Programas K'arranca às Quartas no Blog

30 de janeiro de 2026

uma casa para embalar

Era uma vez, numa casa virada para o mar, um relógio antigo que fazia “tic-tac” como se estivesse a embalar as ondas. Cada tic era uma concha, cada tac era um passarinho a pousar no telhado da casa.

Nessa casa vivia a eu e a Dona Aurora, que todas as noites abria a janela para deixar entrar o cheiro a sal e a promessa de sonhos bons. Sentava-se numa cadeira de baloiço, velha e com chiar de cansaço e começava a contar histórias ao candeeiro, porque acreditava que a luz também precisava de ouvir para dormir.

- Dorme, luzinha, que amanhã há sol para ti - e apagava-a.

O candeeiro até me parecia se apagava devagar, como que a bocejar preguiçosamente. Lá fora, o vento passava devagarinho, pé ante pé, para não acordar ninguém e não sacudir as cortinas não me fosse assustar com fantasmas ou desavindos corpos invisíveis.

E assim, entre o tic-tac do relógio, o baloiço da cadeira e a ladainha com que rezava D. Aurora, a casa inteira adormecia como um barco bem ancorado: a flutuar suavemente, segura, embalada por histórias que não acabam - só continuam nos sonhos de quem sonha.


Sanzalando

29 de janeiro de 2026

às vezes o mundo faz intervalo para eu ver e guardar

Na minha cidade não sei se chovia 48 horas por ano. Não tenho memória meteorológica. Mas não devo estar longe disso. Mas naquela tarde o céu não avisou. Simplesmente mudou de um azul celeste para um cinzento feito chumbo em questão de um cagagésimo de tempo, como se alguém tivesse corrido uma cortina pesada sobre a cidade. Na esplanada, o calor que antes fazia a roupa colar na pele deu lugar a um sopro de vento súbito, carregando o cheiro metálico da água vindo de longe e desabar ali, feito parecia um castigo divino ou só um cano grande que furou.

Quando a primeira gota bateu na mesa metálica, o mundo acelerou para todos, menos para mim. Esvaziou-se a esplanada e do outro lado da rua a rotina tropical desmoronava em comédia de corrida como na dança das cadeiras, mas aqui era à procura de um abrigo. Todos punham a mão na cabeça faz conta ela protegia da chuva bater na carola, outros seguravam a carteira parecia eram feitas de papel e precisam ser protegidas. Eu continuei sentado a ver porque às vezes é preciso parar para ver. O trânsito, sempre impaciente, paralisou sob o peso da água que agora caía como se tivessem a virar baldes. Eu pacientemente via, sentado na esplanada, o toldo pouco protegia, mas eu saboreava por estar a ver um teatro temporal.

A chuva tropical tem uma particularidade: ela é barulhenta, mas traz silêncio. Ali, com os pés cruzados e o olhar perdido nas poças e rios que se formavam no asfalto, o tempo deixou de ser medido por horas e passou a ser medido por intensidade.

Já não tinha a chávena de café à minha frente, tinha um pequeno vasilhame com água a transbordar. O asfalto ao receber as primeiras gotas deitou fumo e pareia que o calor da tarde subia rumo ao céu. Eu não tinha prazos nem nada para fazer. Só tinha o tempo perdidamente visual. Ria por dentro e mostrava espanto por fora. Todos os beirais de porta tinha um habitante, molhado para não dizer encharcado. 

Tão rápido quanto começou, a força diminuiu e desapareceu. O céu começou a abrir buracos de luz azul enquanto as poucas nuvens iam fugindo em direcção a leste e o brilho do sol refletido no asfalto molhado quase cegava. O mundo voltava a girar, mas eu parei a memória até hoje, quando vi que aqui chovia e que não era igual à chuva da minha cidade


Sanzalando

o Meu deserto tinha uma carocha

O meu deserto é grande e eu só lhe conheço um pedacinho tão pequeno que faz de conta é uma mão de areia. Até onde lhe conheço as dunas pareciam ondas congeladas e o sol pintava-as assim dum amarelo torrado e o céu, ao fim da tarde, era pintado com tons de laranja que até parecia fogo. Nesse deserto vivia uma carocha. Ele não era uma carocha comum, tinha coração que parecia de homem aventureiro e olhos curiosos que ansiavam por ver o mundo além da sua duna.

Um dia, enquanto a carocha explorava perto de um pedacito de capim seco, ouviu um som estranho, parecia alguém estava num choramingar suave. Rastejando com cuidado, ela descobriu um pequeno animal, eu aqui diria que era tipo de raposa do deserto com orelhas enormes, preso sob uma pedra, mas eu não conheço os outros animais. Mas a verdade é que o bicho estava assustado e com a patinha presa.

A carocha apesar de assustada, sentiu uma pontada de pena. Ela usou toda a sua força para empurrar a pedra, e com um esforço o bicho ia ficar livre.

- Oh, muito obrigado! - disse o animal que se tinha perdido com certeza. 

A carocha respondeu-lhe

- Conheço bem este deserto. Posso ajudar-te a encontrar o caminho.

A carocha corria com toda a velocidade que podia, o animal que eu diria era raposa do deserto, andava devagar. 

- Sabes, bicho, o meu mundo termina aqui. Não conheço mais.

- Muito obrigado! Deste-me uma grande ajuda. Vou usar o meu faro e encontrarei companhia. Não corras no regresso porque pode faltar-te a força.

A carocha, de peito cheio, regressou para a sua duna e pensou que o mundo era grande de mais para ela conhecer num só dia.


Sanzalando

Programa 103 K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 28 de Janeiro de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr que intitulei Ir ver o Vento
Falei de Luis Cardoso, escritor maior de Timor-Leste
Esta Música tem uma história trouxe Nara Leão e Com Açúcar, com Amor, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje Conjunto Maria Albertina
Poema de Sá de Miranda
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de música angolana no feminino
Crónicas de Carlos Osório, um docente, um apaixonado da fotografia, um ser humano, por acaso ou não de Luanda que hoje abordou os meninos e a internet
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

27 de janeiro de 2026

estória de embalar

Sentado na borda da cama, eu, o pai, depois de ajeitar a manta do meu filho, comecei a inventar e sorrindo fui dizendo, que o meu campeão hoje não ia ter uma estória de dragões nem naves espaciais. Vou-te contar a história do Grão de Areia que Queria Ver o Mundo.

