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PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio

31 de agosto de 2026

Fui ver o zulmarinho

Sempre tive um objectivo de vida muito claro, embora todos a chamassem de vadiagem profissional. O plano consiste em sentar-me numa falésia, exatamente às quatro da tarde, e olhar para o zulmarinho. Não um olhar apressado de turista, mas uma contemplação profunda, quase científica. Analisava a crista das ondas com a seriedade de um engenheiro aero-especial, prestes a lançar um foguetão de ideias e fantasias.
Às vezes, o oceano exibe um tom azul-turquesa digno de cartão-postal, ajeito os meus óculos na ponta do nariz, cruzo as pernas e suspiro, pronto para entrar em num transe filosófico interior. Uma vez ou outra sou interrompido por um turista, carregado com três boias de flamingo, duas cadeiras de praia, um guarda-sol e um cobertor que aparenta pesar metade do seu peso e parou mesmo à minha frente. O homem bloqueou-me totalmente a linha de visão.
Resmunguei num entre-dentes, mas o homem estava demasiado ocupado a tentar espetar o guarda-sol no chão duro da falésia. Vendo que a força bruta não funcionava na rocha portuguesa, o turista virou-se para o veterano da falésia, eu mesmo, e perguntou-me se a maré ia subir muito nas próximas duas horas.
Olhei para o homem, depois para o mar escondido atrás bóia plástica do flamingo gigante, e respondi que dependia muito do humor da lua, mas que o verdadeiro perigo eram os ataques iminentes de caranguejos acrobatas que costumam assaltar turistas naquela zona específica da falésia. O turista arregalou os olhos, agarrou o flamingo pelo pescoço e arrastou toda a sua tralha dez metros para o lado, deixando livre a paisagem.
Novamente a sós com a imensidão atlântica, voltei a focar o horizonte. Eu gosto do mar porque a água não pede satisfações, não reclama do preço do quilo do carapau e, acima de tudo, muda de assunto a cada onda que quebra contra a falésia. Um jovem windsurfista passou a deslizar sobre a água, afastando umas tantas gaivotas que repousavam com água pela cintura. Sorri e murmurei para mimmesmo que a comédia marítima era muito superior a qualquer programa de televisão.
O transe foi quebrado de forma definitiva quando o telemóvel no meu bolso começou a vibrar intensamente. Era a dona de mim, exigindo saber se eu já tinha descoberto o sentido da vida e se podia passar na padaria para comprar quatro carcaças para o lanche antes que o sol se pusesse. Levantei-me a contra-gosto, sacudi a areia imaginária das pernas e dei um último aceno cúmplice ao oceano, prometendo regressar no dia seguinte para mais uma sessão gratuita de terapia salgada.


Sanzalando

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