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25 de outubro de 2019

a minha lenda de imbondeiro


E era uma vez, faz 500 anos, segundo uns e para outros faz apenas 200, caiu este enorme imbondeiro duma das muitas ilhas e ilhotas de Zanzibar. Eu para trepar para o corpo deitado dele vi-me e desejei-me. Me lembrei dos meus tempos de criança, em que, com a agilidade e a vontade, eu arranjava maneira de lá chegar, ao cimo do velho corpo deitado no seu secular descanso. Cansado fui admirando cada reentrância, cada cicatriz, cada nó. Havia lagos nos seus buracos. Eu nunca tinha trepado num imbondeiro. Os meus braços nunca teriam comprimento para o abraçar e me pôr num imbondeiro. O meus sonho estava tornado realidade. Eu subi num imbondeiro. Ele estava deitado, é verdade, mas lhe subi sim. Mastodonte mesmo. Lá de cima eu me senti o rei. Eu era o Rei daquele instante. E dele partia como ramo um imbondeiro novo, majestoso como todos os outros imbondeiros. Este era especial. Era um imbondeiro que nascera dum sobrevivente tombado mas com vida. 
Quantos piratas ele tinha visto, daquela posição, de cima do dorso dum imbondeiro? Ele tinha uma vista privilegiada, um alcance que nem um farol. E o imbondeiro deve ter memória de elefante. 
Lá, sentado no corpo deitado do imbondeiro, junto ao imbondeiro que lhe nascera eu ia receber todas as estórias que ele tinha para me contar, todos os barcos que ele vira passar. 




Sanzalando

23 de outubro de 2019

Zanzibar

O zulmarinho hoje era transparente, da cor das minhas lágrimas. A saudade já está instalada, o calor da minha terra está recordado. Hora de volta.

21 de outubro de 2019

deixem-me ir

Torreira do sol. Meu corpo boia sobre as ondas do mar quente. Horas demolhadas neste zulmarinho, turquesa, celeste, esverdeada num baloiço de ondas minorcas. Deixem-me ir neste sonho de ser criança outra vez enquando tiver noção de que vale muito ser igual a mim, sem vírgula ou pontos de interrogação. 

Sanzalando

20 de outubro de 2019

a gente vai de lembrança

Faz sol que nem o sol do outro lado. Me custa respirar ar quente. Faz tempo deixei de fumar e este tempo me veio lembrar a dificuldade de respirar que eu sentia. Me deixo levar de lembrança em lembrança até ao tempo em que era criança. As mangueiras, os tamarindos, as castanhas e os imbondeiros. As minhas palmeiras eram pequenas, não como estes coqueiros. Os meus amigos eram muitos, se fosse hoje eram o tamanho duma lista telefónica. Eu sabia escutar, ouvir atentamente, sem dizer certo ou errado. Ouvia e ajudava, lugar de amigos. Eu era criança, eu sou criança no coração da amizade. Eu me deixo ir de lembrança em lembrança até ao zulmarinho de menino.

Sanzalando

18 de outubro de 2019

tropicalmente chove

E faz conta o céu caiu em forma de muita água. Instantaneamente diluviou aqui. Eu caminhava junto deste zulmarinho paralelo ao outro zulmarinho. O sol voltou e com ele aquele brilho de luz que nem dava para olhar. Olhos fechados a adivinhar o caminho. Um coral, uma concha, tudo era lugar para tropeçar. Semicerrados os olhos o brilho era intenso. 
Ah, eu estava a olhar para dentro de mim, porque afinal continuava a chover.

Sanzalando

17 de outubro de 2019

Na praia

Me deitei numa esteira no meio da praia. Eu, o mar e o sol. Também estava um bocado de vento. De tarde estás á espera mais do quê?
Acho levitei no meio dos meus pensamentos. Eu senti a brisa como fosse asa de avião. Subi para lá de mim e me olhei. Eu regressei a mim, revi a minha essência, reconhecimento próprio. É África em mim e eu em África.
O que faz o sol...

16 de outubro de 2019

Num mar diferente

Me olhei no espelho e me imaginei eu do outro lado. Eu era o reflexo e o reflexo era eu. Pensei que o meio caminho da loucura tinha chegado. Me afastei e me olhei num repente, e eu era o reflexo, o medo de ser irreal, imaginário, a fraude, a falsificação de mim. Me sentei. Eu vou no kimbanda, me soliloquei. Professor Karanka me ajuda, pedi baixinho. Peguei num avião, daqueles que voam contra as leis da física, grandes, pesados, abarrotados de consciência pesada e fui na mãe. África. Diferente. Hoje eu sou diferente mas preciso da água, do ar, do sol e do perfume da mãe.
Hoje, nas águas do Índico me lavei, esfregando a alma com areia que um dia o vento trouxe e deixei de ter medo. Nem que seja enquanto estou aqui.
Hoje, depois duma chuva que deixou a roupa pesada e perfume de terra, eu sou feliz.

Sanzalando