Era uma vez um grão de areia chamado a quem chamavam Grãozito. Ele vivia na minha praia que era enorme, cercado por milhões de outros grãos que pareciam exatamente com ele, com cores de muitos tons. Ele não sabia como tinha chegado à minha praia nem há quanto tempo ali estava porque ele não sabia o que era isso de tempo. Mas enquanto os outros grãos só queriam saber de tirar uma soneca ao sol e não ser levado por ondas de volta às profundezas do mar, Grãozito passava o dia a olhar para o horizonte, com medo de o perder.

Ele tinha uma curiosidade que era ao mesmo tempo um sonho: queria saber onde o mar terminava e gostava de lá ir.

Um dia, um dia de calema furiosa, uma onda bem gigante e espumante chegou à beira da areia e perguntou: 

- Ei, pequeno, queres dar um passeio pelo mundo?

Grãozito não pensou duas vezes. Ele agarrou a espuma e foi na onda.

Grãozito viajou dias que, segundo a memória dele, foi instantes. Ele viu coisas que nunca imaginou, desde peixes coloridos que pareciam lanternas acesas sob a água, tartarugas marinhas que contavam histórias de corais distantes, Baleias que cantavam músicas que faziam o corpo minúsculo de Grãozito vibrar, ele viu a esfera do pelourinho a rolar em fundos marinhos, viu restos de plástico que boiavam na bolina do vento ou ao sabor da corrente.

Ele percebeu que, embora fosse minúsculo, o mundo era gigantesco e cheio de mistérios. Mas, depois de um tempo, Grãozito começou a sentir saudades. Ele sentia falta do calor constante da sua praia e dos grãos de areia que se preguiçavam ao sol.

A mesma corrente que o levou, trouxe-o de volta. Quando ele finalmente se deitou na minha praia, na areia quente, os seus amigos perguntaram: 

- E aí, Grãozito? O mundo é perigoso? Tiveste medo?

Grãozito olhou para o céu e respondeu:

- O mundo é enorme e eu sou bem pequenino. Mas aprendi que, mesmo sendo pequeno, eu faço parte de algo gigante. E o melhor de viajar é ter uma casa quentinha para onde voltar e contar a história.

Eu, o pai dei um beijo na testa do meu filho e sussurrei: 

-  Assim como o Grãozito, tu és pequeno agora, mas o mundo está à tua espera. Mas, por hoje, a tua missão é apenas sonhar. Dorme filho!


Sanzalando

Conversas à mesa 3 - Cultura e Identidade





Programa de Rádio de Conversas à volta da Mesa - 24 de Janeiro
- tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.





Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir


Sanzalando

23 de janeiro de 2026

o livro inexistente

Eu tinha escrito um livro que considerava puramente angolano - A Poeira que Aprendeu a Falar. Não se vendeu nem um, mas era para mim como um best-sellers musculado das montras. Mas ele que tinha vontade própria preferia ficar encostado numa prateleira alta, a observar o mundo com a paciência de quem já viu muita coisa, guerras, silêncios, mangas maduras e promessas feitas à sombra de um imbondeiro.
O livro nascera em Luanda, numa tipografia cujas máquinas rangiam como se estivessem sempre a contar segredos. As páginas cheiravam a papel, sal, trânsito e pó, e se por acaso alguém o abria ouvia-se quase um “eh pá” discreto, como quem diz: senta-te, vamos conversar com calma.
A história lá dentro seguia Mateus, um rapaz que falava com a poeira vermelha das estradas. Não por maluquice — em Angola a poeira sabe muita coisa. A poeira lembrava-lhe que a terra tem memória, que cada passo deixa rasto, e que até os silêncios sabem cantar semba baixinho.
Havia capítulos que pareciam mornos como o fim da tarde, outros rápidos como uma zungueira a desviar-se do caos. As palavras misturavam português com kimbundu sem pedir licença, porque ali ninguém precisava de autorização para ser inteiro.
Certo dia, o livro foi parar a Portugal, numa mala apertada entre camisas cuecas e saudades. Quando alguém o abriu, numa noite fria, o livro estremeceu. Não de medo, de alegria. As páginas aqueceram a sala, a poeira vermelha espalhou-se pela imaginação do leitor, e Luanda entrou ali sem bater à porta.
No fim, o leitor fechou o livro devagar, como quem se despede de um velho amigo. E o livro, satisfeito, pensou:
— Pronto. Cumpri. Cruzei o mar outra vez.
E ficou à espera do próximo par de mãos.
Esse livro foi o único que teve saída, no dia que ofereci à minha mãe 

22 de janeiro de 2026

uma biblioteca à lusofonia

Na minha imaginação eu criei a Biblioteca Universal da Língua Portuguesa, que fica exatamente entre Ficção e o Isso Depois Eu Leio, os livros da lusofonia aguardavam ansiosos pelo Dia Internacional de ser lido, data em que finalmente eu os tiraria da prateleira e os levasse para algum sítio onde pudessem ser lidos.

Um livro português muito elegante, A Relíquia de Eça de Queirós, alisava a lombada e dizia:
- Espero um leitor atento, com tempo, chá quente e alguma capacidade de ironia.

Um calhamaço brasileiro, Brasil dos Espertos de Ariano Suassuna respondeu, todo retorcido de palavras e muito humor:

- Leitor bom é aquele que topa tropeçar nas frases e ainda agradece pela queda.

Do outro lado, um livro cabo-verdiano, Batuku de Cabo Verde de Glaucia Nogueira, , fino mas orgulhoso, comentou:

- Eu aceito qualquer leitor. Até os que leem na praia e me enchem de areia existencial.

Um poema moçambicano de Paulina Chiziane suspirou:
- O importante é que leiam com respeito. Minhas histórias já sofreram demais para virar marcador de página.

Um volume de Fernando Pessoa, que na verdade eram quatro livros fingindo ser um só, começou a discutir consigo mesmo:
- Este leitor não vai me entender.
- Claro que vai.
- Não vai, não.
- Ainda bem.

O livro Tudo Sobre Deus de José Eduardo Agualusa acrescentou:
— No fundo, somos todos histórias à procura de alguém que nos sonhe acordado.

Fui interrompido por um jovem, enquanto eu delineava esta novela imaginada, olhou-me de cima a baixo, coçou a cabeça e disse:
- Gostava de um dia ler um livro em português, imaginado e escrito… mas não muito difíceis de ler.

Silêncio absoluto. Até que um livrinho Os Olhos Grandes da Menina Pequena de Ondjaki, esquecido num canto da minha memória, gritou:
- Eu! Eu!

Institivamente virei-me para ele e disse:

- Os Olhos Grandes da menina Pequena

Os outros livros, dentro da minha cabeça riram, o que, em termos técnicos, provocou um leve arrepiar no meu corpo. O jovem deixou-me e levou com ele o livro infantil debaixo do braço.

