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A Minha Sanzala
recomeça o futuro sem esquecer o passado

30 de setembro de 2016

palavras de vocação


Me sento à beira mar, ouço a música do mar e adentrando-me em mim, com voz de silêncio procuro um caminho a seguir. 
Olhando as plantas, lembrando-me da clorofila imagino-me pelo caminho da agricultura e florestas, por laboratórios de bicos de buzen e pipetas, conta gotas e outros tubinhos e decido-me que por aí não vou.
Imagino-me a contar números, somar e subtraí-los, multiplicar e ainda encontrar uma raiz quadrada, um que seja primo e digo-me que matemática não vai ser o meu lugar.
Olhei para um texto de Satre, não a Náusea, mas um outro com apontamentos de Simone de Beauvoir, em que me diz que o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os oprimidos, para dizer-me que pela retórica política não me apanham.
Então vou contar vísceras, descrevê-las e situá-las, saber que vinte e cinco por centro dos nossos ossos estão nos pés, e pensarei num futuro, que em Medicina não vou ver-me.
Enfim, sentado à beira mar procurei uma quantas mais profissões e decidi que ainda era cedo para decidir.
O tempo passou. Matemáticamente certo. Biológicamente polido e médicamente irrepreensível.
Vesti-me com os raios de sol que ainda teimam em sorrir-me e esperei sentado uma decisão superior. 
À beira mar encontrei uma estrada de alegria e a vida seguiu Biológica, Matemática e Medicamente assistida, sabendo que o medo matou muitas vocações.


Sanzalando

29 de setembro de 2016

amor sem palavras

Se tudo fosse fácil todos o teríamos. O Amor não é fácil, a dor não é fácil, as palavras não são fáceis e as lágrimas custam tanto.
Falemos de Amor. O Amor de verdade, o que tem de tudo mas não é fácil. É maduro, sereno, não é um sobe e desce que provoca vómitos, uma ondulação de sentimentos, uma conturbação de comportamentos, uma perseguição de pensamentos. O Amor de verdade é uma chegada, um dia e noite constante, é um carinho, é uma devoção, um sentimento realizado ou a caminho da sua realização.
O Amor de verdade é vocação. Lindo e porém não fugaz como um pôr-de-sol de meia estação.
O Amor de verdade não tem palavras. Sente-se.

Sanzalando

28 de setembro de 2016

silêncio em palavras

Sabe-me a silêncio. Não ao que dói, não ao que ensurdece, não ao que provoca lágrimas. Portanto não ao teu silêncio. Mas ao silêncio da alma, ao silêncio da meditação, ao do conhecimento. Ao meu silêncio provocado e caladamente sentido, ao que encontro na paz de mim. Às vezes é preciso estar calado para proteger o tesouro, cofre aberto não é seguro. Sabe-me bem este silêncio mesmo que às vezes me pareça que ele fala muito comigo. 
Às vezes faço tanto barulho que não consigo ouvir o meu silêncio. Hoje ouço-o bem e bem me sabe.



Sanzalando

27 de setembro de 2016

auto-biografado em meia dúzia de palavras

Trazia o peito carregado de febre. Os pulmões arfavam num sufoco de que jamais seriam suficientes para durarem uma vida, pensava eu. Tudo parecia não ia dar certo e tudo se modificava a cada olhar vazio. A certeza viscosa da dúvida impedia-me de raciocinar. Um prenuncio de sorte, de fé e quem sabe de esperança precisava que chovessem em mim. A metódica certeza duma dúvida continuada na monotonia do quotidiano preenchia-me o vazio da alma. E eu arfava numa falta de ar mental. Imaginei-me como um desenho desenhado numa qualquer escola primária. Desproporcionando. Sentia-me prisioneiro da ignorância com os olhos perdidos na distância. Se eu tivesse à mão de semear um conjunto de palavras eu diria que Grande Falta de Vontade. Mas estava assim, de olhos verdes, porque não amadurecidos, e pupilas contraídas porque todo eu era contracção, inerte como um dia parado, um relógio avariado, um pedaço de vidro abandonado, uma chama apagada dum fogo inexistente. Eu era a ausência de mim.
Depois, num cair de surpresa, num sorriso escondido num copo vazio de vinho tinto, numa dia que era noite dentro, a invisibilidade foi-se desfazendo, as palavras imodificáveis se foram construindo como se um palácio fossem, fui-me encadernado em ideias certas, em memórias recentes, vocações escondidas em medos antigos e o gosto violento se foi diluindo, a ausência tornou-se paradoxal, o corpo moldado num esculpir de ideias certas, a vontade fixada em ferro forjado, a dor descontrolada se sumindo em argolas de fumo e eu fui reaparecendo por entre sorrisos, dialéticas virtudes dum ser superior que se foi reconstruindo, vocação desimportante se erguendo qual mar manso dum poço de virtudes.
Eis-me auto-biografado em meia dúzia de palavras, saltado grades, muros e dunas entrando no zulmarinho da minha existência terrena, a real.


