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A Minha Sanzala: Junho 2011
recomeça o futuro sem esquecer o passado

30 de junho de 2011

te tento limpar-me de ti

Aproveito o sol como se tivesse medo que ele fosse embora e percorro um a um os sonhos que tive. Pelo menos os que me lembro. E não é que te vejo em todos. Pareces o meu pano de fundo, mesmo quando esses sonhos são mais do tipo pesadelo, ou os que sejam sonhos de fantasia, ou os que apenas são irrealidades porque ainda não aconteceram. Tu consegues estar sempre presente. 
É evidente que tem sonhos que não são perfeitos. Mas tu estás lá.
Tem sonhos irreais no todo, em parte ou em nada. Mas tu estás lá.
Vou fazer mais como com os meus sonhos. Lhes apagar como quem apaga uma redacção que saiu mal? Lhes atirar na água como um pedaço de papel a se desfazer como se faz a um bilhete recebido na hora errada?
Será que não arranjo no meu catálogo um sonho que tu não estejas lá?
Será que tu és minha presença incondicional, uma vida por viver, uma realidade que bate no meu coração apenas porque me queres atormentar constantemente?
Porque será que não me sais do coração, dos sonhos e da vida? 
Já sei, deve de ser porque estou-te apaixonadamente preso mesmo quando te fujo.







Sanzalando

29 de junho de 2011

relembrar o futuro

Me embalo nas ondas do mar e semi-adormecido sonho realidades e vidas. 
Faz de conta ela me olha com olhos de não me ver, sorri se erro, me instiga lição de moral, me confunde. Afinal de contas ela apenas me evita, indiferente se me lhe apresento ou desapareço por eternidades. Ela sorri e eu imagino que foi para mim mas depois vejo na realidade que eu me enganei, uma vez mais. Se ela ao menos me dissesse na cara que eu era um perfeito idiota e coisas assim para me dizer de caras, talvez eu já estivesse noutra realidade menos ficcional e mais felizarda. 
Me apetece apenas fugir daqui, bem longe de qualquer aqui.
Me apetece dizer que desisti de estar apaixonado e de lhe esperar um sorriso me dirigido de verdade e arrancar para um lugar que não tivesse nenhum aqui por vizinho. 
Acordo com uma onda de mar mais violenta a bater nas pedras e me reolhando vejo à minha volta os meus pensamentos pensados como se fossem pequenas tiras de papel que juntei para mais tarde recordar.  Lhes inicio a arrumar mas lhes junto e lhes ponho num saco. Um dia posso precisar, quanto mais não seja para me lembrar das recordações que eu tive dela.

Sanzalando

28 de junho de 2011

acordo em desacordo

Deitado na areia da praia, desprotegido sol e pensamentos menos leves para a época do ano, acordo com a ideia que fui um sonhador que sonhou sonhos impossíveis. 
Será que é saudade pensar em ti ou apenasmente um hábito criado na repetição das indefinidas ideias soletradas em cada pensamento tido ao longo dos anos? Afinal de contas quantas vezes ela respondeu aos sinais, palavras ou silabas que lhe dirigi?
Eu acho ela sorri de cada vez que eu tropeço numa dessas ideias que afinal são meio doidas de loucura, me evita ou se mantém na sua indiferença típica de alta linha de quem não espera nada para além da minha dor.
Mas um dia pode ser eu acordo de vez e ela se vai amachucar por eu nem pensar nela um décimo de segundo e me me vai dizer olá e vai ser tarde. Ou não!



