30 de janeiro de 2026

uma casa para embalar

Era uma vez, numa casa virada para o mar, um relógio antigo que fazia “tic-tac” como se estivesse a embalar as ondas. Cada tic era uma concha, cada tac era um passarinho a pousar no telhado da casa.

Nessa casa vivia a eu e a Dona Aurora, que todas as noites abria a janela para deixar entrar o cheiro a sal e a promessa de sonhos bons. Sentava-se numa cadeira de baloiço, velha e com chiar de cansaço e começava a contar histórias ao candeeiro, porque acreditava que a luz também precisava de ouvir para dormir.

- Dorme, luzinha, que amanhã há sol para ti - e apagava-a.

O candeeiro até me parecia se apagava devagar, como que a bocejar preguiçosamente. Lá fora, o vento passava devagarinho, pé ante pé, para não acordar ninguém e não sacudir as cortinas não me fosse assustar com fantasmas ou desavindos corpos invisíveis.

E assim, entre o tic-tac do relógio, o baloiço da cadeira e a ladainha com que rezava D. Aurora, a casa inteira adormecia como um barco bem ancorado: a flutuar suavemente, segura, embalada por histórias que não acabam - só continuam nos sonhos de quem sonha.


Sanzalando

29 de janeiro de 2026

às vezes o mundo faz intervalo para eu ver e guardar

Na minha cidade não sei se chovia 48 horas por ano. Não tenho memória meteorológica. Mas não devo estar longe disso. Mas naquela tarde o céu não avisou. Simplesmente mudou de um azul celeste para um cinzento feito chumbo em questão de um cagagésimo de tempo, como se alguém tivesse corrido uma cortina pesada sobre a cidade. Na esplanada, o calor que antes fazia a roupa colar na pele deu lugar a um sopro de vento súbito, carregando o cheiro metálico da água vindo de longe e desabar ali, feito parecia um castigo divino ou só um cano grande que furou.

Quando a primeira gota bateu na mesa metálica, o mundo acelerou para todos, menos para mim. Esvaziou-se a esplanada e do outro lado da rua a rotina tropical desmoronava em comédia de corrida como na dança das cadeiras, mas aqui era à procura de um abrigo. Todos punham a mão na cabeça faz conta ela protegia da chuva bater na carola, outros seguravam a carteira parecia eram feitas de papel e precisam ser protegidas. Eu continuei sentado a ver porque às vezes é preciso parar para ver. O trânsito, sempre impaciente, paralisou sob o peso da água que agora caía como se tivessem a virar baldes. Eu pacientemente via, sentado na esplanada, o toldo pouco protegia, mas eu saboreava por estar a ver um teatro temporal.

A chuva tropical tem uma particularidade: ela é barulhenta, mas traz silêncio. Ali, com os pés cruzados e o olhar perdido nas poças e rios que se formavam no asfalto, o tempo deixou de ser medido por horas e passou a ser medido por intensidade.

Já não tinha a chávena de café à minha frente, tinha um pequeno vasilhame com água a transbordar. O asfalto ao receber as primeiras gotas deitou fumo e pareia que o calor da tarde subia rumo ao céu. Eu não tinha prazos nem nada para fazer. Só tinha o tempo perdidamente visual. Ria por dentro e mostrava espanto por fora. Todos os beirais de porta tinha um habitante, molhado para não dizer encharcado. 

Tão rápido quanto começou, a força diminuiu e desapareceu. O céu começou a abrir buracos de luz azul enquanto as poucas nuvens iam fugindo em direcção a leste e o brilho do sol refletido no asfalto molhado quase cegava. O mundo voltava a girar, mas eu parei a memória até hoje, quando vi que aqui chovia e que não era igual à chuva da minha cidade


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o Meu deserto tinha uma carocha

O meu deserto é grande e eu só lhe conheço um pedacinho tão pequeno que faz de conta é uma mão de areia. Até onde lhe conheço as dunas pareciam ondas congeladas e o sol pintava-as assim dum amarelo torrado e o céu, ao fim da tarde, era pintado com tons de laranja que até parecia fogo. Nesse deserto vivia uma carocha. Ele não era uma carocha comum, tinha coração que parecia de homem aventureiro e olhos curiosos que ansiavam por ver o mundo além da sua duna.