Sanzalando

26 de setembro de 2016

aparando a relva

Já tentei escrever com os pontos e virgulas nos seus sítios. Não gostei. Eu não sou de ponto final e parágrafo.Eu é mais reticências e reticente. Eu é mais de compreensão lenta e apreensão rápida. Já tentei rabiscar ruas, rotundas e becos sem saída. Deu sentido proibido.
Afinal de contas a minha sinalética é mesmo a de trânsito que isto da gramática tem coisas do arco e da velha. 
Se existisse gramática entre a sístole e a diástole eu estaria em assistolia. 
Sendo assim vou ali pastar as cabrinhas que a relva precisa ser aparada


Sanzalando

25 de setembro de 2016

um dia

Peguei num livro, aproveitei o sol, embalado numa brisa me sentei. Olhava as letras, lia as nuvens no céu e decorava as ondas. 
Sentado no silêncio do mundo, letra a letra fui lendo qie outros escreviam. Um dia eu vou ser capaz de ler sem parar, sem ter de olhar para onde estou e sem ter de soletrar a minha existência.
Um dia, vou ter vocação. Hoje fico-me a ler o livro, o mar e o céu.

Sanzalando

20 de setembro de 2016

reinício

Nem tudo na vida é claro. Nem nos livros. Nem nas simples palavras.

Pouco a pouco fui-me definindo. Não uso palavras imprenunciáveis, apenas frases imperfeitas de ideias feitas.
Vou tentar aprender

Sanzalando

16 de setembro de 2016

vagabundando palavras - parte final

Agarro nos meus pensamentos e lhes ordeno silêncio. Não o silêncio barulhento duma arrufo, mas o silêncio meditativo dum momento a sós comigo. 
Quero fazer das minhas palavras um argumento dos sentimentos experimentados ao longo da vida. Calmos e serenos, não sarrabulhados e assíncronos da minha realidade. 
Quero palavras que mostrem que a solidão quando existe é uma opção, um afecto e não uma comichão de sentimentos vazios.
Com as minhas mãos transpiradas seguro os meus pensamentos, alinho-os numa carreirinho e seguro-os com amor de quem os viveu.
Hora de terminar um vagabundear de palavras e reiniciar um presente novo de palavras com e sem rima.

Sanzalando

14 de setembro de 2016

constatação

Advirto que estar longe de ti me dá saudades. As palavras que utilizo, simples e inequívocas, mostram que apesar de vagabundo, me sinto seguro do que significam, solto de liberdade, leve de pureza e certo de certeza.
Se tiver que chorar choro, gargalhar gargalho, abraçar abraço. Sou um vagabundo de palavras que vive livre nas palavras que usa, nos gestos que faz.
Não me escondo por trás de segundos sentidos, de palavras ocas ou de gestos sem sentido.
Constato que é tão bom não estar longe de ti.


Sanzalando

12 de setembro de 2016

Foi um é giro

Eu sei que preciso de tempo. Sei que precisas de espaço.
Deste-me um relógio, devolvi-te um quadrado de mim.
Ruborizei com o embaraço de não te ter dado o meu jardim porque a flor mais bonita dele eras tu.
Foi então que desisti e tu de mim desististe. Insistimos porque ambos valíamos o esforço.
Deste-me espaço e devolvi-te tempo e no final acabámos juntinhos feitos um.
Tropeçámos ideias, descalçamos factos e desatamos nós da vida.
Foi um é giro. Apenasmente isso.


Sanzalando

7 de setembro de 2016

não vou procurar palavras

Hoje não me apetece procurar palavras.

