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25 de fevereiro de 2026

uma estória quase verídica

Entrei no gabinete de urgência como quem entra num palco. Fato que parece pijama azul escuro, impecável, máscara descaída para o pescoço numa preguiça de tirar, olhar treinado para distinguir uma apendicite de uma indisposição causada por excesso de bacalhau à Brás.

Parei aos pés da marquesa, fiquei a olhar para o doente como quem olha para uma obra de arte. Em silêncio e olhar profundo.

O doente, deitado, ficou a olhar para mim como quem espera uma sentença.

Durante uns segundos, ninguém disse nada. Era um duelo silencioso: bisturi contra pânico, autoridade contra bata que estava substituída por pijama, porque é mais higiénico, cómodo e prático.

- Então, doutor? - perguntou o doente, desconfiado. - É grave?

Inclinei ligeiramente a cabeça, como se estivesse a contemplar uma obra de arte contemporânea chamada Homem Deitado nº 3.

- Hummm. 

O “hummm” de um cirurgião devia vir com legenda. Pode significar “não é nada”, “vamos já abrir”, ou “onde é que eu deixei os óculos?”.

O doente engoliu em seco.

- Doutor… esse “hummm” é de quê?

- Ainda não lhe toquei, andei não vi uma única análise. Quer que seja adivinho?

Aproximei-me mais, olhar pensativo, mãos na barriga do doente e comecei a fazer perguntas. Desde sérias até as de futebol-

- Diga-me uma coisa - perguntei - Quando carrego aqui, dói?

E carreguei.

- AI! - gritou o doente.

Abanei com a cabeça, satisfeito e disse:

- Excelente.

- Excelente?! - indignou-se o paciente. - Eu estou a gritar!

- Precisamente. Se não gritasse é que eu ficava preocupado. A medicina aprecia reações. O silêncio é que é suspeito. O silêncio é coisa de estátuas. - disse na mais serena tranquilidade.

O doente ficou a olhar para mim, dividido entre o alívio e a vontade de pedir transferência.

Começou a andar de um lado para o outro, mãos atrás das costas e a fazer perguntas. Continuadamente sérias alternando com coisas banais. Até que parei, ao lado dele e olhando-o nos olhos disse

- A questão é filosófica.

- Eu preferia que fosse clínica, por isso vim ao hospital…

- Toda a boa cirurgia começa na filosofia - continuei, ignorando o olhar furioso do doente. - A pergunta não é “o que tem?”, mas “porque é que insiste em ter?”.

- Eu não insisto em nada! Eu tenho!

- Tudo aparece. A idade aparece. As rugas aparecem. As contas aparecem. O apêndice inflama-se e chamam-me.

Ao mesmo tempo sentei-me ao lado da marquesa onde estava o doente.

- Diga-me: numa escala de zero a dez, quanto dói?

- Oito.

- Oito honesto ou oito dramático?

- Oito! - já num tom mais irritado que indeciso

Suspirei e disse:

- Gosto de pacientes decididos. O problema dos sete é que são indecisos. Nem sofrem plenamente nem melhoram com convicção. - Filosofei

Fui ao computador decido e escrevi. Consegui perceber que o doente estava curioso com o que escrevia. Mas mantive o meu silêncio enquanto os dois indicadores batiam no teclado.

- O que está a escrever? - irritada voz que saiu daquela boca

- Paciente com forte vocação para queixar-se. - disse sem tirar os olhos do ecran

- Isso não é diagnóstico que se dê a um doente!

- Claro que é. A queixa é o princípio da ciência.

Levantei-me, compôs o pijama e olhei o doente de alto a baixo mais uma vez.

- Fique descansado. Vamos fazer exames.

- E se for preciso opera?

Sorri com aquela tranquilidade inquietante de quem tem um bisturi como extensão da personalidade.

- Meu caro, eu sou cirurgião. Se não operar hoje, opero amanhã. A diferença entre nós é que o senhor teme a cirurgia e eu temo um dia sem ela.

Dei dois passos em direção à porta, depois voltei atrás e, com ar conspiratório, disse:

- Mas não se preocupe. Só corto o estritamente necessário. Às vezes até menos.

Saiu do gabinete.

Acho que o doente ficou a olhar para o teto, profundamente pensativo. Nunca tinha pensado que o maior sintoma da sua doença fosse estar nas mãos de alguém tão entusiasmado com lâminas.

E suspirou:

- Se eu soubesse, tinha ficado só com o bacalhau e não tinha comido o prato de carne.



Sanzalando

6 de fevereiro de 2026

O Solidário de Ocasião ou o Drama da Sopa de Letrinhas

Diz o ditado popular que "fazer o bem sem olhar a quem" é a virtude máxima. É uma frase linda, digna de moldura com flores secas, mas a verdade é que o ser humano moderno — esse bicho ansioso e cheio de boas intenções mal coordenadas , raramente consegue ser solidário sem, pelo menos, dar uma espreitadela para ver se o telemóvel está focado e tudo fica registado para memória futura.

A solidariedade, hoje em dia, começa muitas vezes com um dilema logístico. Queremos ajudar, mas o universo parece conspirar contra a nossa santidade repentina.

Tudo começa naquele momento com chuva, introspecção e em que decidimos ser pessoas melhores ou melhor pessoa no nosso intimo. Abrimos o armário e decretamos: Vou dar isto tudo aos pobrezinhos! É um momento catártico. O problema é que, no nosso delírio altruísta, achamos que a carência alheia é diretamente proporcional à nossa falta de noção.

Separamos para doação:

- Uma t-shirt de um festival de 2004 com um furo estratégico na axila ou amarelecida das lavagens.

- Umas sapatilhas a dar para o desgaste de uso e desbotado de gasto.

- Um comando de televisão que já não existe no mercado, ou aqule caixa de transformadores que já nem nos lembramos para que serviam.

Olhamos para aquele monte de tralha e sentimos um calorzinho no peito. Sou o Gandhi da Porcalhota ou simplesmente o Zé da Ria, pensamos, enquanto ignoramos que estamos apenas a transferir o nosso lixo doméstico para uma instituição que já tem t-shirts de festivais suficientes para estofar um estádio.

Depois, temos o clássico do supermercado. À entrada, recebemos o saco plástico, que transportamos como a "capa de herói" do cidadão comum. É ali que a psicologia humana se torna fascinante.

Há quem entre em pânico de performance. Olham para as prateleiras e pensam: "Se eu levar massa, sou básico. Se levar grão, sou conservador. Será que os necessitados gostam de leite de aveia com sabor a baunilha?". Acabam por comprar três quilos de quinoa biológica e um frasco de corações de alcachofra, porque "toda a gente merece um mimo gourmet".

