
Está sol de queimar um corpo queimado que nem o meu. Refugio-me em grandes caminhadas, perco-me do tempo em tempo nenhum. Tudo para esquecer quem me esconde a vida.
Já não suporto porque não resisto. Acho que todas as resistências, reais, imaginárias e mais aquelas que eu tentei inventar em mim, estão feitas em farrapos.
Enfim, recordo-te em cada movimento do meu corpo, porque me apareces como miragem reflectida num espelho inexistente da minha cabeça.
Enfim, num pequeno resumo, poderia dizer-te que eu já não existo para além do farrapo que me sinto. Estou como a resistência.
Tenho fome mas não me apetece comer.
Tenho sede e para além da mágoa não consigo ingerir mais nada. Talvez uma ou outra lágrima quem me escorra para o canto da boca…
Enfim, tento sorrir e parece faz chuva dentro de mim.
Vou passear até derreter de insolação a solidão.
Enfim, vou tentar recuperar o pouco que encontrar de mim, juntar peças e voltar-me para mim.
Sanzalando

Faz sol e se me brilha os olhos. Quase que até dava para dizer que se me brilhava a alma.
Mas falta o quase que é um bastante suficiente para tirar até um sorriso da cara do humano que não é o mais feliz da terra. Mas quase num tanto quase que me distraía e ia aqui dizer o teu nome algemado ao sorriso que imagino tu tens, ao calor do teu olhar. Mas num repente se me falharam todas as palavras que eu sabia soletrar e se me fiquei no silêncio de te imaginar sempre bela como a minha imaginação sempre te consegue fabricar. Hoje vou ficar mais uma vez sem dizer o teu nome até me dar conta que o nome apenas faz parte desse meu sonho: Ser feliz!
Sanzalando

Aproveito o sol e, como dizem é feriado por isto e por aquilo, o que eu quero mesmo é saber que hoje é dia de bundar por aqui e por ali num vagabundar sem norte eu ia pedir-te para me convidares a entrar no teu mundo, nem que seja apenas um minuto, e quem sabe vais gostar e me deixas ficar num para sempre que é coisa terminável mais dia menos dia. Faz conta a gente conseguia viver livre, sem makas e sem justificações, sonharíamos sem medo de acordar. Vá lá, dá-me um copo de esperança, uma magia de ternura, uma salada do teu interior.
Custa alguma coisa fazeres-me o mais feliz dos humanos?
Sanzalando

Página em branco. Tal como hoje é dia de começar. Foi o abandono, atirado para um canto como pequeno lixo que se esconde debaixo dum qualquer tapete.
Afinal de contas eu destilava desejo. Obsessão talvez seja a palavra mais certa. Interminável como todas as coisas que afinal têm fim. Mais perto sempre do que se julga. Por isso, interromper assim esse desejo, essa obsessão não é fácil. Em qualquer meu gesto lembro-me de ti. É o percorrer dos meus dedos pelo teu corpo num imaginário mais forte que eu. Quase até que me apetecia deixar-te a porta aberta para um dia voltares a entrar. Mas não. Hoje é um dia de recomeçar e não sei se o deva fazer com tantas dúvidas.
Ao menos faz sol.
Sanzalando

Acordei a meio da noite e vi que ainda tinha muita noite pela frente.
Procurei um lugar dentro dos meus pensamentos ou recordações que me trouxesse uma lembrança duma manhã de cacimbo, dum ano qualquer de faz muito tempo lá para trás na minha vida.
O silêncio da noite regressou ao meu canto com uma imagem dum nevoeiro carregado que eu não me lembro de ter vivido. Ao mesmo tempo veio o som que parecia nascia no céu e na terra e os meus passos, incertos, me levavam por dentro desse cerrado nevoeiro. Sem querer estava a abrir uma ferida dentro de mim.
Lembrei-me de todos os nomes que deveriam estar numa sala de aula à espera que eu chegasse, se não me perdesse por dentro de tamanho nevoeiro. Era a minha turma do Liceu. Um a um lhes vi o rosto. O rosto daquele tempo. Desconheço-lhes o rosto de hoje.
E o nevoeiro se cerrava mais como a querer castigar o meu isolamento daquelas caras.
Devo ter readormecido porque não me lembro como acabou aquela falta de ar que eu já começava a sentir.
Acordei com sinais de lágrimas vertidas no renovado silêncio da noite.
Sanzalando

