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27 de outubro de 2026

Em memória de um amigo, aprendiz de sonoplasta e pianista dos Mini-Nota

Tem pessoas que tocam na nossa vida e deixam marcas que o tempo não consegue apaga como o Ermelindo Sena, que, mesmo sendo tímido por natureza, deixa uma presença que continua a fazer-se ouvir depois de se calar.

Conheci o Ermelindo na década de 70, quando foi meu aprendiz de sonoplasta no Rádio Clube de Moçâmedes. Eram tempos de rádio, de experiências, de descobertas e de sonhos. A rádio tinha os seus mistérios, os seus botões, os seus microfones e aquela magia de transformar sons em emoções. E o Ermelindo foi aprendendo a dominar esse mundo, com a paciência de quem não precisava de levantar a voz para mostrar que estava presente. Aliás, tinha vezes que ele falava e ninguém lhe ouvia. A timidez ficava-lhe com o som e deixava passar o sorriso. Era tímido, sim. Daquela timidez genuína, que não se aprende nem se representa. Uma timidez que, por vezes, o fazia falar pouco, mas que não o impedia de sentir muito. 

E depois havia o piano. O Ermelindo era pianista dos Mini-Nota. Quer dizer organista porque ele tocava era órgão que tem o som de piano mas não é piano. Acho tem um circuito lá dentro, tipo gente minúscula que toca tudo. E talvez seja essa uma das mais bonitas contradições da sua personalidade, o homem que a timidez convidava ao silêncio encontrava na música uma maneira de dizer aquilo que as palavras, tantas vezes, não conseguiam exprimir.

Ao piano, os dedos falavam por ele. As notas ganhavam voz, as melodias abriam caminhos e aquele puto discreto mostrava-nos que a sensibilidade nem sempre se anuncia. Às vezes, sentava-se diante de um teclado e deixava que a música faça o resto que lhe faltava.

Hoje, a notícia da sua morte traz-nos uma tristeza difícil de traduzir. Depois de uma doença prolongada, o Ermelindo partiu. E, perante a partida de alguém que conhecemos desde tão longe, percebemos como a vida tem esta maneira cruel de nos devolver ao passado, revemos rostos, recordamos conversas, escutamos sons que julgávamos esquecidos e encontramos, dentro de nós, pessoas que nunca deixaram verdadeiramente de estar presentes.

Volto, por isso, à década de 70. Volto à rádio, ao aprendiz que procurava aprender, ao companheiro de jornada, ao pianista dos Mini-Nota. Volto a um tempo em que talvez não soubéssemos que aquelas horas, aparentemente tão comuns, haveriam de se transformar em memórias tão preciosas.

Na altura, tínhamos o futuro pela frente e não imaginávamos quantas despedidas íamos ter pela frente. Vivíamos sem pensar demasiado no fim das coisas, porque a juventude tem essa generosidade: faz-nos acreditar que haverá sempre mais um programa, mais uma música, mais um encontro. Mas a vida não nos concede todas as repetições que desejamos.

Hoje, Ermelindo, não posso ensinar-te mais nada sobre sonoplastia. Também já não podemos conversar sobre a música, sobre os sons ou sobre os silêncios. O teu percurso chegou ao fim, e custa aceitar que alguém com quem partilhámos uma parte da vida passe a existir apenas na lembrança.

Mas há uma coisa que a morte não consegue fazer que é apagar aquilo que vivemos.

Continuas presente nas memórias de quem te conheceu, na história dos Mini-Nota, nos sons de uma época e, muito particularmente, na minha própria história. Foste meu aprendiz, mas a passagem dos anos ensinou-me que estas relações nunca têm apenas um sentido. Quem ensina também aprende. E quem acompanha alguém no início de um caminho acaba por receber, muitas vezes sem dar por isso, lições que guarda para sempre.

A tua timidez nunca foi ausência. Foi apenas outra maneira de estar no mundo. E talvez seja por isso que a tua partida nos deixa agora um silêncio tão grande.