Do outro lado, temos o solidário estratégico, que passa o tempo todo a espreitar o carrinho do vizinho. Se o senhor ao lado leva dez pacotes de arroz, ele sente-se na obrigação moral de levar doze. É a única competição desportiva onde o prémio é uma palmadinha nas costas dada por um escuteiro de 12 anos.

Não podemos esquecer a solidariedade das redes sociais. É aquela partilha de um vídeo emocionante acompanhada pela legenda: "O mundo precisa de mais disto. Partilhem!".

É a forma mais eficiente de ser bondoso: não custa dinheiro, não suja as mãos e ainda nos dá aquele brilho de "pessoa consciente" nos algoritmos. Se o mundo fosse salvo por partilhas de Facebook, já estaríamos todos a viver num jardim do paraíso com Wi-Fi gratuito e unicórnios a distribuir sumos naturais e outras mordomias.

A verdade é que a solidariedade real é muito menos charmosa. É aquele vizinho que ajuda a senhora do terceiro andar a carregar as compras sem ninguém estar a filmar. É a pessoa que faz um donativo mensal por débito direto e se esquece que o faz. É, no fundo, perceber que o outro não é um depósito para a nossa consciência pesada, mas alguém que, às vezes, só precisa que não o ignoremos no elevador.

Ser solidário é um desporto radical de humildade. E se, pelo caminho, conseguirmos não dar aquele pijama de flanela com buracos, já estamos no caminho certo para a canonização.


Sanzalando

5 de fevereiro de 2026

A guerra contra os Donos da Razão

Há pessoas que não têm opinião. Têm sentença. Não dizem “acho que…”. Dizem “é assim.” Ponto final. Se discordarmos, é porque ainda não percebemos. Se insistirmos, é porque somos teimosos. Se tivermos razão, foi sorte.

Estas pessoas são conhecidas como Donos da Razão. Andam por aí como se tivessem um certificado invisível pendurado ao pescoço: “Atenção: estou sempre certo desde 1999.”

Tentar discutir com um Dono da Razão é como jogar xadrez com um pombo. O pombo derruba as peças, faz cocó no tabuleiro e no fim sai a andar como se tivesse ganho.

Nós até começamos com boas intenções:
- Olha, acho que isso não é bem assim…
E o Dono da Razão responde:
- É sim. Eu sei.

Pronto. Acabou. Nem vale a pena ligar o cérebro. Aquilo já vem com resposta automática. É tipo assistente virtual, mas com menos atualizações e mais convicção.

O problema é que eles existem em todo o lado: no trabalho, na família, no grupo do WhatsApp e até na fila do pão. Há sempre alguém que explica ao padeiro como se faz pão. Ao padeiro! Um homem que faz pão desde antes de nós sabermos dizer “carcaça”, já ele chamava papo-seco de olhos fechados.

A nossa luta diária é tentar manter a sanidade. Usamos frases de sobrevivência como:
— Pois, tens razão… (mesmo quando não têm)
— Ah, interessante… (não é)
— Não sabia! (sabíamos, mas desistimos)

Com o tempo, aprendemos uma grande lição: não se vence um Dono da Razão. No máximo, empata-se. E o empate consiste em sorrir, mudar de assunto e pensar: “Pronto, hoje já alimentei o ego de alguém.”

Porque, no fundo, lutar contra quem tem sempre a mania que está certo é como discutir com o GPS quando já estamos perdidos. Ele recalcula, nós suspiramos, e a vida continua.

E talvez a verdadeira vitória seja esta: não ganhar a discussão… mas chegar ao fim do dia com paciência suficiente para não nos tornarmos também Donos da Razão.



Sanzalando

31 de janeiro de 2026

O plano Infalível (ou nem por isso)

Na minha cidade tinha uma paróquia, e nessa paróquia entre jovens e padre abriu-se uma discoteca, assim um lugar para ouvir música, conversar sério, viver seriamente a adolescência. Tinha banquinhos, mesinhas mas não tinha bebidas alcoólicas nem nada parecido. Era mesmo conviver na paróquia. Eu, além de pôr discos também tinha outros horizontes, mais de 20% dos que eram mostráveis, assim numas contas por baixo. Eu já lá tinha visto, vou só chamar de Clara, porque é claro que nunca iria dizer aqui o nome dela. Ela também era minha colega no liceu. Outro contexto, outras visões, a mesma pessoa. Tentei ali abordá-la com uma observação profunda sobre literatura moderna. Ela simplesmente ignorou. Recuei dois passos, voltei-me para ela e disparei que Kafka não era apreciado naqueles ambientes. Olhou-me, assim como quem estava prestes a estrangular o meu fino e bem desenhado pescoço. 

- Nem aqui me deixas em paz?!

- Este silêncio que se fez mete medo. Nem os Lusíadas metem tanto.

Ela tossiu, olhou-me de alto a baixo, a cara tão séria quase me fez recuar em fuga corrida, pelo que tropecei num banquinho, esparramei-me no chão que até parecia marcador de livro de tão direitinho eu estava.

Os 20% que eu tinha de expectativa se diluíram num orgulho ferido, numa nódoa negra na perna e um hematoma na região occipital.

Aquele dia foi o meu declínio literário, nem Kafka nem Camões me valeram.


Sanzalando

30 de janeiro de 2026

uma casa para embalar

Era uma vez, numa casa virada para o mar, um relógio antigo que fazia “tic-tac” como se estivesse a embalar as ondas. Cada tic era uma concha, cada tac era um passarinho a pousar no telhado da casa.

Nessa casa vivia a eu e a Dona Aurora, que todas as noites abria a janela para deixar entrar o cheiro a sal e a promessa de sonhos bons. Sentava-se numa cadeira de baloiço, velha e com chiar de cansaço e começava a contar histórias ao candeeiro, porque acreditava que a luz também precisava de ouvir para dormir.

- Dorme, luzinha, que amanhã há sol para ti - e apagava-a.

O candeeiro até me parecia se apagava devagar, como que a bocejar preguiçosamente. Lá fora, o vento passava devagarinho, pé ante pé, para não acordar ninguém e não sacudir as cortinas não me fosse assustar com fantasmas ou desavindos corpos invisíveis.

E assim, entre o tic-tac do relógio, o baloiço da cadeira e a ladainha com que rezava D. Aurora, a casa inteira adormecia como um barco bem ancorado: a flutuar suavemente, segura, embalada por histórias que não acabam - só continuam nos sonhos de quem sonha.


Sanzalando

29 de janeiro de 2026

o Meu deserto tinha uma carocha

O meu deserto é grande e eu só lhe conheço um pedacinho tão pequeno que faz de conta é uma mão de areia. Até onde lhe conheço as dunas pareciam ondas congeladas e o sol pintava-as assim dum amarelo torrado e o céu, ao fim da tarde, era pintado com tons de laranja que até parecia fogo. Nesse deserto vivia uma carocha. Ele não era uma carocha comum, tinha coração que parecia de homem aventureiro e olhos curiosos que ansiavam por ver o mundo além da sua duna.

