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A Minha Sanzala: Junho 2017
recomeça o futuro sem esquecer o passado

29 de junho de 2017

divagações dum dia de verão 07

Sopra vento como em todos os verões. Não o tenho de memória mas na minha estória só é verão se houver vento. Pelo menos de algum tempo até agora. O que dá para eu me sentar num recanto duma qualquer falésia e adormecer pensamentos e viver sonhos. Ou até por-me a viajar por lugares que eu nem sabia existiam e onde sei nunca irei, porém, ao sabor do vento deixo a imaginação voar por aí.
Sabes, ao longo da vida me afastei de pessoas que eu pensava iam ser ligações para sempre e me aproximei de pessoas que eu nem sabia existiam. É assim como o vento. Inconstante vertente da existência.
Olho o zulmarinho e azulo a minha vida, reflexos de tonalidades múltiplas. É verão e faz vento. Como sempre.


Sanzalando

27 de junho de 2017

divagações dum dia de verão 06

Tórrido sol que ventos trás. Olha ai, ó sol, me apetece dizer-te não. Com técnica, é claro. Na minha estória, qualquer das minhas personagens devia saber dizer não, porque eu, no todo, só tenho um dia por dia e não posso gastar energia assim soprando ao contrário para não despentear as minhas ideias ou pedalar até nas descidas. As minhas personagens são escassas para gastar assim. 
Vê lá sol, se deixas esse vento que trás areia até parece acupunctura me perfurar as belas pernas que o tempo cansou.
Considera este não um ponto positivo. Tu és sol e és a fonte da vida, alegras a minha vida com o brilho do teu calor, assim eu quero andar numa de lá para cá junto à maresia, mudando de cor, saboreando o teu reflexo no zulmarinho.
Com este vento eu não consigo.

Sanzalando

26 de junho de 2017

divagações dum dia de verão 05

Faz um calor tórrido. Acho mesmo um milionário dos sules comprou o tempo e lhe o tropicalizou. Se não foi assim, então eu não percebo nada disto de meteorologia. Mas se esqueceram da porta aberta e o vento que devia ser brisa quase me arranca os cabelos pela raiz.
Com este tórrido calor sinto vontade de chorar, primeiro para aliviar o coração e depois para me fazer mais leve para as roupas do verão.
Com este tórrido calos, arrefecido por este vento forte, vai criar novas dores, novas memórias para ficarem na memória duma recordação que o tempo passou.
Cabeça quente e dorida dos cabelos arrancados deste verão eu garanto que o amor é uma questão de possibilidades e nunca de garantias garantidas num contrato de longo prazo.
Assim foi mais um diálogo entre mim e a outra personagem da minha friccionada estória verdadeira de verão

Sanzalando

23 de junho de 2017

divagações dum dia de verão 04

Tórrido sol que me obriga a fechar os olhos quando eu queria ver tudo o que me rodeia.
Como é estranho ser personagem na minha estória. E efémero como todas as personagens duma qualquer estória.
É estranho saber de mim, dos meus problemas e frustrações assim como se fosse outro e me ouvisse de outro. As coisas que o sol me faz.
O zulmarinho continua nas suas tonalidades de turquesa ao escuro até um quase verde, quente, frio e caldoso, agitado, calmo ou calema de remoinhos traiçoeiros, conta-me a minhas alegrias, frustrações, enjoos e surpresas. Uma maneira de me ver através da minha personagem nesta minha estória de vida.
Nem o tórrido sol fez apagar as promessas que fiz, nem apagar as palavras que escrevi ou calar as que disse nesta personagem de verão. Afinal de contas, menos vestido, esta minha personagem continua muito parecida comigo, pelo menos nas estórias que me conta.


