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A Minha Sanzala
recomeça o futuro sem esquecer o passado

31 de março de 2007

Nada é por nada (2)


Aproveitaste o tempo para pensar que nada nasce do nada? Então, continuemos a nossa caminhada, assim como assim os passos são para gastar e não vale a pena estar a olhar para nada, quando há tanto que podemos ver.


Porquê mesmo temos de ter resposta para todas as perguntas?


Quando um homem encontra uma mulher, quando uma mulher encontra um homem, é porque os dois se estavam à procura. Por solidariedade, por saudade, dor ou por quererem insuflar de oxigénio as suas vidas.


Mas porque é que temos de ter uma causa e o respectivo efeito?


A casualidade não existe e nada acontece por coincidência.


Ouve o marulhar, sente a maresia, apalpa a solidão de estarmos aqui calcorreando esta areia das mil cores e te pergunta se é por acaso que aqui estamos? Calhou nos encontrarmos aqui? Desde quando tens vindo a aproximar-te, desde quando eu esperava que tu chegasses? Porque não seguiste outro rumo, não foste a outra praia, a outro mar? Porque pensas que eu me detive à espera que tu chegasses? Quantos passos deixei de dar para que te aproximasses? Quantas palavras calei para as falar quando tu as ouvisses?


Coincidências?


Não!


O somatório das nossas vidas é que nos levou até aqui, cantinho de intimidade extrovertida na razão da nossa existência.


Poder abraçar-te com as minhas palavras, com a minha ternura afagar-te num despertar de ideias e pensamentos. Eu precisava falar e tu sofrias por não ouvir-me. Precisávamo-nos de despertar, de deixar de estar sós.


Já sei que me vais falar nas noites compridas, intermináveis, que nos atormentam, que nos fazem deitar lágrimas que dariam para encher o zulmarinho.


Essas noites existem por somatórios de negações que fazemos, medos que não exorcizamos, fantasmas que teimamos em alimentar.


Às vezes estamos sós porque não olhamos à volta, porque não fizemos aquela chamada, porque não demos aquele passo, não dissemos a primeira palavra, porque não construímos a ponte. Ninguém encontra o que não procura.



Sanzalando

Figurado Português 4


30 de março de 2007

Nada é por nada (1)

Já viste que neste caminhar eu falo, salto de palavra em palavra, assunto em assunto, desconectado com a realidade que há para além das margens deste final de zulmarinho. Não é opção, não é premeditação. É o eu mesmo ser assim. Salto de vida em vida fazendo a minha vida de um somatório de vidas.

Sabes bem que as coisas não aparecem do nada. Mas se vires chover, uns dias depois dela parar vês uma linda flor – beleza é relativa – num aparente deserto, onde não havia sinais de nada. Estava ali uma semente, se calar há uma eternidade, à espera das gotas dessa chuva para se transformar nessa harmoniosa flor. Seja que flor for, num deserto fica sempre bem.
Portanto, as coisas não aparecem do nada.

Agora caminhemos a olhar para a linha recta que é curva e imagina-te a fazer equilíbrio sobre ela, num constante desequilibrar para o lado de lá. Não é por acaso. Será por opção? Será por desequilíbrio mental? Será porquê mesmo? Decerto não é por acaso!

Vamos. Caminha ao meu lado e pensemos no íntimo do nosso silêncio.

Sanzalando

Figurado Português 3


29 de março de 2007

Borbulhas de tempo

Anda. Vamos neste passo lento respirando o vento que nos entra no corpo, sabor a mar. Acompanha-me neste caminhar de palavras.

Às vezes passa muito tempo sem fazeres o que gostas, de imediato o nada que te rodeia te envolve de tal forma que até parece entraste numa borbulha, e te leva a pensar que não existe mais nada lá fora, que não merece a pena ver o que se passa lá fora. Entras num supor que te parece dar prazer, acabas adormecendo um sono profundo em que o pensamento é vazio, transbordante de nadas.

Quando acordas, a borbulha se rompe, as coisas te parecem diferentes, têm cor e texturas que parece nunca tinhas visto antes. Existem estações do ano, dias da semana, noites de luar.