Descansa em paz, Ermelindo Sena.

Que a música te acompanhe nesta última viagem. Que encontres a serenidade que mereces. E que, onde quer que estejas, haja sempre um piano à tua espera e alguém disposto a escutar. Hoje, a rádio perde uma pessoa discreta, a música perde um pianista e eu perco alguém que fez parte da minha história. Fica a saudade. Fica a amizade. Fica a memória de um tempo que já não volta, mas que continuará vivo enquanto houver quem o recorde. E, quando o silêncio parecer demasiado grande, talvez possamos fechar os olhos e imaginar que o Ermelindo voltou a sentar-se ao piano.

E que, por instantes, a música nos devolve aquilo que a vida nos levou.

Até sempre, Ermelindo.


Sanzalando

25 de outubro de 2026

Há dias em que na rádio tudo conspira contra nós

Há dias em que trabalhar na rádio é uma experiência espiritual. Não porque nos aproxime de Deus, mas porque nos faz chamar por Ele com uma frequência que nem o melhor transmissor consegue captar.

Começa logo na montagem do material. Chegamos com a boa disposição de quem acredita que vai salvar o mundo. Cumprimentamos os colegas, ligamos os equipamentos e preparamos o programa com rigor.

Afinal, anos de experiência ensinam-nos que, na rádio, como na medicina, não basta saber o que se vai fazer. É preciso que os instrumentos colaborem. E é aí que começa a tragédia. O microfone não funciona. Os auscultadores só dão som de um lado. O computador decide actualizar-se precisamente quando precisamos de abrir a aplicação. A mesa de mistura, que ontem era uma senhora respeitável, hoje comporta-se como uma adolescente malcriada.

Carregamos num botão e desaparece o som. Carregamos noutro e aparece um ruído que mia parece uma manada de térmitas a trabalhar.

- Está tudo bem? — pergunta o colega, com aquela serenidade irritante de quem ainda não percebeu que estamos a dois minutos de entrar em antena.

- Está óptimo! — respondemos, com um sorriso que mais parece uma ameaça, escondendo uma vontade enorme de nos esganarmos.

É então que descobrimos que a entrevista que preparámos cuidadosamente não está assim tão fácil. O convidado chega em cima da hora. O telefone toca, mas ninguém sabe onde está o telemóvel que deveria atender a chamada. E a música de abertura sai colada a uma m~usica que temos pensa de interromper. A rádio tem destas coisas. Quanto mais preparados estamos, mais empenhada parece em demonstrar que a preparação é uma forma de optimismo excessivo. E chega a hora de entrar em directo. Acende-se a luz vermelha. Respiramos fundo. Endireitamos as costas. Aproximamos a boca do microfone e assumimos aquela voz segura, grave e confiante, própria de quem sabe exactamente o que está a fazer.

- Boa tarde daqui da Meia-Praia... - só que é noite e a praia é a de Alvor. A cabeça faz piruetas, o buraco da agulha não está à mão de semear e o frio transforma-se numa enorme transpiração que até parece fazer nevoeiro à volta do resto do pensamento

Nesse preciso instante, decidimos continuar a falar embora desejemos que falhe a luz ou a internet. Afinal, a rádio também é uma questão de fé. Talvez os ouvintes ainda nos escutem. Talvez o sinal tenha seguido por caminhos misteriosos. Talvez exista uma antena escondida no céu, alimentada pela boa vontade dos profissionais da comunicação entretanto falecidos.