Um dia, enquanto a carocha explorava perto de um pedacito de capim seco, ouviu um som estranho, parecia alguém estava num choramingar suave. Rastejando com cuidado, ela descobriu um pequeno animal, eu aqui diria que era tipo de raposa do deserto com orelhas enormes, preso sob uma pedra, mas eu não conheço os outros animais. Mas a verdade é que o bicho estava assustado e com a patinha presa.

A carocha apesar de assustada, sentiu uma pontada de pena. Ela usou toda a sua força para empurrar a pedra, e com um esforço o bicho ia ficar livre.

- Oh, muito obrigado! - disse o animal que se tinha perdido com certeza. 

A carocha respondeu-lhe

- Conheço bem este deserto. Posso ajudar-te a encontrar o caminho.

A carocha corria com toda a velocidade que podia, o animal que eu diria era raposa do deserto, andava devagar. 

- Sabes, bicho, o meu mundo termina aqui. Não conheço mais.

- Muito obrigado! Deste-me uma grande ajuda. Vou usar o meu faro e encontrarei companhia. Não corras no regresso porque pode faltar-te a força.

A carocha, de peito cheio, regressou para a sua duna e pensou que o mundo era grande de mais para ela conhecer num só dia.


Sanzalando

27 de janeiro de 2026

estória de embalar

Sentado na borda da cama, eu, o pai, depois de ajeitar a manta do meu filho, comecei a inventar e sorrindo fui dizendo, que o meu campeão hoje não ia ter uma estória de dragões nem naves espaciais. Vou-te contar a história do Grão de Areia que Queria Ver o Mundo.

Era uma vez um grão de areia chamado a quem chamavam Grãozito. Ele vivia na minha praia que era enorme, cercado por milhões de outros grãos que pareciam exatamente com ele, com cores de muitos tons. Ele não sabia como tinha chegado à minha praia nem há quanto tempo ali estava porque ele não sabia o que era isso de tempo. Mas enquanto os outros grãos só queriam saber de tirar uma soneca ao sol e não ser levado por ondas de volta às profundezas do mar, Grãozito passava o dia a olhar para o horizonte, com medo de o perder.

Ele tinha uma curiosidade que era ao mesmo tempo um sonho: queria saber onde o mar terminava e gostava de lá ir.

Um dia, um dia de calema furiosa, uma onda bem gigante e espumante chegou à beira da areia e perguntou: 

- Ei, pequeno, queres dar um passeio pelo mundo?

Grãozito não pensou duas vezes. Ele agarrou a espuma e foi na onda.

Grãozito viajou dias que, segundo a memória dele, foi instantes. Ele viu coisas que nunca imaginou, desde peixes coloridos que pareciam lanternas acesas sob a água, tartarugas marinhas que contavam histórias de corais distantes, Baleias que cantavam músicas que faziam o corpo minúsculo de Grãozito vibrar, ele viu a esfera do pelourinho a rolar em fundos marinhos, viu restos de plástico que boiavam na bolina do vento ou ao sabor da corrente.

Ele percebeu que, embora fosse minúsculo, o mundo era gigantesco e cheio de mistérios. Mas, depois de um tempo, Grãozito começou a sentir saudades. Ele sentia falta do calor constante da sua praia e dos grãos de areia que se preguiçavam ao sol.

A mesma corrente que o levou, trouxe-o de volta. Quando ele finalmente se deitou na minha praia, na areia quente, os seus amigos perguntaram: 

- E aí, Grãozito? O mundo é perigoso? Tiveste medo?

Grãozito olhou para o céu e respondeu:

- O mundo é enorme e eu sou bem pequenino. Mas aprendi que, mesmo sendo pequeno, eu faço parte de algo gigante. E o melhor de viajar é ter uma casa quentinha para onde voltar e contar a história.

Eu, o pai dei um beijo na testa do meu filho e sussurrei: 

-  Assim como o Grãozito, tu és pequeno agora, mas o mundo está à tua espera. Mas, por hoje, a tua missão é apenas sonhar. Dorme filho!


Sanzalando

23 de janeiro de 2026

o livro inexistente

Eu tinha escrito um livro que considerava puramente angolano - A Poeira que Aprendeu a Falar. Não se vendeu nem um, mas era para mim como um best-sellers musculado das montras. Mas ele que tinha vontade própria preferia ficar encostado numa prateleira alta, a observar o mundo com a paciência de quem já viu muita coisa, guerras, silêncios, mangas maduras e promessas feitas à sombra de um imbondeiro.
O livro nascera em Luanda, numa tipografia cujas máquinas rangiam como se estivessem sempre a contar segredos. As páginas cheiravam a papel, sal, trânsito e pó, e se por acaso alguém o abria ouvia-se quase um “eh pá” discreto, como quem diz: senta-te, vamos conversar com calma.
A história lá dentro seguia Mateus, um rapaz que falava com a poeira vermelha das estradas. Não por maluquice — em Angola a poeira sabe muita coisa. A poeira lembrava-lhe que a terra tem memória, que cada passo deixa rasto, e que até os silêncios sabem cantar semba baixinho.
Havia capítulos que pareciam mornos como o fim da tarde, outros rápidos como uma zungueira a desviar-se do caos. As palavras misturavam português com kimbundu sem pedir licença, porque ali ninguém precisava de autorização para ser inteiro.
Certo dia, o livro foi parar a Portugal, numa mala apertada entre camisas cuecas e saudades. Quando alguém o abriu, numa noite fria, o livro estremeceu. Não de medo, de alegria. As páginas aqueceram a sala, a poeira vermelha espalhou-se pela imaginação do leitor, e Luanda entrou ali sem bater à porta.
No fim, o leitor fechou o livro devagar, como quem se despede de um velho amigo. E o livro, satisfeito, pensou:
— Pronto. Cumpri. Cruzei o mar outra vez.
E ficou à espera do próximo par de mãos.
Esse livro foi o único que teve saída, no dia que ofereci à minha mãe 

22 de janeiro de 2026

uma biblioteca à lusofonia

Na minha imaginação eu criei a Biblioteca Universal da Língua Portuguesa, que fica exatamente entre Ficção e o Isso Depois Eu Leio, os livros da lusofonia aguardavam ansiosos pelo Dia Internacional de ser lido, data em que finalmente eu os tiraria da prateleira e os levasse para algum sítio onde pudessem ser lidos.

Um livro português muito elegante, A Relíquia de Eça de Queirós, alisava a lombada e dizia:
- Espero um leitor atento, com tempo, chá quente e alguma capacidade de ironia.