Sanzalando

27 de junho de 2011

devaneio prometido

Me atiro num deitar sobre brasas, num a modos que enraivecido com a vida e desato a procurar razões que me levem a lado nenhum, me apaguem sentimentos de culpa, me afoguem pensamentos de dor e me tragam o sorriso lindo de outrora.
Mas apenas me sai fogo, qual dragão, cada vez que tento pronunciar uma palavra ou idealizar uma ideia. 
Ai minha querida, espero que morras engasgada pelos teus braços que me abraçam num constante veneno que me faz não ter vontade de ser um vivente. Minha querida vadia, espero que te afogues na tua falta de graça e me deixes maquilhar o sonho que um dia imaginei. 
Fica aqui registado, minha querida, que te odeio, ao ponto de não nos largarmos nunca e tu, minha querida, de nome saudade, te alegras de me ter prisioneiro da tua força.
A partir de hoje e sempre que eu conseguir, registe-se, fugirei de ti, ò saudade.





Sanzalando

uma vez por outra

Sanzalando

26 de junho de 2011

Pôr do Sol - 6

Sanzalando

25 de junho de 2011

aproveitando o vento

Aproveito o vento forte que sopra. Pouco me importa que ele venha do norte ou sul ou leste ou lá que seja, apenas me importa que eu caminho ao sabor do vento, depois logo se verá e logo protestarei. Aproveito o vento e tenho a impressão que a vida corre veloz e leve, umas vezes depressa demais que até faz parece é tropeçar, outra abranda e lentamente parece não se importar em acompanhar a força do vento, mas sempre com a sensação que não é aqui que a minha vida queria estar.
Me convido a ir beber um copo, aproveitando o vento de feição, e me conto estórias ou contarei estrelas porque embora eu não as veja elas devem estar lá como é costume e eu me esquecerei que o vento leva o tempo que a vida me trás.
Afinal de contas, com ou sem vento o que eu queria mesmo era poder olhar-te, sentir-te e dizer coisas de ti.
Aproveito o vento que me levou o cacimbo e te olho tão intensamente que até vejo o fundo do meu olhar.

Sanzalando

24 de junho de 2011

me derreto

Me derreto sobre o sol e relembro as manhãs de cacimbo com que acordas. Torradamente me vou sentindo enquanto te revejo gelada nos teus quase 23 graus de baixa visão e muita humidade. Tento chorar, por solidariedade, melhor chamada de saudade se eu não me tivesse enganado, mas as lágrimas se evaporam à nascença e me ardem os olhos de olhar para os corpos quase despidos que passarelam na beira do mar.
Rebolo na areia como que a brincar-me como nos anos que eu tinha idade para brincar, mas a areia não é a mesma e o efeito não é o desejado. 
Vais ver é mesmo só falta de me ter esquecido de estar tanto tempo ao sol quando tu acordaste embrulhada em cacimbo.
Perdidamente revejo o mar e me desejo lhe correr mar abaixo mas ele visto daqui parece é a subir e eu mais uma vez desisto. Afinal de contas até está calor e deve de ser por isso.

Sanzalando

23 de junho de 2011

devagar vagabundo-me

Devagar vagabundo por ideias soltas como se seguisse um trilho dum mapa inventado por mim um pouco antes do nascer do sol. Retomo a ideia que o que me cura é o mesmo que me faz mal, pelo que desenho novo caminho a seguir, evitando que o veneno e o antídoto se mesclem na minha imaginação e me toldem o pensamento. Afinal de contas eu sei desde faz muito tempo que nos contos de fadas também entram bruxas e vilões e à noite todos os gajos são parvos.
Mas neste novo caminho eu vou ter que olhar para mim, cuidar-me como se fosse uma preciosidade e que o meu coração não serve apenas para amar de mais, também tem de ter amor de recebimento.
Bolas, quando é que eu perco a mania de caminhar sempre em tua direcção?




Sanzalando

22 de junho de 2011

respondendo aqui por aqui

Me deparei com um somatório de comentários que me sorriram a alma e me lustraram o ego. Desci do pedestal  percorri o dicionário, solilouquei-me por completo numa tradução livre de que enlouqueci sozinho na solidão, juntei papeis de pensamentos pensados e guardei uns tantos em branco para futuros próximos ou afastados, me sentei numa cadeira colectiva de gente boa, olhei para o tempo vazio e fazia sol que quase brilharia até na noite escura. 
Por fim me balancei num final de ir até ao fim do mundo e, num quase perfeito estado de loucura, regressei para responder-te com um beijo.
Acho foi dos gases ou apenasmente uma saudação amiga aos amigos que por aqui vão tendo a paciência de parar e conversar.