Do outro lado nós, o que também fazemos de técnico, fazemos gestos desesperados. Pareço um árbitro a tentar anular um golo. Mantemos a dignidade, porque um locutor pode perder o som, o alinhamento e até a paciência, mas nunca deve perder a pose. Mas a emissão continua

O microfone de quem está a meu lado chia, range, faz ruído por cima da voz dela. Equalizo. Nada. Tiro ganho. Nada. Mudo de microfone. O ruído está lá para me irritar. Carregamos nos botões. Dá vontade de interromper e deixar um silêncio no ar. Mantenho a compostura. Vai assim e depois pensarei. Naquele momento, também nós precisávamos de desentupir qualquer coisa: a mesa de mistura, o computador ou, de preferência, a cabeça. O mais extraordinário é que, no final, tudo acaba por correr razoavelmente bem. Os convidados chegaram, a conversa correu fluente e até o computador parece ter recuperado a educação, a mesa reeducou-se e os microfones estavam quase perfeitos. Só mesmo aquele lugar ao lado de mim...

E quando saímos, alguém me pergunta:

- Então, como correu o programa?

Respondo com a tranquilidade dos grandes profissionais:

-Correu muito bem!

Porque há verdades que não precisam de ser transmitidas em FM. A verdade é que, nesses dias, a rádio ensina-nos uma lição preciosa: o directo não é a arte de fazer tudo bem; é a arte de impedir que os outros percebam tudo o que correu mal. E talvez seja precisamente isso que nos faz gostar tanto disto.

A rádio é feita de vozes, música, histórias e imprevistos. É feita de pessoas que, mesmo quando tudo falha, encontram maneira de continuar. Afinal, o ouvinte não tem culpa de o computador estar a viver uma crise existencial ou de o microfone ter decidido entrar em greve.

E amanhã voltaremos. Com a mesma vontade, a mesma paixão e, se possível, um cabo suplente no bolso. Porque na rádio há dias em que tudo corre mal. Mas há uma coisa que continua a correr bem: a vontade de voltar a abrir o microfone. Só não prometemos que seja o microfone certo.


Sanzalando

21 de outubro de 2026

sonhos de mar

Tem dias que o mar é mais azul que outros dias em que me parece é verde. Os meus olhos me atraiçoam? Os cientistas explicam. Eles sabem tudo e quando não sabem vão no laboratório e investigam até concluírem que a conclusão não tem fim ou acabou ali. Mas eu estava a falar de mar e já me ia perdendo no laboratório com uma qualquer pipeta ou tubo de ensaio. Esse mar, esse que não tem rio que vai dizer é fronteira, que não tem muro e não te vai dizer aqui não passas. Ele é uma planície que às vezes se revolta e te arrasa, enquanto outras vezes é um chão que até parece é ringue de patinagem. E os peixes. Que opinião têm eles desse mar? Já alguém lhes perguntou? Tem mariquita, cachucho, peixe que é espada e tem outros miles que não sei que fazem a não ser nadar o dia inteiro. Peixe chora? Como pode ser a lágrima do peixe se a minha é salgada?

É o mar e os seus segredos. Um dia vou fazer um barco e vou entrar nele e navegar até não ver terra e sonhar que eu sou um peixe. Espera aí? Já tem gente que fez isso e eu não ia gostar de estar ali sem ver ninguém, só mar à volta. Não, deixa-me estar aqui sentado a lhe olhar. Zulmarinho. É esse mar. Zulmarinho. Porque mesmo quando é verde ele tem tons de azul. Se eu soubesse usar águarela eu ia pintar tudo de zulmarinho. Ele é tão grande mas não tem capacidade de dissolver os meus sonhos. O mar me dá sonhos.



Sanzalando

15 de outubro de 2026

hoje ela faz anos

O meu amor faz anos.

É um dia importante. Para ela, porque soma mais um ano à sua existência. Para mim, porque tenho de demonstrar que me lembro da data sem consultar o calendário do telemóvel, o que, nos dias de hoje, constitui uma prova de amor quase equivalente a atravessar o deserto do Namibe a pé, sem água e sem reclamar. Felizmente, lembrei-me. Há uma diferença entre um homem que se lembra do aniversário da mulher e um homem que recebe sinais de fumo, mensagens subliminares e perguntas aparentemente inocentes como: 

- Sabes que dia é amanhã?

