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A Minha Sanzala: Novembro 2010
recomeça o futuro sem esquecer o passado

30 de novembro de 2010

mar chão e eu sereno

Me disseram que o mar quando está assim está um mar chão. Se fosse para dar mergulhos, brincar com ele eu não gostava que ele estivesse assim. Mas como é mesmo só para estar aqui a lhe olhar como quem vê a vida, ele que até me transmite uma calma dum pôr de sol cor de fogo que eu ficava a lhe olhar perdidamente no mundo.
Me olho e vejo a minha cara reflectida num sonho adiado, olhos tristes mesmo de sorriso nos lábios, face carregada mesmo disfarçada atrás duns óculos.
Me olho nos olhos do reflexo e me vejo por caminhos ilimitados, percursos que nunca fiz, trajectos que nunca pensei, abraços que guardei ao longo dos anos, palavras que silenciei sem saber bem o porquê. 
Aqui, frente ao velho mar sempre mais novo me aborreço a sonhar os sonhos que sempre adiei e que agora choro por um pôr do sol cor de fogo.
Em cada ruga da cara sinto um grito desesperado de despertar e em cada onda que me disforma o reflexo vejo-me cantando e dançando canções que inventei.
Mar chão e eu sereno a olhar-me num espelho ondulado.

Sanzalando

29 de novembro de 2010

capa invisível

Caminhei debaixo de água, da chuva é claro, e continuo seco. Dancei debaixo da chuva e continuo seco. Talvez na cara se note alguma coisa, mas não sei se é da chuva se são as lágrimas que choro. Talvez eu tenha um invisível impermeável a me proteger. Talvez eu tenha uma capa, que não saiba, que não me deixa molhar. Será que hoje se eu entrar nesse mar eu vou me molhar? Ele está com ar de quem está doidinho por o fazer. Mas só entro nesse mar quando tiver força para lhe caminhar até para lá da linha horizontal que me separa do outro lado e esse dia não é hoje, porque ainda não tenho a força. Mas se eu me conseguir molhar eu vou conseguir ter força. Deixa só eu conseguir tirar essa invisível capa impermeável que me separa da chuva e vais ver que eu fico que nem super-homem da minha infância, que nem homem elástico da minha magreza de outrora.
Como continuo seco vou só olhar esse mar que hoje está cinzento porque tem filtro de chuva na frente dos meus olhos e desbundar na minha imaginação das matinés dançantes do Clube Náutico e o conjunto do Ferrovia com o Sr. Matos e o seu trompete a dizer quando começa e acaba a música. Vou dançar com aquela garina que me ficou colada na retina. Se ela desta vez consentir que eu me aproxime dela, é claro. Vou beber um copo com o Beto, outro com o Manel e outro com o Ferras. Mas não me vou deixar aquecer para que ela não veja que eu bebi para me esconder da sua dessimpatia para comigo. Vou só desaguar a imaginação pelos caminhos todos que fotografei na memória e deixar que essa chuva me molhe mesmo que não seja porque a capa se cansou de me proteger.

Sanzalando

28 de novembro de 2010

Domingo sério não tem título

Hoje é dia de assunto sério. Não fui ver o mar porque não me apeteceu. Hoje não era dia para, como se diz, estar aqui a derramar saudade, pintar nostalgia em aguarelas de lágrimas. Hoje mesmo, Domingo, em que de pantufas apetecia estar, sentado a uma lareira a ouvir uma musiqueta, ler um livro ou apenasmente dialogar com a sorte de poder fazê-lo. Mas não. A irrequietude da juventude que vai passando nas folhas dum calendário me arrastaram para fora da cama na madrugada dum Domingo de sol, que foi de pouca dura. Madrugada, modo de falar num domingo de nada fazer. Mas a verdade é que o sol brilhante, mas fraco, convidava a dar um passeio na minha fiel bicicleta. Equipado a rigor, de capacete, bem agasalhado, lá fui sem destino traçado que andar à bolina do acaso tem mais piada.

Como é hábito, sempre que vejo uma estrada que nunca tinha reparado é por aí que sigo. Às vezes bem me arrependo, porque depois duma curva ou dum telhado ela sobe que nem minhas pernas choraminguinhas aguentam o esforço. Mas é assim e eu vou fazer mais como então. Mas entrado numa dessas estradas olho para a paragem do autocarro e fico a saber onde estou. Melhor que qualquer GPS. Olho bem para ver se os meus olhos estão mesmo a ler o que lá está escrito. Sim senhor, estou em Olhito. Se por acaso alguém me telefonasse naquele instante e eu dissesse onde estava... deviam pensar que eu tinha pirado outra vez de vez. Não, não. Pirei só uma vez e não tem cura, não se preocupem. Mas em Olhito encontrei uma rotunda que ninguém lhe atravessa a direito. Tem monumento ao Caterpila e ao Calhau. Está documentado que eu não sou de inventar. Porque até a rua, como uma seguinte paragem do autocarro, ou será camioneta, diz isso mesmo para confirmar.
Mas ainda não contente com este passeio lá fui pedalando, não me venham dizer que é sempre a descer, porque a terra não é um quadrado e eu tenho de voltar ao lugar de partida .