Então dás contigo a pensar onde estiveste todo este tempo…




Sanzalando

Figurado Português 2


28 de março de 2007

Afinal de contas


Anda, me acompanha novamente neste caminhar à borda do zulmarinho, num vai e vem sem parar. Eu falo e tu ouves. Se não te apetecer ouvir-me ficas no teu silêncio interno e olhas a linha recta que é curva numa introspecção que só a ti diz respeito. Eu respeito-te como sei que respeitarás eu não me calar, mesmo que não te diga nada, mesmo que não ouças nada.

Tu sabes, se é que me estás a ouvir, que as batidas do coração indicam se estás ou não agitado, se te importuna alguma coisa real ou fictícia, a tua respiração se torna ofegante na exigência de ar que mais não serve para te fazer fluir oxigénio até ao cérebro. Respiras sem sentires que o fazes, mas sentes os efeitos através duma maior capacidade de colocares os neurónios mais activos, mais alerta.

Te apetece gritar mas o som é abafado pelo marulhar das ondas se espreguiçando na areia.

As tuas pernas parecem que não são tuas, os teus braços parecem carregam toneladas de coisa nenhuma. A tua visão se torna nublada, não consegues focar os horizontes.

Afinal de contas estamos à beira do zulmarinho e temos a capacidade de poder sonhar com as coisas reais e com as coisas que só passam pela nossa cabeça.

Afinal de contas a realidade e a ficção se podem misturar, os amores e ódios se podem pesar ou comparar.

Afinal de contas somos invenções dos nossos cérebros.

Afinal de contas os nossos sonhos são as nossas baterias, estímulos e placas orientadoras dos espaços siderais.

Ficaste aí siderada por alguma razão especial ou foi mesmo porque te lembraste de me ouvir quando me calei?




Sanzalando

Figurado Português (de santos e diabos está o mundo cheio)


27 de março de 2007

Na dúvida de ter a certeza

Na dúvida de ter certezas, começo a falar-te enquanto caminho à beira do final do zulmarinho, palavras soltas, aparentemente sem continuidade. Pareço mesmo as ondas desse mar que se atira na areia sabendo que terminam aqui a sua existência. Eu sei que sou eterno enquanto existir. Depois, bem, depois logo se verá. Se por um lado eu tenho a certeza que tenho algo seguro e certinho, por outro eu tenho a dúvida e a oportunidade de viver um turbilhão de emoções de cores e formas.
Quando eu digo que é assim a minha escolha logo surge outra questão no meio que me faz rebobinar os pensamentos e filtrar tudo num novo filme de sensações.
Já sei que a certeza é tranquila. Sempre me disseram que mais vale um pássaro na mão que dois a voar. Mas será que o pássaro quer mesmo ficar preso nesta mão? Se calhar eu estou a fazer com que o pássaro termine aqui a sua existência e perca a oportunidade de seguir um seu qualquer outro voo. Por outro lado eu tenho a dúvida, alguma coisa totalmente subjectiva, em que a minha intuição me diz que o dar certo é só uma questão de tempo.
Mas se a minha intuição estiver errada?
Bem, feita a soma das parcelas, eu tomo a opção de ficar com ambas. Fico com a certeza de ter dúvidas e assim continuo a minha caminhada no perfume da maresia.

Sanzalando

Texturas do tempo 25


26 de março de 2007

Afinal ainda é hoje que te falo

- Oi, tenta!
dizes-me tu com vontade de me ouvir.
- Nem oito nem oitenta…
te respondo eu com vontade de estar calado.
- Sábado, Domingo e Segunda sem dizeres nada?!
Eu sei que te habituei mal, penso cá para mim… mas na verdade aproveitei estes dias para ir dar um abraço amigo aos amigos, dar-lhes a minha voz ao vivo e a cores sem ter decorado nenhum discurso de circunstância.
Assim, fui calcorreando terras, distribuindo palavras, apertando abraços.
Fui, sem pressas nem hora marcada. Simplesmente indo!
Agora chego, alma tranquila, mente aberta e corpo cansado e tu ainda queres que eu te conte uma estória que mesmo que não tenha acontecido não deixa de ser verdadeira? Deves estar a brincar comigo…
- Vã lá, uma palavra só – dizes-me tu com voz doce de quem a trabalhou para estas ocasiões.
Na verdade, para surpresa minha, inibe-me ir interromper este meu silêncio com palavras soltas atiradas ao acaso.
- Olha, te vou falar mesmo uma estorinha verdadeira. Tem aí um blogger, Estados Gerais, que não sei por carga de água, um dia descobriu que eu existia nestas estórias de além e àquem mar. Hoje fiquei a saber que tanto eu como ele somes de carne e osso. Estivemos uns minutos, que o tempo era mesmo só uma passagem, num frente a frente. E sabes que mais? Gostei mesmo de lhe ter conhecido e com vontade de um dia combinar com ele e estar mais tempo num blá-blá de raízes que passam das simples palavras aos altos pensamentos. Tas a ver, assim como as cerejas.
Prontos, outros dias virão…