Se respondermos imediatamente, somos uns queridos. Se hesitarmos dois segundos, começa a investigação criminal.

-  Não te esqueceste de nada, pois não?

Esta pergunta, feita com um sorriso, tem a mesma tranquilidade de um cirurgião que pergunta ao colega se trouxe o bisturi certo. Sabemos que alguma coisa pode correr mal.

O problema dos aniversários é que o amor não se mede em presentes, mas o presente errado pode obrigar-nos a rever toda a teoria. Flores? São bonitas, mas morrem depressa. Perfume? E se ela disser que prefere outro? Um vestido? Seria preciso ter coragem, conhecimentos de moda e uma fé inabalável na própria capacidade de avaliar tamanhos. Dar dinheiro dentro de um envelope? Isso não é romantismo, é uma transferência bancária com sentimentos.

Resta o jantar romântico. Uma solução aparentemente segura, desde que o restaurante seja bom, a mesa esteja reservada e eu não me lembre de contar aquela história que já contei dezassete vezes. Porque o amor tem destas coisas: ela conhece-me tão bem que, por vezes, basta eu abrir a boca para ela saber como termina a frase. E, se começo com Sabes o que me aconteceu uma vez…, o olhar que recebo informa-me de que a história já foi ouvida, catalogada e arquivada.

Mas hoje é o dia dela. Hoje, prometo ouvi-la com atenção, concordar com elegância e não discutir a temperatura do ar condicionado. Prometo dizer-lhe que está bonita, mesmo que me pergunte isso quando estamos atrasados para sair. Prometo não transformar uma ida às compras numa expedição científica e não perguntar se precisamos mesmo de comprar aquilo que ela já tem na mão. Promessas, como se sabe, são fáceis de fazer. Cumpri-las é que exige uma longa experiência de convivência conjugal. E, no entanto, há uma coisa que não precisa de promessa: continuo apaixonado.

Não necessariamente da mesma maneira que no princípio. Nesse tempo, o coração batia desordenadamente, a voz tremia e um simples olhar dela provocava-me uma desorganização interna que nenhum médico conseguiria explicar sem recorrer à cardiologia. Hoje, o coração bate com mais prudência, a voz já não treme tanto e os olhares dela continuam a provocar alterações significativas nos meus sinais vitais. A diferença é que agora também tenho de me lembrar de comprar pão, despejar o lixo e deixar arrumada a cozinha.

O amor amadurece. Aprende a partilhar o silêncio, a reconhecer os dias difíceis, a rir das pequenas desgraças e a perceber que a felicidade nem sempre chega embrulhada em papel bonito. Às vezes, aparece de robe, pergunta o que vamos jantar e avisa que deixei a luz acesa na casa de banho. E é precisamente aí que mora o milagre. Entre as zangas que passaram, as gargalhadas que ficaram, as preocupações divididas e os planos que fomos inventando, construímos uma vida. Não perfeita, porque a perfeição seria insuportável e provavelmente muito cara. Mas nossa.

Por isso, hoje, no dia em que o meu amor faz anos, quero celebrar a mulher que é, a menina que ainda guarda dentro de si e a companheira que continua a aturar este rapaz que, apesar da idade, ainda acredita que tem sempre razão. Sobretudo quando não tem.

Quero desejar-lhe muitos anos de vida, muita saúde, muitas alegrias e paciência. Muita paciência. Não por causa da idade, evidentemente, mas por minha causa, que sou uma pessoa de trato relativamente fácil, desde que ninguém me contrarie ou provoque.

E quero agradecer-lhe por continuar aqui, ao meu lado, a fazer com que os dias tenham mais sentido e as noites menos solidão. Afinal, os anos passam para os dois. Os cabelos mudam de cor ou desaparecem misteriosamente, e o espelho começa a mostrar um senhor que, por razões que desconheço, insiste em vestir-se como eu. Mas há coisas que o tempo não consegue levar. A cumplicidade. A ternura. A vontade de rir juntos. E aquele sentimento extraordinário de olhar para a pessoa que amamos e pensar: Era mesmo contigo que eu queria envelhecer.