Sanzalando

21 de junho de 2011

balanço, balancete - Sentado numa qualquer esplanada

Sentado numa qualquer pedra duma qualquer falésia da minha imaginação passeio por ideias, sonhos e pensamentos avulsos como se estivesse a querer fazer um balanço final. Afinal de contas nem eu mesmo sei quando é o meu final por isso é melhor ter o balancete feito para dar menos trabalho aos que cá ficam. Na verdade a música tem um fim e não é por isso que eu deixo de lhe gostar se lhe gostava no início, portanto não tem de mais fazer um balanço assim num de vez em quando, quanto mais não seja para saber quantos desejos estão acumulados no coração ou saber as vezes que acordei sorrindo porque estava a sonhar contigo, a sentir o teu perfume, a viver-te intensamente como deves ser vivida.
Sentado, numa qualquer falésia com uma pedra, eu tremo, mordo os lábios num fingir, é claro porque não sou tão doido assim, estremeço e imagino que deve ser de frio neste início de verão a contrastar com o teu cacimbo. É, deve ser frio, aquele interior que causa calafrios como se tivesse vergonha dum qualquer pensamento que folheei neste balanço de fim de tarde.
Sentado, numa qualquer esplanada sobre uma falésia que tem uma pedra onde eu descanso o olhar me transformo numa ideia de futuro enquanto bebo um café de fim de tarde.


Sanzalando

20 de junho de 2011

lamento

Medito em horas passadas, memórias gravadas sobre um vinil de imaginação pelo que às vezes tem ruído, outras vezes repetição, mas a saudade leva que o ciclo gire e se viva o vivido como se fosse vida nova. Eu, apaixonadamente, deitado sobre a areia da praia, me pergunto pessoais perguntas e me achei um estranho a me rever nas respostas. Me achei um quase perfeito que deu errado no mundo que escolheu. Deve ser do vento, pensei. Pode ser da idade, acrescentei. Mas deste ciclo não saí pelo que me renovei não só na posição como me coloquei a brincar com os sentimentos e me apercebi que posso viver num mundo de sorrisos. Me lembrei que me apetecia beijar-te e logo insultei quem foi que inventou a distância. Tudo podia ser aqui, imaginei. Uma folha de papel seria o limite e estaríamos juntos sempre. 
Me sentei sobre a memória e revi imagens e chorei inutilmente porque nem assim me consegui lembrar do sabor do teu beijo. 
Me levantei e comecei a caminhar em direcção ao mar. Parei antes de lhe tocar e recebi um abraço de paciência ao que juntei a frase silenciosa que me disse de que hoje, por muito que me custe, lamento, não choro mais por ti.



Sanzalando

19 de junho de 2011

Pôr do Sol - 5


da net
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18 de junho de 2011

banho solar

Me deixo favorecer num banho de sol retemperador, enquanto imagino o cacimbo a cair como uma manta sobre mim. Fervo no corpo e me arrefeço na alma, enquanto penso que se ela se desligou de mim que até o silêncio não lhe ouço, é melhor mesmo eu fingir que lhe morri para todo o sempre e deixar a pouca paciência que me resta para apenas respirar e andar por aqui.
(Eu sei quem sou mas às vezes impacientemente eu gostava de saber quem tu és. Me dá só um ponto de vista ou desisto de vez mais uma vez como nas outras vezes.)
Me desafogo debaixo do sol num aquecer fervente enquanto sinto na memória um perfume de cacimbo a me perfumar.
(Eu sei que sou insistente, mas um dia consistentemente te terei).







