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A Minha Sanzala
recomeça o futuro sem esquecer o passado

21 de dezembro de 2008

Boneco de neve


Hoje me disseram já não é Outono. Portanto hoje neva. Como meu corpo está aqui mas a minha mente não, vou fazer um exercício de memória. Vou escutar a neve a cair. Não é na marginal. É mesmo neve de imaginação. Escuta. É um sussurro branco, brando e cristalino. Se eu tiver muita imaginação, vou fazer nevar muito e depois vou fazer um boneco de neve. Para nariz vou usar uma cenoura para parecer o nariz do Pinóquio, porque é um boneco de mentira. Vou usar um saco preto para lhe fazer de chapéu assim me vai parecer uma mago das estórias do antigamente.
Hoje neva, porque hoje começa o Inverno.
Bebo um café quente, ponho uma manta sobre as pernas, abro um livro que me leva aos tesouros escondidos da minha imaginação, na companhia do meu boneco de neve que não existe.

Sanzalando

20 de dezembro de 2008

Livros no Outono quase Inverno


Se acaba o Outono e vem aí o Inverno. Tem V, felizmente. Pois se tem f é que a gente ardia de frio. Mas lá tá sol e é quente, não é sol de Outono quase Inverno. É mesmo sol de aquecer que até ferve de calor. Mas eu não tou lá, por isso eu aguento o sol frio de Outono quase Inverno. Contrariado. Ambos.
Me preparo para aguentar as longas noites frias. Sim, o dia é tão cinzento que não lhe posso chamar de dia. É um dia quase noite por isso é noite sempre, mesmo quando o sol vem aqui dizer que ainda existe. Frio mas existe. Mas eu tava a te dizer que me preparo para lhes aguentar, com livros.
Há livros que prometem muito, tem título que até parece não vai dar para parar a meio para beber. Se abre e não tem mesmo nada porque é nada o que lá está. Tem outros que me fazem rir, outros que eu penso sou o artista principal, me tornando cúmplice do livro.
Mas é bom ter livros por perto. Merecem o tempo infinito do Inverno que chega.

Sanzalando

19 de dezembro de 2008

Um sol no Outono

É uma manhã de sol. Sol de Outono. Frio. Intensamente frio. Há gente na rua, nas praças e nas esquinas. Há gente que mexe, gente viva. Eu olho encoberto num manto de neblina. Imagino-me invisível, é claro. Como está sol, mesmo que seja de Outono, parece que renasci com o espírito de ver as crianças que olham felizes para as montras das lojas carregadas de cor e luzes. Vejo casais felizes de mão dada enamorando desejos eternos. Vejo idosos calcorreando ruas como se fizessem exercício que faz tempo tinham esquecido que era necessário.
Está sol de Outono e sinto um brilho nos meus próprios olhos.
Como é bonito ver gente que vai e vem como se o mundo não fosse acabar amanhã.
Mas continua a ser ainda Outono.

Sanzalando

18 de dezembro de 2008

As flores de Outono


Neste Outono que falsas me parecem as flores. Cores pobres num dourado artificial. Fico triste em vê-las neste tom pardacento. Olho-as e as vejo murchas, aparentemente mortas. Folhas soltas sujando o chão dum sujo que de sujo nada tem. Triste, apenas.
Já sei que o Outono é assim. Mas eu lá não tinha Outono… tinha frio mas não era um frio outonal.
Como me parecem falsas estas flores de Outono. Apetece-me arrancá-las pela raiz, mas assim não as poderia admirar numa futura primavera…É Outono mesmo que lá Outono não seja, mesmo que lá as flores floresçam nas suas garridas cores. Eu sinto o Outono.
Mas às vezes, no meio do nada me aparece uma flor que é uma flor de Outono.

Sanzalando

17 de dezembro de 2008

Outono e a Grécia


O Outono está assim a dar uma de finados. Comecei aqui a pensar no que é que eu iria divagar. Vou falar-te da Grécia, a Grécia clássica, mostrar-te a sua História, falar-te dos filósofos. Mas ao olhar umas imagens na televisão mudei de ideias. Repentinamente vieram-me à memória uns templos, monumentos e estátuas gregas e vi que estavam todas partidas, tal como estavam partidas as ruas da Grécia actual nas imagens que eu vi numa televisão. Portanto aquilo na Grécia parece que é habitual e por isso não te vou falar disso. Cansada de estar partida estás tu, eu sei. Ou de partida.
Mas afinal que é que o Outono me fez que não me deixa ter uma ideia. Esvaziou-me o jarro da imaginação ou meteu-me dentro dalgum cavalo de Tróia?
Acho que o Outono este ano está azedo, o que vale é que está mesmo a acabar. Mais dia menos dia e se fina.
Mas tanto tenho divagado em Outono e me esqueci que não sabes o que é o Outono.
Que grande Outono que eu sou.
Eu queria falar-te da Grécia. Talvez com algumas estátuas romanas à mistura, umas imagens do Egipto intercaladas. Eu que estou entre os deuses e os homens, principalmente quando me apetece dormir a sesta e tu não me deixas porque me ocupas a mente e eu para me distrair palestro sobre as velhas civilizações, que eram tão, mas tão grandes que acabaram em pedaços incompletos de pedra, areia e alguma cor.
Talvez por ainda ser Outono eu vou dormir mas é a sesta e esperar que este Outono acabe.



