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A Minha Sanzala: Março 2009
recomeça o futuro sem esquecer o passado

31 de março de 2009

chuva de botões


Olhei para a minha pequena e pobre Pitangueira sem flores, sem folhas. Vi uma triste pitangueira que nem parecia a minha Pitangueira. Nua e descolorida.
E foi neste olhar que tive um sonho. Um estranho sonho. Estava a chover botões. Nada mais que coloridos botões de camisa, de calças, casacos e sei lá de quê mais. Eram de todos os tamanhos e todas as cores. Eram de quatro e dois buracos. Era um dilúvio de botões que faziam autênticos charcos de botões de muitas cores. Tal como tinha começado assim parou a chuva de botões e ficou no ar um cheiro a frescura, um aroma de sabor a música.
E foi aqui que vi que a minha pequena e pobre Pitangueira continua de aspecto pobre e com recordações de memória.



Sanzalando

30 de março de 2009

pequena e pobre Pitangueira

A minha pequena Pitangueira parece pouco mais que um esqueleto de uma árvore em miniatura. O vento lhe levou as flores e não lhe poupou nem uma folha. A minha pequena Pitangueira está nua. Simplesmente nua, pelo que eu não sei se tenho uma pequena Pitangueira ou se um fantasma de pitangueira. Olhando através do vidro da minha janela vejo as espirais de silêncio que seus frágeis ramos desenham numa abstracta tela. O pouco sol que lhe bate já não tem onde reflectir, porque ela perdeu as suas pequenas mas brilhantes folhas, a minha pequena e agora pobre Pitangueira despida.
Nua de nuances ignoradas, vestida de desamor, a minha pequena e pobre Pitangueira, deve estar como eu, sem recordações materiais, apenas saudade de memória.
Se ela fosse grande eu a transformaria num estandarte de alma… pequena… deixo-a estar enquanto vou ver o mar.



Sanzalando

29 de março de 2009

o vento lhas levou

O vento forte que sopra faz dias não deixou nem uma flor para eu admirar na minha pequena Pitangueira. Se despiu. Ficou uma pitangueira pequenina sem flores e quase sem folhas a minha pobre Pitangueira. E foi mesmo assim a pensar nela que eu fui ver o mar. Eu lhe veria se pudesse abrir os olhos. Mas a areia fina que o vento rouba na praia não me deixa nem ver se é dia ou noite, quanto mais ver o mar. Encho o peito de ar e sopro com tanta força contra o lado donde vem o vento, a tentar lhe mandar lá para trás, mas parece eu o enfureci ainda mais, que até parece ele sopra com mais força que nem o meu ar sai da boca.
Vento forte que roubaste as minhas flores de pitangueira e me roubas o olhar do mar.
Assim, de olhos fechados, de pensamento encerrado na tristeza de não ter mais flores na minha Pitangueira, sinto uma forte loucura em pensar-te, em desejar-te o calor e sentir o meu suor abafado na tua humidade.
Assim, encerrado em mim, palmeando os teus caminhos e as tuas saudades, que já não tenho recordações físicas senão memórias.



Sanzalando

28 de março de 2009

Cinco das seis

Antes de vir ver o mar eu estive a olhar para a minha pequena Pitangueira. Já lá só encontrei cinco das seis flores que ela tinha. Foi a trovoada que amputou a minha pequena Pitangueira de uma das suas flores. E eu o que sinto? É como que me tivesse olhado ao espelho e visto uma mudança forte.
Como estava bonita a minha pitangueira e as suas seis flores. Pela sua altura, pelo seu porte, as seis flores assentavam-lhe bem. Agora, olhá-la é como estivesse a olhar para uns tronquitos de madeira, sem forma, sem destaque e sem ritmo.
As seis flores marcavam-me a diferença, era um gosto que se perdeu, uma mudança desequilibrada.
A trovoada foi-me como Judas, traiu a minha Pitangueira numa das suas seis flores.