Acho vou recitar um mantra enquanto dou passos atrás de passos em direcção a lado nenhum. Acho vou procurar pensamentos noutros ventos, noutras águas que ainda não passaram sobre a minha ponte, noutros lugares vazios de mim.
Acho vou admirar o sol poente num silêncio meditativo, contar com quantas cores de fogo se descreve esse momento e com quantos minutos se escreve anoiteceu.
Hoje não vou procurar palavras de mãos dadas, vírgulas e exclamações. Hoje vou só ficar no meu canto passeando ventos e pastando memórias.

Sanzalando

6 de setembro de 2016

Zulmarinho perfume

Faz conta eu uso perfume. Antes de eu chegar já tu sabes eu estou a caminho. Eu uso zulmarinho de perfume. Tu sabes eu estou a chegar de cabelo curto, barba feita, sorriso nos lábios. 
É, o mundo não acabou e por isso eu sorrio. 
Pensei ligar-te a dizer que ia chegar tarde.
O perfume de mar me denunciou. Eu estava perdido sem ti.
Demos um beijo e de mãos dadas fomos dar um mergulho no mar.
O mar lava tudo, incluindo a alma e as saudades de outro mar e outras marés que estão para lá da linha recta que é curva e lhe chamam de horizonte.

Sanzalando

30 de agosto de 2016

sem constrangimentos

Tropeço numa montanha de palavras que estão presas na minha memória, assim num novelo de teia de aranha misturado com pó, que tentam resistir à saída. 
Já sei é preguiça misturada com astenia e quem sabe alguma tristeza.
Estas palavras são de sonhos sonhados, desejos desejados e saudades sentidas. Mas a realidade que é mais real que a minha memória, faz com que elas se prendam num alheado de formas conturbadas que obstruem as possíveis saídas duma falta de tempo não medida.
Na verdade nem eu consigo ver os caminhos tortos que elas, as palavras, tomam quando saídas ao acaso duma realidade ficcionada.
Não vou julgar a minha estória, não vou pesar os meus sonhos, não vou quantificar os meus desejos nem vou abafar a minha tristeza, só porque as palavras teimam em não sair da memória e se deixam emaranhar nas teias de aranha, na amálgama de pó que as cimenta num quadriculado assimetrico de significados.
Tropeço numa montanha da palavras que te digo nos nossos silêncios, nas trocas de sorrisos marotos e na virtualidade da vida real.
Te gosto e essa palavra simples sai sem constrangimentos.


Sanzalando

6 de agosto de 2016

deliberadamente

Deliberadamente lento, caminho por atalhos da memória porque hoje resolvi rasgar alguns caminhos que me levaram ao rancor e aos silêncios da compaixão. Eu não sou assim e nunca mais o serei, deliberadamente decidido.
A brisa que sopra não me arrefece o incendiário pensamento que teima arder nos minutos livres que aflitivamente procuro ter para mim e me atrapalho em rasteiras linguísticas.
Faz calor de meio dia e eu pareço um desastre, queria estar a teu lado a sorrir e afinal estou por aqui a transpirar calores antigos, num fim de tarde calmo e sereno
Deliberadamente lento, acho me confundi nos caminhos das palavras que escolhi para me plagiar e decido ir a banhos numa peregrinação por lugares comuns


Sanzalando

3 de agosto de 2016

Me olha e confirma

Olha só para mim a caminhar num passo lento enquanto vejo o mar se ondular com carneirinhos lá longe. 
Vês o meu olhar preocupado? Desconsegues de todo. 
Eu estou só mesmo a olhar para o longe num voo planado de imaginação e despreocupação. O tempo é demasiado bom para o gastar não gostando. Gosto de o gastar com bom gosto nem que seja só mesmo a olhar e a cantar um mantra como que a me distrair.
Olha só para mim a não me olhar para o desgaste de cansar a pensar no mal que os outros possam pensar.
Me olha nos olhos e diz se não vês esse azul mar a me encher a alma de alegria e bem estar. Me olha nos olhos e me diz outra vez: vamos mergulhar que te faz bem!
Me olha nos olhos e me diz se não vez que eu não desisto mas insisto. Ser feliz tem destas coisas.