Os grandes clássicos ficaram ali, meio frustrados, meio aliviados.
- Pelo menos - disse Eça - hoje ninguém pulou os parágrafos longos - olhando para Saramago
- Nem sublinhou com caneta fluorescente — completou Rosa Lobato Faria.

E assim a biblioteca voltou ao seu estado natural: livros à espera, palavras cochichando e a lusofonia inteira concordando numa coisa rara — ler é sério, mas os livros adoram rir quando podem.



Sanzalando

Programa 102 K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 21 de Janeiro de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Hoje foi o programa do segundo aniversário. 

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr Eu e a Rádio
Falei do Zé da Fisga, uma memória de adolescência num texto de REAT Rádio Estudantil Angolana de Transmissões
Esta Música tem uma história trouxe Gal Costa e Índia, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje foram vistuais. Uma imaginação de dueto entre Paulo de Carvalho e Chico Buarque
Poema sobre o Tempo de Mário Quintana
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de uma máquina fotográfica especial
Inaugurou-se a Crónicas de Carlos Osório, um docente, um apaixonado da fotografia, um ser humano, por acaso ou não de luanda
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira não faltou assim como a Reseliência

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

na livraria da minha cidade

Na pequena Livraria Regina, da minha pequena cidade, que inexplicavelmente cheirava a café e também a maresia, os livros da lusofonia resolveram discutir entre si, mal da dona fechou a porta para ir almoçar.

Os Lusíadas, muito sério e um pouco empoeirado, cantou:
- É evidente que eu sou o mais viajado de todos. Dei a volta ao mundo em versos, eu conto a História de um caminho de mar!

Um romance de Machado de Assis, apoiado na prateleira ao lado, sorriu do canto:
- Viajar é fácil quando se tem heróis. Difícil é entender a alma humana sem sair da sala de estar.

Lá bem do fundo da estante, um livro de Mia Couto espreguiçou as páginas e deixou cair uma palavra inventada no chão.
- Meus amigos, não briguem. O mundo é grande demais para caber num só poema ou num bigode irónico.

Um livro de Jorge Amado, com cheiro de mukeka literária, interrompeu:
— Grande mesmo é a Bahia, que cabe em qualquer lugar. Inclusive nesta livraria, entre um soneto e uma metáfora africana.

Uma coletânea de poemas de Fernando Pessoa, dele mesmo ou dele feito outro, começou a falar… depois mudou de ideia… depois falou de novo, e aí com com outra voz:
— Discordo de todos vocês.
— Qual de nós? — perguntou o Lobo Antunes.
— Sim. De todos, incluindo eu nos outros! afirmou Pessoa sem saber já se era ele ou outro

Enquanto isso, um livro de Pepetela observava tudo em silêncio revolucionário e comentou:
— Pelo menos concordamos numa coisa: sobrevivemos a leitores apressados e a resumos malfeitos.

De repente, a porta da livraria se abriu. Todos se calaram, fingindo respeitável quietude de papel. A dona havia chegado e havia que mostrar respeito. Entretanto entrou uma leitora curiosa, que passou os dedos pelas lombadas e disse:
— Adoro literatura em português. Dá para viajar sem precisar de passaporte, bilhete ou avião.

Os livros sorriram num desfolhar de palavras para dentro, o que, no caso de alguns, fez levantar um pouco de pó, satisfeitos por saber que, apesar das diferenças de sotaque, ritmo e temperamento, ainda compartilhavam a mesma língua… e a mesma estante.

E assim ficou provado que a lusofonia é como uma boa biblioteca: cheia de vozes diferentes, mas todas a falar alto demais quando ninguém a está a ver.



Sanzalando

20 de janeiro de 2026

eu tentei arrumar a estante

Tudo começou quando eu tentei colocar "O Cortiço", do brasileiro Aluísio Azevedo, ao lado de "Os Maias", do português Eça de Queirós, na estante da minha sala.

Perto da meia-noite a estante tremeu. Os personagens de Eça, com seus monóculos e um certo tédio aristocrático, ficaram horrorizados com a barulheira e o calor que vinham do cortiço carioca ou como se diria no Porto, de uma Vila no Rio de Janeiro.

- Pelas barbas de D. Pedro! - exclamou o Conselheiro Acácio - Haverá decência nesse ajuntamento de gente suada?

João Romão, do livro vizinho, nem olhou para trás: 

 - Deixe de mesura, patrício! Aqui a gente trabalha para enriquecer, não para discutir o brilho das botas!

A confusão aumentou quando eu trouxe os angolanos e moçambicanos para a mesma prateleira. Coloquei "Terra Sonâmbula", de Mia Couto, perto de um dicionário da Porto Editora

Na manhã seguinte, o dicionário estava em choque. Mia Couto tinha inventado tantas palavras novas que o pobre dicionário sentio que estava a perder o emprego ou a roda da viagem.

- Isso não é português! - reclamava o Dicionário, rígido no seu grosso volume.

- Não é português, é portuguesar o mundo - respondeu um neologismo de Mia, saltando de uma página para a outra como um cabrito ou uma qualquer cabra de leque que africanamente não se sossega.

Enquanto isso, "A Geração da Utopia", de Pepetela, tentava organizar um comitê de libertação para os livros que estavam presos na seção de Autoajuda, por erro meu.

O cúmulo do caos aconteceu quando, por já não saber como organizar a estante, empilhei Guimarães Rosa em cima de José Saramago.

Foi o silêncio mais barulhento da história.

Saramago, dizem porém sem verdade, que recusava-se a usar vírgulas ou pontos finais para reclamar o peso. As suas frases de três páginas formavam um labirinto onde eu quase me perdi.

Guimarães Rosa, trazendo o modernismo da poesia brasileira a tiracolo, apenas observava, e quando respondia fazia-o num dialeto que misturava o sertão com o infinito: 

- Viver é muito perigoso, mas ler o senhor Saramago, é um despropósito de frases compridas! 

No fim do dia, percebi que a literatura lusófona não pode ser arrumada. Ela é uma festa na cozinha: o português de Portugal traz o vinho e a etiqueta, o Brasil traz a feijoada e o samba, Angola e Moçambique trazem o ritmo e a reinvenção da alma, e Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste chegam com a poesia que une o mar.

Desisti da ordem alfabética. Agora, organizo os livros por níveis de saudade.




