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Conversas à Mesa

PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio

1 de maio de 2026

dia do trabalhador

Numa daquelas tardes em que o sol parece preguiçoso demais para se pôr e o relógio da parede insistia em bocejar a cada segundo, João Carlos Carranca encara uma folha de papel em branco. A folha desafia-o. Estava imaculada, estéril, irritantemente vazia. E Carranca, conhecido pelo seu feitio que fazia jus ao apelido sempre que a inspiração teimava em desertar, decidiu que aquele era o dia perfeito para escrever sobre coisa nenhuma.
- Bora - resmungou para os seus botões, ajeitando os óculos na ponta do nariz e brandindo os dedos sobre o teclado como se estivesse a bater um bife da testa, a ver se o amacia. 
Começou por descrever o silêncio. Mas o silêncio era demasiado barulhento; ouvia-se o zumbido de uma mosca tonta que tentava atravessar o vidro da janela fechada e o som metálico do frigorífico a fingir que trabalhava em dia feriado. Decidiu então focar-se no próprio nada.
O nada, pensou Carranca enquanto mordiscava uma banana, é uma coisa fascinante. É o espaço que fica entre o pensamento que acabámos de ter e aquele que nunca chegaremos a pensar. É o recheio de um pastel vazio, a cor de um camaleão num quarto escuro, ou a utilidade daquele pequeno bolso que as calças de ganga trazem e onde nunca cabe nada a não ser uma unha encravada.
Escreveu duas linhas sobre a poeira que dançava num raio de sol. Uma coreografia caótica de pequenos nadas suspensos no ar, sem destino, sem pressa e, acima de tudo, sem qualquer tipo de mensagem profunda para a humanidade.
Escrever sobre coisa nenhuma é uma arte incompreendida, rabiscou ele, com um sorriso de canto de boca que quase lhe desmanchava a cara séria. Exige um esforço hercúleo para não deixar escapar nenhuma ideia com pés e cabeça. Se uma ideia útil se atreve a aparecer, temos de a escorraçar imediatamente com o delete.
De repente, o computador falhou. Carranca agitou-se com energia, mas o pc recusava-se a cooperar. Olhou para o botão de power. Era o pináculo da sua obra: um ecran apagado, escuro e perfeitamente representativo de coisa nenhuma.
Rindo-se sozinho daquela ironia abstrata, João Carlos Carranca recostou-se na cadeira e deu o dia por terminado. Tinha finalmente conseguido produzir uma obra-prima sobre o vazio absoluto. E o melhor de tudo? Não havia ninguém que pudesse criticar o conteúdo, pela simples e maravilhosa razão de que ele não existia.
Era feriado. Curiosamente era o dia do trabalhador.


Sanzalando

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