Sanzalando

27 de março de 2009

Dialogo com a minha Pitangueira

Como tas tu, Pitanga das seis flores?
Sim, sim, aceito o teu café como aceito continuar a conversar contigo.
Sabes, tu tens apenas seis flores, és uma criança, eu confiaria em ti, mesmo que tu não fosses a minha Pitangueira.
Sabes, não sabes?
Pode parecer inverosímil mas a nossa capacidade de dialogar é impressionante. Estamos frente a frente qualquer que seja o lado que eu esteja. Ajudada pela brisa danças enquanto me ouves e me falas nos teus galhos delicados.
Me ouves?
Tou em querer que sim. Bailamos diálogos, recordamos memórias. Te agradeço.
De nada!



Sanzalando

26 de março de 2009

um dia vou comer Pitangas

De memória vejo a minha Pitangueira. A minha pequena Pitangueira que espero ainda tenha as suas seis flores. Hoje não lhe vi com olhos de ver verdadeiros, mas só com os olhos da recordação. Afinal de contas eu até sei que tenho estes como bons olhos. Mas será que há ainda quem tenha bons olhos para ter a paciência de me ouvir, de me ler ou de saber que é que este amontoado de letras quer dizer? Revendo cada galho da minha pequena Pitangueira dou comigo a pensar que se calhar eu cumpri todos os passos da decadência sem ter perdido o gosto de estar aqui a dizer coisas. Eu ainda tenho uma ideia. Eu ainda tenho um sonho. Mas o tempo, os compromissos não me deixam ter a ideia de como terminará a ideia e de como finalizará o sonho. Afinal de contas se calhar eu tenho a ideia que foi nunca ter começado e o sonho que nunca termine.
Se alguém me ouve eu agradeço.
A minha Pitangueira um dia vai deixar de ser pequenina e vai dar sombra para eu me sentar sob a Pitangueira e recordar-me do sabor duma Pitanga

Sanzalando

25 de março de 2009

e assim a minha Pitangueira

Olhei para a minha Pitangueira, para a minha pequena Pitangueira. Não me dá sombra ainda, mas dá-me conforto porque me leva até ao meu planalto sentimental. Ainda tem as mesmas seis flores a minha pequena Pitangueira e isso fez sentir-me em paz apesar das emoções divergentes que carrego na minha alma que serve de bateria e não se deixa ver pelos olhos reais. E assim sigo em paz, confiando na não necessidade de controlar a liberdade que me abraçam os sentimentos sensíveis dos teus aromas que tenho na memória e que um dia vou ter por entre os meus dedos. E assim vou criando espaços na minha vida onde sobram realidades a troco de carícias. E assim, delicadamente, avanço suave e ternurentamente para o futuro.
Voltei a olhar para a minha pequena Pitangueira e às suas seis flores e se me abriu um sorriso na cara como me dissesse que amanhã eu vou ter uma Pitangueira Grande que me dará todas as Pitangas que eu quero.

Sanzalando

24 de março de 2009

obrigado


Sanzalando

23 de março de 2009

o vento na minha pitangueira


Hoje fui contar quantas flores tem a minha pequena pitangueira. Apesar do vento que sopra ainda lhe contei as mesmas seis. Com as seis flores de pitangueira na cabeça fui ver o mar. Tal como o vento está, assim o mar também está.
Que será que deu neles, para estarem assim tão revoltados? É fúria passageira na certa. Só pode. O mar estava de cor do topázio e me disseram que o topázio é uma pedra simpática e delicada e que dirige a sua energia para onde é preciso.
Já sei porque faz vento e o mar está assim revoltadamente agitado. Deve ser que o vento é provocado pelas asas dum anjo assim para revoltar o mar e lhe libertar de toda a energia negativa, lhe purificar.
Não é? Foi isso que sopraste no meu ouvido?
Ò vento, tu me despenteias em ondas revoltosas tal como esse mar está, e não é para isso? Vê lá se me explicas.
Mas por favor, não arranques as minhas flores da Pitangueira, que ela ainda é pequenina.