Sanzalando

19 de janeiro de 2026

um dia, pelo menos, sem internet

Pouquinho que passava das 10 da noite e veio o apagão das comunicações. Assim num segundo se foi a televisão e a internet. Me disseram que o rooter deu o último suspiro e a televisão transformou-se num retângulo plastificado e sem alma. O silêncio que se seguiu foi tão denso que deu para ouvir os pensamentos. No início, houve o pânico: levantei-me, reiniciei o dito, sempre sobre a máxima informática, desliga e volta a ligar. Nada.

E foi aí, no meio desse "nada", que a vida decidiu ficar engraçada.

Sem o brilho hipnótico da Netflix, os olhos demoram uns minutos a ajustar-se à realidade. Descobri, por exemplo, que o meu cão não é apenas um adereço de sofá e não deu por nada.

Acendi luzes, peguei no livro e retomei a leitura que tinha parado a meio da tarde. Meia hora depois novo desliga e volta a ligar e nada. Assistência técnica. Primeiro um diálogo  teclado com uma máquina a dizer-me para fazer o que eu já tinha feito. E com a insistência dos meus NÃO, a máquina disse-me que iria encaminhar para um operador real. Um pouco de música e a voz simpática do lado de lá. Já não estava em diálogo virtual. Já fiz, disse eu a várias questões. Ok, amanhã ou depois irá um técnico até aí para ver o que se passa. Aguarde mais um pouco. A blá blá mas agora não podemos fazer mais nada. E assim estou sem internet, sem televisão e sem o mundo saber de mim. 

A maior surpresa, porém, foi a interação humana. Sem o escudo da televisão, fui forçado a olhar para a minha parceira. 

- "Então... parece que não há rede," disse eu, com a eloquência de um homem das cavernas. — "Pois não," respondeu ela. "Queres jogar às cartas ou preferes descrever-me o teu dia com adjetivos que não incluam emojis?"

Rimos. Rimos porque percebemos que estávamos a desaprender a falar sem o apoio de um desenho, de um boneco, de uma figurinha. Acabámos a inventar biografias fictícias sobre quem passava na estrada, criando uma novela mexicana em tempo real, só nossa, sem anúncios e com muito mais reviravoltas do que qualquer série da HBO.

O mais estranho foi o sossego. Não é a ausência de som, mas a ausência de urgência. O tempo esticou. Uma hora sem internet durou aproximadamente três dias úteis. E, num mundo que corre para lado nenhum, esse abrandamento é um luxo quase subversivo. Fui-me deitar mais cedo.

Acordei sem saber as últimas polémicas do Twitter, o que me tornou, automaticamente, a pessoa mais feliz num raio de cinco quilómetros. A vida sem Wi-Fi não é um regresso à Idade Média; é umas férias forçadas de nós próprios. E, honestamente? A comida tem melhor sabor quando não precisamos de a fotografar antes da primeira garfada.



Sanzalando

15 de janeiro de 2026

o meu ferrugem de rolamentos

Não sei quantas estórias contei dos meus carros de rolamentos. Na descida dos Fonsecas, que por acaso também era a minha, era do Corado e dos Santanas, mas era assim conhecida e assim eu não vou desviar-me.  Eu tinha um carrinho de rolamentos, que tinha ido buscar à oficina do Abel, e lhe chamei de Ferrugem, era assim mais parecido com Ferrari mas era original, porque era meu, feito por mim e também por mim baptizado.

Ferrugem é claro que não tinha motor, não tinha travões para lá do tacão dos meus sapatos ou sandálias e muito menos cinto de segurança que naquela altura tudo era seguro. O volante era uma corda e mais seguro a gente não podia estar já que segurávamos a corda com duas mãos. O meu carro de rolamentos tinha uma coisa: tinha atitude. Seus rolamentos corriam numa roda viva como quem diz estou aqui mas já ali, com rapidez.

Todos os fins de tarde era corridas. Passeio de cimento lizinho que até parecia tinha sido feito de propósito para as corridas de rolamentos. Tinha o carrinho do Álvaro, do Robalo, do Corado, do Santana. Está aqui e falta alguém mas a velocidade do Ferrugem lhe deixou para trás no esquecimento. P

Tem dias ganho eu, outros ganha outro. 
— Hoje eu ganho e é só porque estou a descrever as palavras da descida com a D. Maria Guedes na janela e só abana a cabeça que estes miúdos não têm.

A simplicidade dos carros de rolamentos que a gente fazia era condicionado pelo gosto. O meu tinha direcção assistida porque era gerido com emoção, logo tinha direcção emocional.

A descida terminava numa curva a noventa graus e a velocidade tinha de ser controlada porque de contrário era um estatelado no asfalto ou no poste. 

Ferrugem deixou saudades e algumas cicatrizes. Boas memórias para além da algazarra, das reclamações vizinhas que a gente geria com um ar de inocência.

Daqueles tempo ficou uma frase:

Se a vida é uma descida, desço rindo, tendo cuidado com os rolamentos que rolam.



Sanzalando

Programa 101



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 14 de Janeiro de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.


Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr a Cultura e a sua Falta
Falei do livro História de Angola de Alberto Oliveira Pinto num texto de REAT Rádio Estudantil Angolana de Transmissões
Esta Música tem uma história trouxe Sétima legião e Sete Mares, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje com José Barata Moura, o filósofo português que pôs as crianças a cantar bem
POESIA -  PASTELARIA, Mário de Cesariny na voz de Manuel Tur
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou dde Angola profundamente
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira não faltou assim como a Paciência.

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

tem dia de limpar

Todos temos um momento na vida que precisamos decidir entre parar e seguir.
Ficarmos presos a ideias, vidas, passados, amizades que nem as eram, sabemos não valer a pena sermos dependentes disso. Ficamos com medo de enfrentar a solidão, aquela maldita sensação de perda e vazio, só nós sentimos isso, as outras pessoas ao nosso não se importam e na verdade somos é um grande tanto faz.
Por vezes mentem para nos verem longe e ainda assim fica a solidão. Há pessoas que não nos merecem nada, a não ser a sua indiferença, o não se importar, o nosso tanto faz. Todos chegamos no momento de reciclar a vida, e seguir em frente. Limpar o baú de lembranças, renovar o que é mau ou faz mal ou que só ocupa uns tantos bites de memória inútil.
Meter numa caixa de esquecimento tranque tudo o que desperta a dor e comecemos a adicionar na vida o que realmente te sorrir, quem faz dançar e ser feliz.

