Navega à vontade que a Sanzala é segura, mesmo que te pareça lenta!
A Minha Sanzala
recomeça o futuro sem esquecer o passado

30 de abril de 2009

Capitulo Primeiro (10)

Amadureci. Cresci, sem saber bem em que é que isso possa ter sido importante quando afinal de contas eu sempre me senti um suplente, um transitório passageiro deste canto. Eu nunca me tinha sentido o actor principal da minha vida. Aos poucos fui-me transformando noutro, cicatrizando feridas, algumas de tal modo imperceptíveis que tenho apenas uma vaga ideia, outras ficaram bem feias que até arrepia quando lhes olho a razão. E foram-se passando sucessivas férias de verão e os seus amores foram com elas e em mim mais amadurecia o sentimento de despedida, a provisoriedade. Mais doía a ausência do meu chão sob os meus pés. Inexplicável. Enlouqueci, pensei eu. Às tantas eu já dava por mim a desejar desejar-te outra vez. Tantas e tantas vezes gaguejei ao tentar dizer o que é que sentia. As palavras não tinham sentimento nem iam embrulhadas nas lágrimas que eu para dentro chorava cada vez que tentava dizer o meu estado de alma. A terra me chamava, dizia eu carregado de medo da chacota que constantemente recebia. Eu acho eram momentos de nostálgica adolescência saltada.

Não consegui ter um momento apenas para mim, mesmo não deixando de correr a vida. Não a vivia, sobrevivia-a.


Sanzalando

29 de abril de 2009

Capitulo primeiro (9)

De maneira inconsciente e de alguma forma imprecisa, comecei a sentir a tua presença em todos os meus lados. Onde quer que fosse eu senti-te ali a censurar-me ou pelo menos a inibir-me. O inferno se me ardia na consciência e qualquer sítio me fazia recordar de ti e como o mundo é pequeno, todos os lugares que eu inventava julgando poder fugir-te da minha imaginação eu te sentia, pelo que estávamos juntos mesmo quando eu não te queria por perto. Um inferno que, num ritual de sofrimento diário, se foi esfumando, transformando-se num ritual de geografia em que, em vez de ti, eu ia encontrando semelhanças com os meus lugares de criança. Se eu antes queria saber o que lias, passei a querer saber como era a vida lá. Se eu queria sentir o teu perfume, passei a sonhar com o perfume da terra molhada. Tudo mudança lenta, como que um carro de bois carregado de toros de madeira numa íngreme subida me passasse por cima, rangia em cada salto do meu pensamento, baralhava-me o sangue com a carne numa mistura de dor e paixão. Só te digo que a minha cabeça era como um tornado permanente, turbina duma qualquer barragem hidroeléctrica.

Se eu antes pensava estar contigo, a dada altura eu só queria estar nela. Em cada instante eu imaginava a minha despedida desta consciência sobressaltada para a serenidade do estar nela. Em cada instante eu sonhava um aeroporto, dezenas de amigos de lenço no ar a me desejar um regresso às origens como eu tanto imaginava.

E a vida ia correndo à velocidade certa de 24 horas por dia.


Sanzalando

28 de abril de 2009

Capitulo primeiro (8)

Que se lixe se eu larguei tudo para calcorrear as ruas de Lisboa para te encontrar num dia qualquer de Inverno, sabendo que com esse gesto eu estava a rasgar folhas da minha vida.

Mas que importância tiveste na minha vida?

Nenhuma. Porque esse tudo foi um nada, coisa nenhuma.

Perdoa-me por tudo o que tenho estado a dizer-te mas a verdade é que neste reencontro comigo eu voltei a encontrar-te nas  página amarelecidas da minha memória e já não sei qual o formato do teu rosto, a largura das tuas ancas, o brilho dos teus olhos. Já nem me lembro a dimensão do teu sorriso. Ris? Não me consigo lembrar. Não sei se é por esquecimento meu ou se é mesmo porque trinta anos é muito tempo.

Eu acabei de segui o meu rumo e olhando para o lado tu não estavas ali e as tuas palavras mais recentes, que eu me lembre, foram há uns trinta anos lá para trás:

- Diga? Não o conheço!

Seca, amarga e arrogantemente me falaste quando depois duns pares de anos sem te ver perguntei pela família num encontro casual e tantas vezes clandestinamente por mim desejado..

