente com olhos de quem não está a ver nada. Tinha uma folha em branco à sua frente. Lhe voltei a falar e lhe perguntei se ainda ia escrever mais. Me olhou num olhar triste e me respondeu:
- Quem é que sabe o que é o futuro?

Sanzalando

10 de outubro de 2008

me escondo

Cada vez mais perdido que nunca, não me encontro. Bem, de verdade nem encontro as minhas escapatórias, as minhas portas SOS. Tento, insisto e nem sei onde procurar-me. Acho que já nem sei quem sou nem quem eu podia ser. Já não sei o caminho que me leva a mim mesmo.
Procuro-o com a esperança dum regresso de mim, dum reencontro com a ilusão. Encontro labirintos, caminhos sem saída, escadas sem degraus e imagens sem som.
Mas onde é que eu me escondi?

Sanzalando

9 de outubro de 2008

viagem no tempo

Faço mais uma das muitas viagens dentro de mim e presto atenção à paisagem e vejo um céu cinzento prometendo uma chuva de palavras ou quem sabe uma tempestade de ideias. Deixo o tempo passar e me vou ficando nesta contemplação enquanto ouço na memária umas canções de saudade, song song blue, let it be, outras mais que às vezes já nem sei de que ano e neste exercício mais o tempo vai passeando por algum desencanto ou outro mal entendido.
Hoje a viagem torna-se mais longa porque me perco em labirintos de sonhos, porque vagabundo-me por rostos que fantasio num queimar de tempo fazendo esquecer que foi um dia duro de mais um dia aqui sem poder ouvir os sons dela.
Me entro pelo duche num correr de água sem confirmar qual a temperatura. Me arrepio. Acho até gritei da dor do gelo escorrendo-me nas costas ao mesmo tempo que me ouço por dentro o cair da coluna do disco ao vivo dos Creedence Clearwater Revival em Tóquio. Retemperado nas forças e nas emoções salto para Because I Love do MajoratY One. Me aqueço na saudade de poder viver amanhã sem calafrios e como os seus olhos me olhando com a ternura de quem ama.
Saio do meu carro do tempo, entro na viagem real e tento não perder o controlo.

Sanzalando

8 de outubro de 2008

espaço em branco

Acabo de descobrir um espaço em branco dentro de mim. Bem, na verdade nem eu sei se ela já estava aqui antes, mas ao sentir a tua falta senti um vazio que até me doeu. Vasculhei à volta desse espaço em branco e encontrei um vazio de tempo, um silêncio de vida, um gesto seco de interrogações infinitas.
Abracei-me na ternura dos meus dedos e vaguei por pensamentos e recordações.
Amor, chamei eu ao espaço em branco dentro de mim.

Sanzalando

7 de outubro de 2008

às vezes estou por aqui

Às vezes estou num estar por aqui que até parece desejo que a nostalgia me invada, que a tristeza me afogue nas margens dum texto. Às vezes estou por aqui, com dificuldade de empacotar a minhas recordações, de fazer deslizar os meus pés até te conseguir olhar, de seguir viagem com destino traçado num caminho de estrelas desenhado no céu de ida sem volta.
Às vezes estou por aqui de janela aberta a ver se há um ar que me dá.

Sanzalando

6 de outubro de 2008

a cabeça sonha e o corpo engorda

Queria eu vibrar assim na velocidade com que a minha cabeça me exige. É, minha cabeça se sente outra vez preparada para mais um choque que abala os sentimentos e lhe chamam de emocional. Minha cabeça está sempre a dizer no corpo para ele aguentar os meus delírios e as minhas divagações e quando ele se sente assim gordo, cansado é porque está preparado para levar com o choque, com o embate da manipulação emocional. Mas essa coisa vem mesmo é de onde? Lhe olho de todos os lados e desvejo um que possa aparecer. Se ele tardar em chegar ainda vai encontrar um corpo gordo de músculo atrofiado. É melhor que esse choque chegue já asssim num repente que o corpo me está a preparado é agora.
É, estou a ver a coisa da minha cabeça a me gritar que está aqui a ter um novo sonho, um ataque de ideias soberbas, infalíveis e coisas e tal.
Afinal o que eu sei é sonhar.