Sanzalando

13 de janeiro de 2026

Sol de março em Janeiro

O sol de março parece queima a pele mais que qualquer sol num outro lado qualquer. Mas quando ele queimava a areia da minha praia, parecia estar a convidar as ondas a dançar na beira mar. Eu e os amigos,  cheios de energia, mal podíamos esperar para mergulhar nessa aventura. Corríamos pela areia fofa e escaldante, sentindo a velocidade suave com que corríamos na cara e o cheiro salgado do oceano estava cada vez mais próximo.

Depois era o impulso em direcção ao céu e depois um mergulho de cabeça quando não calhava ser chapão ou um estatelado por tropeçar na crista da onda faz de conta ela era galo.

Depois construíamos um castelo de areia outras vezes era só mesmo um buraco, que rapidamente as ondas de março faziam desaparecer.

Se fosse hoje, era chegar à praia, sentar, olhar o mar e calcular a temperatura da água, rever a estratégia para lhe chegar sem queimar os pés e calmamente caminhar em direcção aele e nele chegado, entrar calma e serenamente, abrindo alas como quem nada bruços. Se a água estivesse suportável, mergulhar na vertical para baixo e logo pentear os poucos cabelos que têm memória de se despentear. As ondas eram perfeitas para a diversão, e agora são matreiras em pregar rasteiras ao descuido acidental.
Mas a verdade é que eu gosto do sol de março na minha praia, embora ainda seja janeiro.

Sanzalando

12 de janeiro de 2026

O arco e o pião

Na minha terra não tinha sol de agosto, que era para aí em janeiro ou fevereiro que ele ia alto, mas a gente tinha escola e por isso no cacimbo de agosto a gente se encontrava na avenida ou no parque infantil. Na mão direita, trazia o meu bem mais precioso: um pião de madeira comprado no Passa Fome, com a ponta de ferro ainda brilhante de tanto bater no chão e não ficar esquecido numa qualquer gaveta, que era o que acontecia quando a gente se fartava. Às vezes eu ia para lá, avenida ou parque infantil, conduzindo o meu arco, o que me fazia ir a correr, com uma perícia que deixava os mais velhos boquiabertos, e às vezes a mim também.

- Duvido que consigas pô-lo a girar na palma da mão! - tinha sempre um que desafiava, agarrando o aro que servia de arco e ia dar uma volta enquanto eu ficava a atirar o pião.

Raramente respondia, mas enrolava a guita com o cuidado de um cirurgião, mal sabendo o futuro que estava à minha espera. Com um movimento brusco e certeiro, lançava o pião. O som parecia música: um zumbido constante enquanto a madeira rodopiava furiosamente, parecendo estática de tão rápida. Com um jeito de mestre, passava a guita por baixo do pião e elevava-o. O pião saltava para a mão, continuava a girar, provocando a primeira vaga de gargalhadas e aplausos que faziam eco no meu ego. 

Depois de meia dúzia de vezes a fazer os meus números de pião, o pessoal fartava-se e íamos fazer corrida de arcos, quando ele caía ou esbarrava tinha que se parar e acorrida terminava ali, a daquele arco. Mas não era por questão de afinação do arco, era mesmo por falta de pulmão que eu desistia à segunda ou na terceira volta. Raramente perdia o controlo. Era lindo ouvir o barulho do metal e o respirar ofegante. O suor escorria que nem mulola, mas a alegria fazia esquecer o cacimbo daquele mês de agosto.

Às vezes, exaustos, deitávamo-nos na relva, riamos só porque sim, ou então porque estávamos vivos, ou porque alguém tinha caído num rasteira gramatical ou numa poça de infantilidade. 

Quando a cor do céu passava de azul a cor de laranja, a nos dizer que ia embora, era hora de voltar para casa, arco na mão, pião no bolso e alegria na alma. 

Depois, muitos agostos depois, veio a adolescência e se foi a inocência. Nasceu a paixão e se foi a alegria infantil das tardes passadas na avenida ou no parque infantil.

As gargalhadas, quando voltavam, eram mais suaves, mais contidas e quando caminhávamos para casa, sabendo que a felicidade ia intervalar durante a noite me lembrava que anos atrás, afinal essa felicidade, cabia toda no arco de um círculo e no bico de um pião.


Sanzalando

11 de janeiro de 2026

Na esplanada também há pastei de nata

Numa esplanada, na minha pequena cidade que não era mais pequena porque o mar trazia gente até ela, três pastéis de nata estavam na mesa, cada um o seu futuro mastigador, que, como quem não quer a coisa, os deixavam a arrefecer e filosofavam.

- Digo-vos já — começou o Um, olhando para o estaladiço e vaidoso pastel que até parecia o olhava - que nasci para ser conhecido, sem condimentos nem cunhas apesar de achar que a vida sem canela, pimenta ou gidungo, é vazia.

- Discordo — respondeu o Dois, mais babando-se no seu existencialismo. O verdadeiro sentido da vida é o equilíbrio entre a massa e o conteúdo. A canela, pimenta, sal ou gindungo são meros acessórios emocionais.

O  Três, que já tinha entretanto dado uma dentada indeciso, suspirou:
-Vocês falam porque ainda estão puros. Quando já se perdeu um bocado de nós, percebemos que o destino de todos é a solidão, o vazio, o insonso, a dieta pobre em quase tudo.

Entretanto, o empregado, que hoje não se chama Acácio, mas podia ser o Figueiras, aproximou-se com um café pingado.
- Então, meus senhores, estão prontos?

Os pastéis estaladiços crocantes aparentemente perderam a sua crocância e gelaram. Literalmente e metaforicamente.

- Eu ainda não fotografei o meu para o Instagram! — gritou o Um.
- Ninguém aprecia a minha complexidade interior, a utilidade de suprir o básico da existência! — lamentou-se o Dois.
- Ao menos que sejam rápidos — disse o Três enquanto devorava o seu. - Se este tivesse ao menos açúcar em pó, eu chamar-lhe-ia que nem um figo. Sempre quis saber como eram os pasteis da Metrópole..

O empregado, sem ouvir nada disto (como é hábito dos empregados), olhou-os e para a mesa ao lado. Um senhor de bigode sorriu, pediu uma nata e disse:
- Nada como um pastel de nata numa esplanada. A vida até parece melhor.

E parecia mesmo. Pelo menos durante duas dentadas e meia, enquanto o Um, o Dois e o Três se emudeceram por verem a rapidez como aquele estranho havia devorado o seu pastel, sem filosofias.



Sanzalando

10 de janeiro de 2026

pequeno almoço na esplanada

A esplanada estava cheia. De um lado, o Sr. João, de alcunha o Malcriado, um cliente de raiz que frequenta o local pelo menos desde que eu nasci, e acredita que o café deve custar 50 centavos para sempre. Do outro, o Acácio, um empregado novo que decidiu aplicar técnicas modernas de atendimento.