O convite que me tinhas feito para esperar uns anos e que eu por alguns dias me esqueci porque era jovem, irrequieto no olhar e pouco egoísta no amar, acho foi a razão de teres batido com a porta da amizade duns tantos muitos anos. O meu coração estremeceu e parecia que tinha apenas lugar para a dor.


Sanzalando

27 de abril de 2009

Capitulo primeiro (7)

Pouco me importa se passei horas à varanda para ver se te via, se ia à praia só para poder estar mais perto de ti, estando-me nas tintas se a água estava fria ou o mar estava carregado de pica-pica, se os amigos estavam a jogar à bola e ela para mim fosse um instrumento de atrapalhação, se as mapundeiras tinham dado à costa ou não, desde que eu te pudesse ver no teu biquini azul debaixo do toldo cor de laranja mais ou menos frente ao ecran de cimento armado.

Pouco me importa o que é que possas pensar dos momentos, poucos, em que ia ao cinema e tinha o imerecido prémio de me sentar a teu lado porque a tua mãe não podia ir por causa dumas quaisquer dor de cabeça. Quero lá saber o que é que pensavas quando passeavas no diário passeio dos tristes, às 18 horas de todas as tardes, e me vias aqui e pouco depois ali, não sabendo que eu tinha que dar uma corrida de tantos à hora para poder estar em dois lugares quase ao mesmo tempo, escondendo o cigarro que se me colava nos dedos e que eu pensava que me  transformava num adulto precoce.

Que interesse tem que eu tenha passado a ser um aplicado aluno a partir do momento que tu me passaste a dizer olá? Quem é que vai dar importância ao orelhudo magríssimo e cabeludo que tudo o que fazia tinha em vista te agradar. Bem, quase tudo. Nunca consegui aprender a jogar ténis. Mas aprendi a fazer vela. Mal, eu sei. Desde que eu pudesse estar no vourrien... mesmo quando a retranca teimava acertar-me na nuca de modo a que eu visse estrelas em plena manhã.

Mas que importa isso? 


Sanzalando

26 de abril de 2009

Porque hoje é Domingo - Tropfest NY 2008 winner, "Mankind Is No Island" by Jason van Genderen


Sanzalando

25 de abril de 2009

25 de Abril e um prémio

Amor, morte, poesia, política, actualidade, futebol, efemérides, 

solidão, paz, humor, musica...tudo e nada; Here we talk about life, love, death,
On this day in History, poetry, politics, football (soccer), solitude

peace, humour, music ... nothing and all.

Atribuiu-nos o "Manifesto Jovens que pensam" que recebera pela sua intervenção na blogosfera. Deixamos aqui os agradecimentos e a divulgação pública do facto.

Ditam as regras que teremos de dividir o prémio com mais ou menos jovens pensadores. Eis então os "laureados":



E pronto se algum dos laureados pretender destacar mais bloggers jovens (independentemente da idade) que pensam, é só cumprir as seguintes regras:

1. Exiba a imagem do prémio
2. Poste o link do blog que o premiou
3. Indique dez blogs para fazerem parte do “Manifesto Jovens que Pensam”
4. Avise os indicados
5. Publique as regras

Sanzalando

Capítulo Primeiro (6)

E passo a avisar-te que tu não vais fazer parte desse futuro. Nem que fosses capa de revista, nem que pintasses de cores berrantes a minha alegria, nem que apagasses os traços de solidão da minha existência. Eu decidi assim e hoje declaro que a autodeterminação me chegou na razão de ser lunático as vezes que me apetecer, de viver num apartamento sem memórias, adornado de risos e gargalhadas à toa, beijos e carícias condimentadas na vulgaridade de ser vulgar.

É, hoje declaro que sou livre de ir onde me apetecer e voltar sempre que quiser, repousar em afectos de palavras ditas ou sussurradas sem ter de pensar que algum dia tu foste o meu capricho.

É, hoje declaro que a minha História vai ser reescrita como bem me apetecer e tu serás mero figurante num capítulo, numa frase. Sei lá, quando a reescrever logo ficarei a saber qual o papel que te atribuo. Enfim, uma palavra hoje, um passado amanhã.