Um calhamaço brasileiro, Brasil dos Espertos de Ariano Suassuna respondeu, todo retorcido de palavras e muito humor:

- Leitor bom é aquele que topa tropeçar nas frases e ainda agradece pela queda.

Do outro lado, um livro cabo-verdiano, Batuku de Cabo Verde de Glaucia Nogueira, , fino mas orgulhoso, comentou:

- Eu aceito qualquer leitor. Até os que leem na praia e me enchem de areia existencial.

Um poema moçambicano de Paulina Chiziane suspirou:
- O importante é que leiam com respeito. Minhas histórias já sofreram demais para virar marcador de página.

Um volume de Fernando Pessoa, que na verdade eram quatro livros fingindo ser um só, começou a discutir consigo mesmo:
- Este leitor não vai me entender.
- Claro que vai.
- Não vai, não.
- Ainda bem.

O livro Tudo Sobre Deus de José Eduardo Agualusa acrescentou:
— No fundo, somos todos histórias à procura de alguém que nos sonhe acordado.

Fui interrompido por um jovem, enquanto eu delineava esta novela imaginada, olhou-me de cima a baixo, coçou a cabeça e disse:
- Gostava de um dia ler um livro em português, imaginado e escrito… mas não muito difíceis de ler.

Silêncio absoluto. Até que um livrinho Os Olhos Grandes da Menina Pequena de Ondjaki, esquecido num canto da minha memória, gritou:
- Eu! Eu!

Institivamente virei-me para ele e disse:

- Os Olhos Grandes da menina Pequena

Os outros livros, dentro da minha cabeça riram, o que, em termos técnicos, provocou um leve arrepiar no meu corpo. O jovem deixou-me e levou com ele o livro infantil debaixo do braço.

Os grandes clássicos ficaram ali, meio frustrados, meio aliviados.
- Pelo menos - disse Eça - hoje ninguém pulou os parágrafos longos - olhando para Saramago
- Nem sublinhou com caneta fluorescente — completou Rosa Lobato Faria.

E assim a biblioteca voltou ao seu estado natural: livros à espera, palavras cochichando e a lusofonia inteira concordando numa coisa rara — ler é sério, mas os livros adoram rir quando podem.



Sanzalando

21 de janeiro de 2026

na livraria da minha cidade

Na pequena Livraria Regina, da minha pequena cidade, que inexplicavelmente cheirava a café e também a maresia, os livros da lusofonia resolveram discutir entre si, mal da dona fechou a porta para ir almoçar.

Os Lusíadas, muito sério e um pouco empoeirado, cantou:
- É evidente que eu sou o mais viajado de todos. Dei a volta ao mundo em versos, eu conto a História de um caminho de mar!

Um romance de Machado de Assis, apoiado na prateleira ao lado, sorriu do canto:
- Viajar é fácil quando se tem heróis. Difícil é entender a alma humana sem sair da sala de estar.

Lá bem do fundo da estante, um livro de Mia Couto espreguiçou as páginas e deixou cair uma palavra inventada no chão.
- Meus amigos, não briguem. O mundo é grande demais para caber num só poema ou num bigode irónico.

Um livro de Jorge Amado, com cheiro de mukeka literária, interrompeu:
— Grande mesmo é a Bahia, que cabe em qualquer lugar. Inclusive nesta livraria, entre um soneto e uma metáfora africana.

Uma coletânea de poemas de Fernando Pessoa, dele mesmo ou dele feito outro, começou a falar… depois mudou de ideia… depois falou de novo, e aí com com outra voz:
— Discordo de todos vocês.
— Qual de nós? — perguntou o Lobo Antunes.
— Sim. De todos, incluindo eu nos outros! afirmou Pessoa sem saber já se era ele ou outro

Enquanto isso, um livro de Pepetela observava tudo em silêncio revolucionário e comentou:
— Pelo menos concordamos numa coisa: sobrevivemos a leitores apressados e a resumos malfeitos.

De repente, a porta da livraria se abriu. Todos se calaram, fingindo respeitável quietude de papel. A dona havia chegado e havia que mostrar respeito. Entretanto entrou uma leitora curiosa, que passou os dedos pelas lombadas e disse:
— Adoro literatura em português. Dá para viajar sem precisar de passaporte, bilhete ou avião.

Os livros sorriram num desfolhar de palavras para dentro, o que, no caso de alguns, fez levantar um pouco de pó, satisfeitos por saber que, apesar das diferenças de sotaque, ritmo e temperamento, ainda compartilhavam a mesma língua… e a mesma estante.

E assim ficou provado que a lusofonia é como uma boa biblioteca: cheia de vozes diferentes, mas todas a falar alto demais quando ninguém a está a ver.



Sanzalando

20 de janeiro de 2026

eu tentei arrumar a estante

Tudo começou quando eu tentei colocar "O Cortiço", do brasileiro Aluísio Azevedo, ao lado de "Os Maias", do português Eça de Queirós, na estante da minha sala.

Perto da meia-noite a estante tremeu. Os personagens de Eça, com seus monóculos e um certo tédio aristocrático, ficaram horrorizados com a barulheira e o calor que vinham do cortiço carioca ou como se diria no Porto, de uma Vila no Rio de Janeiro.

- Pelas barbas de D. Pedro! - exclamou o Conselheiro Acácio - Haverá decência nesse ajuntamento de gente suada?

João Romão, do livro vizinho, nem olhou para trás: 

 - Deixe de mesura, patrício! Aqui a gente trabalha para enriquecer, não para discutir o brilho das botas!

A confusão aumentou quando eu trouxe os angolanos e moçambicanos para a mesma prateleira. Coloquei "Terra Sonâmbula", de Mia Couto, perto de um dicionário da Porto Editora

Na manhã seguinte, o dicionário estava em choque. Mia Couto tinha inventado tantas palavras novas que o pobre dicionário sentio que estava a perder o emprego ou a roda da viagem.

- Isso não é português! - reclamava o Dicionário, rígido no seu grosso volume.

- Não é português, é portuguesar o mundo - respondeu um neologismo de Mia, saltando de uma página para a outra como um cabrito ou uma qualquer cabra de leque que africanamente não se sossega.

Enquanto isso, "A Geração da Utopia", de Pepetela, tentava organizar um comitê de libertação para os livros que estavam presos na seção de Autoajuda, por erro meu.

O cúmulo do caos aconteceu quando, por já não saber como organizar a estante, empilhei Guimarães Rosa em cima de José Saramago.

Foi o silêncio mais barulhento da história.

Saramago, dizem porém sem verdade, que recusava-se a usar vírgulas ou pontos finais para reclamar o peso. As suas frases de três páginas formavam um labirinto onde eu quase me perdi.

Guimarães Rosa, trazendo o modernismo da poesia brasileira a tiracolo, apenas observava, e quando respondia fazia-o num dialeto que misturava o sertão com o infinito: 

- Viver é muito perigoso, mas ler o senhor Saramago, é um despropósito de frases compridas! 