Sanzalando

17 de junho de 2011

delírios

Delirando por um desejo qualquer me imagino tatuado, cabelo comprido, despenteado em forma de rock e a falar num dialecto que nem eu entenderia na perfeição. Procuro por tudo o que é sitio e escolho razões para este delírio. Tive medo de não encontrar uma explicação. 
Não é o meu tipo de ser tipo. 
Eu até vou mais na Kizomba do que no rock, mesmo nas idades verdes da vida era assim, sou mais de falar direito do que siglas, tanto faz é sexta feira ou outro dia.
Acho vou pôr o termómetro para ver a razão deste delírio. Vais ver é um paludismo pré-histórico remarcado numa gruta da minha idade da pedra.
Delirantemente me acordo, olho para o meu bronzeado empalidecido e desato a rir na forma tentada de ser diferente. 




Sanzalando

16 de junho de 2011

irrequietante

Caminho nervosamente da direita para a esquerda ou vice versa. Importante mesmo é que parece que tenho formigueiro no corpo que me impede de estar parado. Neste irrequieto caminhar me passam pela cabeça filmes de vidas que vivi, outras que imaginei e outras que desejei. Não importa a ordem, importa é o desassossego que me causam.
Irrequietamente me lembro do meu avô que desejava que o velho Ferrão, me desculpem mas foi sempre assim que o conheci, o velho Ferrão, recebesse o vinho Rosé para ir na sua barraquinha de feira comer um cachorro quente e beber uma taça de Rosé. Acho que ainda hoje não lhe provei assim como faz cerca de 35 anos que não toco num Casal Garcia ou Gazela, mas que hoje me lembrei de os ver no filme da minha mente. É irrequietante ter filmes assim, repassados na memória e vivos na vida. Da mesma maneira me lembro de ir ao sábado ao  João Padeiro buscar uma garrafa de vinho da pipa que tinha chegado, porque o meu avô me mandou. E não é que me vem à memória a luta por uma taça de leite creme que a avó fez nove  e somos apenas oito?
Irrequietamente caminho de um lado para outro e me revejo em tantos filmes que já não sei se estou em coma ou apenasmente a passar por uma fase de lembranças recalcadas que os meus filhos não têm o prazer de ter.


Sanzalando

14 de junho de 2011

para já

Hoje me apetece esvoaçar por ai ao sabor do vento como se fosse um pedaço de papel. Assim mais ou menos como uma imprestabilidade ao deus dará a ver no que pode dar, a ver onde posso encalhar. Ou apenas observar. 
Para já não sei o que é que é saudade a não ser aquela coisa forte que eu sinto porque faz mais que muito tempo eu não te vejo, não te olho e acima de tudo não toco.
Para já não me lembro o teu perfume porque faz muito tempo eu não lho sinto.
Para já não sei como posso dizer-te as coisas todas que tenho para dizer-te se as minhas palavras não chegam nem na boca. Ficam absorvidas na secura da minha alma deserticamente abandonada por qualquer canto do mim.
Para já o vento me leva contra a corrente e eu lhe tento fazer frente, mas tal como pedaço de papel, desconsigo traçar um rumo que me leve a sul.
Para já, já não sei onde estou excepto que vagueio num aqui vulgarmente vazio à espera que o teu corpo um dia se materialize na minha penada alma.
Para já, fico aqui, vagabundeando ao vento dum deus dará.


foto da net
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13 de junho de 2011

um abraço

Me sento num por aqui qualquer como quem não quer nem saber por onde anda quanto mais porque anda. Me atiro aos pensamentos arquivados numa ordem arbitrária porém não contrária à minha esperança e concluo que apenas eu preciso dum abraço mesmo que seja na forma de palavras. Mas a verdade é que por aqui reina o silêncio e descubro uma alma tatuada de cicatrizes. Porque me deu para rever pensamentos? Milhentas coisas para fazer, sonhos por sonhar, imaginações para criar - tudo onde tu estarias em plano primário e eu para aqui a lastimar a falta dum abraço mesmo que fosse em forma de palavras, essas que às vezes podem ferir mais que pedras e paus.
Atirado por um qualquer por aqui desconsigo esquecer-te e por isso bebo uma tropical goiabada com vontade de ter um abraço.