Sanzalando

16 de dezembro de 2008

Talvez porque ainda é Outono


Talvez porque é Outono eu estou assim perdido numa teia de pensamentos e ideias que se baralharam num baraço sem ponta por onde se pegar, ficando apenas os nós do remorso e arrependimento. Desconsigo perceber o que se passa no meu coração. Te disse bué vezes que te queria, mais isto e aquilo, assim num monte palavras pensadas com sentimento e quando tu me te deste, eu fui-me embora.
Tu me és especial, fonte da minha felicidade, luz, perfume, calor. Noutras palavras, tu és a minha vida, se é que a minha vida não é mais que um sonho em que eu sou apenas um espectador sentado como que a ver um filme.
Talvez porque ainda é Outono tu poderás estar a pensar que eu me pus a correr numa fuga premeditada. Mas numa primavera eu te mostrarei que não.
Simplesmente eu não sabia que a vida de quem ama é assim tão dura e difícil.




Sanzalando

15 de dezembro de 2008

Divago


Outono. Quase que até me apetecia dizer-te que me dói a alma. Mas vou ficar só no quase e ficar com o teu nome a sair, numa constância repetitiva, dos meus lábios em forma de sorriso.
Outono… e fico também com o teu olhar como forma de não esquecer as palavras que me apetece dizer-te no silêncio da solidão.
Olha, desculpa só mais uma coisa, é que eu vou ficar-te com os sonhos, desejos e em troca guardo as lágrimas que me esqueci de chorar por vergonha.


Sanzalando

14 de dezembro de 2008

Sol de Outono

Outono, ideias pouco iluminadas, condizentes com a luz que está lá fora. Abro a janela e parece estou no meio da estrada. Me entra um ar gelado que vem da montanha que eu sei deve estar ali para os lados do norte. Não a vejo mas lhe sinto pelo frio que me chega aqui. O sol está ali brilhante,encarnado, mas pelo que sei acho se afastou muito de mim desde o verão até agora. Vais ver ele se zangou comigo porque eu não lhe disse que ele não era o culpado do aquecimento global e coisas e tais. Quer dizer que no Outono o sol também amua. Pensei isto e sorri. Me lembrei de muitos sois que conheço, daqueles que são o centro do mundo e assim num estalar de dedos estão amuados, escondem o sorriso, bassam o brilho dos olhos, lábios em riste. Um dia, assim num inesperadamente voltam como se nada tivesse passado.

Vais ver o meu sol é assim e mais mês menos mês ele está aqui mais próximo de mim outra vez.


Sanzalando

13 de dezembro de 2008

Zulmarinho

É Outono quase Inverno e o que me apetece mesmo, porque é o que me relaxa, dá descanso e tranquilidade, é ficar rodeado por ele. É ele o meu fiel amigo que está sempre pronto para me ouvir. Pelo menos parece.

Me introduzo nele, passo a passo se o passo não tiver mais que um centímetro e a altura da água não subir mais que um milímetro. E ele, imenso, pronto o submergir-me. Depois, brincamos ao ritmo dele numa bailar que se não me ponho a pau ele me enrola na areia. Enfim, parece que nos entendemos na perfeição, nos compreendemos e nos reconhecemos. Foi nele que um dia lhe chamei zulmarinho e zulmarinho ele ficou.

Afinal de contas é o único lugar onde posso chorar sem que alguém note porque as minhas lágrimas se misturam num misturar de desaparecerem dissolvidas.

Outono e ele está quase gelado. Seco as lágrimas antes que saiam. 


Sanzalando

12 de dezembro de 2008

Prometerei num Outono


Se calhar no Outono eu devia mesmo era estar no meu silêncio, aceitar a nostalgia como passatempo, uma fuga à rotina, uma espera de melhores dias. Se calhar o Outono é altura melhor para não pensar. Ou se calhar não é, já que me angustia o silêncio, o espaço em branco da vida, o tentar não estar e não ser. É, aqui estou eu numa tarde de Outono tentando calar o meu silêncio com palavras soltas. Uma esquina, uma beira mar, um refúgio dum quarto isolado. Navego palavras por ondas de silêncio onde afogo as minhas raivas, medos, angustia e cobardias.