Na verdade fui por estrada de terra batida, melhor dizendo, por caminho de lama e bué charcos para me salpicar de lágrimas de terra pelas costas e não só, um pouco mais abaixo também.
Almoçado uma moamba num restaurante afamado da cidade, que por acaso hoje até estava muito boa, embora só conhecesse esse prato no início da saudade, que eu não sou mentiroso e lá eu não comia isso nem me lembro de lá em casa alguém falar dessas coisas menores... fui ver a bola. Sim, esse desporto onde andam a dar pontapés naquela coisa redonda que salta e se gritasse com os maus tratos que às vezes sofre, estávamos todos já surdos. E o jogo não acabou porque acabou a luz do Estádio assim num repente em que estávamos a ganhar e tudo. Amanhã tem que se repor o tempo que falta e eu terei que ouvir a Imaculada sabedoria do Mestre da bola, o Sr. Ricardo Sá Pinto, que sempre pautou a sua vida por comportamentos exemplares, segundo me gritou aos ouvidos, porque alguém lhe chamou de mentiroso. Coisas da bola num Domingo em que por ser sério não tem título. É apenas Domingo


Sanzalando

27 de novembro de 2010

olhar para dentro

Recolhido, junto à beira mar, mas escondido do vento e da chuva miúda que teima cair, apenas para me molhar num incómodo mal estar, fecho os olhos e olho para a minha alma. Tento fazer contas. Quantos anos de mim já estão no cemitério do passado em relação aos que têm esperança de ser vividos? Ah, este olhar para dentro, esta aritmética desassimétrica em que me encontro, faz com que o futuro seja uma luz brilhante, cintilante que não sei a que distância está. Ah, dúvida!
Mas olhado para alma com um olhar sempre diferente encontro-me cada vez dum forma nova, num sonho sonhado e tantos por sonhar que penso que não haverá dia em que a simetria atinja o seu expoente máximo. Se houver será injusto. 
Que diriam os meus amigos se eu não aparecesse aqui um dia para olhar o mar num eternamente? De acordo comigo diriam que era injusto. Os meus sonhos que ainda não foram revelados ficariam para sempre perdidos, o que acho para eles seria injusto. As minhas memórias que ainda não me lembrei ficariam para sempre soterradas no esquecimento das minhas cinzas, o que eu não vejo que fosse úteis para elas e portanto, seria injusto.
Mas na verdade não tenho que olhar para alma mas sim para o mar e ver o azul reflectido nos meus olhos castanhos, como castanhos eram os dela.


Sanzalando

26 de novembro de 2010

não me apetece ver o azul

Ouço o mar mesmo estando sentado de costas para ele. Hoje não estou com vontade de ver o azul dorido das minhas lágrimas ali estendido. Optei apenas por tentar ouvir as kiandas e os seus cantos que me dizem enfeitiçam as almas até dos não crentes. Mas mesmo assim vejo o mesmo raio de luz que me entra na alma faz tanto tempo. É o mesmo raio, mas de forma diferente. Hoje faz-me sentir feliz mesmo não estando a conseguir ouvir o canto da kiandas. Mas este raio de luz deve de ser feiticeiro. Só pode. Deve ser a luz dum anjo, apaixonado duma kianda, que me trás essa luz toda. 
As gotas de chuva que tentam cair no chão desaparecem quando atravessam o meu raio e este dia de chuva até que parece é um dia de sol. Na minha alma é. Eu consigo ver de imagens de memória o teu sorriso de lábios grossos nessa tua boca de gente fina, o teu porte altivo sombreado na tela de chuva até que parece és mais alta. Mas hoje não me apetece ver o azul e está a passar um filme colorido na minha memória. Tem dias que uma pessoa tem é sorte e o brilho do ar faz esquecer o frio, qualquer frio, até o dos dias de cacimbo em que eu dizia para mim se ela olhar para trás é porque me gosta. E ali parado ficava a ver se te voltavas e nunca voltaste. Mas isso foi outro filme que não entra na tela do cinema de hoje.
Hoje só não me apetece ver o azul das minhas lágrimas espalhadas nesse mar.

Sanzalando

25 de novembro de 2010

ai, tanto mar

Percorro o mar com olhar como quem procura a solidão, o falso silêncio e o tempo certo para meditar. Queria pousar o meu olhar sobre ti, embelezar a minha memória numa pauta de palavras quentes, ao mesmo tempo doces, eternamente apaixonadas. 
Talvez com um pouco mais de esforço meu, eu consiga ouvir os teus pensamentos e aquecer-me no teu olhar. Procuro ver mais além, o pormenor, a frase que penso que disseste mas esqueci a musicalidade da tua voz. Aqui na solidão, falso silêncio, tento esquecer tanto ontem que tenho e substituir por muito amanhã de esperança.
Lembras-te dos filmes que vimos? Recordas-te dos passeios que demos? Tenho tanto medo que tudo fique numa vaga lembrança e amanhã eu acorde e já nem me lembre quem sou.
Procuro ver-te no brilho do mar ao mesmo tempo que a maresia me trás o teu perfume de sabor salgado.
Ai, tanto mar.