Sanzalando

Texturas do tempo 24


25 de março de 2007

Texturas do tempo 23


24 de março de 2007

Texturas do tempo 22


23 de março de 2007

Me apetece olhar o zulmarinho (3)

Ainda no aconchego de poder ver a linha recta que é curva como a querer marcar o limite do zulmarinho, mas que eu sei que ele continua muito para além dela, começando bem depois da linha que divide o mundo em dói e que parece é paralela a esta linha recta que é curva, continuo na minha meditação. Não levito, mas a espiral do meu pensamento não pára de me sustentar muito para além dos limites do sonho que ficou por realizar e que eu sei que um dia deixará de ser sonho para ser realidade. Nesta levitação pensativa continuo a ver os nomes, escalonados numa ordem arbitrária e anárquica.
Que será que é feito desses nomes. Sim, porque alguns ficaram apenas nomes soltos.
Já sei porque já disse que me tornei numa má pessoa, desnaturado, despreocupado, no que respeita às amizades. Mas a verdade também que o meu feitio não é mais que estúpido. Eu sei e admito.
Quantas vezes me dou a falar-me no que eu te vou falar se tu também não me falas, e deixo-me arrastar por razão inexistencial. Mas o mais estúpido é pensar que eu nunca vou precisar de ninguém, quando verifico, todos os dias, que se não fossem essas pessoas todas, desde os tempos de bibe e sandálias de pneu até às de hoje, eu me teria resumido a uma insignificância insignificante.
Afinal de contas tudo isto para mostrar o meu arrependimento e poder dizer um muito obrigado a todos, mesmo aos que me tenho esquecido mais amiúde, às que me recordam, às que me falam, às que não me falam, às que sabem que eu existo na carne e no osso e às que mesmo não sabendo que eu existo se não através das estórias que a minha voz lhes vai contando.
Até um dia destes que pode ser amanhã, ou não, logo se verá, que por agora fico a contemplar o zulmarinho algures por aí.

Sanzalando

Texturas do tempo 21


22 de março de 2007

Me apeteceu ver o Zulmarinho (2)

Continuo sentado a olhar o zulmarinho com olhos de ver ao longe, deixando-me arrepiar pela brisa que de certo vem dum pólo qualquer antes de chegar aqui.

Água gelada, vento gelado.

Que é mesmo o que faço aqui? Faço enredos nas teias dos pensamentos.

Mas me dá paz olhar esse zulmarinho, me dá calor ver a minha história nas estórias que enredo e com a música do marulhar me envolvo na revivência da vida vivida.

Recordei nomes, caras e algumas emoções. Mas, como é da lógica, nenhum desses nomes é importante para a continuação da minha vida futura, mas reconheço que foram importantes nesse passado que não registo em nenhum álbum de fotografias, que não estão gravados em salvas de prata ou diários de um bordo de adolescência.

Na verdade não penso muito neles, alguns quase nunca, mas há dias assim, que chegam num repente e me dá a curiosidade de querer saber deles, que gostava apenas de os ver, que gostava de estar com eles e sem as conversas sérias que nunca tivemos.

Eu sei que me tenho tornado numa má pessoa, desnaturado, despreocupado, no que respeita às amizades. Simplesmente não lhes falo e às vezes me vão falhando os apelidos, às vezes os nomes e algumas vezes as caras.