Um dia, enquanto a carocha explorava perto de um pedacito de capim seco, ouviu um som estranho, parecia alguém estava num choramingar suave. Rastejando com cuidado, ela descobriu um pequeno animal, eu aqui diria que era tipo de raposa do deserto com orelhas enormes, preso sob uma pedra, mas eu não conheço os outros animais. Mas a verdade é que o bicho estava assustado e com a patinha presa.

A carocha apesar de assustada, sentiu uma pontada de pena. Ela usou toda a sua força para empurrar a pedra, e com um esforço o bicho ia ficar livre.

- Oh, muito obrigado! - disse o animal que se tinha perdido com certeza. 

A carocha respondeu-lhe

- Conheço bem este deserto. Posso ajudar-te a encontrar o caminho.

A carocha corria com toda a velocidade que podia, o animal que eu diria era raposa do deserto, andava devagar. 

- Sabes, bicho, o meu mundo termina aqui. Não conheço mais.

- Muito obrigado! Deste-me uma grande ajuda. Vou usar o meu faro e encontrarei companhia. Não corras no regresso porque pode faltar-te a força.

A carocha, de peito cheio, regressou para a sua duna e pensou que o mundo era grande de mais para ela conhecer num só dia.


Sanzalando

28 de janeiro de 2026

Esta Música tem uma História 45 - Nara Leão - Com açucar, com afecto - K'arranca às Quartas 103


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Crónica de João Portelinha da Silva (9) - K'arranca às Quartas 103


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As Crónicas de Carlos Osório (2) - K'arranca às Quartas 103


Sanzalando

Autor - Luis Cardoso - K'arranca às Quartas 103


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Crónica 91 - K'arranca às Quartas 103


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Tesourinhos Musicais 78 - Conjunto Maria Albertina - K«'arranca às Quartas 103


Sanzalando

Programa 103 K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 28 de Janeiro de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr que intitulei Ir ver o Vento
Falei de Luis Cardoso, escritor maior de Timor-Leste
Esta Música tem uma história trouxe Nara Leão e Com Açúcar, com Amor, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje Conjunto Maria Albertina
Poema de Sá de Miranda
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de música angolana no feminino
Crónicas de Carlos Osório, um docente, um apaixonado da fotografia, um ser humano, por acaso ou não de Luanda que hoje abordou os meninos e a internet
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

27 de janeiro de 2026

estória de embalar

Sentado na borda da cama, eu, o pai, depois de ajeitar a manta do meu filho, comecei a inventar e sorrindo fui dizendo, que o meu campeão hoje não ia ter uma estória de dragões nem naves espaciais. Vou-te contar a história do Grão de Areia que Queria Ver o Mundo.

Era uma vez um grão de areia chamado a quem chamavam Grãozito. Ele vivia na minha praia que era enorme, cercado por milhões de outros grãos que pareciam exatamente com ele, com cores de muitos tons. Ele não sabia como tinha chegado à minha praia nem há quanto tempo ali estava porque ele não sabia o que era isso de tempo. Mas enquanto os outros grãos só queriam saber de tirar uma soneca ao sol e não ser levado por ondas de volta às profundezas do mar, Grãozito passava o dia a olhar para o horizonte, com medo de o perder.

Ele tinha uma curiosidade que era ao mesmo tempo um sonho: queria saber onde o mar terminava e gostava de lá ir.

Um dia, um dia de calema furiosa, uma onda bem gigante e espumante chegou à beira da areia e perguntou: 

- Ei, pequeno, queres dar um passeio pelo mundo?

Grãozito não pensou duas vezes. Ele agarrou a espuma e foi na onda.