imagem da internet
Sanzalando

24 de novembro de 2010

sorrio porque sim

Daqui, onde chove frio que entranha nos ossos e estala a alma de tanto se arrepiar, atiro os olhos e cravo o meu olhar para lá da linha horizontal que nos separa ao mesmo tempo que regressa o sorriso à minha cara fechada.
É fim de tarde, fim de dia num entardecer triste mesmo para o mais alegre. É cinzento gelado carregado de escuridão trazida pelas cinzentas nuvens que me tapa o céu que imagino esteja por cima delas. Mesmo assim sorrio porque consigo ver de memória as imagens que tenho de quando calcorreava a cidade, a esta mesma hora, para tantas vezes quantas as possíveis eu me poder cruzar contigo no teu passeio diário de fim de tarde em família. Sorrio, porque me lembro dos amigos que me esperavam sentados na esplanada do café para irmos ao perde paga numa mesa de bilhar perto de nós. Também sorrio porque me lembro de imagens, que não tenho, as tardes passadas na discoteca, quando esta mais não era que uma modesta casa de ouvir música, ao lado de amigos em qualquer dia da semana.
Sorrio porque nunca imaginei que um dia podia estar a imaginar todas estas relíquias do meu tesouro memorial.


Sanzalando

23 de novembro de 2010

vento

Que sei eu do vento? Nada. Eu não sei nada do vento, tirando o facto dele me despentear, me irritar quando me tenta atirar para trás quando quero caminhar para a frente, quando grito e o seu silvar não me deixa ouvi o retorno da minha voz.
Nada sei do vento. Não o vejo. Sinto-o e irritantemente aborrece-me.
Quando sopra do mar, traz-me o perfume da maresia e o calor de lá de longe que me afaga numa carícia que ninguém vê mas sinto.
Que sei eu do vento? Pouco mais que um nada. 
Hoje venta pelos meus lados. Me despenteio, me irrito e não sopra vindo do mar.
Hoje é mesmo só um vento irritante que me apaga as palavras que não me ocorrem ao cérebro.
Afinal de contas, hoje é só um dia irritante que por acaso está com vento.

imagem da internet
Sanzalando

22 de novembro de 2010

Era manhã cedo

Me sentei era manhã cedo a ver o mar. Me deixei embalar nos sonhos e imaginações, naveguei por caminhos outrora conhecidos, bolinei por ruas de gente que ri, saltitei num compasso de malhão malhão por entre ideias e certezas, fotografei de memória rostos que conheci e me esqueci do tempo e das palavras. Brindei-me na solidão de poder estar em silêncio e cantei calado canções do tempo em que eu não olhava para ti porque estava ocupado em ser criança.
Me sentei e me esqueci de falar, comigo e contigo. Me esqueci completamente quem era e quem eras. Me embalei perdido num festim dum qualquer campo de terra batida e amareleci num adormecer poeirento de nostalgia sem sentir saudade. Recordei a menina ruiva que de vez em quando descia de serra, a morena alta do cimo da serra que não descia a montanha para vir ver o mar, da menina do mar que nunca soube se subia a serra para ver mais além. Recordei o amigo, vizinho e traquinas, o loiro e o moreno, o gordo e o magro, o alto e o baixo, o simpático e o ruim que nunca deixou eu lhe aproximar.
Me sentei e me embalei a ver o mar e me esqueci de falar.


foto da internet
Sanzalando

21 de novembro de 2010

me sento por aqui

Me sento por aqui, numa beira mar imaginária, tentando libertar a alma do peso da memória e renascer para uma vida simples, descomplexada, como nos tempos de criança em que de pé descalço calcorreava ruas e vielas ao som dum amor platónico identificado na marca dum carro.
Me sento por aqui, cansado de sacrifícios inconscientes e tantas vezes passados despercebidos, até por mim.
Me sento por aqui, ouvindo na memória o mar, e procuro entregar-me com toda a alma a um amor de páginas em branco, sem passado, sem os demónios e glórias dum passado que não me lembro se o vivi. Me sento com a alma escancarada, sabendo apenas que existe céu e o horizonte, que o mar é um caminho, que a terra outro, e que entre nós apenas existe tempo.
Me sento por aqui, neste már de imaginação, tentando equilibrar o espírito e disfarçando com ondas de esquecimento as cicatrizes que escrevem-me o futuro.
Me sento por aqui, neste mar que te refresca, à espera dum entardecer que não chegue tarde demais.

Sanzalando

20 de novembro de 2010

acho adoeci sem estar doente

Acho que já pus a mão na testa umas cinco vezes para ver se tenho febre. Me arrepio e depois tremo num constante delirar de sonhos que me lembro de nunca ter sonhado. Sinto o cabelo revolto como se não me penteasse faz mais que muitos dias, sinto olheiras como se não dormisse há mais que muitas noites e tenho a barba crescida como se me tivesse esquecido de a fazer logo pela manhã de dias lá para anteontem. Acho que estou doente, acho que deliro palavras que não entendo, acho que quero voltar à casa onde nasci e sem ajuda do cajado ou bengala. Quero caminhar sem pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo. Estou doente apenas por isso. Mas nada tenho fisicamente porque febre não tenho, os olhos não estão nem amarelos nem as olheiras estão acentuadas e o corpo não está enfraquecido. São delírios, apenas isso. Talvez necessite dum afago de mão amiga, talvez precise de apagar o fogo do espírito explosivo de tanta nostalgia.
Acho que deliro na palavra que não pronuncio faz mais que muito tempo. O teu nome!
Calo-me com medo que o gaste ou te afaste definitivamente nesta fronteira de mar que me embala nos sonhos que sonhei.
Acho que adoeci porque não me viste crescer e porque o teu nome nunca me saiu do coração.
Me arrepio e deliro em ser criança outra vez esquecendo o cabelo grisalho e as faltas de memória.