Acácio aproxima-se com um bloco de notas e um sorriso de quem leu todos os manuais de hospitalidade. 

- Boa tarde, senhor. Bem-vindo à nossa experiência sensorial. Posso oferecer-lhe a nossa carta de infusões botânicas ou prefere explorar a nossa seleção de grãos de origem única com notas de avelã tostada e solo vulcânico?

O Sr. João, de alcunha o Malcriado, olha para o rapaz como se ele estivesse a falar chinês. 

- Ó filho, deixa lá o vulcão em paz. Quero uma bica curta, bem escaldada a chávena, que até pode ser no vulcão, e uma torrada com muita manteiga a derreter que nem lava a escorrer. Mas muita mesmo, que eu não quero uma torrada, quero uma esponja amarela fumegante.

Acácio suspira, mantendo o profissionalismo:

- Com certeza. Informo apenas que a nossa torrada é feita de pão artesanal de fermentação lenta (48 horas), com manteiga biológica de vacas de pasto, finalizada com cristais de flor de sal.

- Quarenta e oito horas para fazer um pão? - pergunta o Sr. João, de alcunha o Malcriado, chocado. - O padeiro trabalha em câmara lenta ou está maneta? E guarda o sal para as batatas, eu quero é gordura e sem flores! Pensas que eu sou quê?

Dez minutos depois, Acácio está de volta. Traz o café numa chávena de design minimalista (sem asa) e a torrada... bem, a torrada era uma estrutura arquitetónica. Três fatias de pão escuro, empilhadas, com uns raminhos de alecrim por cima para decorar.

O Sr. João, de alcunha o Malcriado, olha para a mesa. Toca na chávena e queima os dedos, já que não havia asa. 

- Mas o que é isto? Onde é que se agarra esta geringonça? Agora fazem chávenas com a asa para dentro? É para beber ou para fazer um transplante de pele?

- É uma peça ergonómica, senhor - explica Acácio - Foi desenhada para que a mão sinta o calor da bebida em comunhão com o espírito.

- O meu espírito está a ficar com bolhas e está aqui está a rebentar! — grita o Sr. João, de alcunha o Malcriado. - E este mato em cima do pão? Eu pedi uma torrada, não pedi para o meu pequeno-almoço vir decorado com o jardim da rotunda nem com o matagal da virgem!

Nisto, passa uma pomba, a verdadeira dona das esplanadas. Com uma precisão de sniper, a pomba faz o que as pombas fazem, acertando precisamente no topo da arquitetura de pão artesanal de 48 horas de fabrico.

O silêncio instala-se. Acácio fica pálido. O Sr. João, de alcunha o Malcriado olha para a torrada, olha para a pomba e depois para o empregado.

— Olha, Sr.... ( os três pontos são para serem substituídos por todas as palavras do vernáculo português, inglês ou chinês - diz o sr. João, de alcunha o Malcriado, com os olhos a saltarem da cara. - Podes levar a conta para a... (continuam as palavras vernaculares conhecidas e outras que não cabem na imaginação).

- Mas senhor, eu posso trocar a torrada! Foi um acidente biológico! - disse Acácio que aprendera na escola que a paciência e a calma eram uma virtude.

- Não vale a pena — responde o Sr. João, de alcunha o Malcriado, levantando-se. A pomba foi a única que percebeu o que faltava aqui.

— O quê, senhor?

O molho. Pelos vistos, até os pássaros acham que este teu pão de 48 horas estava um bocado seco.


Sanzalando

9 de janeiro de 2026

O James Bond da Esplanada

A minha cidade não era movimentada, nem se pode dizer que ela mexia com os nossos nervos. Era assim mais uma teste de paciência e de solidão intervalada por um carro ou outro que passava. Mas tinha uma menina, que vou chamar de chamada Sofia, que tinha um talento especial para transformar os encontros mais comuns em situações hilariantes. Ela era divertida, bonitinha, um pouco desastrada e até desconcertada da cabeça.

A sua última aventura começou com um encontro ao acaso com um desconhecido chamado Leopoldo. Uma amiga de Sofia tinha-lhe dito que ele era culto, inteligente e e até dava para fazer um filme de James Bond. Sofia imaginou um homem alto, moreno e misterioso, talvez um pouco como um intelectual e chato, e por isso não ocupou espaço na sua memória.

Uns dias depois, na esquina da pastelaria habitual, ela com a sua saia rodada, gasta de tanto usar, olhou e viu, sentado na esplanada um jovem de óculos, com um pulóver de malha, corte fino e um livro de poesia na mão. Ele olhou e pensou que aquela figura não era definitivamente o tal que podia ser o James Bond, mas tinha uma cara diria simpática.

Sentou-se na mesa ao lado. Pediu o seu café e olhando para ele:

- Leo qualquer coisa? ela perguntou.

Ele se levantou-se, estendeu-lhe a mão perguntou:

- Poldo, Leopoldo. E tu?

E sentaram-se e aquele, ao acaso encontro, começou razoavelmente bem. Conversaram sobre livros, viagens e até sobre a paixão de Leopoldo por puzzles. 

O empregado trouxe o café de Sofia. Num momento de distração, enquanto gesticulava sobre sua aversão a já não sei o quê, Sofia derrubou acidentalmente o café, que voou por toda parte, cobrindo a mesa, o pulóver e partindo a chávena ao bater no chão .

- Ai, meu Deus! Desculpe-me, desculpe! - Sofia exclamou, pegando em guardanapos para tentar limpar a asneirada.

Leopoldo, em vez de ficar chateado, começou a rir. 

- Não te preocupes - disse - Pelo menos agora cheiro a café.

Sofia não conseguiu evitar rir também. 

- Se tivesse posto açúcar poderia dizer que pelo menos tinha adoçado o teu dia. - disse Sofia sorridente com um pequeno tremelique na voz.

Apesar do incidente cafeinado, o encontro continuou e tornou-se cada vez mais divertido. Eles descobriram que tinham um humor semelhante e, mesmo que Leopoldo não fosse o James Bond que ela tinha imaginado, ele era muito mais autêntico e engraçado.

Quando a noite chegou, Leopoldo acompanhou-a até a porta de casa. 

- Apesar da chuva de café, eu realmente passei uma tarde agradável - disse ele sorrindo.

- Eu também - disse Sofia - prometo que se houver uma próxima vez, eu tento não transformar-te nem te baptizar

Leopoldo riu. 