Grãozito viajou dias que, segundo a memória dele, foi instantes. Ele viu coisas que nunca imaginou, desde peixes coloridos que pareciam lanternas acesas sob a água, tartarugas marinhas que contavam histórias de corais distantes, Baleias que cantavam músicas que faziam o corpo minúsculo de Grãozito vibrar, ele viu a esfera do pelourinho a rolar em fundos marinhos, viu restos de plástico que boiavam na bolina do vento ou ao sabor da corrente.

Ele percebeu que, embora fosse minúsculo, o mundo era gigantesco e cheio de mistérios. Mas, depois de um tempo, Grãozito começou a sentir saudades. Ele sentia falta do calor constante da sua praia e dos grãos de areia que se preguiçavam ao sol.

A mesma corrente que o levou, trouxe-o de volta. Quando ele finalmente se deitou na minha praia, na areia quente, os seus amigos perguntaram: 

- E aí, Grãozito? O mundo é perigoso? Tiveste medo?

Grãozito olhou para o céu e respondeu:

- O mundo é enorme e eu sou bem pequenino. Mas aprendi que, mesmo sendo pequeno, eu faço parte de algo gigante. E o melhor de viajar é ter uma casa quentinha para onde voltar e contar a história.

Eu, o pai dei um beijo na testa do meu filho e sussurrei: 

-  Assim como o Grãozito, tu és pequeno agora, mas o mundo está à tua espera. Mas, por hoje, a tua missão é apenas sonhar. Dorme filho!


Sanzalando

25 de janeiro de 2026

Conversas à Mesa 3c - Cultura e Identidade


Sanzalando

Conversas à mesa 3 - Cultura e Identidade





Programa de Rádio de Conversas à volta da Mesa - 24 de Janeiro
- tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.





Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir


Sanzalando

23 de janeiro de 2026

o livro inexistente

Eu tinha escrito um livro que considerava puramente angolano - A Poeira que Aprendeu a Falar. Não se vendeu nem um, mas era para mim como um best-sellers musculado das montras. Mas ele que tinha vontade própria preferia ficar encostado numa prateleira alta, a observar o mundo com a paciência de quem já viu muita coisa, guerras, silêncios, mangas maduras e promessas feitas à sombra de um imbondeiro.
O livro nascera em Luanda, numa tipografia cujas máquinas rangiam como se estivessem sempre a contar segredos. As páginas cheiravam a papel, sal, trânsito e pó, e se por acaso alguém o abria ouvia-se quase um “eh pá” discreto, como quem diz: senta-te, vamos conversar com calma.
A história lá dentro seguia Mateus, um rapaz que falava com a poeira vermelha das estradas. Não por maluquice — em Angola a poeira sabe muita coisa. A poeira lembrava-lhe que a terra tem memória, que cada passo deixa rasto, e que até os silêncios sabem cantar semba baixinho.
Havia capítulos que pareciam mornos como o fim da tarde, outros rápidos como uma zungueira a desviar-se do caos. As palavras misturavam português com kimbundu sem pedir licença, porque ali ninguém precisava de autorização para ser inteiro.
Certo dia, o livro foi parar a Portugal, numa mala apertada entre camisas cuecas e saudades. Quando alguém o abriu, numa noite fria, o livro estremeceu. Não de medo, de alegria. As páginas aqueceram a sala, a poeira vermelha espalhou-se pela imaginação do leitor, e Luanda entrou ali sem bater à porta.
No fim, o leitor fechou o livro devagar, como quem se despede de um velho amigo. E o livro, satisfeito, pensou:
— Pronto. Cumpri. Cruzei o mar outra vez.
E ficou à espera do próximo par de mãos.
Esse livro foi o único que teve saída, no dia que ofereci à minha mãe 

22 de janeiro de 2026

uma biblioteca à lusofonia

Na minha imaginação eu criei a Biblioteca Universal da Língua Portuguesa, que fica exatamente entre Ficção e o Isso Depois Eu Leio, os livros da lusofonia aguardavam ansiosos pelo Dia Internacional de ser lido, data em que finalmente eu os tiraria da prateleira e os levasse para algum sítio onde pudessem ser lidos.