No fim do dia, percebi que a literatura lusófona não pode ser arrumada. Ela é uma festa na cozinha: o português de Portugal traz o vinho e a etiqueta, o Brasil traz a feijoada e o samba, Angola e Moçambique trazem o ritmo e a reinvenção da alma, e Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste chegam com a poesia que une o mar.

Desisti da ordem alfabética. Agora, organizo os livros por níveis de saudade.




Sanzalando

19 de janeiro de 2026

um dia, pelo menos, sem internet

Pouquinho que passava das 10 da noite e veio o apagão das comunicações. Assim num segundo se foi a televisão e a internet. Me disseram que o rooter deu o último suspiro e a televisão transformou-se num retângulo plastificado e sem alma. O silêncio que se seguiu foi tão denso que deu para ouvir os pensamentos. No início, houve o pânico: levantei-me, reiniciei o dito, sempre sobre a máxima informática, desliga e volta a ligar. Nada.

E foi aí, no meio desse "nada", que a vida decidiu ficar engraçada.

Sem o brilho hipnótico da Netflix, os olhos demoram uns minutos a ajustar-se à realidade. Descobri, por exemplo, que o meu cão não é apenas um adereço de sofá e não deu por nada.

Acendi luzes, peguei no livro e retomei a leitura que tinha parado a meio da tarde. Meia hora depois novo desliga e volta a ligar e nada. Assistência técnica. Primeiro um diálogo  teclado com uma máquina a dizer-me para fazer o que eu já tinha feito. E com a insistência dos meus NÃO, a máquina disse-me que iria encaminhar para um operador real. Um pouco de música e a voz simpática do lado de lá. Já não estava em diálogo virtual. Já fiz, disse eu a várias questões. Ok, amanhã ou depois irá um técnico até aí para ver o que se passa. Aguarde mais um pouco. A blá blá mas agora não podemos fazer mais nada. E assim estou sem internet, sem televisão e sem o mundo saber de mim. 

A maior surpresa, porém, foi a interação humana. Sem o escudo da televisão, fui forçado a olhar para a minha parceira. 

- "Então... parece que não há rede," disse eu, com a eloquência de um homem das cavernas. — "Pois não," respondeu ela. "Queres jogar às cartas ou preferes descrever-me o teu dia com adjetivos que não incluam emojis?"

Rimos. Rimos porque percebemos que estávamos a desaprender a falar sem o apoio de um desenho, de um boneco, de uma figurinha. Acabámos a inventar biografias fictícias sobre quem passava na estrada, criando uma novela mexicana em tempo real, só nossa, sem anúncios e com muito mais reviravoltas do que qualquer série da HBO.

O mais estranho foi o sossego. Não é a ausência de som, mas a ausência de urgência. O tempo esticou. Uma hora sem internet durou aproximadamente três dias úteis. E, num mundo que corre para lado nenhum, esse abrandamento é um luxo quase subversivo. Fui-me deitar mais cedo.

Acordei sem saber as últimas polémicas do Twitter, o que me tornou, automaticamente, a pessoa mais feliz num raio de cinco quilómetros. A vida sem Wi-Fi não é um regresso à Idade Média; é umas férias forçadas de nós próprios. E, honestamente? A comida tem melhor sabor quando não precisamos de a fotografar antes da primeira garfada.



Sanzalando

11 de janeiro de 2026

Na esplanada também há pastei de nata

Numa esplanada, na minha pequena cidade que não era mais pequena porque o mar trazia gente até ela, três pastéis de nata estavam na mesa, cada um o seu futuro mastigador, que, como quem não quer a coisa, os deixavam a arrefecer e filosofavam.

- Digo-vos já — começou o Um, olhando para o estaladiço e vaidoso pastel que até parecia o olhava - que nasci para ser conhecido, sem condimentos nem cunhas apesar de achar que a vida sem canela, pimenta ou gidungo, é vazia.

- Discordo — respondeu o Dois, mais babando-se no seu existencialismo. O verdadeiro sentido da vida é o equilíbrio entre a massa e o conteúdo. A canela, pimenta, sal ou gindungo são meros acessórios emocionais.

O  Três, que já tinha entretanto dado uma dentada indeciso, suspirou:
-Vocês falam porque ainda estão puros. Quando já se perdeu um bocado de nós, percebemos que o destino de todos é a solidão, o vazio, o insonso, a dieta pobre em quase tudo.

Entretanto, o empregado, que hoje não se chama Acácio, mas podia ser o Figueiras, aproximou-se com um café pingado.
- Então, meus senhores, estão prontos?

Os pastéis estaladiços crocantes aparentemente perderam a sua crocância e gelaram. Literalmente e metaforicamente.

- Eu ainda não fotografei o meu para o Instagram! — gritou o Um.
- Ninguém aprecia a minha complexidade interior, a utilidade de suprir o básico da existência! — lamentou-se o Dois.
- Ao menos que sejam rápidos — disse o Três enquanto devorava o seu. - Se este tivesse ao menos açúcar em pó, eu chamar-lhe-ia que nem um figo. Sempre quis saber como eram os pasteis da Metrópole..

O empregado, sem ouvir nada disto (como é hábito dos empregados), olhou-os e para a mesa ao lado. Um senhor de bigode sorriu, pediu uma nata e disse:
- Nada como um pastel de nata numa esplanada. A vida até parece melhor.

E parecia mesmo. Pelo menos durante duas dentadas e meia, enquanto o Um, o Dois e o Três se emudeceram por verem a rapidez como aquele estranho havia devorado o seu pastel, sem filosofias.



Sanzalando

10 de janeiro de 2026

pequeno almoço na esplanada

A esplanada estava cheia. De um lado, o Sr. João, de alcunha o Malcriado, um cliente de raiz que frequenta o local pelo menos desde que eu nasci, e acredita que o café deve custar 50 centavos para sempre. Do outro, o Acácio, um empregado novo que decidiu aplicar técnicas modernas de atendimento.

Acácio aproxima-se com um bloco de notas e um sorriso de quem leu todos os manuais de hospitalidade. 

- Boa tarde, senhor. Bem-vindo à nossa experiência sensorial. Posso oferecer-lhe a nossa carta de infusões botânicas ou prefere explorar a nossa seleção de grãos de origem única com notas de avelã tostada e solo vulcânico?

O Sr. João, de alcunha o Malcriado, olha para o rapaz como se ele estivesse a falar chinês. 

- Ó filho, deixa lá o vulcão em paz. Quero uma bica curta, bem escaldada a chávena, que até pode ser no vulcão, e uma torrada com muita manteiga a derreter que nem lava a escorrer. Mas muita mesmo, que eu não quero uma torrada, quero uma esponja amarela fumegante.