Sanzalando

19 de novembro de 2010

vou em direcção ao mar

Vou em direcção ao mar. Ainda não lhe vejo nem lhe ouço mas sinto-o. Acho eu. De tantas vezes fazer este caminho já não sei se os meus passos caminham num carreiro que já deve estar gasto ou se cada dia invento um caminho novo. Baralho-me pela repetição da memória martelada até a exaustão, confundo-me com a ansiedade de ver amanhã que não é o hoje que eu vi ontem, tropeço no esquecimento das palavras que não soletrei. Vou só mesmo em direcção ao mar porque ele fica a sul. 
Foi pertinho do mar, me recordo como fruto da minha imaginação, que te dei o primeiro beijo. Único? Que importa, se o que interessa é que eu dei, mesmo que seja só de fingir. Sei que foram beijos de silêncio. Com aquela idade eu ia dar mais beijos como? Mas importante é que eu me lembro, mesmo que seja uma memória recente que nem meio século tem. Ou tem? Já me está a faltar memoria? Não. É só mesmo lapso que a minha garganta de tanto falar já tropeça nela mesmo.
Mas vou em direcção ao mar porque é no mar que tenho as tuas cartas escritas na letra mais audível da minha imaginação. 
Mesmo cambaleando sigo como sigo quase todos os dias a ver o mar. Eu acho fui feito no mar mesmo que tenha nascido lá em cima que até dá vertigens. Mas no mar eu me sinto eu.

Sanzalando

18 de novembro de 2010

hoje até que fez sol

Hoje quase preciso de fechar os olhos para ver o mar. Esse sol parece que chegou de lá aqui só mesmo para ficar de frente para mim e me impedir de olhar para longe, para além da linha do horizonte, que é uma curva que divide o visível do imaginário possível.
Me esforço e com as mão fazendo uma concha eu olho para lá e desconsigo ver para além do brilho reflectido no mar. Minha memória fotografou a imagem e, já sentado, me deixo embalar em mais um sonho que um dia vai ser realidade.
Estou em tronco nu. Me imagino ao teu lado. O marulhar é o mesmo que o marulhar do teu mar. O perfume de maresia é o mesmo que o teu perfume. O calor faz de conta é o mesmo, mesmo que eu esteja aqui num parece que tenho pele de galinha depois de depenada. Mas aqui eu eu estou aí e mais não quero nem saber. Me deixo só embalar em mais um sonho que faz de conta é um sonho de amor eterno que demora uma eternidade até começar.
Sai da frente ò nuvem que assim ainda vou conseguir abrir os olhos e depois já não vai ter o mesmo sabor este sonho.


Sanzalando

17 de novembro de 2010

te admiras

Te admiras se eu te disser que estou a ver o mar? Sim, eu estou sempre a ver o mar, já que ele é a fronteira que nos separa ao mesmo tempo que é a ponte que nos une nesta vida que nos espera. Foram-se os dias de calor do lado de cá, resta-me a consolação que ele está aí, do lado de lá.
Talvez um dia, de tanto olhar o mar eu consiga correr sobre ele e marear até te abraçar. Aí não terei frio, nem me chorarei lágrimas de tanto mar. Talvez transpire de cansado ou de ansiedade. Talvez um dia eu já não precise de ver o mar e ter-te numa constante incógnita de ser presente.
Te admiras de estar sempre a ver o mar. Afinal de contas ele é o meu lar, lugar onde moram as minhas kiandas que nos sons de marulhar me embalam nos sonhos de acordar.
Aqui perto do mar estou como se estivesse em todos os lugares do mundo. O vento me trás notícias, a chuva me limpa o olhar, o marulhar me embala e o ondular me encanta.
Aqui perto do mar estou contigo.

foto da internet
Sanzalando

16 de novembro de 2010

sento-me ao pé do mar

Sento-me ao pé do mar como se tivesse aberto uma janela, atirado para o lado todas as cortinas e conseguisse ver mais além do que a vista alcança. Foi um sentar assim abrupto, como quem atira as persianas para o lado como que com falta de ar. Á minha volta se encheu de luz, o ar limpo pela chuva acabada de cair deu-me uma visão mais profunda, mais perfeita como se eu estivesse a ver pela memória, já com todas as impurezas atiradas para o canto do esquecimento. Eu sentado perto do mar a ver o futuro, parte de mim que nem eu conheço ainda, a sentir a tua brisa, cheirar o teu perfume, acariciar a tua suavidade e sussurrar palavras que nunca soletrei.
Sento-me ao pé do mar e paro de respirar com medo que o tempo acabe, que o sonho termine ou que a ilusão caia por terra como um raio de luz se absorve na escuridão da noite longa da insónia permanente.
Sento-me ao pé do mar e vejo com os olhos fechados as manhãs de domingo em que, por ser cacimbo, vestia a roupa mais nova e lavada e procurava na cidade ver-te no tempo.
Sento-me ao pé do mar, olho para cima como quem olha para lado nenhum especial e vejo o tempo que esgotei a escrever tantas palavras na memória e que nunca tive oportunidade de te dizer.
Sento-me ao pé do mar e olho para ti como quem vê a eterna juventude.
Sorri porque estou sentado ao pé do mar com os olhos em ti.