Sanzalando

24 de abril de 2009

Capítulo Primeiro (5)

Mas para teu governo ficas já a saber, se eu nascesse hoje, eu queria que tudo fosse quase igual ao que foi. Quase… escusas de estar para aí a pensar que eu me estou a vergar assim numa de desculpa qualquer coisa e olha lá para mim. Não. Eu sei que tu és parte ainda não arrumada da minha vida. Mas também não se pode ser perfeito e ter todos os cantos bem vincados como quem acabou de passar umas calças a ferro. O mais importante é que deixaste, faz muito tempo, de ser parte diária de mim, mesmo que eu de vez em quando me perca a pensar em ti como se fosses um parêntesis da minha ordenada e perfeita vida. Gargalhei porque repensei no seres ainda parte não arrumada… és um passado assim mais ou menos atirado a um canto que eu de vez em quando rebusco, assim numa foto vestida em vestido de jornal quando tinhas os teus 10 anos ou coisa que me valha, num passeio de fim de tarde como um passeio dos tristes na rota dum carro feito comboio que não sai do carril. Já sei, estou isto e mais aquilo, que vai desde a dor de cotovelo até ao ciúme… pensas tu. Não, se calhar estou a revisitar a minha casa sem móveis, de parede descorada e janelas sem tempo a que se chama de passado para poder ter futuro que começa amanhã.


Sanzalando

23 de abril de 2009

Capitulo primeiro (4)

Já sei, tu és a minha espera virtual, o meu sonho sonhado acordado, a minha letra tremida na escrita duma carta que nunca escreverei, a chama do meu fogo que nunca apaguei! Não! Já não sei mesmo quem és senão a imagem que tenho da minha adolescência. Deves ser outra. Má. Ruim como uma bruxa. Cada gesto teu representará, estou certo, um raio em dia de tempestade tropical. Tu és, como sempre foste, a fronteira intransponível do meu passado. Tu és o sono de que eu não despertei.

Mas estamos em Abril, chegaste aos cinquenta, amadurecida, séria, poderosa. Será que consegues ter imaginação para nos ver como éramos na adolescência? Será que tu consegues ter uma pequena ideia da minha existência para além desse tempo? Será que te lembras que um dia foste a minha vizinha?

Quase me apetecia dizer que foste futuro dum passado que já era. Mas é que fazes mesmo parte do meu passado.


Sanzalando

22 de abril de 2009

Capitulo primeiro (3)

Só para te dar um exemplo, os meus cabelos, penteado anos 70, já não são os cabelos anos 70, porque viraram cabelo de neve, cinzentados, desbrilhantes e ralos. E os teus? Já não sei se são os longos cabelos castanhos que ultrapassavam o meio das costas, lisos e brilhantes. Sedosos se bem me lembro, esvoaçando na motinha azul. Também já não sei se o teu olhar seria suficiente para me aquecer, ou seria apenas para me fazer corar de timidez por breves instantes do estilo chuva passageira. E a tua determinação? Ou será que fragilizaste? E o teu porte ainda é altivo ou já vergaste perante a vida?

Eu sei que a minha vida segue o seu curso. Como a tua segue o dela.

Será que estas duas linhas paralelas que ambos criamos, faz tantos anos que eu já nem os sei contar, um dia vão deixar de o ser? Bem, eu sei que desperto para a vida em cada segundo, renasço em cada pensamento, reforço-me em cada imaginação. E tu? Que é feito de ti?


Sanzalando

21 de abril de 2009

Capitulo primeiro (2)

Mas estamos em Abril e eu tenho que me contentar com isso. E a chuva de Abril não é igual à chuva de Março. É a realidade, vou fazer mais como então? Jamais eu vou conseguir chegar à casa da vizinha da minha adolescência, como também não consigo recuperar os ímpetos que me fariam ultrapassar qualquer intransponível fronteira. Posso prometer, com juras e outros estímulos quaisquer, mas a minha vizinha não me olhará com os olhos de antigamente. Porque o tempo passou e os meus olhos humedecidos, feitos tontos de emoção recebem cada madrugada como se fosse a última e cada silêncio de romper da aurora como se fosse um estrondoso ruído de coisas nenhumas, já não são os olhos de outrora. Os teus também não e os da minha vizinha acho que nunca mais foram os mesmos desde que deixaram de me ver a espreitar da minha varada nos fins de tarde, de chuva, cacimbo ou de verão. Acho que os nossos olhos já não têm o brilho de outrora. Deve ser do ar, da camada de ozono, das rugas que imperceptivelmente enrugaram-me a cara.