Um livro português muito elegante, A Relíquia de Eça de Queirós, alisava a lombada e dizia:
- Espero um leitor atento, com tempo, chá quente e alguma capacidade de ironia.

Um calhamaço brasileiro, Brasil dos Espertos de Ariano Suassuna respondeu, todo retorcido de palavras e muito humor:

- Leitor bom é aquele que topa tropeçar nas frases e ainda agradece pela queda.

Do outro lado, um livro cabo-verdiano, Batuku de Cabo Verde de Glaucia Nogueira, , fino mas orgulhoso, comentou:

- Eu aceito qualquer leitor. Até os que leem na praia e me enchem de areia existencial.

Um poema moçambicano de Paulina Chiziane suspirou:
- O importante é que leiam com respeito. Minhas histórias já sofreram demais para virar marcador de página.

Um volume de Fernando Pessoa, que na verdade eram quatro livros fingindo ser um só, começou a discutir consigo mesmo:
- Este leitor não vai me entender.
- Claro que vai.
- Não vai, não.
- Ainda bem.

O livro Tudo Sobre Deus de José Eduardo Agualusa acrescentou:
— No fundo, somos todos histórias à procura de alguém que nos sonhe acordado.

Fui interrompido por um jovem, enquanto eu delineava esta novela imaginada, olhou-me de cima a baixo, coçou a cabeça e disse:
- Gostava de um dia ler um livro em português, imaginado e escrito… mas não muito difíceis de ler.

Silêncio absoluto. Até que um livrinho Os Olhos Grandes da Menina Pequena de Ondjaki, esquecido num canto da minha memória, gritou:
- Eu! Eu!

Institivamente virei-me para ele e disse:

- Os Olhos Grandes da menina Pequena

Os outros livros, dentro da minha cabeça riram, o que, em termos técnicos, provocou um leve arrepiar no meu corpo. O jovem deixou-me e levou com ele o livro infantil debaixo do braço.

Os grandes clássicos ficaram ali, meio frustrados, meio aliviados.
- Pelo menos - disse Eça - hoje ninguém pulou os parágrafos longos - olhando para Saramago
- Nem sublinhou com caneta fluorescente — completou Rosa Lobato Faria.

E assim a biblioteca voltou ao seu estado natural: livros à espera, palavras cochichando e a lusofonia inteira concordando numa coisa rara — ler é sério, mas os livros adoram rir quando podem.



Sanzalando

21 de janeiro de 2026

Tesourinhos Musicais 77 - Paulo de Carvalho e Chico Buarque - K'arranca às Quartas 102


Sanzlando

LIVRO - Nando - Zé da Fisga - K'arranca às Quartas 102


Sanzalando

Esta Música tem uma História 44 - Gal Costa - Índia - K'arranca às Quartas 102


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório (1) - K'arranca às Quartas 102


Sanzlando

Crónica de João Portelinha da Silva (8) - K'arranca às Quartas 102


Sanzalando

Crónica 90 - K'arranca às Quartas 102


Sanzalando

Programa 102 K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 21 de Janeiro de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Hoje foi o programa do segundo aniversário. 

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr Eu e a Rádio
Falei do Zé da Fisga, uma memória de adolescência num texto de REAT Rádio Estudantil Angolana de Transmissões
Esta Música tem uma história trouxe Gal Costa e Índia, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje foram vistuais. Uma imaginação de dueto entre Paulo de Carvalho e Chico Buarque
Poema sobre o Tempo de Mário Quintana
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de uma máquina fotográfica especial
Inaugurou-se a Crónicas de Carlos Osório, um docente, um apaixonado da fotografia, um ser humano, por acaso ou não de luanda
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira não faltou assim como a Reseliência

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

na livraria da minha cidade

Na pequena Livraria Regina, da minha pequena cidade, que inexplicavelmente cheirava a café e também a maresia, os livros da lusofonia resolveram discutir entre si, mal da dona fechou a porta para ir almoçar.