foto retirada da net
Sanzalando

14 de novembro de 2010

apenas passeando

Passeando nos caminhos cruzados da vida, ouvindo o mar num marulhar suave de quase embalar e saboreando o sabor salgado que apalada o ar me apetece gritar que quero voltar a agarrar a bicicleta e pedalar, sem travões, até lá para os lados do Forte de Santa Rita e achar que percorri metade do mundo porque não sabia ainda que o mundo era maior, que quero estar no tempo aparentemente morto da vida em que a gente pensa que tem um tempo infinito pela frente, que quero ter tempo para rir até doer a barriga como acontecia quando não sabia metade do que sei hoje, que quero saber jogar à bola na rua mesmo que ela seja uma subida e eu só jogo porque sou o dono da bola, que quero estar em dia com a vida que se vive dia a dia, que quero que tudo seja como eu quero que seja e que os outros para lá dos meus olhos não sabem nada.
Afinal de contas, caminhando, tento não me esquecer de mim, de fragmentos de mim, de memórias de mim.
Passeando, quero estar cansado para saborear o repouso de pensar em ti, do outro lado do mar.

Sanzalando

13 de novembro de 2010

52 - Estórias no Sofá - ainda sou criança

Por aqui, onde o mar acaba, sentado ao frio e ao vento, me deixo embalar no vai e vem das ondas e me ponho a recordar.
- Mas porque pensas tanto?
- Para sorrir, por ter estórias, por ter vivido e ainda por cá viver... - digo isto ao mesmo tempo que faço a cara mais séria que consigo, porque para mim é assunto sério e sei que .. que perguntas estás seriamente a pensar no que perguntas.
- ... consegues fazer-me rir. Não sei quando estás a falar mesmo a sério ou quando te deixas levar pelo humor...
- Sabes, penso muito no tempo em que as coisas eram decididas ao pim pam pum, ao pé, quando a gente punho um pé à frente do outro e o adversário fazia o mesmo e depois sobrava um espaço que quando não cabia o pé perdia.
- ...
- ... e penso também quando a gente não gostava de como as coisas estavam a correr a gente gritava assim não vale e pronto acabava ali.
- Mas que te vale estar a pensar nisso nestes tempos em que a barriga agora pesa mais do que pesavas todo inteiro antes?
- Se a conversa não me estivesse a agradar eu te dizia agora 'vamos começar outra vez?' e começávamos tudo de novo e o assunto seria futebol, política, mulheres e maridos e coisas de sei lá mais o quê que agora não me dizem nada.
- Mas tens de viver o presente!
- Quem te disse que não é este o meu presente? quem te falou que não é com essas memórias que consigo viver esse coisa que chamas de presente? Pensar nos castelos de areia que fiz na praia quando ainda não tinha altura para andar no carrossel e o mar me destruiu tudo num maremoto de onda curta não é estar a pensar nas coisas más que me acontecem na vida? Aconteceram e ainda aqui estou.... Falar do amigo que foi embora para perto duma estrela que a gente só vê na noite de insónia não é estar com os amigos do presente que podem esquecer a sombra?
- Tou preocupado contigo...
- Despreocupa só. Lembrar as brincadeiras em que para salvar os amigos todos bastava tocar no coito bem delimitado da inocência infantil não estar a viver as peripécias desse presente que te enruga em cada segundo? Poder 'dizer tu não és capaz' para desafiar um amigo a fazer uma coisa que ele afinal tinha era medo não é ajudar a enfrentar essa coisa que é o agora?
- Bem... Vamos fazer mais o quê para além desta conversa que me está a pôr que nem doido?
- Como vês, consegui fazer-te recordar a tua idade de criança, o tempo em que eras feliz, em que não necessitavas mais do que ter amigos... Eu estou sempre a pensar nos amigos, na felicidade e na capacidade de sonhar amanhã com as imagens de ontem. Não deixei de ser criança, ainda.

Sanzalando

12 de novembro de 2010

Por aqui, choro

Por aqui, olhando para lá, quase vendo o imaginário mundo que anseio penso mil ideias para falar-lhe. Lanço-lhe reptos, discurso agressivo, caricias meigas numa misturada de sentimentos que alguém que fosse testemunha ia dizer que eu enlouqueci.
Por aqui, olho para lá, do outro lado do horizonte, onde a minha vista não consegue quase imaginar onde fica e onde a memória se vai apagando num suave esbater de tempo, eu já não consigo lembrar-me as tantas palavras que escrevi no pensamento para lhe dizer.
Por aqui, olhando para lá, procuro as minhas profundezas, importantes e vitais, essas que poderiam levar a um desenvolvimento do meu estado de espírito até atingir o clímax, se evaporam em nadas, em voz branca desbotada, em eco surdo sem memória.
Por aqui, olhando para lá, choro uma ou outra lágrima sem que ninguém veja e espero sempre que num amanhã eu consiga ver o mar ser o meu caminho. Não é uma viagem para fugir da vida, não é o transportar o meu corpo para outro lugar. É a mudança mesmo! É voltar a encontrar-me à minha maneira.
Por aqui olho para lá.