Acácio suspira, mantendo o profissionalismo:

- Com certeza. Informo apenas que a nossa torrada é feita de pão artesanal de fermentação lenta (48 horas), com manteiga biológica de vacas de pasto, finalizada com cristais de flor de sal.

- Quarenta e oito horas para fazer um pão? - pergunta o Sr. João, de alcunha o Malcriado, chocado. - O padeiro trabalha em câmara lenta ou está maneta? E guarda o sal para as batatas, eu quero é gordura e sem flores! Pensas que eu sou quê?

Dez minutos depois, Acácio está de volta. Traz o café numa chávena de design minimalista (sem asa) e a torrada... bem, a torrada era uma estrutura arquitetónica. Três fatias de pão escuro, empilhadas, com uns raminhos de alecrim por cima para decorar.

O Sr. João, de alcunha o Malcriado, olha para a mesa. Toca na chávena e queima os dedos, já que não havia asa. 

- Mas o que é isto? Onde é que se agarra esta geringonça? Agora fazem chávenas com a asa para dentro? É para beber ou para fazer um transplante de pele?

- É uma peça ergonómica, senhor - explica Acácio - Foi desenhada para que a mão sinta o calor da bebida em comunhão com o espírito.

- O meu espírito está a ficar com bolhas e está aqui está a rebentar! — grita o Sr. João, de alcunha o Malcriado. - E este mato em cima do pão? Eu pedi uma torrada, não pedi para o meu pequeno-almoço vir decorado com o jardim da rotunda nem com o matagal da virgem!

Nisto, passa uma pomba, a verdadeira dona das esplanadas. Com uma precisão de sniper, a pomba faz o que as pombas fazem, acertando precisamente no topo da arquitetura de pão artesanal de 48 horas de fabrico.

O silêncio instala-se. Acácio fica pálido. O Sr. João, de alcunha o Malcriado olha para a torrada, olha para a pomba e depois para o empregado.

— Olha, Sr.... ( os três pontos são para serem substituídos por todas as palavras do vernáculo português, inglês ou chinês - diz o sr. João, de alcunha o Malcriado, com os olhos a saltarem da cara. - Podes levar a conta para a... (continuam as palavras vernaculares conhecidas e outras que não cabem na imaginação).

- Mas senhor, eu posso trocar a torrada! Foi um acidente biológico! - disse Acácio que aprendera na escola que a paciência e a calma eram uma virtude.

- Não vale a pena — responde o Sr. João, de alcunha o Malcriado, levantando-se. A pomba foi a única que percebeu o que faltava aqui.

— O quê, senhor?

— O molho. Pelos vistos, até os pássaros acham que este teu pão de 48 horas estava um bocado seco.


Sanzalando

9 de janeiro de 2026

O James Bond da Esplanada

A minha cidade não era movimentada, nem se pode dizer que ela mexia com os nossos nervos. Era assim mais uma teste de paciência e de solidão intervalada por um carro ou outro que passava. Mas tinha uma menina, que vou chamar de chamada Sofia, que tinha um talento especial para transformar os encontros mais comuns em situações hilariantes. Ela era divertida, bonitinha, um pouco desastrada e até desconcertada da cabeça.

A sua última aventura começou com um encontro ao acaso com um desconhecido chamado Leopoldo. Uma amiga de Sofia tinha-lhe dito que ele era culto, inteligente e e até dava para fazer um filme de James Bond. Sofia imaginou um homem alto, moreno e misterioso, talvez um pouco como um intelectual e chato, e por isso não ocupou espaço na sua memória.

Uns dias depois, na esquina da pastelaria habitual, ela com a sua saia rodada, gasta de tanto usar, olhou e viu, sentado na esplanada um jovem de óculos, com um pulóver de malha, corte fino e um livro de poesia na mão. Ele olhou e pensou que aquela figura não era definitivamente o tal que podia ser o James Bond, mas tinha uma cara diria simpática.

Sentou-se na mesa ao lado. Pediu o seu café e olhando para ele:

- Leo qualquer coisa? ela perguntou.

Ele se levantou-se, estendeu-lhe a mão perguntou:

- Poldo, Leopoldo. E tu?

E sentaram-se e aquele, ao acaso encontro, começou razoavelmente bem. Conversaram sobre livros, viagens e até sobre a paixão de Leopoldo por puzzles. 

O empregado trouxe o café de Sofia. Num momento de distração, enquanto gesticulava sobre sua aversão a já não sei o quê, Sofia derrubou acidentalmente o café, que voou por toda parte, cobrindo a mesa, o pulóver e partindo a chávena ao bater no chão .

- Ai, meu Deus! Desculpe-me, desculpe! - Sofia exclamou, pegando em guardanapos para tentar limpar a asneirada.

Leopoldo, em vez de ficar chateado, começou a rir. 

- Não te preocupes - disse - Pelo menos agora cheiro a café.

Sofia não conseguiu evitar rir também. 

- Se tivesse posto açúcar poderia dizer que pelo menos tinha adoçado o teu dia. - disse Sofia sorridente com um pequeno tremelique na voz.

Apesar do incidente cafeinado, o encontro continuou e tornou-se cada vez mais divertido. Eles descobriram que tinham um humor semelhante e, mesmo que Leopoldo não fosse o James Bond que ela tinha imaginado, ele era muito mais autêntico e engraçado.

Quando a noite chegou, Leopoldo acompanhou-a até a porta de casa. 

- Apesar da chuva de café, eu realmente passei uma tarde agradável - disse ele sorrindo.

- Eu também - disse Sofia - prometo que se houver uma próxima vez, eu tento não transformar-te nem te baptizar

Leopoldo riu. 

- Não te preocupes, eu gosto de ser vítima. Que tal um reencontro na próxima semana? Talvez num lugar onde não haja café nem açúcar para ser derramado.

Sofia sorriu. 

- Eu adoraria e acaso ditará - disse Sofia sorridente

E assim, Sofia, com sua propensão para o caos adorável, encontrou alguém que não apenas tolerava seus pequenos desastres, mas achava-os engraçados. E Leopoldo, o James Bond intelectual, com um amor por puzzles, descobriu que Sofia era uma adolescente com tudo mas menos chata que as que normalmente o rodeavam. 



Sanzalando

30 de dezembro de 2025

a estrela do mar

Me disseram que no fundo do oceano azul, os corais são coloridos e dançavam suavemente com a corrente. Tem peixes de todas as cores que nadavam alegremente e até tem estrela-do-mar. Será que estrela do mar também sonha?

Acho mesmo ela pensa em voar, não no ar de todas as gravidades, mas ela voa no mar.

Claro que as estrelas-do-mar não voam. Elas nem sequer nadam muito bem. Mas quem passa horas a olhar os peixes e as tartarugas, imagina como seria sentir a água a passar rapidamente por seus braços, elevando-a em direção à superfície. Será que estrela do mar tem imaginação?