Hoje, portanto, o meu amor faz anos.

Ela recebe os parabéns, o bolo e os beijinhos. Eu recebo a oportunidade de continuar a gostar dela. E, convenhamos, há aniversários em que o maior presente não é o que damos. É a sorte de ainda termos alguém a quem dá-lo.

Parabéns!

E não te preocupes com a idade. A idade é apenas um número. Embora, no nosso caso, já seja um número que convém não dizer muito alto… porque os vizinhos podem ouvir e começar a fazer contas!

Hoje, amanhã e enquanto me lembrar onde pus os óculos vou gostar muito de ti. O que, espero eu, seja por muitos e bons anos.




Sanzalando

10 de outubro de 2026

Me calo em três temas. Religião, política e futebol.

Me ponho à conversa. Falo disto e daquilo. Me calo em três temas. Religião, política e futebol.

Há um dogma antigo, trespassado em tom de aviso solene por tias, primos e empregados de mesa com anos de casa, que diz com todas as letras: Sobre política, religião e futebol não se discute.

Pois bem. Eu levei a lição tão a sério que fiz dela o meu refúgio e o meu mantra. Em qualquer jantar de grupo, ajuntamento familiar ou conversa de café ao fim da tarde, sou aquela figura exemplar que acena com a cabeça, sorri com benevolência universal e passa travessa do cozido com a destreza de quem manuseia porcelana fina. Olham para mim e pensam: Ali está um homem de paz, uma alma sem dogmas, uma mente leve que flutua acima das paixões terrenas.

Coitados. Se soubessem o vulcão de certezas absolutas que fervilha debaixo deste ar de monge franciscano, feito santo de pau carunchoso.

A verdade é que eu não sou isento; sou apenas um estratega do silêncio. Tenho sobre a política, a fé e a bola ideias tão redondas, bem formadas e afiadas que, se as pusesse em pratos limpos, a mesa de jantar transformava-se na Terceira Guerra Mundial antes do café.

No futebol, por exemplo, vejo pessoas a esganarem-se por causa de um fora de jogo de dois centímetros, a esbracejarem contra o ecrã do televisor e a insultarem os antepassados, os presentes e futuros do árbitro. Eu fico calado, a mastigar lentamente o meu croquete, rissol ou croassant. Mas, por dentro, o meu treinador interno já fez uma análise cirúrgica do jogo, identificou que a defesa está a jogar com o bloco demasiado alto, concluiu que o meio-campo não dobra os alas e já despediu o treinador três vezes antes do intervalo. Apenas não digo nada. Para quê estragar o croquete, o rissol ou o croassat?

Na política, a ginástica é ainda mais acrobática. Quando a conversa envereda pelos caminhos da governação, das ideologias e dos orçamentos, o ar da sala fica imediatamente denso. É ver quem grita mais alto para provar que o mundo está a cair aos bocadinhos. Eu limito-me a beber um gole de água, a olhar para o tecto com ar reflexivo e a soltar uma frase neutra e devastadora do género: Pois... é a conjuntura. Ninguém sabe o que significa, mas todos concordam. Ninguém desconfia que, na minha cabeça, tenho um plano de reestruturação socioeconómica tão perfeito e detalhado que resolveria o défice, a habitação e a carga fiscal antes do próximo trimestre. Simplesmente guardo-o para mim. O país ainda não está preparado para a minha clarividência.

E na religião? Ah, o terreno sagrado. Quando a discussão entra pelo mistério da fé, pelo cosmos e pelo destino das almas, eu recuso-me a entrar no debate de terço na mão ou de bandeira ateia ao vento. Contemplo o horizonte, dou um ar de profundidade filosófica e sussurro: O importante é sermos boas pessoas. Ganho a simpatia dos crentes, a aprovação dos agnósticos e a trégua de todos. Mal sabem eles que a minha teologia pessoal é um tratado de tal forma rigoroso e lógico que faria São Tomás de Aquino pedir uns dias para pensar.

