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PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio

5 de agosto de 2026

uma aventura no parque infantil

O Parque Infantil, que era, acho eu, do município, tinha tudo o que um miúdo de treze anos podia desejar: balouços que pareciam tocar nas nuvens quando me punha em pé a dar balanço, um escorrega grande que até dava vertigem quando me punha em pé lá no alto e que garantia eletricidade estática para o resto do dia e aquele cavalo de balançar que rangia como uma porta antiga, mas que na minha cabeça era um puro-sangue de corrida.

Tinha também uma pequena particularidade: uma vedação de rede que separava o parque infantil do jardim zoológico. E por separava, eu queria dizer sugerir delicadamente que não se passasse para o outro lado. Para além de duas jaulas em betão onde estava a macaca e dois macacos mais pequenos que eram traquinas e nos roubavam coisas quando a gente lhes estiva com o braço

Numa tarde de sábado, decidi bater o recorde mundial de velocidade no escorrega. Besuntei o calção de caquí com cera de uma vela de aniversário que tinha no bolso e lancei-me lá do alto. A física fez o resto. Desci tão rápido que falhei a caixa de areia por completo, porque o raio do escorrega tinha uma marreca no terço final e eu fi-lo todinho no ar em voo que me fez atravessar o canteiro de areia e fui aterrar diretamente do outro lado na areia vermelha dura que nem uma pedra. Do outro lado da rede eu acho que vi duas zebras que mastigavam capim com uma calma invejável a rirem que nem perdidas.

Olhei em frente para o cavalo que estava quieto. Era de madeira e parecia tinha maneiras .Olhei para a direita e lá estava a zebra verdadeira, em alta definição, a olhar para mim com ar de quem pergunta quem é este tipo desajeitado?

Antes que eu pudesse processar o salto quântico que tinha acabado de dar, os macacos lá atrás, no topo da sua grade pareciam aplaudir. Aparentemente, a minha queda de rabo no chão tinha sido a melhor atração da tarde. Um deles, claramente o líder do bando, saltou para a barra superior do baloiço do lado do parque sim, eles tinham um túnel secreto para a imaginação, tirou-me o boné da cabeça com a agilidade de um carteirista profissional e subiu para a armação metálica. Afinal não, o meu salto fez apenas que o boné tivesse voado mais que eu.

O cenário era-me o caos absoluto. Eu a tentar recuperar o boné negociando com o olhar com medo de me mexer; a minha mãe aos gritos perto do escorrega a pensar que eu tinha sido estratificado no voo; e duas zebras a passear calmamente ao lado do cavalo de balanço, a avaliar se era uma ameaça ao seu território.

No final, o guarda do parque teve de intervir, ele também fazia de endireita e eu assim com ventosas e uma boa massagem fui devolvido ao meu lado humano do parque, sacudindo a terra vermelha que se tinha colado à cera do rabo. 

Desde esse dia, aprendi duas coisas fundamentais: cera de vela num escorrega transforma qualquer criança num projétil, e as zebras não acham piada nenhuma a cavalos de madeira.




Sanzalando

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