Sanzalando

5 de outubro de 2008

04 - Texto Pedido - Tempo Perdido e Sempre

TEMPO PERDIDO

Sinto raiva só de pensar

Em todo esse tempo perdido,

Nesse oco, esquivo tempo,

Nesse tempo não vivido

Porque o tempo eras tu.

Tempo que nada levou

Porque nele nada valia.

Eras tu a noite e o dia

E como eras tempo te foste

Deixando só amargura.

E porque o tempo tem pó

E é vago tempo sòmente

Não me doi o ficar só.

Tenho raiva unicamente

De ter perdido esse tempo.

  

 SEMPRE

É sempre do passado o mesmo incenso

Qu'envolve o presente

Em luto intenso.

É sempre no meu peito a mesma garra

Este tédio, este andar

Sem uma amarra.

É sempre em cada dia

A escura noite

Sempre dentro de mim amarga essência

Porque o sempre, do meu sempre

É a tua ausência.

Vera Lúcia Kalaari
Sanzalando

4 de outubro de 2008

Hoje não falo, vejo!

Ponta Delgada - Açores


Alvor
Sanzalando

3 de outubro de 2008

é aqui

Reina o silêncio. Ouço apenas o meu respirar. Lá fora cai a tarde num suave apagar de luminosidades ao mesmo tempo que a silenciosa brisa de Outono desparaliza as folhas da árvore que se despede lentamente. Consigo imaginar o azul laranja do pôr do sol que vai acontecer não tarda lá para os lados da minha alma. É aqui que o meu coração se acelera como se quisesse que a noite chegasse num repente. É aqui que eu sinto o teu imaginado perfume, teu corpo quente chamando por mim. É aqui que eu desejo cada teu centímetro da minha esperança.
Enfim, atrás deste silêncio existe uma algazarra de ideias, recordações e futuros que me deixam por aqui.

Sanzalando

2 de outubro de 2008

quando estou só

Quando estou só na sala o relógio de parede já não faz tic-tac, nem o dingdong das meias horas se ouve e nem lhe sinto a respiração.
Quando estou sozinho, perna cruzada, vagueando pelos pensares todos da vida, me patece ouvir a tua voz a me acariciar o ouvido vinda do outro lado de lá.
Quando me encontro na solidão do meu eu ouço o bater do tempo no ritmo da passagem.
Quando estou só, as tuas palavras ressoam na minha mente como se as tivesses acabado das dizer.
Quando estou só, tu existes na realidade da minha fantasia

Sanzalando

1 de outubro de 2008

a verdade verdadeira que eu não sei

Eu sei. Sim, é verdade. Tu reparaste que desde faz algum tempo que eu tenho estado desatento do lugar, do modo e do falar.
Eu sei. É verdade que muitas das coisas que eu disse tinham um sabor enlatado, outros de reciclado e outros há muito deviam ter desaparecido numa limpeza mental.
Mas a verdade é que eu não sei o motivo de tanta desatenção. Um livro que não nasceu, uma viagem que não aconteceu, uma mudança que não apareceu, uma coisa qualquer poderia ter sido a explicação que eu te estava a dar. Podia ter sido até um anel que eu teria oferecido, uma promessa que eu não tinha cumprido. Tanta coisa podia estar aqui a divagar.
Mas na verdade eu não sei mesmo o que é que me aconteceu para tanta desatenção inspirativa e até esquecida.
Bem, acho vou voltar ao ano de 2004 e recomeçar num começar de coisas novas mesmo que tenham um sabor antigo, porém não amargo.
De verdade é que eu não sei que vai acontecer amanhã. Hoje foi assim!

Sanzalando


WebJCP | Abril 2007