Sanzalando

11 de novembro de 2010

Parabens Angola - 35 ANOS


Parabens ANGOLA pelo 35º Aniversário

foto de 

© Eric Lafforgue

www.ericlafforgue.comSanzalando

olho o mar

Olho o mar. Sereno como se fosse um campo em repouso. Sopra uma brisa, apenas para me trazer o perfume da maresia, apenas para me dar uma cor à solidão. Apetece-me escavar um túnel, caminhar sob o mar e chegar lá longe onde o calor deve estar a apertar. Chegado daria abraços, distribuiria carinhos e sorria num não parar como sorria quando era criança.
Olho o mar e me deixo levar na fantasia de que um dia poderei alcançar o outro lado, apenas com um esticar de braços.
É o poder do delírio, desta febre que não tenho, desta doença que não sofro, deste amor que sinto.
Olho o mar e me deixo navegar por ondas calmas duma imaginação que quer que esteja ali numa outra margem o mundo que sonhei acordado enquanto olhava o mar.
Na areia desenhei uma clave de sol. Tentei rabiscar notas de música numa escala que nem um surdo seria capaz de ouvir. Eu que tenho ouvido estrábico num olhar surdo de saudade tentei cantar uma balada em ritmo de samba e saiu uns grunhidos que quem me olhou me atirou fogo no olhar. 
Olho o mar e ele agora pereceu-me uma parede de pesar.
Olho o mar e choro por chorar com vontade de escavar um túnel e zarpar.


Sanzalando

10 de novembro de 2010

Chuva no mar

Me deito aqui a ver a chuva que cai sobre o mar e me pergunto o que esconde o mundo para lá daquele farol.  Eu não fui nunca mais além do daqui, nunca aproveitei as minhas asas para voar para além dali. Fico aqui a ver o mar ser molhado pela chuva e me deixo levar no vento da imaginação as imagens que guardo e as que já não sei se são reais ou apenas memórias de imaginações. Me deito aqui e sobre uma almofada de ideias deixo cair as pestanas num sonolento vaguear por mim. Ela, as imagens que tenho dela, as ideias que me sobram dela, a voz que não sei é dela e que me chama num alucinado ouvir de apenas eu.
Me deito aqui, deixo o tempo passar por entre os dedos, sem medos que um dia eu vá dele precisar.Vivi-o mesmo que tenha sido num tempo imaginário duma realidade que não teve lugar. São sonhos, são memórias, são imagens. Já fazem parte de mim, mesmo que eu as perca no esgotado tempo que um dia vou ter. Heranças que herdarão aqueles que estiveram comigo quando eu estava mergulhado num banho de solidão. 
Aqui deitado, vendo chover sobre o mar, vivo as memórias que sonho, que são reais, que imagino e as que invento. São essas que me fazem companhia, me acariciam e me embalam no cair da noite alta quando tapado com os lençóis da nostalgia.
Me deito aqui a ver o mar ser molhado pela chuva e o meu rosto pela escuridão.

Sanzalando

9 de novembro de 2010

Geladamente ao frio

Vestido como quem vai em expedição a um dos pólos, me sento à beira deste mar daqui, que está muito diferente do mar de lá. Nota-se mesmo neste uma cor azul gelada enquanto no de lá deve estar um azul que até apetece se atirar num mergulho estilado. Mas como cada um tem quem lhe merece, me eis aqui a ter-me aqui, na clandestinidade do pensamento em lá. Há assim um amor descompromissado, uma paixão sem limites uma estar junto sem obrigação física.
Vestido como quem vai num dos pólos me deixo levar nestes encontros vulgares, onde me esqueço onde termina o mundo real e começa o imaginário. Aqui me embalo numa descida vertiginosa por vales de dunas, por cruzamentos casuais da vida desértica, por vertentes abruptas da coerência arenosa da solidão.
Vestido como se já estivesse num pólo, me enrosco neste sabor a mar gelado e me deixo levar na vulgaridade de ser um apenas eu, que encalha palavra em palavra, num lacrimejar de frases soltas escritas na voz de quem chora.
Gelado, cabeça ao vento me arrefeço na nostalgia de ser quem fui outrora e sorrio porque agora sou mais bonito, mais vazio, mais muito mais, sendo que este mais mais não é que um ponto imaginário dum restaurar de passado presente com futuro.

Sanzalando

8 de novembro de 2010

fotografei

Não me apeteceu escrever. Vasculhei no meu arquivo fotográfico e encontrei. A pequenez bonita dum fungo. Hoje ficou assim.