Tudo isto porque ando muito ocupado comigo, só penso em mim e nos meus problemas, ou então não me apetece falar, ou quando vou tentar digo para mim que não vale a pena, que não há assunto para além do tudo bem e eu responder que sim e continuar numa banal conversa de vazio conteúdo, sendo certo que eu não gosto de encher os outros com os meus problemas e não estou com vontade de ouvir problemas mais em cima de mim. Reservei-me o direito de ser reservado. Distanciei-me e reservei-me, e isso faz de mim uma má pessoa em relação às amizades.

Na verdade, aqui, junto ao final do zulmarinho, ressalta-me o arrependimento, salpicam-me gotas dele que rolam pelos meus olhos abaixo.

Hoje vou-me levantar daqui e regar as flores do meu jardim




Sanzalando

Texturas do tempo 20


21 de março de 2007

Me apeteceu hoje ver o zulmarinho

Quando abri os olhos depois de ter dormido, vi que o sol estava ali a meia haste como a dizer-me para ir ver o zulmarinho. Lhe obedeci num sim nostálgico.
Ele marulha aqui igual que nem lá, mesmo que a cor e o seu calor não sejam mais parecidos. Também é verdade que ele arrefece de tanto andar para chegar aqui.
Me sentei na areia porque a brisa parecia eram canivetes a me cortar a pele a cada passo que eu dava. Me aconcheguei em mim e colei os olhos no vai e vem das ondas, embalado no marulhar.
Como eu gostava de estar agora com as pessoas que fui perdendo o contacto ao longo do tempo.
Lembro-me assim num repente do Rui, o filho da D. Beatriz Miranda, que foi o primeiro grande amigo. Brincávamos muito e não me lembro se no meio da nossa amizade alguma vez existiu uma conversa. Na verdade também ainda nem sabíamos falar as palavras mais sérias. Tudo era simples. Uma qualquer coisa apanhada na rua era o necessário para o início de uma brincadeira nesse mesmo lugar. Ambos tínhamos muito jeito para jogar à bola, só jogando quando a bola era mesmo nossa propriedade ou faltava mais alguém para dar certo e não dizerem que ganharam porque tinha mais ou menos um, como se nós fizéssemos parte dessas contas. A bola nos atrapalhava a ambos e nós atrapalhávamos os outros. Mas nunca falámos sobre a importância que isso teve nesses tempos.
Recordo o Zé, filho da Fernanda Corado, eléctrico, culto, sempre a pensar onde ia aprontar mais uma das dele. Não me recordo se alguma vez falámos das coisas que não as da rua. Lembro-me do Pedro, filho da D. Fernanda, professora na Escola. Lembro-me do criado dele, o Acácio, que num dia de nevoeiro fez ao contrário do D. Sebastião. Desapareceu. O Acácio era mesmo bom de jogar à bola e tinha muita força. Acho mesmo, embora nunca lhe tenha visto, ele fazia musculação nas escondidas da gente. Não me lembro de nenhuma vez termos posto cara séria para falarmos. É verdade que foi com o Pedro que eu fui pela primeira vez à Praia Azul. Era longe ali tão pertinho.
Me veio à memória assim num repente o Douglas, filho do Santana, que sendo mais novo entrava nas nossas brincadeiras com a simplicidade dos seus verdes anos.
Passam-se imagens de festas de aniversários em que as casas pareciam não ter espaço que chegue para acolher tanta alegria que se juntava. As portas ficavam abertas e era um entrar e sair, o buscar da gasosa e doces e sem perder tempo voltar para a brincadeira de rua.
Recordo, recordo, recordo. Os nomes passam na minha memória como o genérico de um filme.
Recordo que a única grande responsabilidade era fazer os trabalhos de casa. Feitos a correr para não perder tempo de rua.
Brincar, brincar, brincar.
Era doloroso, angustiantemente raivoso, ouvir os berros da minha mãe a me chamar para o banho. Nem me apercebia que se passava igual com os outros nesse mesmo tempo.
Como era bom poder bater na porta dos outros e desafiar para as brincadeiras de rua.
Como foi bom ter estado sentado a ver o zulmarinho nos primeiros raios de sol.

Sanzalando

Texturas do tempo 19



WebJCP | Abril 2007