Sanzalando

12 de junho de 2011

Pôr do Sol - 4


da net
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11 de junho de 2011

porque me chora alma?

Sentei-me debaixo dum pôr de sol e desatei a tentar responder a uma pergunta que me fizeram:
- porque te chora tanto a alma?

em vão conseguia responder. Ou me faltaram as palavras ou uma resposta filosófica carregada de erudição, daquelas que mostra citação do citador que citou um qualquer outro. Mas para mim a resposta imediata também não saia. Um estado de espírito irrequieto? Será? Uma falha no sistema integrado das abcissas que carregam às costas as hipotenusas que levam com os catetos e ainda por cima integram num qualquer pi quadrado duma outra aritmética da vida.
Afinal de contas porque tanto me chora a alma? Nostalgia? Saudade? Estado de espírito sistemático do esquema esquelético?
Nem debaixo dum pôr de sol com sabor a terra molhada eu consigo hoje responder. Me falta a dialéctica esquemática dum orador que não chorasse a dor da saudade.
Olhei para as minhas mãos e suadas as vi. Ansiedade? Apenas não sabia uma resposta pelo que não era caso para tanto. 
Deixei cair o sol atrás do se pôr e continuei a pensar. Desisti já era noite, enxuguei as lágrimas da alma e para longe atirei o lenço. Acho ele ainda voa ao sabor do vento que sopra desde norte.

Sanzalando

10 de junho de 2011

atirado

Atirado num canto de vazio como se não soubesse para que lado hei-de ir, sem saber se é difícil ou fácil conseguir, sem me dar conta se sou seguro, possessivo, carente, nostálgico ou apenasmente frio e calculista olho o mar com olhos de quem nada vê, nada quer ver, apenas sentir. Nos raros momentos em que dou por mim, como se acordasse duma letargia moribunda me pergunto se existes ou és fruto sortido e tropical da minha imaginação.
Atirado para um lado dum triângulo desequilibrado, fruto duma paixão que deu num nada, me pergunto se sou assim perfeito ou apenas um pedaço de tristeza materializado em coisa nenhuma que busca-te na memória como que embriagado de ilusão?
Atirado num mar de fantasia, mergulhado em verdades inexistênciais me pergunto se o meu abraço adiado algum dia será perfeito e será dado por ti? 
Atirado para lado nenhum, te observo como quem vê um romper de aurora, um pôr de sol, um entardecer cacimbado, nostálgico e triste, ou um sol de meio dia quente, abafado e irrespirável. 





Sanzalando

9 de junho de 2011

cansaço

Me sento num algures por aí porque me cansei das sobras, das migalhas de sentimentos e dos desejos adiados.
Me sentei porque me cansei de tanto querer e não saber como o fazer para te ter. Me cansei de tentar esconder o que sinto e me enquandrar numa plataforma definida pelo pretérito perfeito dum presente incerto. Me cansei de ver que as rugas são mais importantes que o espírito. Me cansei de não ter o teu abraço cada vez que me apetece chorar-te.
Me sento num algures sem importância porque me cansei de chorar enquanto sorria, me cansei de silenciar os gritos gritados pelo coração.
Me sento apenas porque estou cansado de ser saudade.



