Vamos caminhando num vai e vem, ao sabor do vento, à velocidade do nada. Ouvimos o marulhar desse zulmarinho, sentimos-lhe o perfume de maresia e caminhamos sempre como temos feito até aqui, sem pressas, sem enganos e desencantos, mesmo que os cantos estejam a ferver nos seus 90 graus. Precisamos deitar para fora os nossos medos, aqueles que a gente diz que não tem mas a gente sabe que bem lá no fundo eles nos estão a travar. Num é? Então porque não conseguimos realizar alguns dos nossos sonhos, uns dos nossos projectos? Vá, diz. Não, não estou zangado. Estou só a te querer exteriorizar os medos.
Conforme o nosso corpo cresce, nós vamos tomando as decisões, vamos elegendo nossas aptidões até que sentimos a estabilidade, até que nos achamos de bem com a vida. Mas os nossos sonhos foram realizados? Nunca te deu para pensar se foi essa vida, a que tu lhe vives, que escolheste? Estás satisfeita com a tua vida. Fala sombra que me segues. Responde-me, nem que seja com um sinal. Pois é. Já te apeteceu mudar, mas o medo de introduzir mudanças, o medo de fugires da rotina que te aparenta segurança, te influenciou.
É por isso que às vezes te pareces perdida. E vens dizer-me que não há medos?
Todos temos os nossos medos.
Olha, um dos meus medos é não ter força para te falar, para te dizer as minhas palavras que vêm directas do coração. Um dia chorarei por uma palavra apenas.
Sanzalando

Vamos caminhar neste caminhar sem destino directo, sem rotas, sem caderno de viagem. Caminhamos para o futuro, olhando o passado e vivendo o presente, assim num como quem não quer a coisa.
O zulmarinho e a sua maresia nos dão sensação de liberdade, o seu gingantismo nos mostra a nossa pequena existência, a areia, que lhe trava, marca os nossos passos como que a dizer que estamos aqui.
Eu falo-te de coisas de memória, palavras saídas do coração, sem filtros nem marcas que te digam que eu as disse. Falo-tas por falar e porque sei que mesmo que não me ouças tu estás aqui como se as ouvisses.
E a memória trás consigo uma chama de fogachos da vida, sinais da saudade, cumplicidades e outros simbolismos que se notam na marca de qualquer algodão que incendeia os meus passos, cinzas de recordações tristes e alegres. Um caminhar já caminhado.
Pode parecer um inferno olhar os passos já dados, gastos no número de passos que a vida tem, sem saber quantos passos ainda há para dar. Mas aqueles passos têm também a marca nostálgica dos passos dado na adolescência, na incerteza dos passos do futuro, nos caracóis do vazio abismo do futuro.
A memória leva-me, em passadas largas, para lá da linha recta que é curva, semente da minha existência, adubo de mim no hoje que o agora já foi.
Caminhos da memória que nos levam ao precipício do futuro velado da verdade.
Se eu tenho memória é porque eu dou passos em direcção ao futuro e tu me segues seguindo o teu futuro.
Olha, como é domingo, vou parar para beber uma birra loira estupidamente gelada, não para me refrescar a goela, mas só para saciar a sede de amanhã.
Sanzalando

Anda comigo neste espaço sem chão, sem tecto e sem paredes, neste lugar desfronteirado, livre de prisões, pressões e outros enclaves encravados na garganta. O zulmarinho nos separa e nos une, nos afasta e nos liga com a sua química e suas endorfinas.
Anda comigo neste caminhar em que é impossível recordar todos os momentos da vida e o segredo está em saber o que devemos esquecer.
Anda e me ouve com toda a atenção mesmo que não te apeteça guardar uma só palavra.
O que seria da nossa vida se recordássemos todos os instantes, todos os comentários, todos os factos que já vivemos? Qual seria a influencia dessas coisas todas no nosso hoje?
Eu sei que sabes que o mais agradável é recordar as coisas boas que vivemos, que vimos, que sentimos. Mas num calhar, são as coisas menos boas as que nos moldaram, as que nos fizeram aquilo que somos hoje. E como podemos esquecê-las? Como vamos fazer mesmo a selecção do que devemos esquecer e lembrar? Eu só sei que nestes passos que dou contigo me vêm à cabeça recordações que me tornam vulnerável e que me esforço, num querer sem par, em esquecer e que afinal de contas eis aqui na flor do pensamento. Recordado sem esforço a memória que queria esquecer. Assim te pergunto, se há que esquecer como escolher e como lhe fazer para ele não estar sempre a vir na superfície dos pensamentos como que a querer respirar ou dizer que está aqui?
Sanzalando