Se ela pensa e tem imaginação, então ela vai pensar "eu nunca vou ser assim", enquanto olha os peixes.

Mas se ela tem pensamento e imaginação então eu vou dizer que o mar tem espírito e pode fazer-lhe  voar.

Aí ela vai-me dizer que é imaginação minha porque estrelas do mar ão voam, não têm pensamento nem imaginação.

Mas se calhar o mar tem mesmo espírito e pode não pensar que nem eu. Voar não precisa ser com asas, não precisa ter ar, basta ter liberdade. Se a estrela do mar tiver inspiração ela vai ter liberdade de voar por entre correntes, ondas e marés.

É, tem coisas entre mim e o mar que nem vou conseguir explicar. Eu sou uma estrela do mar. Eu voo, eu quase posso tocar o céu


Sanzalando

16 de dezembro de 2025

e eu tive Natal, muitos

Eu não ligo ao Natal. Nada de confusões, não ligo porque não tenho o número. Tenho o do Natalino, do Dr. Jesus, o de Maria Madalena, minha mãe, mas não tenho o do Natal. Porém, todavia e por causa das coisas eu já passei por muitos natais que é o mesmo que dizer eu já tive muitos Natal, porque afinal o Natal é só um e só acontece uma vez por ano. Por isso a minha estória foi passada num desses que eu passei lá na terra.

Era véspera de Natal no deserto, um lugar onde o céu estrelado brilhava forte, mas a neve era apenas uma história contada por viajantes, livros e filmes. A areia ainda guardava o calor do dia, e o vento soprava suave, desenhando ondas douradas ao redor.

No oásis havia uma pequena aldeia e as pessoas se reuniam à volta duma fogueira. Em vez de pinheiros cobertos de branco, havia árvores, cujo nome nunca perguntei, enfeitadas com a luz da lua. As crianças não usavam casacos pesados, mas corriam descalças, rindo, com os rostos iluminados pelo fogo.

Naquela noite, uma família preparava a ceia. Não havia peru nem rabanadas, mas pão quente, tâmaras doces e leite de vaca. A minha avó contava que o Natal não precisava de frio para ser verdadeiro, precisava de partilha. Cada pessoa trazia algo simples, e tudo se tornava abundante quando colocado no mesmo tapete que servia de toalha.

Quando a lua cheia subiu alta, mesmo por cima de nós, um viajante chegou cansado. Trazia pouca bagagem e muita sede. Sem perguntas, oferecemos-lhe água e comida. Ele sorriu e contou que vinha de longe, seguindo uma estrela que parecia mais brilhante naquela noite. As crianças olharam para o céu e, pela primeira vez, repararam numa luz diferente, tranquila, quase acolhedora.

Sentados na areia, ouviram histórias de esperança, de recomeços e de um menino que nascera há muito tempo para lembrar o mundo do amor. O silêncio do deserto envolveu todos, como um abraço.

E assim foi o Natal naquele lugar onde não neva e sem frio, sem gelo, mas cheio de calor humano. Porque, mesmo no deserto, quando há partilha, acolhimento e luz, é Natal.



Sanzalando

13 de dezembro de 2025

eu e a couve-flor

O sol estava com as forças fracas, próprias de um outono quase inverno e das 9h da manhã, eu era portador de um optimismo primaveril. Era hora de eu ir ao Mercado Municipal, levando um saco de ráfia ou coisas parecida, que tinha um desenho suspeito de uma abelha com óculos de sol.

O primeiro objectivo era simples: comprar uma couve-flor quase perfeita.

- Bom dia,! Cedo hoje, hein? - cumprimentou-me o Sr. Juvenal, o homem da segurança, com um sorriso sonolento.

- Cedo, sim, Juvenal. A caçada à Brassica oleracea exige pontualidade. - respondi com a seriedade de um general prestes a entrar em batalha e mostrando toda a minha cultura que não é agrícola.

Ao entrar no mercado, mergulhei imediatamente no caos vibrante. O ar cheirava a terra fresca, coentros, e um leve toque de desespero matinal.

A primeira paragem foi na banca do Tiago, o verdadeiramente conhecido por ter o melhor repolho e o humor mais azedo da região.

- Tiago, não há couves-flores que prestam? - disparei inspecionando uma que parecia ter levado um soco.

Tiago, sem tirar os olhos do que estava a fazer, murmurou: 

- Estão ali, perto das abóboras. Não reclame, o preço está nas alturas. Culpa do tempo, dos impostos, e do meu gato que não me deixa dormir.

Suspirei. Eu sabia que o Tiago inventava histórias. Na semana passada, a desculpa foi o stress pós-traumático de uma beterraba estragada.

Dirigi-me à pilha de couves-flores, onde me deparei com sua arqui-inimiga matinal: Dona Euredice, estava a inspeccionar cada cabeça de couve-flor com a meticulosidade de um perito forense.

- Euredice! Que surpresa desagradável! Pensei que estivesse na sua casa, a meditar sobre a humildade, o reumático ou os netos que não tem - alfinetei.

Dona Euredice levantou uma sobrancelha, os óculos deslizando para a ponta do nariz:

- Meu querido. Estou apenas a garantir que esta couve-flor não tenha a mesma textura esponjosa que a sua moral. Ah, olhe! Esta aqui está perfeita!

Euredice pegou a couve-flor mais branca, mais firme e de aparência mais angelical da pilha.

Num acto de pura audácia e reflexo, estendi a mão para pegar uma segunda, igualmente majestosa, mas o cotovelo de um apressado bateu na minha sacola.

A couve-flor perfeita escorregou dos meus dedos e rolou acabando num estatelado e fragmentado.

Bem, não apenas rolou, ela ganhou impulso. Ela passou pelo pé do Tiago, que mal a notou. Ela curvou por cima de uma caixa de batatas-doces, desviou-se de um carrinho de compras e, com um toque dramático, escondeu-se sob a banca de pimentos coloridos, feita em fragalhos.

Larguei o saco, agachei-me, engatinhei, afastando as pernas das pessoas, ignorando os "Desculpe!" e "Cuidado, pá".

- Eu vi! Ela fugiu para perto do chuchus!", gritou um menino.

Dona Euredice, inicialmente chocada, agora estava a rir-se em silêncio.

Finalmente cheguei à banca dos pimentos. Olhei para o chão, mas a couve-flor não estava lá, o que estava lá eram pedaços de cérebro.

- Ei, pá, estás à procura de algum um anel de diamante? - perguntou o Sr. Domingos que vendia os pimentos, rindo.

- Perdi o meu futuro almoço! Ela... ela fugiu-me.

Nesse momento, uma senhora de chapéu grande inclinou-se, aponta para o lado e diz-me.

