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A Minha Sanzala: Futuro de ontem
recomeça o futuro sem esquecer o passado

15 de março de 2010

Futuro de ontem

Me atiro nos teus braços como se tu chamasses por mim num constante e docemente tempo. Até parece eu sou frágil, folha de papel que voa no vento leste e se amolece na madrugada de cacimbo como se a preguiça fosse um estado de espírito. Os meus braços, sempre estendidos para ti, o meu olhar sempre a ver-te e um desejo enorme de te ter.

Como eu gostava de voltar a ser menino, brincar descalço no alcatrão escaldante que até parece é líquido, esfolar os joelhos, calejar as mãos em trapezismos no escorrega do parque que nunca mais eu conheci um igual.

Mas me recordam sempre que o tempo não é de voltar atrás e as forças já não são mais como é que eram, os prédios grandes ficaram baixinhos que até parece tudo virou miniatura e a criatura que antes pensava duas vezes ver as garinas lá nos lados do colégio agora olha e pergunta como é que ficou assim mais perto, parece o mundo encolheu.

Mas me atiro nos teus braços só por sede de ser abraçado por ti e com vontade de recordar os teus velhos paludismos, tifas e tifos, diarreias e suores que levaram gente que até parece estavam ali por condenação.

Hoje já não tenho os braços esqueléticos de avôs e avós para me contarem as tuas estórias, as suas lágrimas, as suas vontades de nunca desistirem e hoje, por um mero qualquer ruído se atravessa o mar em direcção a outro canto para além da imaginação.


Sanzalando

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