É Outono e quase me apetece prometer que num próximo Outono apresentarei uma livro de páginas choradas, a juntar a tantos que se vão empoeirando em muitas prateleiras de muitas bibliotecas, amontoados livros de lágrimas secas, bolorentas, amargas.

Afinal de contas mesmo no Outono é difícil contar em palavras o que não se consegue vomitar porque é inenarrável. O melhor mesmo é deixar as palavras deslizarem secas pela garganta, acidificarem-se no estômago, misturarem-se no fel no intestino delgado, perderem água no grosso e deixá-las seguir caminho até uma próxima ETAR.

Afinal de contas é Outono, uma etapa da vida. Como outras, passageira.


Sanzalando

11 de dezembro de 2008

SilÊncios de Outono


Aqui estou em mais um dia deste Outono. De tempo, de alma e se calhar de coração. Se tenho dúvidas fico com elas. Certezas são poucas e não as dou. Mas eu sou assim no Outono. Neste? E nos outros como foi? Desconsigo lembrar-me que a memória não me ultrapassa o dia de ontem. Não te falei? Então foi porque não tive tempo, mesmo sendo Outono. Se calhar há 20 kilos atrás eu tinha mais tempo, tinha mais coisas para falar no intervalo das inspirações ofegantes e fumegantes. Ou se calhar já te disse todas as coisas que eu tinha para te dizer. É lixada esta dúvida também. Vou tentar pensar e ver se vejo alguma luz no fundo de algum túnel.

Se calhar é mesmo só assim porque é Outono.


Sanzalando

9 de dezembro de 2008

Dúvida


Sanzalando

8 de dezembro de 2008

Fico contigo


Chove frio. Eu sei que é Outono e que aí não é como aqui. Aí chove calor, misturando o suor com a água que cai. Mas a verdade é que eu estou aqui e tu estás aí e estamos juntos. E se alguém disser o contrário é que se enganou e a gente até que nem liga. Eu fico com o teu nome, o teu olhar e o teu sorriso na minha memória. Esqueci as palavras que me calaste, os silêncios que me ofereceste, os intervalos que nos inventamos. Eu fico com o sonho de te ver cada vez que fecho os olhos, do anel que te dei quando te reencontrei lá no sítio onde me disseram que ficou meu cordão umbilical.
Afinal de contas eu fico contigo sem mesmo saber onde te ver.





Sanzalando

7 de dezembro de 2008

(06) Texto Pedido - MORROS DE BENGUELA

MORROS DE BENGUELA

Vós que vos ergueis agrestes
Sob o azul do céu nevoado,
Vós que pareceis negros gigantes
Que a Terra (santa mãe)
Não sepultou no ventre ubérrimo,
Dizei-me: Quem sois?
Sim! Contai a glória, ou martírio
(Mistério transcendente)
Dessa vossa vida surpreendente.
Sois monumentos sagrados
De feros dramas e façanhas?
Quem pisou o vosso chão?
Tu, pedra escura,
Que linguagem estranha,
Que mistério escondes?
Dalgum santo missionário
Que pisou e sagrou a tua gleba?
Dum valente, indómito colono
Que com galhardia e amor pátrio
Fecundou Angola, que era Portugal?
Falai-me, por Deus,
Da vossa vida, da vossa lenda,
Penedos escuros de estranhas vidas.
No silêncio perpétuo e eterno
Oh morros de Benguela,
Concedei-me que eu, um dia,
Feita pó, feita lodo,
Durma prostrada, em paz.
Mas depois da minha morte
Feito pedra, pedra forte,
Meu pobre coração
Permaneça eternamente
Repousando a vosso lado.

Vera Lucia

Sanzalando

6 de dezembro de 2008

Sábado de Outono

É assim num sábado de Outono. Finge que chove uma chuva que parece não cai porque esvoaça, mas molha num molhar que arrefece a alma, que trás à superfície dos poros recordações, nostalgias e dilui as lágrimas que não são choradas na vergonha dum público.
Passamos a vida rodeados de gente que apenas nos vê mas não nos conhece. Sabe-nos o nome, a cor dos olhos e depois uma escuridão enorme de saber nos sentimentos. Alguns nos dizem conhecer, mas tão superficialmente que parecem estão a flutuar à nossa volta até parece um balão de criança. Mas no momento mais preciso, mais pontual dum relógio trágico da vida são até capazes de gritar e nos dizer que nem sabem quem somos, quando antes quase fizeram a nossa biografia que até parecia éramos nós os outros.
Eu sei, que nas leis da vida a gente às vezes faz coisas, consciente ou não, que não é o mais certo, que está até mesmo um pouco mais errado do que é aceitável. Eu sei que ninguém está livre mais disso porque é assim a natureza da gente, não ser máquina. Mas não é motivo suficiente para ter gente a pensar que tem total liberdade de falar da gente e do que nos é importante fingindo que nos conhece verdadeiramente, e nos empurram num julgamento injusto. Que lhes move?
Eu sei que um dia eu me esqueci de esquecer-me de ti.
Que mais posso eu fazer agora, num sábado de Outono?