foto dum slideshow
Sanzalando

22 de março de 2009

Pela pitangueira


Se não fosse a minha pequena pitangueira eu não sabia que tinha começado a primavera. É, aqui do lado de cima do trópico me disseram que havia quatro estações do ano e eu ainda acrescento uns apeadeiros para me aumentar a confusão. Mas a minha pitangueira, porque ainda é pequenina não me ia enganar, com umas seis flores me anunciou a primavera.
Fiquei então a olhar para a minha pequena pitangueira e reparei que tinha poucas recordações entre mãos. Tudo só estava na poeira da memória.
E foi então, que olhando para a minha pequena pitangueira que com as suas seis flores me anuncia a primavera, que eu me prometi ter mais recordações sem serem as de memória. Como é que vou fazer isso eu ainda não sei. Mas não vou deixar ficar mal as minhas flores da pitangueira.


Sanzalando

21 de março de 2009

me sento por aqui até me deitar

Me sento junto deste mar que um dia lhe baptizei de zulmarinho. É ele, aliás, que faz a ligação entre mim e o outro lado deste eu que deixei para lá da linha recta que é curva.
Cada vez que aqui me sento, cada vez que aqui te falo, minha pronuncia se modifica num cantar bem diferente que até me perguntam donde é que eu sou. Despercebo o quê deste porquê.
A grande verdade mesmo é que eu aqui me sento com vontade de crescer. Impulso natural que eu acredito que é o principio universal da gente: crescer para ser mais completo. A actividade humana está baseada neste desejo de crescer. Procura mais comida, mais roupa, mais luxo, mais beleza, mais saber, mais prazer. Enfim: mais vida.
Aqui sentado eu medito nestas coisas para me conhecer mais num avançar contínuo e interminável. A verdade é que quando o crescimento pára, vem a inevitável morte.
Por isso continuo sentado aqui a meditar até ao dia que um dia eu vou me deitar, já sem forças para saber mais.

Sanzalando

20 de março de 2009

afinal

Aqui me sento e parece fico na mesma altura que a linha do horizonte. Até lá imagino ladeiras convexas de estradas ignoradas em latitudes disformes. Lhe olho e imagino que ali vai nascer o sol e que noutro lado se vai deitar. Na mesma linha do horizonte.
Ouço o mar, sinto a maresia e me precipito em banhos de inocência, abismos de chamas, prazeres de água exaltada.
Afinal de contas este mar tem destas coisas, faz-me de naufrago apátrida dos teus lábios carnosos, dos teus perfumes carregados, do teu andar jingão.
Afinal de contas este mar me faz mal à saúde. Ou não!

Sanzalando

19 de março de 2009

uma carícia

Olho o mar. Não me parece o mesmo mar de ontem. Está azul carregado de azul. Ondas alisadas pela calmaria. Mas é o mesmo mar porque o sítio é o mesmo e eu não acredito que tenham mudado o cenário assim num dia para outro.
Me sento em contemplação misturado de imaginação, argamassa dum sonho que um dia vai ser realidade.
O que poderia a esta hora estar a fazer no outro sítio, a ver o mar de lá para cá?
Ideia em ideia consegui ver algo de muito belo, num sem limites da mente, uma explosão de amor, uma alegria sem aparente fonte. Enfim, senti uma carícia.



Sanzalando

18 de março de 2009

Mar revolto em banho de espuma

Mar revolto que me trás a calma. Hoje pareces-me verdazul aqui e ali debruado a branco. Revoltado de todo. Eu aqui sereno admiro-te na tua imensa força e grandeza. Num ápice passa-me pela cabeça dar um mergulho. Literalmente de cabeça. Parei a tempo de pensar que há várias formas de me molhar. Metafórica e fisicamente. Gota a gota infinitamente contando cada uma. Assim como havia pensado, num ápice. Prefiro aqui sentado estar a pensar nas múltiplas formas teóricas de me molhar.
Arrefeço porque o vento norte corta-me os raios de sol tímidos de inverno. Imaginar-te desde o aqui sentado torna-se-me um dia duro.
Transfiro o pensamento para a imaginação dum banho de espuma. Esqueço o mundo. Toda a minha tensão se dissolve no quente da água da banheira. Paulatina e deliciosamente, assim numa câmara lenta, me deixo entrar no mundo dos sonhos. Caminho lento por imagens fabricadas na memória. Me deixo envolver num silêncio absoluto.
Afinal de contas fui molhado por apenas uma gota de mar que eu sei veio desde o outro lado para me beijar.