- Não te preocupes, eu gosto de ser vítima. Que tal um reencontro na próxima semana? Talvez num lugar onde não haja café nem açúcar para ser derramado.

Sofia sorriu. 

- Eu adoraria e acaso ditará - disse Sofia sorridente

E assim, Sofia, com sua propensão para o caos adorável, encontrou alguém que não apenas tolerava seus pequenos desastres, mas achava-os engraçados. E Leopoldo, o James Bond intelectual, com um amor por puzzles, descobriu que Sofia era uma adolescente com tudo mas menos chata que as que normalmente o rodeavam. 



Sanzalando

Programa 100


1º Programa do ano 2026
Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 07 de Janeiro de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.


Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje fizemos um programa especial, apesar de todos os K'arranca às Quartas o serem. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr 
Falei do autor Quero ser os teus Domingos, de José Eduardo Agualusa, uma colaboração com Anabela Quelhas
Esta Música tem uma história trouxe Cesária Évora e INGRATA, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje com José do Rock, o primeiro roqueiro português
POESIA -  A minha Terra é o mar - Canto da Sereia, Filipe Mukenga
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de Luanda e o seu 'des' aniversário
e e a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

6 de janeiro de 2026

pássaro azul

Na minha pequena cidade cheia de ruas de perpendiculares que visto do céu até parecia um quadriculado perfeito debruado em semicirculo pela baía e casas coloridas, eu adorava brincar. Mas de todos os seus brinquedos, o favorito era um carrinho de lata azul-claro, um pouco amassado e com rodas que rangiam um pouquinho, mas que era o carro mais veloz e bonito do mundo, eu não tenho dúvidas.

Um dia ensolarado, decidi que o meu carrinho, a quem carinhosamente chamava de Pássaro Azul, ia fazer uma grande aventura. 

"Preparar... apontar... já!" empurrei o carrinho que começou a descer a rua, lentamente no princípio e depois foi ganhando velocidade. Ziguezagueava entre os limites da estrada como se estivesse a contornar pedras, e eu com a boca fazia barulhos de motor: "Vruuumm! Vruuummm!"

De repente o pássaro azul encontrou um obstáculo: um buraco no alcatrão! "Oh não!", exclamei e mais não disse porque me esbardalhei ao comprido por entre rodas e latas mais amolgadas. 

Mas a aventura não terminou ali. A melhor parte de descer aquela montanha que era a minha rua, ter-me esbardalhado, foi agarrar os cacos e levar para casa para remontar. Pássaro azul tinha muitas vidas. Aquela não podia ser a sua última.


Sanzalando

4 de janeiro de 2026

O Incidente sem Corretor Facial

Tudo começou às 23:42 de uma terça-feira. Eu estava deitado na minha cama, olhando para o teto a imaginar como seria o formato das nuvens se elas fossem feitas de algodão-doce e tivessem o cheiro do shampoo de frutos vermelhos da Valentina.

Eu decidi que era hora. Eu ia me declarar via bilhete postal com selo e posto no posto dos correios para não se perder em intermediários. Escrevi:

"Valentina és o oxigénio do meu pulmão, o brilho da da minha alma. Sem ti, eu sou apenas um parágrafo sem ponto final, uma fotografia sem legenda, um pão sem queijo."

Reli. Achei pouco. Eu queria ser profundo. Eu queria ser como um poeta do século XIX preso no corpo de um garoto.

        "O teu sorriso brilha mais que um reclame luminoso tipo neon. Eu te gosto tanto que sinto que meu         peito vai explodir como uma cerveja quente"

No momento em que reuni coragem para apertar ir no posto dos correios, tocaram à campainha da porta. Tremi. Se fosse hoje eu ia usar o Whatsapp e o assunto estava enviado, mas naquele tempo tinha mesmo de ir no posto dos correios comprar o selo. Assim fui na porta, depois de esconder o postal e perguntei:

        - Quem és?

Era a Valentina que respondeu do lado de fora:

- Eu!

Entrei em colapso. Considerei seriamente saltar a janela, trocar de nome e ir viver isolado em uma caverna comendo apenas musgo. Mas, três segundos depois (os três segundos mais longos da história da humanidade), abri a porta.

- Queres ir dar uma volta de carro com os meus pais? - perguntou-me ela sorrindo

- Sim. acho que foi isso que eu quis dizer mas devo ter grunhido um som qualquer que ela logo rematou para golo
- Vem já, que eles estão à espera.

Eu só me dizia que aquele momento era uma metáfora, era mais que chuva a limpar a minha solidão. E enquanto me falava eu lhe sorria como se estivesse a lhe dizer o meu pensamento. 

- Estás estranho! Estás doente ou quê?

- Não. Tudo bem. Estava a pensar em ir estudar. Só isso.

- Hum! Tu? Vamos. - e segui em direcção ao carro boca de sapo castanho que estava um pouco abaixo da minha porta.

Segui-a. Sorria com vontade de chorar ou vice versa.

Fomos na Praia Azul. Eu estava feliz mas a minha cara não sei porquê estava triste. Tentei tudo para sorrir, mas as lágrimas queriam sair. 

Ela estava só a acelerar o meu ritmo cardíaco. Eu suava e não estava calor para isso.  O pai deve ter percebido qualquer coisa pois olhando-me pelo retrovisor me disse:

- Estás taciturno. Desabafa. - e gargalhou - não sejas avestruz.

A verdade mesmo é que o meu cérebro estava a tropeçar em cada pensamento e logo se estatelava num disparatado olhar que mais parecia um beijo.

Num ar mais descontraído passeamos lado a lado na Praia Azul, onde bebi uma coca-cola apesar de só me apetecer atirar para o colo dela, mas fazendo cara de paisagem, esqueci os atropelamentos mentais que me faziam quase explodir de coração aberto e passamos uma tarde agradável que ainda me recordo.

Hoje, tantos anos depois, não sei onde guardei o postal que nunca foi ao posto dos correios.



Sanzalando

3 de janeiro de 2026

a infância na praia

Viver a infância à beira-mar é um desporto radical disfarçado de férias em família. Eu cresci a ir à praia, e sempre soube que o mar não é apenas um corpo de água: é um adversário digno, um depósito de tesouros e, ocasionalmente, um ladrão de equilíbrios e mais qualquer coisa.

A experiência começava antes mesmo de tocar na água. Existia um ritual de passagem que era pôr o protector solar, que naquele tempo só se dizia pôr Nivea ou Piz Buin.. Havia quem punha coca-cola e outras mesclas feitas em casa para dar o tom mulato na pele. Para a minha mãe não passava em pôr protetor; ela rebocava uma parede que era a minha pele. Eu saía debaixo da sombrinha e parecia um boneco de neve que tinha acabado de cair numa batedeira de claras em castelo.