Sanzalando

5 de dezembro de 2008

Cor de fogo

Quando é Outono as folhas das árvores caiem. Ou será que as folhas caiem por isso é que é Outono? Certo mais que certíssimo é que o ar fica mesmo frio. Tudo fica diferente. As minhas lágrimas que têm por hábito saber a mar, nesta altura sabem a melancolia nostálgica. Todas as cores tomam a tonalidade do fogo que acaba em cinza.

É assim o Outono, esse mesmo que me dá as ganas de arrumar a trouxa e zarpar. Mas em vez disso me sento no banco do jardim e releio as páginas da vida que deixei por viver.


Sanzalando
foto retirada duma apresentação sobre o Outono

4 de dezembro de 2008

Uma manhã linda de Outono


É uma manhã linda de Outono. Acordei com o barulho da chuva a me bater nos vidros e como a querer dizer que eram horas deu olhar o dia que acabada de acordar também. O horizonte tinha uma cor suave, melancólica, doce com sabor a desconhecido, frágil e molhado. Desenrosquei-me do meu casulo e esvoacei como uma borboleta com o olhar, leve, sereno e silenciosamente. O arco íris que não existia era azul, dizia-me o cantor no rádio, as árvores dançavam ao som da brisa que atirava a chuva contra a minha janela.

Era apenas uma manhã linda de Outono em que mais uma vez não fui para oo meu banco de jardim percorrer o mundo do faz de conta.



Sanzalando

foto duma apresentação sobre o Outono

3 de dezembro de 2008

Dias de Outono


Disseram-me estava cacimbo. Olhei e estava era mesmo chuva que caia, caté parecia queria acabar toda a água do céu num repentemente. Me resguardei atrás do vidro e mentalmente fui vendo as letras à espera que elas se ordenassem em palavras que eu iria pensar para ti. Esperei ouvindo o bruá da chuva e hipnotizado no acompanhamento do trajecto das gotas. Mas de palavras nem uma. Pensei que ia sair a primeira e que depois logo as outras vinham assim num repente. Parou o bruá e até o céu ficou assim num azul que não sei porquê me pareceu celestial. Deve de ser porque era azul celeste. O silêncio entrou em ambos ouvidos. Mas nenhuma palavra chegou ao meu pensamento. Este é o defeito dos dias de Outono!

foto de Oriza Martins
Sanzalando

2 de dezembro de 2008

Noite de Outono


Nestes dias de sombra te recordo no teu brilho, no teu calor e na tua força de ser. A minha fantasia me desperta na noite, me deixa vaguear por ti numa viagem de prazer e de dor. Entras na minha cabeça, vagueias num rodopio de intermináveis desejos. A noite, que foi feita para dormir, passo-a a navegar-te na imaginação das cores garridas. Jogo-te num jogo de lembranças, ganho-me nas imagens da distância focal.
Cerro os olhos e neste Outono viajo-me por ti, para ti e contigo.

Sanzalando

1 de dezembro de 2008

Um beijo no Outono


É uma tarde de Outono. Vejo fotos antigas. Minhas, tinha eu para aí uns 3 kilos, outras de paisagens a preto e branco não me deixando ver que estação do ano lhes foi captada. Se calhar era para aí um apeadeiro. Na verdade eu tilinto de frio. O frio de Outono.
Que linda roupinha aos folhos me vestiam. Também naquela altura ainda não tinha opinião.
Olha só esta com o meu avô a dar-me um beijo. Digo isto para mim como que a querer fugir da solidão do Outono. Deve ter sido o primeiro beijo fotografado que me deram. Neste álbum, pelo menos, não encontro mais nenhum.
Fico parado neste beijo. Olho os olhos do meu avô. Derrete o gelo que sinto neste momento. Uma gota de nostalgia me cai dos olhos. Os beijos afinal não significam um fim, um adeus. Jamais um beijo é um final.
Tentei saborear o sabor daquele beijo de mais de tantos anos. Nota-se que é um beijo sentido.
Os beijos nunca morrem!


Sanzalando


WebJCP | Abril 2007