Tu sabes que eu sei que caminho num lugar sem fronteiras. Se olhar para além da linha recta que é curva me encontrarei. Se caminhar paralelo a ela me encruzilharei entre palavras e sonhos, verdades e quereres. Se me sentar aqui e olhar para além do que vejo, é como caminhar por silêncios, por surdas palavras, por pensamentos sórdidos.
Caminho sem fronteiras para não me perder no sentido da palavra, na visão da frase, no conteúdo do texto que te dito como se fosses uma máquina de gravação das minhas ideias.
Ouvindo o marulhar, ouço as tuas palavras, as mensagens que me chegam na forma de ondas se atirando contra a areia, escuto a tua voz e tento recordar-te tal e qual tu me pareces que és.
Vivo, sobrevivo, malvivo. Esta a forma que escolho de viver-te, sentir-te, acariciar-te, ter-te na força do meu desejo de possuir-te.
Caminho no desafio das leis da física, da química e da alquimia, porque caminho sem linha, sem rumo, sem fronteiras, sem paredes, sem buracos. Caminho na tua direcção como se fosse um esperto na arte da orientação, como se soubesse que todos os caminhos te vão dar.
Caminho sobre o sentimento sentindo que te trazem-me quando me levam-te. Caminho sobre as palavras que nos ligam, sobre o zulmarinho que nos une em mordidelas de encanto, em tracejados de balas de paixão, em pulsar de corações parados.
Afinal o que nos une não é um túnel de vento, é mesmo uma paixão de silêncios e palavras, é um tornado de emoções, furacão de coisas pairando algures num espaço sem limites.
Por isso caminho-te sem fronteiras.
Sanzalando

Caminho. Caminhamos neste final de zulmarinho com a serenidade de termos a consciência traquila, leves porque ela não nos pesa, sorridente porque ela nos alegra. Caminhamos, eu na minha voz de certezas e tu na atenção de quem escuta mesmo que não ouças nada.
Caminhamos plenos de certezas que o sonho comanda a vida, descontraídos porque não sabemos onde nos levam os passos, despreocupados porque sabemos que os nossos olhos vêem as armadilhas que o terreno nos possa apresentar.
Caminho. Caminhamos, inseparavelmente eu e tu, mesmo que um dos dois queira seguir sozinho, mas é coisa que desconseguimos porque estamos demasiado ligados desde que nascemos. Marcou-nos a infância, moldamo-nos na adolescencia, choramos e rimos na idade das certezas com a certeza que somos inseparaveis até que a morte nos leva para a cova funda onde não há lugar para sombras. Aí, caminharás sozinha na tua impossibilidade de existir.
Sanzalando

Um grande abraço Capitão Salgueiro Maia (1944.1992)
Sanzalando

Vamos daí. Andar faz bem nas coronárias, femurais e outras artérias que tais, dessas que nos passam o tempo a dizer que temos de ter cuidado com o que comemos e bebemos, que devemos e não devemos fazer. Vamos fazer bem no corpo e deixar as palavras se soltarem para fazer também uma massagem no cérebro.
Tu sabes que eu já te devo ter dito, por estas ou outras palavras, que a queda é livre e a subida é árdua. Subir na ladeira, subir na montanha. Subir é sempre uma canseira que até custa subir na vida, que ela às vezes parece é aquele touro de feira que foi feito só para derrubar a gente e mais a nossa mania de valentão.
Ao falar assim me lembrei das lembranças do que a gente fez com desnecessidade, as palavras ditas de forma envenenada que podem destruir assim num instante tudo o quanto a gente demorou que nem uma eternidade para construir, daqueles minutos loucos que a gente vive de vez em quando, quando a gente quer atacar alguém num esbracejar de que parece quer partir este e o outro mundo. Ao dizer-te estas coisas assim me fez ver as coisas perdidas por uma casmurrice, que uns dizem é orgulho, outros falam é vaidade, outros mais simpáticos dizem é auto-estima e outros ainda falam é pragmatismo. Ao te falar assim me lembro das formas e atitudes que me fizeram dar nas vistas, ser olhado e falado, ao mesmo tempo que me deixaram solitário, emmimesmado e cambaleante.
É por isso que no dia de hoje eu não te vou falar nem mais nada e me deixar escorregar pelas memórias das coisas que deixaram em cinzento o céu agora azul, esse zulmarinho barrento que agora é assim um mar de lágrimas choradas no mesmo tempo que é o elo que me liga.Vamos só caminhar para os desentupimentos das coronárias e deixar que o vento voe sobre os neurónios sobreaquecidos.
Sanzalando