E a festa continua.
O ambiente eufórico vai tomando conta do lugar. Trocam-se números de telefone, recombinam-se encontros e a festa ainda vai no adro. Mais um brinde, desta vez com um copo. Depois outro. É clássico. Assim como o é também haver pequenos grupos formados que se disformam em novos num sucessivo movimento perpétuo. O ambiente é cada vez mais familiar, nalguns casos tão familiar que até parece de grande intimidade. Com o passar das horas vão ficando cada vez mais poucos, intimamente ligados, como se fosse um grupo de irmãos. As mulheres, talvez devido ao efeito diurético das bebidas, vão amiúde à casa de banho. Em bando, não vá alguma perder-se, penso eu.
Mas a verdadeira verdade é que para a festa começar demora horas, é preciso muito tempo para as pessoas ficarem cómodas, integradas no ambiente. Mas o final da festa chega em minutos. Ou porque têm que fazer amanhã logo cedo, e se alguém diz que se vai embora logo mais de metade aproveita a boleia, no sentido lato e no restrito também.
Afinal de contas a festa é mesmo um luxo. A vida é um luxo e a vida é uma festa. Materialmente não existe diferença entre ambas. Para ambas não existe idade, nem impedimento económico, porque assim como há vidas caras também há festas sem dinheiro nenhum. O que interessa mesmo é a atitude. O que importa é que haja vontade de divertir-se.
E depois há festas para tudo. Aniversários, casamentos, despedidas, motivos aparentes e desaparentados motivos são razões para festa. Para a vida basta saber que há uma festa. Que até pode ser um carinho, uma ternura, um sorriso, um afago ou uma carícia. Há que desfrutar a festa ao máximo. No dia seguinte à festa posso sentir-me cansado fisicamente, mas estarei arejado mentalmente.
Estás a ver que enquanto eu falei em festas não andei aqui a soluçar o teu perfume?
Sanzalando

Entre móveis e vasos de flores, rodeado de sons que me parecem vir dum baile, pois as luzes e o som saturam-me os sentidos, pergunto-me como começo estes meus solilóquios ao ritmo de vento. Às vezes é de gritos, outras de lágrimas, outras raras de gargalhar. Umas são estórias, outras Histórias, outras nostalgias vividas e outras muitas são saudades dum futuro que teima em não chegar.
Mas hoje a luz e o som não me deixam nem pensar. Talvez seja porque chove e quando isso acontece eu deprimo-me num encarquelhar de alma, saturação de água que não a das minhas lágrimas.
Vou ter que aprender a fazer da vida uma festa. Vou ter que aprender a dançar. Vou ter tanta coisa que fazer, que alguma me irei esquecer, mas não de viver. O melhor das coisas das nossas vidas estão nas festas. A festa é muito mais que apenas uma festa. Antes da festa perguntamo-nos quem irá. Como irão elas vestidas? Só de imaginar o tempo perdido atrás, ou à frente?, dum espelho num retoque a mais ou a menos. Estarei mais gorda perguntará uma, estou certo. Eu limitar-me-ei a olhar ao espelho e ver se a ruga número 1000 já cá chegou. Afinal de contas eu só quero é mesmo a festa. Chegado à festa é um beijo aqui, um abraço ali. Aos amigos do peito é um cumprimento mais fraternal e mais emocional. Cruzam-se olhares. Em grande parte os olhares nem se tocam mas algum irá cruzar-se em profundidade e intensidade. Faz-se um brinde, se calhar apenas com o sorriso cúmplice.
E a festa continua.
Sanzalando

Aproveito a neblina, que não trouxe frio mas a desagradável disposição de ir ver o zulmarinho, para imaginar o teu aroma, a tua textura de pele suave e aveludada, a tua maneira de me prender nos teus braços parados de trânsito organizadamente caótico fazendo-me ver mil coisas num instante, absorver-te num olhar carismático. Hoje apetecia-me sentir a tua luminosidade no olhar, os desejos da paixão num ar respiravelmente poeirento. Hoje apetecia-me sentir a alegria de estar-me em ti, na tua mescla de sentimentos e desejos como se fosses uma fonte de água fresca que molhasse o meu ego e me fizesse ser feliz.
Aproveito a neblina para de dizer ternuras em palavras ditas com coração, beijos molhados num ritmo que é o teu.
Hoje, com a neblina, sussuro-me ao ouvido as palavras suadas dum querer adiado tantas madrugadas dum amor sempre novo.
Sanzalando

Hoje, aproveitando uma brisa, fui ver o zulmarinho. Estava sozinho, acho todos se esqueceram que ele estava ali. Frio, azul, mas ali, como sempre.
Estendo a toalha como que a pensar absorver todo o sol possível. Me deito e deleito-me em pensamentos como quem sobe uma escada a correr.
Estou sozinho e posso gargalhar à vontade, posso chorar, posso cantar até.
Não me lembro de ter visto este zulmarinho tão sozinho assim.
Cantei letras conhecidas com músicas feitas na hora, já que o meu ouvido musical é mais duro que o muro das lamentações, que não cai mesmo com tantas cabeçadas.
Num repentemente estou comigo a fazer surf dentro dum alguidar de lavar roupa, nas breves ondas deste isolado e abandonado zulmarinho. Me imagina só, de pé, apanhando uma onda dentro dum alguidar que se calhar até era verde alface. Gargalhei.
Percebi-me do teu aroma numa manhã de cacimbo que deves ter hoje. Tentei tocar-te, estiquei o braço o mais que podia, em vão. Nem ao rebentar das ondas consegui chegar. Chorei.
Arrumei a toalha e despedi-me da brisa com um ar de aborrecido.
Não gosto de estar ali sozinho!
Sanzalando