Sanzalando

8 de junho de 2011

passo os olhos pela memória

Passo os olhos pela memória e lembro-me do teu sorriso de quinze anos, da tua vontade férrea de ser gente obrigando-me a deixar de ser o maltrapilho que me tinha mentalizado que era.
Passo os olhos pela memória e revejo as horas perdidas que gastei a procurar-te apenas para ver-te e pensar que tinha ganho o dia.
Passo os olhos pela memória e revejo a nossa conversa de um adeus adiado até ao nunca mais.
O tempo passou, gastou-se, eu existo e se calhar tu também apesar de nunca mais eu ter tido uma notícia, um sinal, um qualquer coisa da tua existência. Afinal de contas o tempo envelhece e fica assim mais ou menos que nem eu, desmemoriado, deslembrado, desconjunturado. Será que o tempo também tem a memoria dele? E se vai lembrar do tempo perdido por mim? Pouco importa esse tempo perdido, ganhei-o em experiência, em lágrimas que deixei cair e me lavaram os olhos e me trouxeram outra clareza à memória.
Passo os olhos pelo tempo que tenho de memória e me revejo num valeu a pena, grande como o deserto que não tive tempo para conhecer porque gastei o tempo a tentar ver-te.
Perdi o tempo, ganhei a memória e a lembrança do tempo envelhecido comigo.

Sanzalando

7 de junho de 2011

caminhos sem paragem

Caminho na praia como uma folha de papel, sem destino, sem velocidade certa e sem direcção previsível. Me apetece apenas caminhar assim como num gastar de tempo sem dar por ele. Sorrio chorando, gargalhando lágrimas secas de dor que não sinto, mas invento, grito cantando ais de lamento num silencio ensurdecedor. Passo o tempo num gastar solitário em pensamentos desarrumados, alguns empoeirados e outros tantos bolorentos. Tudo enfeito com a maresia, com a música dum marulhar arritmado e o cantar duma qualquer rouca gaivota que me sobrevoa. Estou sozinho quanto baste e não tenho nada a provar a ninguém. Eu, os meus sonhos, as minhas ideias, as minhas memórias e a verdade que nunca aconteceu, viajamos juntos à beira da praia saboreando o sal desse zulmarinho que me une, umas vezes azul, outras verdes e outras numa mistura de verdadeiro zulmarinho.
Caminho na praia em direcção a lado nenhum, excepto para o lado que eu sei que vou.

Sanzalando

6 de junho de 2011

vagabundo-me

Vagabundo-me de pensamento em pensamento como quem nada tem de fazer. Procuro um que me valha a perna perder e assim percorrer-lhe todas as formas, feitios e desvarios. Costuma ser primeiro um ar de chuva e depois o arco-íris. O mesmo é com os pensamentos. Os primeiros que saltam à vista da memória são os pessimistas, os que doeram, sangraram a alma e por aí fora. Depois chegam os rostos lindos que com sorriso lindo me receberam, os olhos brilhantes que me olharam, o calor tórrido com que me abraçaram.
Mas eu vou conseguir ter os pensamentos sem ser por essa ordem, porque às vezes isso faz com que eu desista deles e me atrofie num marulhar de silêncios com sabor a sal.
Eu vou conseguir ter os pensamentos, os sonhos e as memórias em 3 D, num piscar de olhos, num estalar de dedos. Me deixa só olhar-te mais uma vez e acertar as ideias... sem ressentimentos. Na verdade já me partiram a cara, já me mentiram, já me ignoraram mas mesmo assim ainda estou em pé carregado de esperança.
Um dia o despertador vai tocar, eu vou-lhe olhar e vou. Simples que nem um pensamento


Sanzalando

5 de junho de 2011

Pôr do Sol - 3


foto de JCCarranca trabalhada em photoshop
Sanzalando

4 de junho de 2011

cacimbei????

Tiro-me o tapete e caio por aí abaixo feito bola na descida dum dia da vida qualquer. Tiro-me a rede e largo o trapézio dum circo duma feira da vida. Enfim, de quando em vez lá venho eu aos trambulhões num paralelismo cruzado de estatelado como uma pessoa normal que não é mais do que sou. Choro? Claro. Se dói vou fingir que sou louco? Mas logo passa e mais ou menos gelo e lá se vai andando até uma outra descida estatelada qualquer. É o ciclo, da vida é claro.
Mas se olho o mar e me afogo na imagem nublada duma lágrima que teima em cair apenasmente porque nolstalgiou alguma coisa, mas não desato a chorar nem a me lamentar num direito feito torto. Deixo cair a lágrima que ela logo seca e eu depois verei mais nítido.
Mas hoje estou a falar com quem? De quê? Porquê? Acho mesmo me embreaguei numa transversal taberna dum cacimbado dia do tempo de cacimbo.


