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Conversas à Mesa

PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio

25 de fevereiro de 2026

uma estória quase verídica

Entrei no gabinete de urgência como quem entra num palco. Fato que parece pijama azul escuro, impecável, máscara descaída para o pescoço numa preguiça de tirar, olhar treinado para distinguir uma apendicite de uma indisposição causada por excesso de bacalhau à Brás.

Parei aos pés da marquesa, fiquei a olhar para o doente como quem olha para uma obra de arte. Em silêncio e olhar profundo.

O doente, deitado, ficou a olhar para mim como quem espera uma sentença.

Durante uns segundos, ninguém disse nada. Era um duelo silencioso: bisturi contra pânico, autoridade contra bata que estava substituída por pijama, porque é mais higiénico, cómodo e prático.

- Então, doutor? - perguntou o doente, desconfiado. - É grave?

Inclinei ligeiramente a cabeça, como se estivesse a contemplar uma obra de arte contemporânea chamada Homem Deitado nº 3.

- Hummm. 

O “hummm” de um cirurgião devia vir com legenda. Pode significar “não é nada”, “vamos já abrir”, ou “onde é que eu deixei os óculos?”.

O doente engoliu em seco.

- Doutor… esse “hummm” é de quê?

- Ainda não lhe toquei, andei não vi uma única análise. Quer que seja adivinho?

Aproximei-me mais, olhar pensativo, mãos na barriga do doente e comecei a fazer perguntas. Desde sérias até as de futebol-

- Diga-me uma coisa - perguntei - Quando carrego aqui, dói?

E carreguei.

- AI! - gritou o doente.

Abanei com a cabeça, satisfeito e disse:

- Excelente.

- Excelente?! - indignou-se o paciente. - Eu estou a gritar!

- Precisamente. Se não gritasse é que eu ficava preocupado. A medicina aprecia reações. O silêncio é que é suspeito. O silêncio é coisa de estátuas. - disse na mais serena tranquilidade.

O doente ficou a olhar para mim, dividido entre o alívio e a vontade de pedir transferência.

Começou a andar de um lado para o outro, mãos atrás das costas e a fazer perguntas. Continuadamente sérias alternando com coisas banais. Até que parei, ao lado dele e olhando-o nos olhos disse

- A questão é filosófica.

- Eu preferia que fosse clínica, por isso vim ao hospital…

- Toda a boa cirurgia começa na filosofia - continuei, ignorando o olhar furioso do doente. - A pergunta não é “o que tem?”, mas “porque é que insiste em ter?”.

- Eu não insisto em nada! Eu tenho!

- Tudo aparece. A idade aparece. As rugas aparecem. As contas aparecem. O apêndice inflama-se e chamam-me.

Ao mesmo tempo sentei-me ao lado da marquesa onde estava o doente.

- Diga-me: numa escala de zero a dez, quanto dói?

- Oito.

- Oito honesto ou oito dramático?

- Oito! - já num tom mais irritado que indeciso

Suspirei e disse:

- Gosto de pacientes decididos. O problema dos sete é que são indecisos. Nem sofrem plenamente nem melhoram com convicção. - Filosofei

Fui ao computador decido e escrevi. Consegui perceber que o doente estava curioso com o que escrevia. Mas mantive o meu silêncio enquanto os dois indicadores batiam no teclado.

- O que está a escrever? - irritada voz que saiu daquela boca

- Paciente com forte vocação para queixar-se. - disse sem tirar os olhos do ecran

- Isso não é diagnóstico que se dê a um doente!

- Claro que é. A queixa é o princípio da ciência.

Levantei-me, compôs o pijama e olhei o doente de alto a baixo mais uma vez.

- Fique descansado. Vamos fazer exames.

- E se for preciso opera?

Sorri com aquela tranquilidade inquietante de quem tem um bisturi como extensão da personalidade.

- Meu caro, eu sou cirurgião. Se não operar hoje, opero amanhã. A diferença entre nós é que o senhor teme a cirurgia e eu temo um dia sem ela.

Dei dois passos em direção à porta, depois voltei atrás e, com ar conspiratório, disse:

- Mas não se preocupe. Só corto o estritamente necessário. Às vezes até menos.

Saiu do gabinete.

Acho que o doente ficou a olhar para o teto, profundamente pensativo. Nunca tinha pensado que o maior sintoma da sua doença fosse estar nas mãos de alguém tão entusiasmado com lâminas.

E suspirou:

- Se eu soubesse, tinha ficado só com o bacalhau e não tinha comido o prato de carne.



Sanzalando

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