Para pensar, reflectir sobre o que somos, quem somos, o que fazemos, porque o fazemos é imprescindível ter tempo livre. Há que ter tranquilidade e deixar para um lados as coisas pequenas que nos entretêm e nos tiram o tempo que nos impede de desfrutar do não pensar no que deveríamos estar a fazer.
Assim tentei fazer no mês de Maio.
Tempo mínimo para coisas tantas.
Espero estar perdoado por aqueles que sentiram falta das parcas palavras que aqui vou dizendo, das nostalgias, das cores garridas da vida, do perfume da maresia, do céu carregado de luz, do brilho da noite de luar.
Assim foi um Maio, que não deu para pensar, desfrutar ou ter tranquilidade. Foi simplesmente Maio, como todos os Maios.
Mas há sempre a esperança que um dia chegue um Maio numa altura qualquer do ano.
Sanzalando

Olho as teclas do computador. Olhar fixo em cara de poucos amigos. Não sou parvo para estar aqui sozinho a sorrir para um teclado. Em vários relances olho para todas as teclas como que esperando que se formem palavras por uma qualquer ordem mental. Acho que espero que as palavras dialoguem comigo e assim consiga desconstruir uma ideia que ainda não tive. Mas o que vejo são apenas teclas, letras negras fundidas num plástico que já foi branco. Teclo uma ao acaso. Outra e depois uma terceira. Não consigo formar uma palavra. Pelo menos na minha língua. Com estas três letras não me safo. Apago. Volto a olhar para o monitor e vejo uma folha em branco. Uma espécie de folha, entenda-se.
Não, hoje não é dia. Há dias assim. Dias que não são dias. Já percebi. É mais um daqueles que vai passar ao lado de mim, um dia gasto à toa.
Que vale é que não sou de obsessões. Já teclei a exclamação, a interrogação e nem uma ideia me veio à tona.
Não vale a pena ir contra a lei da lógica sem ter lógica nenhuma.
Hoje não vou ver o mar porque está vento e está frio.
Hoje não teclo nada porque nada me vem à mente.
Hoje desisto do dia. Desconto num outro qualquer que quiser viver a dobrar.
Sanzalando

Tal como o sol o zulmarinho está ali melancolicamente espraiado na areia. O marulhar hoje é silêncio como se tudo por aqui estivesse cinzentamente adormecido.
Se eu conseguisse entoar barulho para os acordar…
Dá ideia que é preciso que lhes abrace e os acorde desses sonhos tristes com que me carregam o dia. Eu preciso do sol e do marulhar, da luz e do som para caminhar no meu tempo.
Acho que preciso entrar no dia aos gritos, saborear os sabores tropicais dos desejos ardentes para conseguir libertar-me dos desejos impossíveis que me enervam a flor da pele.
Tenho que acordar de olhos abertos e coração livre…
Sanzalando

Abri as cortinas num gesto de quase as rascar. Alguém poderia pensar que me faltava o ar, tal a brutalidade imposta no meu gesto. Era só para ver a Rosa.
Hoje apenas me apetecia ver uma Rosa. E vi.
Sanzalando

Me disseram, assim como que num sussurro do estilo de que é segredo mas diz a toda a gente, que ontem era dia da Mãe. Eu que não sou ligado a essas coisas, que ainda por cima mudam porque eu quando ligava era em Dezembro, deixei escapar o dia ao mesmo tempo que me enchi de dúvidas.
Por isso e por mais coisas que não digo resolvi hoje fazer uma homenagem à ternura, a todas as carícias que nasceram apenas com o objectivo de acariciar. Hoje me apetece homenagear aquelas mãos doces que te secam as lágrimas, que te limpam as feridas da alma e se solidarizam na pena máxima de sofrer a teu lado. Hoje me apetece homenagear as mãos que fazem milagres num simples aperto simpático de mão, aos sorrisos sorridos com paixão, aos silêncios de quem escuta.
Hoje quero apenas juntar o cantar do cair da tarde.
Sanzalando

Antes de beijar e abraçar todos aqueles sorrisos que me esperavam, de cumprir as formalidades que imaginava me esperavam, eu me fiz um resumo. Antes de deixar o chão do grande avião que me tinha levado, imediatamente após o abrir das portas, eu fiz um recuo no tempo e num flash de memória vi que a nossa estória de amor se tinha escrito, como todas, em tintas de tristeza e rabiscos de alegrias, num amor verdadeiro, o meu, e nada mais. Ali, pronto a reenfrentar-me, nada mais me interessava, nem frases bonitas nem palavras não ditas. Aliás, todas as frases pareciam-me já terem sido ditas, pelo menos pensadas e todas me pareciam iguais. Aqui chegado dei conta que a vida corre depressa e eu me tinha esquecido de vivê-la, procurando complicações em remorsos, fantasias imagináveis duma estória de amor criada em premissas que só tinham um lado.
Afinal de contas, foi uma estória de amor que terminou, como todas, diluída no tempo, ferida de substância e marcada pela renúncia de alguma coisa que se calhar valia mais que esse amor adolescente que imaginei.
Sanzalando