Sanzalando

17 de março de 2009

sentir

Sento-me por aqui. Leio vezes sem conta a mensagem que tenho no telefone. Estou bem, sim. Quer dizer, faz tanto tempo que eu não falo com os amigos que nem eu sei se poderei dizer que estou bem ou não.
Eu sei que a culpa é minha. Disposições mentais. Não falo mas lhes penso. Muito!
Mas hoje a tua mensagem fez com que a minha alma sentisse um arrepio e eu necessite dum abraço para sair desta hipotermia. Hoje fiquei necessitado de sentir a tua beleza no sentido mais básico, mais simples. Hoje precisava mesmo só de sentir o teu abraço carregado de calor.
Sabes, olho o meu anel feito de arco-íris, olho o mar de azul marinho e sinto que preciso sentir-te para me sentir livre.
Abraças-me?

Sanzalando

16 de março de 2009

olhos de mar

Cá estou eu de olhos no mar. Quem me vê deve pensar que eu caminho adormecido nas ilusões dum sonho pincelado de maresia, desenhado em riscos ausentes, apagado de cores, de formas e estruturas. Mas eu tenho os olhos no mar para poder ver as luzes das minhas sombras, contemplar os dias de um ontem projectado num amanhã.
Tenho os olhos no mar para poder dormir sobre o abismo da ausência material na minha alma da harmonia do teu corpo desenhado mulher dos meus sonhos.
Olho no mar porque não tenho olhos cor de mar. Olho no mar porque tenho as minhas lágrimas com sabor de mar.
Um dia, longe ou perto, já não me preocupa, eu vou estar com os olhos de mar, no teu mar e te direi baixinho que vou te amar.
Até lá, com os olhos no mar, eu vou te ver sempre que fechar os meus olhos, sempre que soprar uma brisa de sabor a mar.
Acho mesmo que eu sou os olhos do mar.

Sanzalando

15 de março de 2009

um beijo

Me sento neste mar sem lhe tocar. É, não quero ficar congelado. Fico apenas maravilhado com o seu azul. Azul de mar. Simplesmente assim e assim vou tomando consciência da inconsciência com que tento beijar os lábios do princípio do vazio. Pouco a pouco este mar te vai dando consciência da minha existência, te vai dizendo a suavidade da minha pele, o aveludado da minha ternura e a doçura do meu carinho.
Na verdade, com este mar azul fresco, eu vou sentindo a força para te esperar no automatismo em que a minha consciência toma conta da inconsciência deste amor.
Hoje, não sei se é pela cor se é pela calma deste mar, mas o que me apetece é mesmo compartilhar um beijo contigo, sem importar a distância que nos separa.
Afinal de contas os teus beijos sempre se fundiram em mim.



