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PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio

3 de agosto de 2026

mergulhando na ponte velha

A manhã devia estar a bater nos trinta graus, como se eu alguma vez estivesse preocupado com a temperatura, excepto nos dias de paludismo, e, na ponte velha que já teve um guindaste no canto direito, a brisa soprava com aquele cheiro característico a sal marinho e maresia. Estava zulmarinho dentro, entenda-se. Na ponte velha, o espetáculo habitual do verão de março já estava em pleno andamento: um grupo de quatro ou cinco rapazes, na casa dos dezassete anos, ensaiava o grande salto. As futuras namoradas, desde a areia da praia lhes olham, embevecidas ou amedrontadas, que não sou especialista em ver caras das namoradas dos outros.

Ver adolescentes mais velhos a mergulharem da ponte é, em si mesmo, uma comédia em três actos, sobre a bravura humana, a força da gravidade, sobre o estilo e o estatelado. Saíram quatro actos.

Nenhum salto de ponte acontece sem, pelo menos, vinte minutos de rigoroso protocolo de bastidores. Não é que eu tenha relógio para marcar, mas a sensação de quem lhes está a ver é mais ou menos essa: ajuste Infinito - Calções de banho subidos até à cintura, depois puxados para baixo, depois ajustados novamente só para garantir que a física não pregava nenhuma partida no impacto; inspeção marítima -olha-se para a água com o ar compenetrado de quem está a calcular a rotação da Terra e a densidade salina, quando na verdade só se está a ganhar tempo; desafio da plateia - de vez em quando, um olhava de relance para trás e para a longa praia para ver se havia alguém a assistir. Afinal, a coragem só conta se tiver público. Sem público não há salto. 

O líder do grupo, facilmente identificável por ser o que falava mais alto para disfarçar o tremor nos joelhos chegou-se à borda, abriu os braços como uma águia e gritou:

- É aos três! Um... dois...

No "dois", passou uma vedeta ao longe, acho que é a única que a cidade tinha.

- Calma, calma, vem ali navio! - justificou-se imediatamente, recuando dois passos com ar técnico.

A malta no cais, que já assobiava a assistir ao aparato, começou a rir. Os amigos, claro, não perdoaram. O segundo da fila, querendo mostrar que era feito de outro ferro, avançou. Posicionou-se, olhou para baixo, olhou para o horizonte, fez o sinal da cruz duas vezes e soltou o clássico: "Grava aí na memória!"

À terceira tentativa e após mais cinco minutos de contagens que paravam sempre no dois, o entusiasmo da bancada improvisada já era geral.

De repente, sem aviso e provavelmente porque escorregou ligeiramente numa tábua velha e mal presa, o primeiro lá se lançou num verdadeiro estatelado.

Não foi um mergulho olímpico, foi mais uma tentativa desesperada de pedalar no ar enquanto o corpo lutava contra as leis da física. A entrada na água foi um misto de bomba com chapa de lado, levantando uma cortina de água digna do que veria mais tarde num parque aquático.

Segundos depois, a cabeça emersa na água, o cabelo colado aos olhos e o grito de vitória:

- Viram esta técnica?! Entrei limpinho! - pela voz parecia-me o Rui Moutinho, mas de facto não tenho a certeza, o estilo dele era mais palavroso do que efectivamente acto.

Os amigos, contagiados pela adrenalina (e pela vergonha de ficarem em terra), saltaram logo a seguir num caos absoluto de braços, pernas e gargalhadas que ecoaram na praia toda o que levou o vigia a deslocar-se e proibir mais saltos.

No final, restou a imagem clássica do verão: o grupo a nadar satisfeito para a margem, a massagear as costas encarnadas pelo impacto e a jurar que o próximo salto seria "de cabeça". Mas só no dia seguinte, claro.



Sanzalando

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