O problema é que o protetor solar de antigamente agia como um ímã de alta potência para a areia. Em cinco minutos, eu não era mais uma criança; eu era um croquete bem panado. Se eu caísse, eu não me machucava, mas se tropeçasse em alguém eu apenas lixava a pele adversária.

Naquele tempo, nesse tempo em que eu deixava ser besuntado qual margarina no pão, havia um propósito maior, era o dia em que ia fazer o maior castelo do mundo, com fosso e sistema de irrigação. Mas havia sempre uma qualquer coisa que impedia o pensamento de ser feito. O balde sempre partia ou a areia estava seca demais ou molhada demais ou os mais velhos jogavam à bola com tal violência que era impossível sobreviver de cócoras à beira mar sem ser atropelado. Ou então passava duas horas cavando um buraco fundo o suficiente para encontrar petróleo e lá vinha apenas uma onda média vir e transformá-lo em campa rasa em três segundos.

Entrar no mar era uma negociação constante. Ia caminhando, sentia a água subir até à canela, joelho... e então vinha o ponto de não retorno: quando a água batia naquela parte que o frio atrofiava e parecia que deixava de os ter. Era o momento de perguntar por todas as suas escolhas de vida futura sem saber qual seria ele.

E aí, nesse exacto momento, vinha a onda traiçoeira. Sabe aquela onda que parece pequena, mas tem a força de um tractor de obras incompletas? Ela te dava um chapadão. Eu girava no fundo do mar como se estivesse dentro de uma máquina de lavar roupa vertical ligada no modo centrifugação. Depois de rebolar sem saber como nem porquê, emergia com areia em lugares que a ciência ainda não explicou, o fato de banho puxado quase até ao pescoço e a dignidade deixada em alto mar.

Depois de vários destes acidentes não existe maior fome que a fome depois de mar. O problema é que comer na praia é um desafio logístico. A sandes de fiambre que a mãe tirava do saco era 90% pão, 5% fiambre transparente e os outros 5% eram crocância mineral. Sentia o creck-creck nos dentes a cada mordida, o sabor a areia colado no céu da boca. No fim, já nem ligava, a areia era apenas um tempero extra, uma fonte exótica de sais minerais para a dieta.

No fim do dia, a gente voltava para casa a pé, com a pele ardendo mesmo depois de ter estado barrado como se fosse um estucador estucado, o cabelo duro de sal e o cansaço de quem lutou uma guerra contra as marés. E a pergunta era sempre a mesma: podemos voltar amanhã?

Porque, apesar dos desaires e da areia no lanche, ser criança à beira-mar era a certeza de que o mundo era vasto, azul e cheirava a infância.

Sanzalando

2 de janeiro de 2026

A Passagem do Ano, ou os 10 Segundos Mais Optimistas do Ano

A passagem do ano é aquele momento mágico em que toda a gente acredita que a vida vai mudar radicalmente… em exactamente dez segundos. Contamos de trás para a frente com uma seriedade quase religiosa, como se o Universo estivesse mesmo à espera do nosso “três, dois, um” para carregar no botão do reset.

À meia-noite, há abraços a pessoas que vimos pela última vez em Agosto, beijos distribuídos com critério duvidoso e votos de “um óptimo ano” ditos com a convicção de quem não faz ideia do que está a dizer, mas espera sinceramente que resulte. O espumante sabe sempre melhor nessa noite, talvez porque vem misturado com esperança e um ligeiro risco de engasgamento durante as doze passas. E será que eu contei bem as passas ou passo pelo Algarve? Regressemos às passas.

As passas, aliás, são o verdadeiro teste de carácter. Há quem as coma todas em silêncio respeitoso, concentrado nos desejos profundos. Há quem se atrase na quarta e decida que o resto conta em pacote. E há sempre alguém que se esquece de desejar alguma coisa, mas come as passas na mesma, por via das dúvidas. Como diria o povo, não acredito em bruxas, mas que as há...

Lá fora, o fogo-de-artifício explode como se o céu estivesse a celebrar connosco, embora na verdade esteja apenas a assustar cães e a acordar bebés que não pediram para entrar no novo ano assim. Dentro de casa, alguém pergunta: “então, o que é que desejaste?” E respondemos vagamente: “saúde”, porque dá sempre jeito e não exige esforço imediato e não depende da vontade nem certificado de veracidade.

Quando tudo acalma, fica aquela sensação estranha de que afinal somos os mesmos, só que com um calendário novo. Mas está tudo bem. Porque a passagem do ano não serve para mudar a vida, serve para nos dar desculpa para tentar outra vez. E isso, convenhamos, já é motivo suficiente para festejar.



Sanzalando

1 de janeiro de 2026

Mensagem de Ano Novo

À meia-noite, troquei de roupa como quem muda de pele. Não fiz barulho, quem fez foram os copos a tilintar e as muitas promessas ditas a correrem, mais depressa do que a coragem de pensar nas que falharam o passado ano. O calendário virou a página e fingiu que isso bastou para nos endireitar a vida.

Há quem passe a passagem de ano a contar segundos; há quem conte ausências. As ruas cheiram a pólvora dos fogos artificiais que coloriram os céus por esses lados todos por onde me virei e a esperança, mistura perigosa que dura pouco. Os fogos riscam o céu como se fossem sublinhados luminosos: atenção, isto é importante. E é, por uns minutos. Depois, o silêncio volta a sentar-se ao nosso lado no sofá, como um amigo antigo que conhece os nossos defeitos.

O Ano Novo é uma festa civil: abraços que prometem continuidade, mensagens copiadas e coladas com carinho suficiente, dietas juradas entre duas rabanadas. Dizemos “este ano é que vai ser” com a convicção de quem já disse isso antes e sobreviveu. Talvez seja essa a graça: continuar apesar de tudo.

Na manhã seguinte, o mundo acordou com ressaca e pássaros. As ruas estão mais calmas, os planos mais tímidos. O futuro, esse, não se apresentou à hora marcada, ele tem a mania de chegar sempre atrasado. Mas há café quente, uma janela aberta, e a sensação discreta de recomeço que não precisa de foguetes.

O Ano Novo não é um milagre; é um intervalo. Um parágrafo em branco entre capítulos confusos. E talvez basta escrever a próxima frase com menos pressa, mais verdade e um pouco de gentileza. O resto, como sempre, o tempo trata de corrigir.



Sanzalando