Sanzalando

14 de março de 2009

Sábado, bicicleta e fotos

Me disseram que hoje era sábado e que eu não tinha que pensar. Foi mesmo assim que me falaram e como eu estou no norte do equador e não muito perto do circulo polar artico, mesmo vendo um sol que até parece doutro lugar eu não me vou meter assim na praia feito festas do mar. Então que agarrei na minha bicicleta que nem carteiro dos antigos e fui fazer quilómetros nas pernas e pedaladas nos insultos aos cães que têm a mania que aquela coisa de duas rodas e um gajo em cima é para trincar. Aí parti feito um campeão de qualquer camisola amarela. Estava a fazer mesmo os quatro quilómetros no conta voltinhas quando eu não queria acreditar que estava a ler o que estava mesmo lá escrito. Me aproximei e como era a subir custou um pouco mais do que os meus olhos queriam e verifiquei que era mesmo uma verdade verdadeira: apenas por motivos. Apenas isso, por motivos e mais nada. E para reforçar a ideia ele também vai estar close. Penso que deve ser pelo mesmo motivo. Agora eu queria ficar a saber tanto que nem eles… era o que mais faltava, estou certo que foi isso que pensou o autor deste quadro exolicativo.
Na minha ignorância lá fui eu rumo ao quilometro desconhecido, que isto de andar por estradas desconhecidas tem destas coisas da gente se perder e lá se foi o planeamento que nunca é grande coisa.
Mais ao menos no dez encontrei o homem laranja que me deu forças para continuar. A imaginação lhe deu para ali assim como uma receita caseira para as dores musculares que me poderiam acompanhar depois de me ter perdido tantas outras vezes que hoje não seria nova admiração. Seria mesmo só uma questão de habituação. Mas na rotunda da Marina lá estava ele, o homem Laranja e a sua simpatia. Lhe conheço faz para aí uns doze anos quando ele ainda parava, antes das obras, perto da fortaleza. Dois dedos de conversa e lá segui rumo à praia do paraíso ou lá onde é que eu fui.
Depois foi o voltar e aí, com uma imperial a servir de combustível. Tinha pedalado uns 45 quilómetros, uma centena de palavras impróprias a canadídeos e aos seus donos proferidas, umas tantas promessas que assim um gajo fica estoirado e coisas e tal. Cheguei e já com vontade de fazer uma outra volta um dia destes.


Sanzalando

12 de março de 2009

perfume

Sento-me aqui de olhos postos no mar e navego nos sonhos desta calma existência. Desde a linha do horizonte, colonizando ideias desconexas, entrecruzando estrelas de difusas latitudes sento-me aqui em busca de novos aromas para a minha colecção de perfumes da memória.
Já senti o perfume da inocência bem como o do calor do inferno, do corpo nu, esbelto ou disforme. Já senti o perfume dos lábios, da saudade, do desespero e da gargalhada. Falta ainda sentir o teu perfume para lhe guardar na arca da alma.
Eu sei que o teu perfume me vem com o mar. Eu é que ainda não aprendi a separá-lo dos pequenos odores que o contaminam.
Sento-me aqui de olhos no mar.



Sanzalando

11 de março de 2009

afinal de contas

Me espreguiço. Me embalo no marulhar sereno deste azul mar. Olho com os olhos de ver longe e não sei se vejo alguma coisa pois os olhos ultrapassaram os limites de ver e assim, num repente, me sinto perdido nos gritos que não gritei bem como nas ruas esquecidas do meu passado.
Me ergo e cruzo os destinos dum presente, dum passado e do dia que há de chegar um dia. Penso que o céu caiu sobre mim após tantas vezes o ter provocado.
Foco os meus olhos de ver ao perto. Verifico que foi apenas um momento de pânico talvez provocado pelos fortes desejos e as fracas vivências.
Afinal de contas os rios continuam a cantar em direcção ao mar, os anjos continuam a voar anunciando as boas novas e os rostos com que me cruzo continuam sorrindo suas alegrias.
Afinal de contas eu estou a ver o mar.


Sanzalando

10 de março de 2009

é o mar

Ouço o marulhar. Vejo o azul ondulado sereno deste meu mar caminho de saudade, espaço infinito de repetições metafísicas, imensidade de tempo em estado líquido. Com isto tudo me apetece dizer as coisas mais belas que nunca ouviste. É o mar. Sempre o mar que me leva ao estado de loucura nostálgica. É o mar que me deixa ver as ilusões dum amanhã carregado de cores garridas e berrantes. É o mar que me leva os sonhos de estar acordado sobre a tua sombra.
É o mar que tempera a mudança dos ventos e marés do humor.
É o mar, meu estado de alma.
Sanzalando