Sanzalando

20 de abril de 2009

Capitulo primeiro (1)

Está sol. Um sol fresco. É Abril. Primavera. Se por acaso estivesse a chover eu iria dizer que detesto o barulho da chuva bater nos vidros da janela do meu quarto. Mas gosto do cheiro a terra molhada que sobra depois. Esse cheiro me leva aos perfumes da adolescência, ao meu passado, às três tardes chuvosas do ano, com o céu escuro que quase parecia noite, um entardecer precoce, em que da varanda da minha casa admirava a casa da vizinha, separada de mim por uma forte cortina de água. Fronteira intransponível que me apetecia sempre ultrapassar. Mas também os raios de sol eram a fronteira.
Afinal de contas eu gosto é da chuva de Março.

Sanzalando

19 de abril de 2009

adeus Pitangueira

A chuva e o vento forte de ontem à noite, os mesmos que criaram uma noite escura de silêncios e obrigaram a ver o cintilar das luzes tremulas das velas, devoraram o esqueleto mirrado da minha pequena, pobre e defunta Pitangueira. Hoje ele não estava mais lá, marcando o seu terreno, o pedaço da minha saudade. Olhem em redor para ver se via a sua alma vagueando num flutuar de notas soltas. Nem sombra. O meu corpo me aprisionou num segundo de pesar, todos os meus poros se abriram suando de raiva, os meus olhos pintaram corres berrantes numa tela de espaço e a minha boca, num automático sentido, gritou melodias de raiva.

Ó chuva, ó vento que não param. Eu iria dizer que foi da calema mas aqui não tem calema, tem mesmo só mar bravo, traiçoeiro. Eu iria dizer que foi da acomodação, mas aqui não tem mais disso, só desilusão.

Afinal de contas hoje apenas me despeço da minha pequena, pobre de seis flores e defunta Pitangueira.


Sanzalando

18 de abril de 2009

Canto canções de amor (2)

Me sento no caminho de lado nenhum. Não me apetecia andar, não me apetecia apanhar vento. Olho para o espaço outrora ocupado pela minha pobre Pitangueira que além das seis flores e muita esperança, não me deu mais nada. Mas acho que nunca esperei mais nada dela para além da esperança.

Mas, preguiçosamente aqui sentado me apeteceu cantar uma canção só para mim. Não me lembrei de nenhuma. Inventei uma letra que juntei uma melodia. Dentro da minha imaginação, é claro. Se por acaso eu tivesse tentado, chamemos assim, cantado em voz alta, estou certo que seria um alvo abatido por algum ouvido mesmo que surdo.

 

Quero ser uma palavra serena e calma,

Uma paz livre na madrugada,

Quero ser um desejo feito alma

Nesta voz rouca ou calada.

Quero ser os olhos da lua

E olhar-te tantas vezes,

Umas vestida, outras nua.

 

Quero ser uma jura de amor,

Pegadas livres no mar,

Quero cantar –te uma flor

Com os olhos de te amar.

Quero ser uma estação,

Dar-te frio ou calor,

Ser teu Inverno ou verão.

 

Quero ser apenas eu,

Num teu!


Sanzalando

17 de abril de 2009

O meu, claro

Não imagino que as palavras mudem o mundo. Mas os sonhos podem. O meu por exemplo. Mundo, claro. Mas as palavras podem mudar os meus sonhos. Afinal de contas os sonhos podem mudar o mundo. O meu, é claro.

Pior dos erros: o silêncio. Pior dos pecados: não sonhar.

Afinal de contas porque é que eu penteio diariamente o cabelo anos 70 e me esqueço de afagar o coração? Esta vida está cheia de pequenas coisas que às vezes até apetece remar contra a maré. Mas dá uma trabalheira que o melhor é agarrar numas palavras, construir um sonho e andar com ele de porta em porta. Se por acaso se suspeita que se aproxima algum inferno, muda-se as palavras, transforma-se o sonho e muda-se de mundo. O meu, claro.

Não vou entrar em pânico por pensar que tenho uma vida pela frente, muitas palavras por dizer, muitos sonhos por construir, alguns infernos que me obriguem a mudar o mundo. O meu, claro.

O espaço vazio, que já foi duma pequena e pobre Pitangueira que um dia deu seis flores imaculadamente brancas e por sinal demasiado frágeis, hoje está preenchido pelo meu olhar de olhos com futuro. Sei se amanhã lhe olharei com os mesmos olhos de hoje.



Sanzalando

16 de abril de 2009

o espaço

No lugar onde estava a minha pequena e defunta Pitangueira ficou um espaço vazio. Sempre que lhe olho, faço-o várias vezes ao dia por questões muito pessoais, penso que não posso terminar o dia sem ter aumentado o meu sonho, sem ter feito algo para ser mais feliz.

