recomeça o futuro sem esquecer o passado

9 de junho de 2026

sentado no passeio

Há duas maneiras de enfrentar o calor de fim de tarde quando somos adolescentes: ou sucumbimos ao ar condicionado, um luxo sem alma que só sentimos quando vamos no banco levantar um cheque ou regressamos às origens da sabedoria popular e fazemos da beira do passeio a nossa bancada presencial e presidencial.

Sentar no passeio com aquela técnica ancestral de encolher os joelhos para não ser atropelado por um carrinho de bebé ou por um ciclista distraído é um acto de pura filosofia urbana que faz tempo já se perdeu. Não se está ali para ir a lado nenhum. Está-se ali para ver o mundo passar. E hoje, o objetivo é claro: ver se o carro especial aparece como é habitual.

Toda a gente sabe que cada bairro, cada vila ou cada rua tem o seu carro especial. Não estamos a falar de um Aston Martin ou de um Ferrari de colecção. Isso é para principiantes. O verdadeiro carro especial da vizinhança tem de ter... personalidade, estatuto e se fôr só paixão, também vale. 

Enquanto o carro não vem, a beira do passeio oferece um desfile de aquecimento. Sentado, ao nível dos canos de escape, a perspetiva muda completamente:

O "Fangio" das motoretas: Uma motorizada que até é mini e que faz tanto barulho que parece que vai quebrar a barreira do som, mas que na verdade avança a uns estonteantes 30 km/h. O condutor curva com o joelho quase a tocar no chão, motivado pelo olhar do que está sentado a ver um nada específico.

O Clássico: Um modesto citadino dos anos 50, cuja única peça original que resta é o condutor. Tem uma ponteira de escape do tamanho de uma panela de pressão e uma música a tocar que faz vibrar não só os vidros do carro, mas também as minhas costelas e as pedras da calçada onde estou sentado.

Jeep que parece fez guerra: Conduzido geralmente por alguém que parece tem medo de subir passeios, mas que comprou um veículo projetado para atravessar o deserto do Saara só para ir buscar pão.

O tempo passa. O cimento do passeio começa a transferir o calor do dia diretamente para as calças, um tratamento termal gratuito, por assim dizer. As pessoas passam e olham de lado. Quem não percebe o ritual acha que caí ou estou desesperado que naquele tempo acho não havia depressão ou que me esqueci das chaves ou que estou a fazer um protesto silencioso. Quem percebe, acena com a cabeça. É a irmandade dos contemplativos.

De repente, um silêncio no tráfego. O vento para. Os pombos voam assustados.

"Será agora?" pensei no meu silêncio

Ao fundo da rua, surge uma silhueta. Não faz barulho. Não deita fumo. É ele. O verdadeiro, o único, o carro especial do dia.

Não desaponta. É aquele clássico. Ele passa devagar, sabe que o passeio o observa. Olha de soslaio, certifica-se de que o seu público, eu e um gato vadio que por acaso estava a passar por cima de um muro, está atento, e dá um pequeno toque nos lábios como quem sorri camufladamente. Missão cumprida neste meu fim de tarde como todas as tardes anteriores.

Passou. Foram dez segundos de pura magia mecânica cardíaca.

Levanto-me com a dignidade possível de quem passou uma hora com o rabo no cimento, dou uma palmada nas calças para sacudir a poeira da rua e dou o dia por ganho. Amanhã à mesma hora, o passeio estará lá outra vez. E quem sabe se o carro especial não traz um sorriso mais descarado?





Sanzalando

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