De memória vejo a minha Pitangueira. A minha pequena Pitangueira que espero ainda tenha as suas seis flores. Hoje não lhe vi com olhos de ver verdadeiros, mas só com os olhos da recordação. Afinal de contas eu até sei que tenho estes como bons olhos. Mas será que há ainda quem tenha bons olhos para ter a paciência de me ouvir, de me ler ou de saber que é que este amontoado de letras quer dizer? Revendo cada galho da minha pequena Pitangueira dou comigo a pensar que se calhar eu cumpri todos os passos da decadência sem ter perdido o gosto de estar aqui a dizer coisas. Eu ainda tenho uma ideia. Eu ainda tenho um sonho. Mas o tempo, os compromissos não me deixam ter a ideia de como terminará a ideia e de como finalizará o sonho. Afinal de contas se calhar eu tenho a ideia que foi nunca ter começado e o sonho que nunca termine.
Se alguém me ouve eu agradeço.
A minha Pitangueira um dia vai deixar de ser pequenina e vai dar sombra para eu me sentar sob a Pitangueira e recordar-me do sabor duma Pitanga
Sanzalando

Olhei para a minha Pitangueira, para a minha pequena Pitangueira. Não me dá sombra ainda, mas dá-me conforto porque me leva até ao meu planalto sentimental. Ainda tem as mesmas seis flores a minha pequena Pitangueira e isso fez sentir-me em paz apesar das emoções divergentes que carrego na minha alma que serve de bateria e não se deixa ver pelos olhos reais. E assim sigo em paz, confiando na não necessidade de controlar a liberdade que me abraçam os sentimentos sensíveis dos teus aromas que tenho na memória e que um dia vou ter por entre os meus dedos. E assim vou criando espaços na minha vida onde sobram realidades a troco de carícias. E assim, delicadamente, avanço suave e ternurentamente para o futuro.
Voltei a olhar para a minha pequena Pitangueira e às suas seis flores e se me abriu um sorriso na cara como me dissesse que amanhã eu vou ter uma Pitangueira Grande que me dará todas as Pitangas que eu quero.
Sanzalando


Hoje fui contar quantas flores tem a minha pequena pitangueira. Apesar do vento que sopra ainda lhe contei as mesmas seis. Com as seis flores de pitangueira na cabeça fui ver o mar. Tal como o vento está, assim o mar também está.
Que será que deu neles, para estarem assim tão revoltados? É fúria passageira na certa. Só pode. O mar estava de cor do topázio e me disseram que o topázio é uma pedra simpática e delicada e que dirige a sua energia para onde é preciso.
Já sei porque faz vento e o mar está assim revoltadamente agitado. Deve ser que o vento é provocado pelas asas dum anjo assim para revoltar o mar e lhe libertar de toda a energia negativa, lhe purificar.
Não é? Foi isso que sopraste no meu ouvido?
Ò vento, tu me despenteias em ondas revoltosas tal como esse mar está, e não é para isso? Vê lá se me explicas.
Mas por favor, não arranques as minhas flores da Pitangueira, que ela ainda é pequenina.
foto dum slideshow
Sanzalando


Se não fosse a minha pequena pitangueira eu não sabia que tinha começado a primavera. É, aqui do lado de cima do trópico me disseram que havia quatro estações do ano e eu ainda acrescento uns apeadeiros para me aumentar a confusão. Mas a minha pitangueira, porque ainda é pequenina não me ia enganar, com umas seis flores me anunciou a primavera.
Fiquei então a olhar para a minha pequena pitangueira e reparei que tinha poucas recordações entre mãos. Tudo só estava na poeira da memória.
E foi então, que olhando para a minha pequena pitangueira que com as suas seis flores me anuncia a primavera, que eu me prometi ter mais recordações sem serem as de memória. Como é que vou fazer isso eu ainda não sei. Mas não vou deixar ficar mal as minhas flores da pitangueira.
Sanzalando

Me sento junto deste mar que um dia lhe baptizei de zulmarinho. É ele, aliás, que faz a ligação entre mim e o outro lado deste eu que deixei para lá da linha recta que é curva.
Cada vez que aqui me sento, cada vez que aqui te falo, minha pronuncia se modifica num cantar bem diferente que até me perguntam donde é que eu sou. Despercebo o quê deste porquê.
A grande verdade mesmo é que eu aqui me sento com vontade de crescer. Impulso natural que eu acredito que é o principio universal da gente: crescer para ser mais completo. A actividade humana está baseada neste desejo de crescer. Procura mais comida, mais roupa, mais luxo, mais beleza, mais saber, mais prazer. Enfim: mais vida.
Aqui sentado eu medito nestas coisas para me conhecer mais num avançar contínuo e interminável. A verdade é que quando o crescimento pára, vem a inevitável morte.
Por isso continuo sentado aqui a meditar até ao dia que um dia eu vou me deitar, já sem forças para saber mais.
Sanzalando

