Era uma vez, numa casa virada para o mar, um relógio antigo que fazia “tic-tac” como se estivesse a embalar as ondas. Cada tic era uma concha, cada tac era um passarinho a pousar no telhado da casa.
Nessa casa vivia a eu e a Dona Aurora, que todas as noites abria a janela para deixar entrar o cheiro a sal e a promessa de sonhos bons. Sentava-se numa cadeira de baloiço, velha e com chiar de cansaço e começava a contar histórias ao candeeiro, porque acreditava que a luz também precisava de ouvir para dormir.
- Dorme, luzinha, que amanhã há sol para ti - e apagava-a.
O candeeiro até me parecia se apagava devagar, como que a bocejar preguiçosamente. Lá fora, o vento passava devagarinho, pé ante pé, para não acordar ninguém e não sacudir as cortinas não me fosse assustar com fantasmas ou desavindos corpos invisíveis.
E assim, entre o tic-tac do relógio, o baloiço da cadeira e a ladainha com que rezava D. Aurora, a casa inteira adormecia como um barco bem ancorado: a flutuar suavemente, segura, embalada por histórias que não acabam - só continuam nos sonhos de quem sonha.
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