Hoje caminho pela areia. Não há vento e nem uma ligeira brisa se mete com os meus cabelos revoltos. Transpiro e não é só pelo calor. Imaginar cansa e eu tenho estado para aqui a pensar como é que será o meu joelho por dentro enquanto caminho. Dobra-se e estica-se sem que eu lhe dê ordens directas. Pelo menos não me estou a lembrar delas. E porque ele dobra sem ruídos, sem esforço e sem vergar para um dos lados que seja o errado.
Caminho e penso. Esforço suplementar porque tenho que transportar comigo todo o peso, incluindo o da consciência. Quer um quer outro dos joelhos se vai aguentando.
Num repentemenete lembrei-me daquela porta velha da casa velha que rangia quando se abria ou se lhe fechava. Será que eles um dia vão fazer a mesma figura ruidosa quando me levar dum lado para outro? E como me lembrei daquela canção na voz do Mingas que dizia qualquer coisa assim como um andar nada prático carregado de reumático? E como é que eu me lembrei das pastilhas para a dor, do gelo e do calor?
E hoje eu caminho na areia num pensamento nada prático. Talvez eu precise duma cerebroscopia para me ver o que desfunciona.
Sanzalando

Aqui estou eu num caminhar seguro ao ritmo do marulhar.
Se fechar os olhos consigo sentir a letra escrita em cada onda e de me recordar donde a vivi.
Se fechar os olhos consigo ouvir as tuas frases batidas na areia assim como o sentimento da tua voz.
Se fechar os olhos consigo ouvir-te na música dos silêncios, nas recordações dos medos e nos recantos escondidos da minha vida.
Aqui estou eu a ver-te mar, kianda dos meus sonhos, pássaro do sul, cruzeiro do norte.
Se fechar os olhos posso viver-te.
Aqui estou, poeta sem versos, coração aberto, lágrima escorrida.
Sanzalando

Tem dias. Tudo tem os seus dias. Ou não.
Tem dias que me custa acordar, como há dias que me custa adormecer. Há dias que consigo rir, outros tem que não paro de chorar mesmo que nem uma lágrima se liberte dos meus olhos. ~
Tem dias nos hás.
Há dias que gosto de sonhar.
Tem dias que tenho medo do mundo.
Há dias em que a noite é demasiado finita.
Tem dias que a noite é interminável.
Há dias de saudável melancolia.
Tem dias que apetecia morrer por uns minutos.
Há dias que me apetece saltar e pular.
Tem dias que me apetece renegar tudo.
Há dias em que me lembro de quase desde que nasci.
Tem dias que me esqueço quem sou.
Enfim. Tem dias nos hás.
Sanzalando


Parece acabo de ouvir a noite deixar cair o seu manto escuro sobre este mortal que te fala num segredo de silêncio. Parece mesmo o céu ficou escurecido por um pano que aqui e ali parece ter tufos de algodão dum algodoeiro vagabundo.
Assim num repente me vieste à memória e a luz dos teus olhos me pareceram assim como duas luas cheias fazendo dois carreiros de luz sobre a água do zulmarinho que agora mais parece um mar de luto.
Me arrepiei como num afastar de pensamentos menos felizes, me secou a boca duma sede insaciável.
Pensei em ti, me morri para ressuscitar num novo instante de alegria e ter esperança que quando amanhecer eu te vou ver assim num radioso dia de verão.
Sanzalando


Me sento aqui, na sombra de palmeira que dá um ar tropical, olho o zulmarinho carregado hoje do seu azul e sereno que até transpira aqui a sua calma. Bebo um copo em vez de ir dar uma volta. Alguém trouxe um rádio e resolveu oferecer a música aos vizinhos mais distantes. Por acaso a música até que nem é da má.
Daqui dá para ver os corpos torrarem ao sol. Bem, tal como a minha imaginação é selectiva também os meus olhos o são. Eles escolhem a direcção do olhar e só vêem quem está tentar ficar cor de chocolate. Outros corpos há que estão ali só mesmo para ver se derrete. Manteiga derrete mais depressa.
Mas também é verdade que eu não estou aqui sentado para bisbilhotar corpo alheio. Estou aqui mesmo é só para caminhar os meus passos largos no lado de lá da minha imaginação, no meu sonho e na minha ilusão.
Faz já muito tempo que estamos para aqui a conversar num entre eu e mim, alucinado que ando na minha estória, com lágrimas e gargalhadas que agora até me apetece bailar ao som do rádio do vizinho distante. Mas não. Ainda vão dizer eu louquei de vez.
Ouço só, mexo o corpo e continuo a minha caminhada de palavras.
Imagina só se alguém ia ver um velho gordo a saltitar passos de dança, remexer os quadris… Se já houvesse estrelas… Não vale a pena nem imaginar.
Aqui sentado, olho o zulmarinho e no caminho fixo um corpo que se embeleza mais ao sol, e ouço Tombe là neije na voz inconfundível do passar dos anos. Vais ver daqui a bocado ainda vai dar o Não sou digno de ti do Morandi.
Sanzalando


