Nasci sem manual de instruções, como toda a gente, acho eu, mas com uma particularidade: desde cedo ficou claro que eu tinha um talento raro… para fazer asneiras.
Cresci numa casa onde a paciência dos adultos era posta à prova como se fosse um concurso dos jornais que chegavam á província. E eu concorria para ganhar e nunca soube se alguém ganhava. Havia miúdos que aprendiam a andar de bicicleta, eu, pessoa rara, aprendi a cair de bicicleta com estilo. Havia quem desmontasse relógios para perceber como funcionavam, eu desmontava e depois ficava com peças suficientes para montar… outro problema que nunca conseguia justificar.
Na escola, a minha relação com o saber era cordial, mas distante. Eu olhava para a matéria, a matéria olhava para mim, e nenhum de nós dava o primeiro passo. Já os disparates… esses vinham ter comigo sem convite nem qualquer tipo de preparação. Uma vez levei um grilo para uma aula, tipo estudo científico para estudo científico. O grilo saiu mais instruído do que eu e a professora nunca mais confiou na minha vocação académica.
Na adolescência, refinei o meu talento. Já não eram só asneiras pequenas, eram asneiras ambiciosas. Uma vez tentei impressionar num baile. Treinei passos de dança em casa, sozinho, com uma vassoura como parceira , foi a única que alinhou sem se queixar. Chegado ao baile entrei em pista cheio de confiança… e saí de lá com a dignidade em coma. Descobri que o problema não era a vassoura: era mesmo eu.
Mas há uma coisa curiosa nas asneiras que fiz: ensinaram-me. Às vezes devagar, às vezes com nódoas negras, mas ensinaram. Cada disparate vinha com uma lição escondida, normalmente bem escondida, que eu também não ajudava muito a encontrá-la e quando isso acontecia tentava assobiar para o lado.
Com o tempo, comecei a perceber que a vida não é um concurso de perfeição. É mais um campeonato de resistência ao ridículo. E nisso, modéstia à parte, eu já tinha anos de treino.
Fui tropeçando, levantando-me, voltando a tropeçar num estilo para não perder o hábito, até que um dia dei por mim… a acertar. Não sempre que isso poderia parecer suspeito, mas o suficiente para dizer que afinal, isto vai. E não é que foi?!
Hoje, quando olho para trás, vejo um percurso cheio de asneiras. Algumas memoráveis, outras que ainda me fazem corar quando me lembro sobretudo nas madrugadas de insónia, que é quando o cérebro decide fazer reposições como nos cinemas de antigamente. Mas também vejo uma coisa importante: sobrevivi a todas elas e com diploma a atestar.
E mais, aprendi a rir-me delas.
Porque, no fundo, vencer não foi deixar de fazer asneiras. Foi começar a usá-las como degraus, ainda que, de vez em quando, eu suba dois e desça três, só para manter a coerência.
E cá continuo: nasci, cresci, fiz asneiras… e, entre tropeções e gargalhadas, vou vencendo. Nem que seja por pontos, nem que seja com palavras soltas e estórias de inventar, mas no concurso do Província ou do Diário eu agora ia ganhar... tempo de recordar
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