recomeça o futuro sem esquecer o passado

10 de março de 2026

Eu li Pepetela e aprendi

Adolescente queria saber tudo. Quem falou de quê, porquê e da terra. Comecei com Luandino e depois agarrei outro e de repente, o quarto desaparece. Já não estou sentado numa cadeira bem cómoda mas sim estou no meio da floresta do Mayombe. O Wi-Fi desapareceu literalmente, porque nem sequer ainda foi inventado, e em vez de notificações do Instagram, ouço o som de ramos das árvores a dançar sob a música do vento.

À minha frente, surge um homem com um olhar sábio e um bigode que impõe respeito. É o Pepetela. Me levantei e respeitosamente lhe dirigi a minha timida voz:

- Mestre, vim para aprender. Quero ser culto, quero entender o mundo!" 

Ele me olhou, baloiçou o bigode e atirou:

- Ótimo. Toma lá esta mochila, uma G3  que estava descarregada por causa das coisas e agora vamos caminhar 40 quilómetros pela lama para discutir a ética do socialismo e a identidade nacional.

- Mas... não dá para fazer um resumo por WhatsApp ou IA?

Não, eu não estava a delirar nem em crise de paludismo. Estava só a entrar no mundo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos.

Ele não te dá uma aula com slides. Ele atira-te para dentro dos livros dele como quem atira um telemóvel para uma piscina para ver se ele flutua:

Comecei com Mayombe onde ele me apresentou o Sem Medo. Uau, que personagem incrível, lindo de nome mas pensador de constância: ter dúvidas é o mais inteligente que posso ser.

Depois acho agarrei a Geração da Utopia onde eu quis queimar o mundo, me empolguei e agora mais velho vejo que os ideais são bonitos mas a prática dá muito trabalho e às vezes não corre bem.

Depois ri com Jaime Bunda, eu estava na minha crise existencial e aquele mataco grande me mostra a corrupção e o esquema o que me fez rir da confusão do mundo.

Depois de ler tudo, voltei ao meu quarto. Olhei no espelho e já não sou um adolescente a fazer scroll. Agora tenho um olhar de Pepetela: um olho focado na justiça e o outro a ver a ironia de tudo o que te rodeia.

Saí da aula sem um diploma de papel, nem certidão de cumpridos deveres, mas com algo muito mais perigoso que foi a capacidade de pensar por mim próprio. E, possivelmente, uma vontade súbita de usar palavras como "utopia" e "burocracia" só para ver a cara de confusão dos meus amigos.



Sanzalando

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