Os Lusíadas, muito sério e um pouco empoeirado, cantou:
- É evidente que eu sou o mais viajado de todos. Dei a volta ao mundo em versos, eu conto a História de um caminho de mar!

Um romance de Machado de Assis, apoiado na prateleira ao lado, sorriu do canto:
- Viajar é fácil quando se tem heróis. Difícil é entender a alma humana sem sair da sala de estar.

Lá bem do fundo da estante, um livro de Mia Couto espreguiçou as páginas e deixou cair uma palavra inventada no chão.
- Meus amigos, não briguem. O mundo é grande demais para caber num só poema ou num bigode irónico.

Um livro de Jorge Amado, com cheiro de mukeka literária, interrompeu:
— Grande mesmo é a Bahia, que cabe em qualquer lugar. Inclusive nesta livraria, entre um soneto e uma metáfora africana.

Uma coletânea de poemas de Fernando Pessoa, dele mesmo ou dele feito outro, começou a falar… depois mudou de ideia… depois falou de novo, e aí com com outra voz:
— Discordo de todos vocês.
— Qual de nós? — perguntou o Lobo Antunes.
— Sim. De todos, incluindo eu nos outros! afirmou Pessoa sem saber já se era ele ou outro

Enquanto isso, um livro de Pepetela observava tudo em silêncio revolucionário e comentou:
— Pelo menos concordamos numa coisa: sobrevivemos a leitores apressados e a resumos malfeitos.

De repente, a porta da livraria se abriu. Todos se calaram, fingindo respeitável quietude de papel. A dona havia chegado e havia que mostrar respeito. Entretanto entrou uma leitora curiosa, que passou os dedos pelas lombadas e disse:
— Adoro literatura em português. Dá para viajar sem precisar de passaporte, bilhete ou avião.

Os livros sorriram num desfolhar de palavras para dentro, o que, no caso de alguns, fez levantar um pouco de pó, satisfeitos por saber que, apesar das diferenças de sotaque, ritmo e temperamento, ainda compartilhavam a mesma língua… e a mesma estante.

E assim ficou provado que a lusofonia é como uma boa biblioteca: cheia de vozes diferentes, mas todas a falar alto demais quando ninguém a está a ver.



Sanzalando

20 de janeiro de 2026

eu tentei arrumar a estante

Tudo começou quando eu tentei colocar "O Cortiço", do brasileiro Aluísio Azevedo, ao lado de "Os Maias", do português Eça de Queirós, na estante da minha sala.

Perto da meia-noite a estante tremeu. Os personagens de Eça, com seus monóculos e um certo tédio aristocrático, ficaram horrorizados com a barulheira e o calor que vinham do cortiço carioca ou como se diria no Porto, de uma Vila no Rio de Janeiro.

- Pelas barbas de D. Pedro! - exclamou o Conselheiro Acácio - Haverá decência nesse ajuntamento de gente suada?

João Romão, do livro vizinho, nem olhou para trás: 

 - Deixe de mesura, patrício! Aqui a gente trabalha para enriquecer, não para discutir o brilho das botas!

A confusão aumentou quando eu trouxe os angolanos e moçambicanos para a mesma prateleira. Coloquei "Terra Sonâmbula", de Mia Couto, perto de um dicionário da Porto Editora

Na manhã seguinte, o dicionário estava em choque. Mia Couto tinha inventado tantas palavras novas que o pobre dicionário sentio que estava a perder o emprego ou a roda da viagem.

- Isso não é português! - reclamava o Dicionário, rígido no seu grosso volume.

- Não é português, é portuguesar o mundo - respondeu um neologismo de Mia, saltando de uma página para a outra como um cabrito ou uma qualquer cabra de leque que africanamente não se sossega.

Enquanto isso, "A Geração da Utopia", de Pepetela, tentava organizar um comitê de libertação para os livros que estavam presos na seção de Autoajuda, por erro meu.