Aqui me sento e parece fico na mesma altura que a linha do horizonte. Até lá imagino ladeiras convexas de estradas ignoradas em latitudes disformes. Lhe olho e imagino que ali vai nascer o sol e que noutro lado se vai deitar. Na mesma linha do horizonte.
Ouço o mar, sinto a maresia e me precipito em banhos de inocência, abismos de chamas, prazeres de água exaltada.
Afinal de contas este mar tem destas coisas, faz-me de naufrago apátrida dos teus lábios carnosos, dos teus perfumes carregados, do teu andar jingão.
Afinal de contas este mar me faz mal à saúde. Ou não!
Sanzalando


Olho o mar. Não me parece o mesmo mar de ontem. Está azul carregado de azul. Ondas alisadas pela calmaria. Mas é o mesmo mar porque o sítio é o mesmo e eu não acredito que tenham mudado o cenário assim num dia para outro.
Me sento em contemplação misturado de imaginação, argamassa dum sonho que um dia vai ser realidade.
O que poderia a esta hora estar a fazer no outro sítio, a ver o mar de lá para cá?
Ideia em ideia consegui ver algo de muito belo, num sem limites da mente, uma explosão de amor, uma alegria sem aparente fonte. Enfim, senti uma carícia.
Sanzalando

Mar revolto que me trás a calma. Hoje pareces-me verdazul aqui e ali debruado a branco. Revoltado de todo. Eu aqui sereno admiro-te na tua imensa força e grandeza. Num ápice passa-me pela cabeça dar um mergulho. Literalmente de cabeça. Parei a tempo de pensar que há várias formas de me molhar. Metafórica e fisicamente. Gota a gota infinitamente contando cada uma. Assim como havia pensado, num ápice. Prefiro aqui sentado estar a pensar nas múltiplas formas teóricas de me molhar.
Arrefeço porque o vento norte corta-me os raios de sol tímidos de inverno. Imaginar-te desde o aqui sentado torna-se-me um dia duro.
Transfiro o pensamento para a imaginação dum banho de espuma. Esqueço o mundo. Toda a minha tensão se dissolve no quente da água da banheira. Paulatina e deliciosamente, assim numa câmara lenta, me deixo entrar no mundo dos sonhos. Caminho lento por imagens fabricadas na memória. Me deixo envolver num silêncio absoluto.
Afinal de contas fui molhado por apenas uma gota de mar que eu sei veio desde o outro lado para me beijar.
Sanzalando

Sento-me por aqui. Leio vezes sem conta a mensagem que tenho no telefone. Estou bem, sim. Quer dizer, faz tanto tempo que eu não falo com os amigos que nem eu sei se poderei dizer que estou bem ou não.
Eu sei que a culpa é minha. Disposições mentais. Não falo mas lhes penso. Muito!
Mas hoje a tua mensagem fez com que a minha alma sentisse um arrepio e eu necessite dum abraço para sair desta hipotermia. Hoje fiquei necessitado de sentir a tua beleza no sentido mais básico, mais simples. Hoje precisava mesmo só de sentir o teu abraço carregado de calor.
Sabes, olho o meu anel feito de arco-íris, olho o mar de azul marinho e sinto que preciso sentir-te para me sentir livre.
Abraças-me?
Sanzalando

Cá estou eu de olhos no mar. Quem me vê deve pensar que eu caminho adormecido nas ilusões dum sonho pincelado de maresia, desenhado em riscos ausentes, apagado de cores, de formas e estruturas. Mas eu tenho os olhos no mar para poder ver as luzes das minhas sombras, contemplar os dias de um ontem projectado num amanhã.
Tenho os olhos no mar para poder dormir sobre o abismo da ausência material na minha alma da harmonia do teu corpo desenhado mulher dos meus sonhos.
Olho no mar porque não tenho olhos cor de mar. Olho no mar porque tenho as minhas lágrimas com sabor de mar.
Um dia, longe ou perto, já não me preocupa, eu vou estar com os olhos de mar, no teu mar e te direi baixinho que vou te amar.
Até lá, com os olhos no mar, eu vou te ver sempre que fechar os meus olhos, sempre que soprar uma brisa de sabor a mar.
Acho mesmo que eu sou os olhos do mar.
Sanzalando