Sanzalando

7 de novembro de 2010

se chovesse

Talvez se estivesse a chover eu não sentiria esta impaciência visceral de desatar a correr mar adentro e beijar-te num escaldante beijo de verão, ou esperar o pôr do sol e retratar-me contigo e ele em pano de fundo numa fotografia de qualquer cartão postal ilustrado.
Talvez se estivesse a chover eu não sussuraria em silêncio versos de amor que nunca escrevi e estaria a olhar a janela e ver a água a escorrer pelos vidros como uma qualquer águarela.
Talves se estivesse a chover eu estaria a esculpir desejos de sol numa qualquer pedra do meu sapato.
Talvez se estivesse a chover eu choraria por nada.
Mas não chove e eu venho aqui olhar o mar e ver se ele me leva num embalado sonho ainda não realizado, pelas escadas da vida, encruzilhada de quereres e misturada de sensações.
Me deixo no desejo de chuva a olhar por uma janela que mostre a tua rua e tu a passeares por ela.


Sanzalando

6 de novembro de 2010

transporte-me, imaginação

Por aqui vou ficando, ouço o mar, sinto-lhe o sabor salgado de algumas gotas que salpicam quando ele bate nas rochas e vou queimando o tempo, gastando a ausência. Menos um dia. Pareço mais um prisioneiro de mim riscando os quadradinhos dum calendário imaginário do que um passeante à beira mar. Mas a imaginação não me escolhe outro tema e teima em pensar em ti. Eu obedeço porque não quero loucar num louco grito de raiva. Podia estar a plantar rosas, mas não sei se é época delas agora. Podia estar a grafitar paredes imaginárias se tivesse algum jeito para o desenho e pintura. Podia estar sentado bebendo uma ou outra cerveja geladinha numa qualquer esplanada da mima memória mas a verdade é que não está calor para isso.
Com tantos podias e eu sigo a areia da praia num vai e vem como o mar que me acompanha num paralelo afastado.
Poderia libertar-me do corpo e deixar-me navegar pelas ondas da imaginação até um lugar distante sem ter de estar a fazer comparações e equações. Mas na verdade não estou. 
Aqui, apenas ouço o mar e lhe sinto o sabor salgado no tempo que gasto.
Chorá-lo-ei um dia? Não, jamais teria coragem de chorar por ter usufruído da imaginação, esse meio de transporte que me leva onde eu quero estar. Não, não tenho tempo a perder com coisas superficiais. Deixem-me viajar em mim escrevendo em voz alta.

Sanzalando

5 de novembro de 2010

o universo é que é grande

Olho o mar e me sinto pequeno no universo. Deve ter sido por isso que os outros lá no Egipto construíram as pirâmides, outros constroem torres, outros destroem torres e eu aqui, insignificantemente a olhar o mar e a pensar que o amor alimenta. 
Certo certo é que o amor delimita as minhas fronteiras, marca os meus domínios, destinos, pensamentos e sonhos. Mas é o amor a minha pirâmide, a minha torre e o meu monte de destroços, as minhas horas vagas, o meu estar calado num sentimento de espera.
Eu sou um pouco mais que um quase nada, uma imagem despigmentada traduzida num ponto qualquer do espaço minúsculo da minha presença, o ar dum suspiro, a gota do mar que bate na rocha e salpica num evaporado borrifo de nada.
Eu sou pequeno. 
Afinal acho que o universo é que é grande. 

Sanzalando

4 de novembro de 2010

despudor

Descalço-me de preconceitos e caminho na areia da praia aproveitando um sol que não sei a qual estação pertence. Mas como me disseram que o sol é de todos e ainda a gente não paga para lhe usar, com moderação porque senão sai caro, eu lhe aproveito e imagino estou do lado de lá, que deve estar a chover, só para lhes irritar, estando eu do lado de cá a vagabundear ideias soltas.
O marulhar hoje é quase assim não ouvido, é mesmo só sussurrado. O mar, me dizem que eu dessas coisas desentendo por completo, está chão. Deve ser por isso que às vezes a gente anda por cima de chão flutuante. Me distraio tentando pisar as pegadas doutro que passou aqui antes. Ele tinha passos largos, o que me está a cansar esticar assim as pernas. Vou neste pisar pé doutro, desabrochando o meu pudor com pensamentos de antes de não sei quando, que é assim num quase já não me lembro, e reinvento o meu corpo de quando estava contigo. Ossos e pele, pouco mais qualquer coisa que inteligência não tem peso. Dentada em dentada arranco a roupa do corpo, maneira violenta de dizer que me vou despindo, até ficar num tronco nu e que agora já não sei onde é que está o osso. Já não estão á flor da pele. Agora são os nervos que é coisa mais moderna. Aproveito ao máximo o sol. Descaso e caminhando eu não sinto que ele queima e assim não vou ficar cor de camarão, como os da serra quando vão ver o mar na sua colónia de férias.
E assim passei o meu tempo num delírio despudorado.