Vamos divagando enquanto distribuímos o peso ora numa perna ora noutra, num caminhar serenamente seguro ao longo deste final do zulmarinho. Vamos divagar sobre o que devemos divagar na forma de palavras ditas.
Divaguemos sobre os sucessos de vida, não os meus que esses são coisas assim como pequenas e não merecem destaque nem divagações, mas aqueles que me tocaram porque aconteceram a amigos ou conhecidos meus. Divaguemos sobre os sucessos bons e maus. Mas se te falo de sucessos porque te falo também em bons e maus? Sucessos unicamente porque sucederam, aconteceram.
Bem, dentro dos sucessos maus é sempre difícil pôr um antes do outro, pelo que salto esta parte e mostrar coragem para os olhar de frente e ter força para os pôr assim num atrás de costas com a lição aprendida, aula dada.
Dentro de toda a nostalgia que me invade há que não esquecer os tempo de felicidade e até mesmo orgulho já que amigos meus conseguiram realizar uma parte importante dos seus sonhos imediatos. Com mais ou menos dificuldade os sonhos se foram paulatinamente realizando e hoje são sonhos sonhados com pés assentes na terra. E lhes vejo com novos sonhos que sei um dia vão ser sonhos sonhados também porque lhes conheço bem e sei que não param até os terem sonhado de passado.
Neste divagar vamos divagar também que está na hora de mudar de divagações, está na altura de haver um volta atrás na forma e maneira de te falar as coisas, voltar na origem da palavra dita como quem a fala sem lhe trabalhar.
Ah! Trás gravador porque não me vai apetecer repetir duas vezes a mesma coisa e se te falo num de cor e salteado quer dizer que não te saberei dizer as coisas letra por letra uma outra vez.
Sanzalando

.jpg)
Anda sentar aqui mesmo pertinho do zulmarinho. Vamos aproveitar o vento que voa vindo do mar e lhe chamam de brisa, para arrefecer este crânio que não pára de bulir ideias numa estiga de manter a vida em agitação.
Hoje mesmo é dia de despensar o quotidiano que intervala de vez em quando nas palavras surdas ou afónicas. Senta só assim como quem passar um dia sem pensar, descansar a goela e deixar em banho-maria as células pensantes.
Sanzalando

Vamos caminhando lenta e pachorrentamente por este final de zulmarinho. Se tivermos palavras dizê-mo-las, se as não tivermos entremo-nos a ouvir os nossos passos na areia de mil cores. Importante mesmo é estarmos juntos nesta caminhada, em acordo ou desacordo, mas sempre de olhos nos olhos que é como quem diz. De vez em quando olhamos em redor para saber como vai o mundo para lá da nossa imaginação, do nosso sonho, do nosso querer.
Tu sabes que nada é impossível. Se não sabias é porque andas por aqui distraída. Os impossíveis só existem até ao momento em que tentamos fazê-los realidade. Nós estamos sempre num princípio, sempre a tentar dar a volta ao impossível. É esse impossível que torna possível ter um caminho. Estou-te confuso? Tem dias.
Ao caminharmos na borda do final do zulmarinho parece impossível sabermos como vai o outro lado da linha recta que é curva. Mas se escutares as ondas dele se espraiando, vais sentir que te trazem recados, pequenas frases que tu desmultiplicas e constróis ideias. Dessas ideias te nascem sonhos, destes, a força para os realizares.
A vida está cheia de contrastes, absurdos alguns outros nem tanto. Mas não é impossível ultrapassar estes caminhos absurdos por mais contrastados que estejam.
Por absurdo que pareça eu me pergunto o que pensarás tu me mim. Como ser humano tenho esse pensamento, que pensarão os outros de mim? Por muito que seja independente dessa opinião, me interessa saber porque é necessário fazer correcções, mudar estilos, mudar formas de vida, Um leque de coisas que o subconsciente vai alterar para ir de encontro a essa opinião, à qual eu sou independente, não deixando de depender dela.
Que pensas tu de mim que passas horas a me ouvir falar, de mente e coração aberto, mas não dizes uma só palavra? Te olho nos gestos e te percebo que eu sou um modelo ou que irei ser para gerações que virão. Na verdade eu não me quero plastificar para ser um tipo porreiro, que caminha a falar das coisas simples da vida com olhos no lado de lá. Porque sempre caminho a olhar para o lado de lá, para o amanhã ou horário a seguir. Eu escolho o meu caminho muitas vezes num impulso e por isso tenho erros, tenho a capacidade de tropeçar nos degraus da vida, de mudar de rumo, de escolher outro caminho. Não estou plastificado.
Plastificadamente caminhamos à procura das palavras.
Sanzalando
