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29 de outubro de 2026

Os meus 70 anos… em publicidade enganosa!

Há idades que se fazem em silêncio, com um bolinho, umas velas e meia dúzia de familiares a perguntar se ainda temos espaço para mais uma fatia. E depois há os 70 anos. Setenta! Uma idade respeitável, que já não se comemora propriamente - inaugura-se, de preferência com cobertura radiofónica e testemunhas abonatórias. Foi isso que eu tentei fazer. Inaugurar uma parte nova de mim. Mas...

Eu, que sempre tive uma relação cordial com os aniversários, embora não veja grande mérito pessoal em sobreviver ao calendário, julgava que o meu septuagésimo passaria sem grandes sobressaltos. Afinal, já tinha feito tanta coisa na vida que chegar aos 70 parecia apenas que ia fazer mais uma operação de rotina. Sem anestesista, sem bisturi e, sobretudo, sem necessidade de chamar a família inteira, coisa simples só para manter a mão.

Mas não contava com a Cristina Vidigal.

A Cristina, pelos vistos, achou que eu merecia uma celebração a outra altura da circunstância. E resolveu preparar-me uma surpresa no meu programa de rádio. 10 anos depois da 1ª super grande. Só que, conhecendo-me talvez melhor do que eu próprio, percebeu que, se me dissesse ao que vinha, eu ainda arranjaria maneira de fugir, alegando traumas, enredos e outros nãos, uma reunião urgente ou uma súbita necessidade de mudar os microfones.

Vai daí, montou uma operação de inteligência emocional com requintes de produção radiofónica.

Camuflou a surpresa como publicidade, com a Isabel Costa e o José Nunes!

Ora eu, homem do bisturi e da rádio, fui apanhado por um truque publicitário. Logo eu, que já ouvi de tudo, desde anúncios a detergentes que lavam mais branco até promessas políticas que lavam praticamente a história toda! Um flash e eu apagava. Outro e idem. Desculpe lá que a publicidade tem que passar, disse a directora, a boss. E lá entrou o anúncio.

Lá estava eu, convencido de que vinha aí mais um intervalo comercial, desses em que uma voz nos recomenda um produto de que não precisamos, mas que, depois de tanta insistência, quase sentimos obrigação de comprar. E, de repente, em vez de um detergente, apareceu a vida.

Começaram a chegar vozes. Amigos. Família. Gente querida que, sem eu saber, tinha sido recrutada para aquela conspiração sentimental. Cada um trazia os seus parabéns, uma palavra amiga, uma recordação, uma manifestação de carinho.

E eu, que julgava estar a trabalhar, dei comigo a ser o protagonista de uma emissão que não tinha preparado, não tinha ensaiado e, pior ainda, para a qual não tinha sequer estudado o alinhamento.

Na rádio, quando alguma coisa corre mal, temos sempre um recurso: baixamos o som, mudamos de faixa, metemos uma música e fingimos que estava tudo previsto. Mas como é que se baixa o som à emoção? Como é que se muda de faixa quando a faixa é feita de pessoas que gostam de nós? E como é que um homem, aos 70 anos, mantém a compostura quando descobre que há amigos e familiares dispostos a entrar no seu programa só para lhe dizer que gostam dele? Não há mesa de mistura que resolva isto. Nem botão de mute que valha!

A Cristina Vidigal conseguiu uma coisa extraordinária: transformou um intervalo publicitário num intervalo de vida. E, convenhamos, é difícil encontrar publicidade com melhor conteúdo. Não havia desconto de 20%, oferta de portes grátis ou a famosa promoção de leve três e pague dois. Havia carinho. E esse, infelizmente para os departamentos comerciais, ainda não se vende ao quilo.

Fiquei surpreendido, comovido e, devo confessar, um bocadinho desconfiado. Afinal, aos 70 anos, já sabemos que as surpresas tanto podem ser boas como trazer uma conta para pagar. Mas esta não trazia factura. Trazia afecto. E foi aí que percebi que fazer 70 anos tem algumas vantagens. A primeira é que já podemos esquecer certas coisas sem que ninguém nos leve muito a mal. A segunda é que podemos repetir histórias, porque há sempre alguém que não se lembra delas, ou que finge não se lembrar para nos poupar. E a terceira, talvez a mais importante, é descobrir que, ao longo da vida, fomos deixando pessoas pelo caminho que continuam connosco. Algumas estão perto. Outras estão longe. Algumas aparecem todos os dias. Outras surgem inesperadamente, através de uma mensagem, de uma chamada ou de uma voz que entra na rádio disfarçada de publicidade. E há quem, como a Cristina, tenha a delicadeza e a imaginação de juntar tudo isso numa surpresa que nos apanha desprevenidos.

Por isso, Cristina, muito obrigado.

Conseguiste enganar um homem que passou uma vida a trabalhar no arame e sem rede, com sangue e também com som, a desconfiar de ruídos estranhos e a tentar perceber o que se passa do outro lado do microfone, dos cabos não blindados, das equalizações, do outro lado da quase sem vida. Aos 70 anos, descobri que o verdadeiro ruído de fundo da vida é feito das vozes de quem gosta de nós. E isso, minha amiga, é uma produção de luxo!

Quanto aos meus 70 anos, continuo a achar que são um exagero. Setenta é muita coisa para uma pessoa só. Se me tivessem avisado quando fiz 20, teria pedido para dividir em prestações, com juros baixos e possibilidade de reforma antecipada. Mas já que cá cheguei, cá estou. Com histórias para contar, microfones para ligar, algumas teimosias ainda em funcionamento e a firme convicção de que a idade é apenas um número, embora no meu caso, seja um número que começa a ocupar bastante espaço no bolo.

E termino com uma recomendação aos meus leitores e ouvintes: desconfiem sempre da publicidade. Nunca se sabe se, por trás de um anúncio aparentemente inocente, está um amigo, uma família inteira e uma Cristina Vidigal prontinha a fazer-nos chorar em directo. Aos 70 anos, descobri que a melhor publicidade é aquela que não vende nada: lembra-nos apenas que somos ricos em pessoas. E, se me permitem, essa é a única campanha em que quero continuar inscrito. Mesmo que já não tenha idade para receber amostras grátis. Mesmo que já não tenha idade para receber amostras grátis.

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70 anos de riqueza.
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Sanzalando

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