O cúmulo do caos aconteceu quando, por já não saber como organizar a estante, empilhei Guimarães Rosa em cima de José Saramago.

Foi o silêncio mais barulhento da história.

Saramago, dizem porém sem verdade, que recusava-se a usar vírgulas ou pontos finais para reclamar o peso. As suas frases de três páginas formavam um labirinto onde eu quase me perdi.

Guimarães Rosa, trazendo o modernismo da poesia brasileira a tiracolo, apenas observava, e quando respondia fazia-o num dialeto que misturava o sertão com o infinito: 

- Viver é muito perigoso, mas ler o senhor Saramago, é um despropósito de frases compridas! 

No fim do dia, percebi que a literatura lusófona não pode ser arrumada. Ela é uma festa na cozinha: o português de Portugal traz o vinho e a etiqueta, o Brasil traz a feijoada e o samba, Angola e Moçambique trazem o ritmo e a reinvenção da alma, e Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste chegam com a poesia que une o mar.

Desisti da ordem alfabética. Agora, organizo os livros por níveis de saudade.




Sanzalando

19 de janeiro de 2026

um dia, pelo menos, sem internet

Pouquinho que passava das 10 da noite e veio o apagão das comunicações. Assim num segundo se foi a televisão e a internet. Me disseram que o rooter deu o último suspiro e a televisão transformou-se num retângulo plastificado e sem alma. O silêncio que se seguiu foi tão denso que deu para ouvir os pensamentos. No início, houve o pânico: levantei-me, reiniciei o dito, sempre sobre a máxima informática, desliga e volta a ligar. Nada.

E foi aí, no meio desse "nada", que a vida decidiu ficar engraçada.

Sem o brilho hipnótico da Netflix, os olhos demoram uns minutos a ajustar-se à realidade. Descobri, por exemplo, que o meu cão não é apenas um adereço de sofá e não deu por nada.

Acendi luzes, peguei no livro e retomei a leitura que tinha parado a meio da tarde. Meia hora depois novo desliga e volta a ligar e nada. Assistência técnica. Primeiro um diálogo  teclado com uma máquina a dizer-me para fazer o que eu já tinha feito. E com a insistência dos meus NÃO, a máquina disse-me que iria encaminhar para um operador real. Um pouco de música e a voz simpática do lado de lá. Já não estava em diálogo virtual. Já fiz, disse eu a várias questões. Ok, amanhã ou depois irá um técnico até aí para ver o que se passa. Aguarde mais um pouco. A blá blá mas agora não podemos fazer mais nada. E assim estou sem internet, sem televisão e sem o mundo saber de mim. 

A maior surpresa, porém, foi a interação humana. Sem o escudo da televisão, fui forçado a olhar para a minha parceira. 

- "Então... parece que não há rede," disse eu, com a eloquência de um homem das cavernas. — "Pois não," respondeu ela. "Queres jogar às cartas ou preferes descrever-me o teu dia com adjetivos que não incluam emojis?"

Rimos. Rimos porque percebemos que estávamos a desaprender a falar sem o apoio de um desenho, de um boneco, de uma figurinha. Acabámos a inventar biografias fictícias sobre quem passava na estrada, criando uma novela mexicana em tempo real, só nossa, sem anúncios e com muito mais reviravoltas do que qualquer série da HBO.

O mais estranho foi o sossego. Não é a ausência de som, mas a ausência de urgência. O tempo esticou. Uma hora sem internet durou aproximadamente três dias úteis. E, num mundo que corre para lado nenhum, esse abrandamento é um luxo quase subversivo. Fui-me deitar mais cedo.

Acordei sem saber as últimas polémicas do Twitter, o que me tornou, automaticamente, a pessoa mais feliz num raio de cinco quilómetros. A vida sem Wi-Fi não é um regresso à Idade Média; é umas férias forçadas de nós próprios. E, honestamente? A comida tem melhor sabor quando não precisamos de a fotografar antes da primeira garfada.



Sanzalando