Sanzalando

21 de junho de 2017

67 - Estórias no sofá - se é, amizade não acaba

Assim cantava Chico Buarque: amou daquela vez como se fosse a última; e ele, Antonino, menino nascido e criado em família boa da cidade alta, tudo fazia como se fosse a última coisa a fazer na vida. Vivia-a como se ela, a vida, acabasse naquele instante. Ele parecia sabia. Ele amava com tal força parecia morava dentro do amor, ele próprio, que tanto dizia que quando o amor acabava ele ficava um sem abrigo.
Era este Antonino que eu conheci ainda andava de calções mas não magoava os joelhos porque ele não tinha tempo para brincar. Ele estava sempre tão ocupado que não tinha tempo para ver que as cores do céu são muitas, depende do minuto e do olhar. Do azul escuro, ao claro e ao amarelo alaranjado é um instante que se perde. Ele não podia nem perder esse segundo de admiração. Estrela cadente ele sabia que existia. Mas sei nunca viu nenhuma. Me contou uma vez na hora do lanche. Na verdade, vendo de agora, deixado passar esse tempo, uma vida, eu acho que Antonino estava imune à beleza da vida. Ele era o melhor. Menos no jeito de estar na rua, menos no jeito de vestir o uniforme de pessoa que vagabunda as ruas da cidade à procura de não fazer nada de jeito.
Ele era poesia, geografia e história. Matemática e desenho era assim um quase nada fracote, mas disfarçava com o vocabulário de quem ia fazer discurso de polimento. Ele sabia museus e outras enciclopédias. Não sabia bares nem outros lugares.
Um dia mudou. Cresceu na altura e na largura. Trabalhava parecia não tinha fim o dia. Amava poderosamente. O tempo de estar, simplesmente estar, desapareceu e no meu olhar nunca mais o vi. Fui ouvindo falar estórias de quem não sabe onde acaba a ficção e continua a realidade. Engenheiro, doutor, não sei. Milionário me disseram e a vida foi correndo nos seus altos e baixos. Houve flores que murcharam e outras floriram, houve invernos e verões e os frios tropicais nunca congelaram estórias que fui ouvindo. Umas sabia podiam ser verdadeiras, outras nunca na vida. 
Antonino aparecia nas revistas de negócios, umas vezes inchado porém sempre bem bronzeado e acompanhado. Nunca soube o caminho mas o ia abrindo. Lia eu, ouvia e imaginava outro tanto.
Um dia, perdi o rumo. Eu herói de tantas guerras na vida me esqueci. Desliguei o passado como se ele fosse de outro. Eu só tinha o meu presente presentemente. Dia após dia segui a minha sombra. 
Uma esquina, um dobrar de esquina, lento como o calor que me toldava os movimentos, dou de caras com Antonino. Magro e pálido. Reconheceu-me de imediato enquanto tive que fazer um esforço enorme a tentar pôr aquela cara num qualquer lugar da minha vida, até que consegui pela voz e gestos. Tremia. Falava muito mas pouco percebi o que me dizia. Comia uma parte das palavras e nas outras um silêncio no olhar. Eu gosto de silêncio mas os silêncios que lhe saiam da boca me incomodavam. Tanto que ele falou que eu apenas  resumi no sempre há uma escolha excepto se escolhermos a errada. Demos um abraço como se o tempo não nos tivesse passado. Amigo, disse-me, roubaram-me a capacidade de ser feliz e eu gastei o tempo a correr para lado nenhum. Ouvi perfeitamente, refeito da surpresa.
Mergulhei em oceanos profundos, nadei mais do que as minhas capacidades permitiam. Vivi como se cada dia fosse o último. Hoje tenho tempo, menos para morrer como eu desejo.
Olhei-o, perplexo, não quis saber da sua estória, não tentei perceber os seus caminhos e lhe disse para me acompanhar num passeio de passo lento. Silenciados, lado a lado, fomos andando.
Foi aí que ele me disse naquela voz de ainda criança que eu me lembrava: tudo na vida acaba, menos a amizade.





Sanzalando

19 de junho de 2017

divagações dum dia de verão 03

Sendo eu outra personagem de mim, aquela que vagabunda pela torreira do sol, redesenha contornos corporais escondidos em minis peças de roupa, deambulando beira-mar acima e a baixo como se a praia deste zulmarinho fosse um picadeiro de modelos, gostaria de, neste momento, olhar-te nos olhos, sentir-te respirar e dar-te um abraço como nunca ninguém te abraçou e sentir-me acompanhado e menos sozinho de mim.
Na verdade, aquecido pelo sol, quanto mais penso mais aumento o meu desejo de ser eu e não esta personagem da minha estória, vazia, sabor a mar e soprada de brisa na tez morena da minha alma.
Me sento a ver o zulmarinho e tento arrefecer a vontade de nadar mar abaixo, em direcção a qualquer sul que fique para lá da linha recta que é curva.


Sanzalando

18 de junho de 2017

divagações dum dia de verão 02

Sobe a temperatura do zulmarinho. Quase dava para nadar em descida até ao ouro lado dele, surfando de onda em onda, numa imagem de desenhos animados.
Sobe a temperatura e eu deixei uma outra personagem de mim tomar conta dos meus sonhos, marcar o meu horário e viver livre no exercício de liberdade. Afinal de conta eu gosto da luz do seu olhar. Aprecio o sorriso do seu sorriso, o ar de bem disposto e gargalhada fácil. Eu gosto do seu ser livre e embora a temperatura suba o zulmarinho levar-me-á a ser eu na forma que for.
Emprestei um beijo em troca dum olhar. É assim o meu verão.