Sanzalando

27 de julho de 2016

Carlos Santana, eu e a pirataria

Servindo sorrisos caminho ao longo da praia ao som do Samba Pá ti do Carlos Santana. Os peixes saíram da água e fizeram público... As algas fizeram de peruca dos antigos cabeludos agora carecas gastos pelos ventos do tempo.
Eu sirvo sorrisos fossem eles bolas de Berlim borrifado de areia e imagino a guitarra chorando arrepios em delírios de solo dum virtuoso cujo reumático não chegou ao cérebro nem aos dedos ágeisdum concerto ao vivo que ouvi em directo por interposto telemóvel.
Irresistível e feliz. Adorei-me.


Sanzalando

24 de julho de 2016

É, deve ser, do sol

Neste momento de sol tórrido e calor que me faz suar as estopinhas só de respirar, dou comigo a fabricar pensamentos.
Em tempos idos, noutros quarteirões, noutros diálogos, alguém me disse que para esquecer algo de muito importante eu teria de o transformar em livro. Assim foi nascendo cada frase, cada parágrafo e muitos textos, se assim me permitirem ter a liberdade de os chamar. Mas mesmo assim não me livrei do que gostei, do que gosto e do sempre gostarei. Mesmo que eu escreva livros eu jamais esquecerei seja o que for.
Terrível época a minha em que ainda há vagas no inferno e uma preguiça enorme para defender as palavras que vou gastando com gosto. Umas vezes aparentemente tristes, outros antes pelo contrário, porem caminham, as palavras, para dentro de mim de forma a saírem textos que falo em voz calada para folhas brancas.
É, deve ser, do sol


Sanzalando

22 de julho de 2016

que sou e que fui no serei

Me olho no espelho e vejo que eu não sou mais que metade de recordações e outra metade de futuro e incertezas.
Leio nos livros que 70 % de mim é água. Nos 30 que sobram eu só 15% é que sei o que sou?
Os carros de rolamentos, as zangas da D. Maria, os comboios de brincar do Sr. Reis, pai do Beto Reis, as hortas do carriço, as caçadas do Tó Curibeca, as corridas de patins, a saída da missa, a discoteca, a Oásis, o Avenida, o Hotel Turismo, os cinemas, as matinés. Tantas coisas só para 15 %? 
Não, acho me vou desidratar para caber mais de mim neste aqui.
Não, acho melhor ficar assim e desidratar as memórias menos boas. Esvaziar de mim a memória do braço partido do Rui Miranda, o acidente na estrada do Lubango depois de uns disparates, as lâmpadas partidas a tiro de chumbo, as lágrimas da minha mãe, os chumbos no liceu, as respostas não conseguidas e com isso arranjar mais espaço para o hoje em dia de cada dia sorrindo.


Sanzalando

21 de julho de 2016

promessas

Olhá lá que me esqueci de soletrar palavras num divertimento que me entretém.

Acho eu, num tempo qualquer, eu me prometi sorrir sempre. Eu me prometi também nunca me arrepender de coisa alguma. Se não foi antes que o fiz, lhe faço agora com retrospectiva idade de criança.
Afinal me descomprometo dessa promessa.
Tantas vezes me arrependi de ter chorado, de ter esquecido de dar aquele abraço, de não ter devolvido aquele sorriso, ter interpretado mal umas palavras que pensei ter ouvido e de tantas outras coisas que nem com cábula me ia fazer lembrar tudo.
Prometo só que vou tentar ainda ser melhor, que não vou esquecer de sorrir, que as lágrimas serão de alegria muitas vezes e que tudo vai ser por mim verdade, nas promessas.
Afinal de contas amar é bonito, feio mesmo é não ligar.


Sanzalando

12 de julho de 2016

me olha e sorri

Me olha nos olhos e me sorri.

Sabes, basta ver o teu sorriso que já não é necessário haver estrelas no céu ou o sol sempre a brilhar.
É verdade que as estrelas e o sol me fazem sentir vivo. Esse teu sorriso faz, para além disso, sentir-me feliz.
Pode parecer estranho eu não falar nada, eu não me empolgar com nada, ficar assim apenasmente sorrindo, sorriso de orelha a orelha para ti, mas na verdade, eu gosto de parecer estranho e olhar para ti.
Ouves o mar? Sentes o sol? Sou eu num assim a modos que sorrindo.


Sanzalando


WebJCP | Abril 2007