9 de março de 2009

erótico mar


Olho o mar e me deixo adormecer tranquilamente no baloiço do silêncio. Quase podia dizer que sonho num céu estrelado, soprado numa brisa de aconchego.
Num repente acordo como que arrepiado, despertado pelo solilóquio da noite que chega vagarosamente.
Olho de novo para o mar, azul escuro da noite de luar reflecte-se numa esteira que se estende até ao horizonte. Espreguiço-me no olhar distante atirando as mãos até para lá do olhar. Indefeso me defendo das ideias desta noite de romance que me imagino numa sinfonia de carícias, de silêncios e gemidos.
Olho o mar e desejo…


Sanzalando

7 de março de 2009

Sou vizinho do mar


Sou vizinho do mar mesmo quando não sei quem sou. E já agora, de onde venho? Devo ser uma fotografia em papel reciclado tantas vezes que já nem sabe se papel é. Devo ser um satélite que vagueia num espaço cada vez mais largo. Sou e devo ser o que sou na dúvida. Sou um temporal que por falta de tempo não brilha no flash dum relâmpago. Não. Decididamente devo ser um mural já mais apagado que aparenta ter tido mais vida num outrora qualquer. Ou serei ruína duma parede de azulejo. Uma certeza tenho: é que sou, porque se eu não fosse não estaria agora aqui a falar-te coisas brilhantemente baralhadas.
Sou vizinho do mar. Certeza absoluta.
Se eu fosse um compositor sinfonizava para aqui uma ode ao deus dará ritmado na marulhar. Se eu fosse pintor encheria uma tela de azul e chamar-lhe-ia simplesmente mar, como se o mar fosse a coisa mais simples que existe depois de mim. Se eu fosse poeta escreveria um poema em que mar rimaria com todas as palavras do meu dicionário.
Afinal de contas eu sou apenas um vizinho do mar mesmo quando eu não sei quem sou.
Hoje, para além de ti, não sei quem sou.

Sanzalando

5 de março de 2009

sopra o vento


Sopra vento. O meu cabelo de forma rebelde parece que se quer ir embora da minha cabeça. Lhe tento segurar com ambas mãos. Em vão. A areia mais fina da praia vem direita a mim como que a não querer que eu veja o meu mar. Lhe viro as costas como que a pensar numa melhor estratégia para o poder admirar. Apenas ouço o musicar das suas ondas batidas nas areias grossas que persistem em ficar. Hoje me sinto um analfabeto de alma voltada à vida azul do mar, um impresente acabado do silêncio visual.
Sopra o vento como que a querer que eu dê partida deste meu poiso de admiração.
Ouço o mar e sinto ao longe a melodia duma kianda. Tão longe que eu, com este vento e esta luta para me equilibrar, já não consigo saber se é um chamamento ou mesmo só um ambiente de doçura que me imagino na alma, no coração e na vontade de me iluminar quando me sinto apagado.
Sopra vento e não é de doçura.
Já não sei onde pára o meu cabelo revoltado, já não sei como abrir os olhos e azulmente ouvir o mar. Sinto só que sopra vento e não é bom dia para ver o mar.


Sanzalando

2 de março de 2009

Ele calmo e sereno

Aqui estou eu sentado frente ao mar. Ele azul e eu pálido do sol de Inverno. Ele calmo e sereno que nem um lago e eu fervilhando ideias.
Ele e eu num confronto visual.
Apostei pelas emoções. Acreditei nelas. Não me arrependo. Ele sereno e calmo como um lago.
Na verdade ainda não descobri o que poderia ter sido se não o que sou. E ele calmo e sereno que nem um lago.
Apostei forte no querer mesmo quando me apetecia desaparecer. Ele ali calmo no seu azul sereno.
Virei páginas e rasguei passados. Mas ele azul e serenamente ali se mantém calmo.
Eu e o mar trocamos olhares como quem troca pequenos recados de amor.
Ele calmo e carregado de azul sereno.

Sanzalando


WebJCP | Abril 2007