Me espreguiço. Me embalo no marulhar sereno deste azul mar. Olho com os olhos de ver longe e não sei se vejo alguma coisa pois os olhos ultrapassaram os limites de ver e assim, num repente, me sinto perdido nos gritos que não gritei bem como nas ruas esquecidas do meu passado.
Me ergo e cruzo os destinos dum presente, dum passado e do dia que há de chegar um dia. Penso que o céu caiu sobre mim após tantas vezes o ter provocado.
Foco os meus olhos de ver ao perto. Verifico que foi apenas um momento de pânico talvez provocado pelos fortes desejos e as fracas vivências.
Afinal de contas os rios continuam a cantar em direcção ao mar, os anjos continuam a voar anunciando as boas novas e os rostos com que me cruzo continuam sorrindo suas alegrias.
Afinal de contas eu estou a ver o mar.
Sanzalando


Olho o mar e me deixo adormecer tranquilamente no baloiço do silêncio. Quase podia dizer que sonho num céu estrelado, soprado numa brisa de aconchego.
Num repente acordo como que arrepiado, despertado pelo solilóquio da noite que chega vagarosamente.
Olho de novo para o mar, azul escuro da noite de luar reflecte-se numa esteira que se estende até ao horizonte. Espreguiço-me no olhar distante atirando as mãos até para lá do olhar. Indefeso me defendo das ideias desta noite de romance que me imagino numa sinfonia de carícias, de silêncios e gemidos.
Olho o mar e desejo…
Sanzalando


Sou vizinho do mar mesmo quando não sei quem sou. E já agora, de onde venho? Devo ser uma fotografia em papel reciclado tantas vezes que já nem sabe se papel é. Devo ser um satélite que vagueia num espaço cada vez mais largo. Sou e devo ser o que sou na dúvida. Sou um temporal que por falta de tempo não brilha no flash dum relâmpago. Não. Decididamente devo ser um mural já mais apagado que aparenta ter tido mais vida num outrora qualquer. Ou serei ruína duma parede de azulejo. Uma certeza tenho: é que sou, porque se eu não fosse não estaria agora aqui a falar-te coisas brilhantemente baralhadas.
Sou vizinho do mar. Certeza absoluta.
Se eu fosse um compositor sinfonizava para aqui uma ode ao deus dará ritmado na marulhar. Se eu fosse pintor encheria uma tela de azul e chamar-lhe-ia simplesmente mar, como se o mar fosse a coisa mais simples que existe depois de mim. Se eu fosse poeta escreveria um poema em que mar rimaria com todas as palavras do meu dicionário.
Afinal de contas eu sou apenas um vizinho do mar mesmo quando eu não sei quem sou.
Hoje, para além de ti, não sei quem sou.
Sanzalando


Sopra vento. O meu cabelo de forma rebelde parece que se quer ir embora da minha cabeça. Lhe tento segurar com ambas mãos. Em vão. A areia mais fina da praia vem direita a mim como que a não querer que eu veja o meu mar. Lhe viro as costas como que a pensar numa melhor estratégia para o poder admirar. Apenas ouço o musicar das suas ondas batidas nas areias grossas que persistem em ficar. Hoje me sinto um analfabeto de alma voltada à vida azul do mar, um impresente acabado do silêncio visual.
Sopra o vento como que a querer que eu dê partida deste meu poiso de admiração.
Ouço o mar e sinto ao longe a melodia duma kianda. Tão longe que eu, com este vento e esta luta para me equilibrar, já não consigo saber se é um chamamento ou mesmo só um ambiente de doçura que me imagino na alma, no coração e na vontade de me iluminar quando me sinto apagado.
Sopra vento e não é de doçura.
Já não sei onde pára o meu cabelo revoltado, já não sei como abrir os olhos e azulmente ouvir o mar. Sinto só que sopra vento e não é bom dia para ver o mar.
Sanzalando

Aqui estou eu sentado frente ao mar. Ele azul e eu pálido do sol de Inverno. Ele calmo e sereno que nem um lago e eu fervilhando ideias.
Ele e eu num confronto visual.
Apostei pelas emoções. Acreditei nelas. Não me arrependo. Ele sereno e calmo como um lago.
Na verdade ainda não descobri o que poderia ter sido se não o que sou. E ele calmo e sereno que nem um lago.
Apostei forte no querer mesmo quando me apetecia desaparecer. Ele ali calmo no seu azul sereno.
Virei páginas e rasguei passados. Mas ele azul e serenamente ali se mantém calmo.
Eu e o mar trocamos olhares como quem troca pequenos recados de amor.
Ele calmo e carregado de azul sereno.
Sanzalando
