À minha frente, surge um homem com um olhar sábio e um bigode que impõe respeito. É o Pepetela. Me levantei e respeitosamente lhe dirigi a minha timida voz:
- Mestre, vim para aprender. Quero ser culto, quero entender o mundo!"
Ele me olhou, baloiçou o bigode e atirou:
- Ótimo. Toma lá esta mochila, uma G3 que estava descarregada por causa das coisas e agora vamos caminhar 40 quilómetros pela lama para discutir a ética do socialismo e a identidade nacional.
- Mas... não dá para fazer um resumo por WhatsApp ou IA?
Não, eu não estava a delirar nem em crise de paludismo. Estava só a entrar no mundo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos.
Ele não te dá uma aula com slides. Ele atira-te para dentro dos livros dele como quem atira um telemóvel para uma piscina para ver se ele flutua:
Comecei com Mayombe onde ele me apresentou o Sem Medo. Uau, que personagem incrível, lindo de nome mas pensador de constância: ter dúvidas é o mais inteligente que posso ser.
Depois acho agarrei a Geração da Utopia onde eu quis queimar o mundo, me empolguei e agora mais velho vejo que os ideais são bonitos mas a prática dá muito trabalho e às vezes não corre bem.
Depois ri com Jaime Bunda, eu estava na minha crise existencial e aquele mataco grande me mostra a corrupção e o esquema o que me fez rir da confusão do mundo.
Depois de ler tudo, voltei ao meu quarto. Olhei no espelho e já não sou um adolescente a fazer scroll. Agora tenho um olhar de Pepetela: um olho focado na justiça e o outro a ver a ironia de tudo o que te rodeia.
Saí da aula sem um diploma de papel, nem certidão de cumpridos deveres, mas com algo muito mais perigoso que foi a capacidade de pensar por mim próprio. E, possivelmente, uma vontade súbita de usar palavras como "utopia" e "burocracia" só para ver a cara de confusão dos meus amigos.
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