Sanzalando

3 de junho de 2011

deambularmente

Deambulo na praia feito vagabundo em busca dum tempo para parar. Não sei o que já olhei, me esqueci o que já pensei e não tenho ideia de como comecei e acho que sei que tu já te cansaste de me ouvir solilocar como os meus passos perdidos. Acho eu que já todos me conhecem por ti e não pelo eu que sou. Mas eu não tenho outro jeito de ser e vou fazer mais como? Me imitar num perfeito mais que simples? A cópia nunca pode ser melhor que o original pelo que então vou continuar vagabundeando palavras no meu deserto de ideias, no meu mar de memórias, nas minhas imagens de sonhos vividos na imaginação.
Deambulo na praia não com vontade de ser olhado mas com o desejo enorme que tu me olhes e um dia me vejas e me desgovernes das certezas absolutas com que armadilhei as minhas prisões.
Deambulo por aqui com a vontade enorme de te abraçar e dizer que és minha num egoísmo solitário, esquecendo todos os teus amores e dissabores.

foto da internet
Sanzalando

2 de junho de 2011

as minhas palavras num livro

Abri um livro e folha a folha fui lendo. As palavras mostravam-me imagens coloridas em aguarelas, formas geométricas,  caminhos e estradas, toda uma novela que eu ia fazendo de memória. Eu dizia, estas palavras foram escritas para mim, estas imagens são como as minhas imagens, estas estradas são as minhas estradas. Era-me tudo tão familiar que até me fez confusão de olhar para mim e ver se o eu que estava a conversar comigo era mesmo o eu que estava a ler o livro folha a folha, enquanto ouvia o mar.
Mais eu lia e mais me convencia que era tudo escrito para mim, assim num sem tirar nem pôr, como se eu tivesse uns tantos muitos anos a decorar coisas que estavam ali naquele livro que eu lia folha a folha, que eu vivia de memória cada imagem, cada forma geométrica e percorria cada caminho e sorria cada sorriso como quem chorava cada lágrima ali escrita.
Mais li, como sedento bebesse água com medo de morrer de sede. Eram todas as minhas palavras, todos as silabas que sibilei. 
Mas afinal me recordei que eu nunca escrevi num papel as palavras todas que pensei, os caminhos que percorri nem as lágrimas que chorei. Eu só estava a ler era mesmo um livro que tinha comprado.


Sanzalando

1 de junho de 2011

deserto de tempo

Debruçado na rocha olho o mar. Não só quero ver o meu reflexo, aquela imagem enrugada, queimada pelo tempo e vincada pela tristeza de já não ser o adolescente que te não conheceu como agora gostava de te ter conhecido, como para ver se a corrente está de feição e me consegue levar-te. Olho o mar como quem vê um futuro agarrado ao presente e embrulhado no passado. Olho o mar porque aqui ficarei o tempo que for preciso até conseguir ver-te a olhar-me por detrás do meu reflexo.
Aqui, ar de seguro perfeito, ideias fixas e sonhos vincados, não mostro as minhas duvidas porque não te ver desvalorizar-me, enquanto te tento olhar até à minha alma conseguir ver.
O sol nasce e o sol se põe e eu aqui, olhando o mar, mesmo que de olhos vendados pelo esquecimento, mesmo com a memória gasta da falta de tempo, te olho na imaginação dum amanhã que irá nascer depois dum qualquer pôr de sol que ficou na memória.
Terra molhada, olhos de lágrimas, eu esqueleticamente te olho até à eternidade, seja ela quando for, neste mar de areia que chamaram de deserto.

foto de Eric Lafforgue 
Sanzalando


WebJCP | Abril 2007