O mundo das fantasias é um mundo cheio de sensações e de momentos que nunca teriam lugar no mundo real. Portanto é um mundo transgressor por natureza. É assim um mundo inexistente que pode ser modificado sempre que se queira ou dê jeito.
A fantasia é por si só muito gratificante mesmo que às vezes possam partir do medo.
A fantasia é o escape da monotonia, do aborrecimento.
É por isso que me navego à beira do zulmarinho que às vezes está carregado de verde.
Às vezes a gente persegur sonhos impossiveis, fantasias inatigiveis, e às vezes o nosso coração bete por um impossivel.
Mas eu sei que caminho que não existe, que alimento a iadeia transgressora.
Na verdade gosto de caminhar por estes mares de ilusão.


Me sento nessa cadeira de madeira, gasta pelo tempo e carcomida pelo salitre, olho para o azul do zulmarinho e me desato a dialogar cada vez mais comigo, assim não vá eu estar surdo de mim.
Recordo que li numa velha parede, num tom desbotado, traduzindo alguma idade e umas tantas outras intempéries, a frase ‘se alguma vez desejares a morte pensa nos que morreram sem a desejar’.
Mas porque é que eu me dialogo sobre esta frase aqui na beira do zulmarinho?
É que aqui eu me esqueci que as noticias dos jornais e das televisões estão carregadas de cinzentos, de energia que apagam qualquer luminosidade interior que possa existir. Eu sei que é a realidade mas esta também tem outras luzes, outras cores, outras palavras, outros caminhos. Não acredito que esse outro mundo só existe mesmo na minha cabeça. Não é meu sonho, nem é capaz de apagar esta capacidade de sonhar, esta capacidade de acreditar.
Eu sei que muitas vezes asfaltamos os caminhos para transitarmos por eles com mais segurança, com mais comodidade. Eu sei que às vezes asfaltamos o nosso coração com a boa intenção de não sofrer. Mas assim onde vão ter todas as nossas ruas asfaltadas? Ao silêncio do pensamento, às carícias não transmitidas, às lágrimas não choradas.
E eu, aqui sentado, com tempo para pensar, para recordar dialogo-me para não ensurdecer a imaginação nem soprar a poeira das picadas da vida.
(*) estrada de terra batida, ou por bater.
Sanzalando

Sanzalando like a surgeon


Olho o zulmarinho e lhe invejo o sossego que até me custa dizer que é ele. Minha vida e a dele são uma misturada na minha imaginação que até penso que é mesmo de verdade e aconteceu haver uma mudança para tanta quietude. Parece mesmo que nos cruzamos num lugar do mundo, olhámos olhos nos olhos e tem sido impossível esquecer a grande aventura então vivida.
Olho o zulmarinho e me esqueço de pensar naquelas horas perdidas, nos esconderijos em que escondi parte de mim.
Será que ele pensa assim também? Eu sei que ele é fruto dos filmes que eu imaginei, das cenas que eu encenei, do argumento que eu não escrevi.
Olho o zulmarinho e me esqueço de chorar.
Sanzalando


Me atrevo a entrar pelo zulmarinho dentro, esquecido da realidade sombria do ar condicionado e olhar esbugalhado de concentração. Faz de conta mesmo estou carregado de não fazer nada e por isso entro no zulmarinho. Gelado. Lentamente me vou molhando num arrepiar progressivo que me tira o ar quando uma gota vinda não sei de onde se esparramou no meu dorso. Acho mesmo ela quis tatuar na minha alma a dor da minha ousadia. Mas o desejo de lhe tomar num todo crescia e lentamente, cada vez mais lentamente, me metia nele num linguarejar de blasfémia em blasfémia, hipnotizado num capricho de gemido gélido.
É a última vez, penso com os meus botões se por acaso tivesse algum, pelo que assim acho falei mesmo nas sílabas todas. Se me arrefeceram todos os instintos, todos os esboços de sorrisos são afogados na raiva gelada. Deixei de sentir o prazer dos seus gostos. Os braços estão esticados como a querer agarrar o céu e me elevar dali para fora.
Num repente, assim como no instante fatal, me atiro de corpo já sem alma e percorro submerso a distância que a falta de ar me permite.
Me ergo. Olho em redor.
Me senti pálido mas sei que estava corado da figura feita.
Regresso à areia donde não devia ter saído e me recordo de chamar o senhor dos sorvetes.
Sanzalando


Sinto o perfume da maresia, ouço o marulhar. Não vejo o zulmarinho porque me recuso olhar. Caminho de olhos vendados como a querer inventar um lugar seguro para colocar os pés. Uso os meus lábios para chorar palavras de desejo, uso meu cabelo para sentir o pulsar da brisa, uso a imaginação para me ver estirado no desejo impuro de me deitar sobre o teu deserto, floresta de noites douradas, colinas de sois escaldantes.
Recuso olhar, simples.
Quantas horas? Quantos dias, meses e anos?
Simplesmente agora recuso olhar. Quero ver a beleza pura da imaginação.
Sanzalando