- Não fugiu, querido! Seu cérebro está fazendo um picado pelo mercado. Olhe lá a sujeira que fez!

Corri dali para fora, fui para a secção de pães, por outros corredores, e cheguei à seção de queijos, ofegante.

Lá estava uma tão bela Brassica oleracea, como a fugitiva branca, encostada suavemente num grande conjunto de queijos.

Peguei-a, abracei-a como se fosse um recém-nascido, uma pérola, uma pedra preciosa.

- És minha, não vai escapar de mim! Vou fazer-te em puré tão bom que o Tiago vai ter que admitir que errou nas suas inverosímeis desculpas. 

- Esta ida ao mercado hoje foi uma aventura. - disse Euredice que me olhava desde o início - Mas sugiro que lave essa coisa. Está com cheiro de Parmesão ou Estrela - continuou.

Sorri, segurando a couve-flor ligeiramente temperada com queijo.

- Prefiro pensar, Euredice, que ela apenas adquiriu um toque de sabor gourmet.

Afinal de contas eu fui ao mercado e cumpri com a minha missão


Sanzalando

12 de dezembro de 2025

Sabores do Mundo à Mesa

O convite dizia apenas: “Jantar em minha casa. Traz apetite e curiosidade.” Não mencionava dress code, mas percebi que era noite de aventura quando cheguei e senti, ainda no corredor, um perfume indecifrável — algo entre gengibre, manteiga quente e qualquer coisa que lembrava férias.

A porta abriu-se com a alegria de sempre, e lá estavam os amigos, cada um com o sorriso de quem já viaja há horas, embora ninguém tivesse passado da sala. A mesa era um mapa: tomates italianos conversavam com nacos mexicanos, enquanto especiarias indianas faziam uma dança silenciosa ao lado de uma travessa que, juro, parecia ter sido preparada por alguém que confundiu receita com poesia.

Começámos a provar, como quem visita cidades sem mapa, ao acaso. A primeira paragem foi Itália, bruschettas simples, mas tão boas que alguém comentou que deviam ser ilegais fora de Roma. Depois, Japão, numa salada tão leve que parecia ter sido feita para flutuar. México chegou em festa, com tacos que exigiam duas mãos e pouca vergonha. E Índia apareceu como sempre aparece na cozinha: deixando um perfume que fica na roupa, na memória e talvez na alma.

A certa altura, ninguém falava do prato que estava a comer. Falava-se da vez em que quase se perdeu um voo, da mãe que fazia bolo-bom, do medo de mudar de vida, do amor que foi e do que ainda pode vir. Descobrimos que, quando há sabores do mundo na mesa, as conversas também atravessam fronteiras.

No fim, enquanto a sobremesa francesa esperava pela devida atenção, alguém disse:
- Devíamos fazer isto mais vezes.

E era verdade. Não porque os pratos estavam perfeitos — não estavam, e talvez por isso mesmo estavam tão bons — mas porque ali, naquela mesa que parecia abarcar o planeta, percebemos que viajar não requer mala nem passaporte. Basta companhia certa, fome sincera e um punhado de especiarias.

Saí tarde, com o casaco a cheirar a histórias e a promessa silenciosa de que o mundo cabe inteiro num jantar entre amigos.

E se calhar é por isso que hoje há jantar do meu antigo serviço



Sanzalando

11 de dezembro de 2025

as pernas longas do tempo

Na minha cidade, feita de poeira e sem pressas, onde relógios brilham nos pulsos dos mais velhos, sem ansiedade impaciente, vivia um velho relojoeiro. Ele não consertava apenas engrenagens; ela ouvia o coração do tempo, até dos atrasados Cauny ou dos novíssimos Omega, dos simples aos cronômetros complicados.

Um dia, um viajante cansado, de fato cinzento e passos silenciosos, parou na porta da sua loja.

- Relojoeiro - disse o viajante, na sua voz que mais parecia com o sussurro da areia que caía numa ampulheta antiga - os meus sapatos estão gastos. Eu sigo as pernas longas do tempo, e elas nunca cansam, porém o meu relógio desde ontem que paralisou no tempo.

Ele mostrou o seu sorriso, sem largar a minúscula lente com que observava um velho relógio que também se cansara de circular ponteiros. 

- Ah, as pernas longas que o tempo tem, têm um alcance impressionante, não é?

O viajante melancólico disse que sim e continuou:

- Quando nasci, elas deram um passo. Um passo largo o suficiente para me tirar da infância num piscar de olhos, fazendo o quintal parecer subitamente pequeno. Pensei que o tempo estivesse a fugir para longe de mim.

- Muitos pensam - murmurou o relojoeiro sem tirar os olhos do tempo parado do velho relógio que tentava recriar.

 - Mas eu observei - continuou ele - e percebi que não era a velocidade. Era a escala. Em momentos de alegria, ou de espera angustiante, as pernas longas simplesmente se dobram. Elas dão um passo tão minúsculo que um único segundo se estica e se desenrola, revelando cada respiração, cada tom de cor. Um beijo pode durar uma vida, um adeus pode ser instantâneo.

O viajante olhou para a rua onde não passava ninguém e continuou:

- Agora, elas estão marcham rápido de novo. Levam as montanhas até o mar e transformam reinos em lendas antes que eu possa terminar um copo de água.

- E o que o assusta nelas agora? - perguntou o relojeiro, finalmente erguendo os olhos e largando a velha lente sobre a palma da mão que a esperava.

- O facto de que elas não têm direção - respondeu o viajante - Elas andam para a frente, mas também para trás, trazendo de volta memórias com tanta vivacidade que o passado se torna presente. Elas não me levam apenas para o futuro; elas carregam tudo. E quando elas derem o passo final de uma vida, eu me pergunto, onde elas pisarão a seguir?

O relojoeiro pousou as ferramentas, ouviu-se um clique suave do metal e disse:

- Este já tiquetaqueia de novo. Meu caro - disse ele, apontando para o coração pulsante de um relógio de pêndulo - as pernas longas do tempo nunca param. Elas não caminham sobre a poeira da Terra; elas caminham sobre o significado que damos a cada momento. Quando o seu tempo terminar, as pernas longas do tempo não desaparecem. Elas simplesmente dão o passo mais longo de todos, aquele que transforma a sua vida em história. E então, elas começam a marchar através da memória de quem fica.

O viajante sorriu pela primeira vez. 

- Então, as pernas longas do tempo são na verdade as pernas da eternidade disfarçadas?

- Não - disse o relojoeiro piscando os olhos - São apenas o ritmo da vida. Cabe a nós decidir se o próximo passo é uma corrida ou uma dança.

O viajante saiu, e o relojoeiro ouviu o passo constante e interminável das pernas longas do tempo, como se fosse um concerto de melodia tiquetaquizada  infinitamente.



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