Sanzalando

3 de novembro de 2010

Por aqui procuro

Como sempre, me sento por aí, algures perto dum mar de mim. Desconsigo ver o mundo, o meu mundo, sem um mar ao lado. Tento fugir-lhe e ele não me sai da memória, por isso faz tempo que não insisto. E por aqui sentado me deixo partir em viagens, às vezes com destino e outras muitas apenas com desejo. Fixo, é claro. Já pensei deixar de falar-me dessas viagens mas não consigo, tal como o mar, é uma fixação. Por isso já não me contrario, já me deixo embalar sem travar o pensamento.
Por aqui sentado adormeço num acordado viajante, e me embalo por ruelas povoadas de cigarras que interrompem o canto à minha passagem. Desvio-me de umas muitas poças de água duma chuva que mentalmente me inundou. Procuro um arco-íris, procuro o canto alegre duma moça enamorada que distraidamente cante à janela a sua paixão, procuro o velho mais velho que me conta uma estória da sua memória, procuro o teu rosto numa sombra ou desenhado numa das muitas nuvens por agora me abundam no céu. Procuro vagamente é por mim, sentado num passeio a assobiar uma música dos Osibisa, a banda afro-rock caribenha de Inglaterra, enquanto penso nela e me deixo rebolar num contorcionismo que a minha idade já não suporta.
Como sempre aqui sentado, parto e não chego a lugar nenhum.

Sanzalando

2 de novembro de 2010

Dia de Finados

Eu hoje queria opinar mas toca a ser dia de finados. 
Passaram-se 5 anos em que fui visitar a campa do meu pai no cemitério do Namibe. Com a ajuda de desconhecidos, que num momento de, para mim, grande solidariedade, nos ajudaram a limpar, a dar um ar de dignidade àquele que para mim foi um grande Homem, que é para mim o meu Herói.
De lá para cá pouco mudou na mentalidade dos grandes senhores, dos que já eram, dos que passaram a ser, dos que pensam que são e dos que por muito que tentem não conseguem lá chegar mas continuam a dar ar da sua graça.
Hoje, Dia dos Finados, que alguns dizem dia dos Santos Finados, talvez porque se viram livres dalgumas espécies que lhes faziam a vida negra, ou, porque eram mesmos santas pessoas e lhes sentem muito a falta. Afinal de contas há finados para todos os gostos.
Depois de se morrer é que alguns vão definir bem quem era o morto antes desse consumado acto de morrer ter acontecido. Grande Homem ou Mulher que aqui o sexo não interessa. Uma peste, foi uma bênção dos deuses e afins, tudo se pode ouvir. Mas para a mesma pessoa existirão opiniões tão diferentes que é melhor mesmo a gente deixar passar o tempo e, um dia, num qualquer compêndio da memória, recapitular e já sem sentimentos à flor da pele, se lhe definir e mesmo assim não de forma definitiva.
Faz hoje cinco anos que visitei a campa do meu Herói e só o consegui fazer porque fui apoiado por amigos e muitos que apenas conhecia de nome dito num qualquer monitor de computador.
Tenho tantas saudades e tenho tantos agradecimentos que se me dispusesse a fazê-los aqui não restaria espaço e a memória iria falhar num ou noutro nome, o que deixaria de ser simpático da minha parte.
Para além disso ir-me-ia falhar a memória dos que morreram em vida que ainda vivem e não deixam viver.



Publicado inicialmente no Pensar e Falar Angola

Sanzalando

insisto

Insisto num insistentemente bater na mente cansada. Pergunto-me se um circulo é mesmo um arco redondo, uma circunferência perfeita. Pergunto-me se o quadrado é uma figura geométrica em que os quatro lados são iguais. Pergunto-me por mim e não sei onde estou. Aqui não estou. Lá não estou. No meio do caminho ninguém me viu.
Insisto-me até saber quem sou. Tenho que ver o espaço, as dimensões e as contradições. Sonho? Eu sou fruto do sonho? Sou um inexistente ser que sofre de nostalgia no solilóquio do seu pensamento introvertido?
Insisto-me até saber para onde vou. Um problema da mente não se pode solucionar na mente porque esta de parcela em parcela faz uma equação que nem o pi, E=mc2 ou lá o que me valha têm qualquer significado ou contribuem para o seu resultado.
Apenas sei que na minha insistência vou para a minha coerência de não saber quem sou, nem para onde vou.
Mas acordo, sonho e nele me deixo levar como se fosse uma criança que na sua inocência, procura o equilíbrio num andar ziguezagueado.
Me deixo embalar nos sonhos e um dia acordo e não passo duma memória e aí alguém dirá que estive perto de chegar a porto seguro. O azar mesmo, foi não saber onde estava o porto.

Sanzalando

1 de novembro de 2010

me ausentei

Me ausentei com o rosto fixado num sonho amadurecido, por um sonho que já me levou a lendas, que já me fez navegar por mares que eu nem sabia que existiam, que já me fez voar com asas invisíveis. 
Me ausentei por prazer, me desafogar de nostalgia, me encharcar de novas vontades, de sonhar novos sonhos e de voltar a voar nem que seja por imagens gravadas na memória.
Faço a minha alma gritar em silêncio mil vezes o teu nome até ao dia em que despertares de vez para mim, cantares e dançares para mim numa festa de apenas nós os dois.
Me ausentei para fugir do barco que sentia que naufragava nas revoltosas ondas da ira e do cansaço. Parti despido, levando apenas o olhar para o sonho cada vez mais amadurecido e que tarda em ser realidade.
Me ausentei cantarolando canções de dor ao sabor do vento, ao ritmo das tempestuosas saudades.
Regressei e pouco ou nada mudei.

Sanzalando


WebJCP | Abril 2007