Olha lá, hoje me sento que estou cansado. Vejo o zulmarinho, lhe falo com silabas de olhar e lhe carrego com as minhas lágrimas que não choro.
Tu sabes que eu tenho andado pelos ciclos do tempo, pulando de esperança em esperança, respondendo a cada silêncio e olhando o céu à espera que algo me caía.
Por isso é que estou cansado e me sento.
Tu sabes que para mim mesmo o negro dos mais negros céus será sempre um cinzento bem clarinho, que os ventos ciclónicos que me chegam do mar mais não são que amenas brisas que me despenteiam.
Por isso é que estou cansado e me sento.
Tu sabes que os coices que me dão na alma são pequenas carícias fragmentadas de lição, que os dias mortos de saudade são apenas dias de lembranças.
Tu sabes porque é que eu estou cansado e me sento.
Sanzalando


Caminho em passos incertos como só se pode caminhar na areia das mil cores que é trazida pelo zulmarinho de desde as suas profundidades interiores.
Numa onda mais rebelde quase que chegas a mim. Olho-te e não me mexo, certo que não me alcanças. Te conheço porque és a minha vida, os meus sonhos, meus pesadelos, minhas lágrimas o gargalhar das minhas gargalhadas.
Digo-te as minhas palavras. As de amor, de paixão, de desejo, de raiva e de angustia, todas as que escrevem a minha vida.
Não te gaguejo nem tropeço nos significados interpretativos, porque sabes que as minhas palavras são as tuas. E eu sei lá quantas mais palavras tenho guardadas para te dar… Calo-as hoje mas te direi num outro dia qualquer como quem tem de palavrear-te para poder ser.
Não te nego que as minhas palavras estão com cores de passado, cheiros de presente e sabores de futuro.
É que as minhas letras querem mesmo é falar.
Sanzalando

Talvez porque hoje é sábado e me deu assim para, na bordinha do zulmarinho, começar a pensar em coisas mais sérias que me tiram do sério.
O marulhar e o gelado dele a tocar meus frágeis pés me levam a estas coisas, mas a verdade é que tudo começou porque eu vi um grande cartaz a dizer que o hotel, que não digo o nome porque não me pagam a publicidade, tem 30 – trinta – canais de televisão e Internet em todos os quartos. Ora vamos lá ver, se a gente não vai ali de férias porque eles são caros e o dinheiro está a acabar mais cedo no mês, só se vai ali numa fugidinha. Deixa só pôr uma fotografia nesta coisa que eu estou a pensar. Um casal chega ali, vai na recepção, corre para o quarto, sempre a correr para não perder tempo, começam as brincadeiras, entram nos entretantos preliminares, quando num repente, assim mais como não, um, não interessa qual diz no outro:
- Amor, espera só um minuto que eu vou ver os e-mails...
Ou
- Anjo, começa sem mim que eu vou ver como está a bolsa...
Não, não! Mesmo é melhor dar um mergulho neste gélida água a sonhar com o cacimbo que faz lá onde ela nasce.
Sanzalando


Ao te ver, senti saudades de mim, do meu sorriso e da minha indecisão.
Tu dás-me saudades daquilo que hoje não sou.
Sanzalando


Caminho nos meus passos perdidos ao som do marulhar como quem caminha num sonho, sem noção de tempos nem distâncias. Tropeço, como sempre tropeço na vida, num pensar que me surge assim feito relâmpago sem tempestade. Renovar ou morrer. Não é fácil, nem é impossível, apenas difícil. Ao longo de toda a nossa vida assistimos a mudanças. As fisiológicas nem nos pedem opinião, conselho ou ponto de vista estético, mudam-se mudando-nos. As psíquicas, bem, além de nos custarem são brutas e abruptas. Queremos mudar?
Sei que a intenção é boa, chamam de amadurecimento e coisas e tal. Mas será que queremos mesmo mudar? E porquê?
A resposta óbvia só pode ser uma: Para sermos felizes!
Afinal de contas a mudança é sempre procurada, mesmo que de forma inconsciente, mesmo que a gente sinta aquele medo de mudança, mesmo que a gente tenha a tendência de iludir a insatisfação e a comodidade.
Afinal de contas foi só mais um tropeção à beira do Zulmarinho.
Sanzalando

A vida resulta da repressão do suicídio
Estavam tão apaixonados que fizeram amor durante todas as estações do ano, um dia abriram a porta de casa e mal reconheceram o que restava dos seus corpos
O meu amigo era hipocondriaco por isso teve que enganar a sua mulher para sofrer de adultério
A pobreza é o pior dos infernos porque é o inferno dos vivos
Sanzalando
