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1 de fevereiro de 2026

deve ter sido grito de bruxa

Eu tinha um cronômetro no coração que ainda era de corda e que tinha sido do meu pai. Para mim tudo com a filha do senhor Júlio era ontem, mesmo que o cronómetro me dissesse que era agora. Tantas vezes tinha planeado a ida ao cinema, decorado aquele poema romântico escrito a olhar para a varanda dela, as calças à boca de sino engomadas pela avó. Ela era o meu porto seguro, ela era a amiga para a vida em conjunto, deste aquele ontem até um futuro imprevisível. Mas nunca o plano era executado, nunca o poema foi dito, nunca as calças foram por ela elogiadas, apesar de vários filmes vistos.

Certa tarde, no lancil do passeio onde brincavamos ao fim de todas as tardes, decidi que o silêncio estava barulhento demais. 

- Não faz sentido a gente não ser a gente de verdade, nos gostamos mas nunca nos falamos de nós - disse aquilo como poia ter dito que os camiões voavam, suava, tremia e sentia um medo de me ouvir que não tem como explicar como é que aquelas palavras saíram.

Ela fechou os olhos. Na sua voz calma, serena que eu ouvi como estivesse a levar com uma bola de canhão no peito me disse:

- És é a melhor parte do meu dia. Mas eu não quero namorar. Nem contigo nem com ninguém. Seremos amigos sempre se não me falares mais sobre isto. 

O mundo acabou naquele instante depois de uma pancada enorme no orgulho, na estima e na coragem. Naquele instante aprendi que o sentimento sentido por cada um não tem a mesma intensidade nas pessoas à volta.

Balbuciei qualquer coisa que nem eu sei o quê enquanto tentava pensar.

Tinha duas escolhas: ficar implorando e transformar aquela amizade num campo de batalha ou aceitar que o não dela era sobre o momento dela, e não sobre o meu valor.

Escolhi respirar. Arquivei todos os planos mentais e decidi que, se não podia ser o namorado, ainda queria ser quem a fazia rir. Só que, sem esperar nada em troca. 

Um dia, muitos anos depois, lhe falei novamente do assunto arquivado num lancil de passeio. Estava na Universidade, barba por fazer, cabelo despenteado, ar martelado num revolucionário modo de querer ver o mundo.

Me olhou, já não serena, já sem a calma de tantos anos atrás.

- Desaparece! gritou

E até hoje eu ainda não apareci. Deve ter sido grito de bruxa.

Sanzalando

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