Sanzalando

17 de junho de 2017

divagações dum dia de verão 01

Sobe a temperatura. Nem o zulmarinho me arrefece o corpo que arde. É assim um arder de saudade incandescente, um queimar fluorescente, uma borboleta esvoaçando na minha cabeça numa catadupa de ideias ferventes. 
O zulmarinho marulha numa perfumada maresia enquanto eu me desculpo de ser como sou e não outra personagem da minha estória, enquanto eu me desconto nos desgostos que causei nas frustrações de antanho.
Sobe a temperatura e eu desenterro-me de emoções, sonhos e do melhor que há de mim em mim. Tento ficar sem nada para mim. Sonhos e sentimentos. Dou-os enquanto o calor me ferve o corpo que o zulmarinho ma arrefecerá.
Um dia eu vou conseguir tirar a armadura de mim e vou ser esse assim, a outra personagem de mim, mergulhado no zulmarinho purificando-me em banho-maria.

Sanzalando

14 de junho de 2017

fantasma transparente

Bate o sol nos olhos e eles se fecham como que a me defender. Eu, ser invisível, porque não me vejo, torno-me num ser pensante, num fantasma real de mim. 
Franzida a testa pelo esforço de suportar os raios que tentam passar por através das pálpebras, sou um fantasma que parece está a pensar. 
É verdade. 
Eu, fantasma de mim, ao sol me deixo levar sonolentamente como se boiasse num rio de águas calmas, testa franzida, olhos fechados e sol a entrar no corpo como se eu fosse uma transparecia.


Sanzalando

12 de junho de 2017

adeus, primavera

Oi. Olá. Até à próxima. 
Fim da Primavera anunciada. As lembranças que te tenho são dum vento a cair no calor, um silvo como se uma gargalhada na minha cara fosse, uns dias que não me deste a chance de sair de casa porque chovias. Mas também a tonificação do verde árvore a crescer nos campos, os suestes no zulmarinho a me borrifar de quente. 
Sinto muito estar a jogar no chão o pano da tua despedida. Eu sei que parece eu não tenho jeito nem faz efeito assim te escrever na despedida. Mas eu quero que fique escrito na história a tua passagem por mim. Estás acaba. Eu não desisto mas tu te finas. Ciclicamente. Sãos os ossos do teu ofício.
Para o próximo ano a gente se vê. Tá?

Sanzalando

7 de junho de 2017

o tempo que passa

Sentei-me a respirar a maresia., a ouvir o marulhar e a ver a linha recta que é curva. Sentei-me por aqui a ver o para lá de mim. 
Como o tempo voa. 
Passaram-se outonos, invernos e verões e estamos num final de primavera que me leva o cabelo num vento de fim de tarde como se fossem folhas a cair num outono. Quantos frutos já deram as árvores? Quantas árvores entretanto já caíram? Quanta sombra já deram? 
As árvores sentem?
Eu aqui sentado sinto. Por mim e por elas, o tempo que passa.
  

Sanzalando

3 de junho de 2017

engolido na onda

Olho o zulmarinho. Hoje acordou parece revoltado. Lhe pergunto em silêncio que é que aconteceu e ele me responde assim num desmanchar de onda parece me quer engolir. Medei-me todo. É fiquei mesmo com medo de ser engolido por ele e ele se indispor depois comigo. Eu que ganho a vida a cuidar de vida de repente tremeliquei-me. Eu que tenho de ter a capacidade de me inovar, superar e se calhar ultrapassar para que alguém continue com a capacidade de pensar e fundamentalmente de sentir, tremeliquei-me com a onda que parecia me queria levar dentro do zulmarinho e sei lá me fazer o quê. 
Olhei para a imagem de Einstein e me lembrei da sua fórmula, em que E é igual a mc ao quadrado e do que ele dizia sobre o fazer as coisas sempre da mesma maneira e esperar resultados diferentes. Sempre olhei o zulmarinho e agora ele me faz esta coisa horrível de me engolir sem mastigar e se calhar a seguir me deitava cá para fora inanimado. Tolice minha que já lhe devia conhecer e nestes dias não me devia nem aproximar. Só mesmo lhe pensar.
É, esse zulmarinho me faz chegar lá na minha placenta sem pontos de vazio no meio. Lhe gosto e gostarei mesmo que o medo esteja na minha alma.



Sanzalando


WebJCP | Abril 2007