É, aquele espaço vazio mostra-me que o posso preencher com alguma coisa, preciso mesmo só ter uma ideia antes impensada ou não amadurecida, positiva, esquecido de prejuízos e logo o ocuparei. Não estou à espera que o vento sopre contra, nem a favor. Ele que sopre do lado que lhe der mais jeito. Estarei cá para proteger o espaço que ele arranjou ao defuntar a minha pequena e pobre Pitangueira. Afinal de contas aquele espaço é um deserto mas ao mesmo tempo um oásis, vazio mas que posso enchê-lo com qualquer pensamento. Não há que lastimar. É um espaço que vai fazer parte da minha História.

Extraordinário!


Sanzalando

15 de abril de 2009

ainda a minha Pitangueira

Perdida a minha Pitangueira que um dia me deu seis flores minusculamente brancas, fiquei órfão de memória dum sabor. Jamais saberei a que poderiam saber as pitangas da minha Pitangueira.

Mas a minha Pitangueira, por ser pequena, jamais me daria sombra para eu me esconder das estrelas nas noites de luar e lhes ver a geometria geográfica dos desenhos que imagino, sem ser visto. E os meus cabelos da cor da espuma do mar jamais seriam protegidos por ela da força do vento que teima em não parar de soprar. E os meus olhos que teimam em fingir que para lá da minha pitangueira existe um paraíso que ficou menos bonito sem as suas seis flores.

Porque será que gostei da minha Pitangueira antes dela ser uma Pitangueira de verdade?


Sanzalando

14 de abril de 2009

Sono de inverno

Estou cansado. A minha Pitangueira foi um ar que se lhe deu. O meu mar gela-me os ossos só de lhe olhar por detrás das muitas roupas invernais que tenho de vestir. O que me apetecia mesmo era estar numa qualquer sala perto duma lareira a fazer filmes de imaginar. Mas se devido ao cansaço os meus olhos de sono se fecham, os filmes já não são de imaginar mas de pesar, transpirar, espernear. Autênticos pesadelos.

Ainda há pouco, espreguiçado no sofá, me deixei embalar e parecia uma tarde submersa, caía água das paredes, por detrás dos quadros, por entre azulejos, pela porta mal fechada, pelo chão. Os nervos, qual bailarino, se puseram em pontas, gritos sonhados gritei. Desespero. Enfim, uma autêntica cena dum qualquer filme chamado de A Casa em Ruínas. Tudo real. Tudo passado nos cinco minutos que os meus olhos se fecharam num dormir de sono.

Porque é que será que o sol de verão tarda em chegar?


Sanzalando

13 de abril de 2009

Lágrimas choradas de memória

Faz conta, que estamos à mesa, que seria estar à volta da fogueira. Este mar que está aqui e que se estende para muitoa mais lá que a vista alcança. Estes cabelos em desalinho, estilo anos 70, fazem-me ser um eterno jovem com vontade de comer Pitangas da minha Pitangueira. Esses corpos magros renascidos na imaginação, barrigas e pneus perdidas na magia do sonho. Vamos sentar em roda e falar de ontens que aconteceram para termos ideias para amanhãs, percorrermos os mesmos lugares e ter olhos para amanhãs.
Olho nos olhos de ver a imaginação e vejo a côr no preto e branco, salpicados por tempo e espaço. Deu um toque no coração, uma lágrima percorrendo a cara, uma emoção.

Sanzalando

12 de abril de 2009

Canto canções de amor (1)

Olho o mar. Daqui de cima desta rocha, abafado pelo barulho das ondas canto uma canção de amor. Cantar é uma forma simpática de dizer uma palavras que chegam à boca vindas directamente do coração, esquecendo a passagem na razão.

É mais que amor o que sinto por ti,
feroz, verdadeiramente animal,
impiedoso como um javali
e sedento como um chacal.
É a alma que se me prende
num instinto criminal,
é amor que se rende
à facada dum punhal.
É amor, é dor.
Sofrimento.
Tormento.
Se eu pudesse tocar a tua pele,
sentiria um frio de metal,
porque neste destino cruel,
és gelo feito cristal.

E assim, abafado pelo mar continuo a cantar, versos soltos que não se me passam na razão.
Olho o mar. Choro lágrimas que não se vêem, sinto tristezas que não se tocam.
Memórias de amor. É um começo.

Sanzalando


WebJCP | Abril 2007