O segredo não é a falta de convicção. É a poupança de energia.

Tenho a opinião tão bem formada, mas tão bem formada, que gastá-la numa discussão ruidosa entre a sobremesa e o digestivo seria um sacrilégio. Prefiro a posição confortável do observador silencioso. Enquanto o resto da mesa se debate entre cartões vermelhos, reformas fiscais e a existência do além, eu peço mais uma mousse de chocolate. Se há coisa sobre a qual a minha opinião é verdadeiramente inabalável, é que a tarte de maçã não é a minha preferida. E sobre isso, garanto-lhe, não há discussão possível.



Sanzalando

9 de outubro de 2026

Antes de inventarem a lusofonia, já eu ouvia música

Nos anos 70, do século passado, eu gostava de música lusófona. O problema é que ainda ninguém tinha inventado a lusofonia, o que me colocava numa situação bastante complicada: eu tinha gosto musical, mas faltava-me o nome científico para o justificar.

Hoje, é tudo mais fácil. Uma pessoa ouve música de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, do Brasil ou de Portugal e diz, com ar entendido: Tenho um gosto muito particular pela lusofonia.

Naquele tempo, se eu dissesse uma coisa dessas, arriscava-me a que me perguntassem se estava doente com paludismo e delirava, se tinha apanhado demasiado sol ou se precisavam de falar com o reitor para me mandar para uma consulta qualquer.

Nos anos 70, as coisas eram mais simples. Gostava-se de uma canção, gostava-se de um cantor, comprava-se um disco quando havia dinheiro e ouvia-se rádio até a família começar a ameaçar desligar o aparelho.

Eu gostava de música. E gostava particularmente daquela música que era de Angola, do Brasil, de Portugal e de outros lugares onde se falava português, embora ninguém tivesse ainda organizado a coisa numa grande família cultural, com congressos, seminários, discursos inaugurais e fotografias de grupo.

A música já se entendia muito bem sem precisar de reuniões diplomáticas.

Havia os Duo Ouro Negro, que levavam Angola para os palcos do mundo com uma naturalidade desconcertante. Havia vozes brasileiras que nos chegavam carregadas de ritmo, romantismo e uma capacidade extraordinária para nos fazer sofrer por amores que nunca tínhamos vivido. E havia a música portuguesa, que tanto nos punha a cantar como nos deixava a olhar para o horizonte com ar de quem tinha acabado de perder uma herança. 

Eu ouvia tudo.

Ou quase tudo, porque havia sempre alguém disposto a explicar-me que determinado cantor não prestava, que aquela música era comercial, que a outra era demasiado sentimental e que a terceira não tinha qualidade artística nem estrutura poética.

Essas pessoas existiram, e ainda existem. Mudaram apenas de roupa e passaram a escrever comentários na Internet.

Naquele tempo, eram especialistas de café. Tinham opiniões definitivas sobre música, política, futebol e mulheres, embora, na maior parte dos casos, as mulheres não lhes reconhecessem qualquer competência na matéria ou a gente sabia que aquilo era só teoria.

Eu, que era jovem e ainda acreditava na possibilidade de mudar o mundo, escutava-os com respeito. Depois ia para casa ouvir os discos de que gostava.

A minha paixão musical tinha também um lado geográfico. Angola não era apenas o lugar onde vivíamos. Era um universo sonoro que entrava pelas janelas, atravessava as ruas e se instalava na memória.

Em Moçâmedes, a música fazia parte da vida. Havia o rádio, os discos, a discoteca e as festas, as conversas e aquela permanente competição entre vizinhos para descobrir quem tinha o melhor equipamento de som. O que, na prática, significava quem conseguia fazer ouvir a sua música a uma distância maior. Reconheço que na minha rua não era assim. Mas que se ouvia música e muitas vezes ao vivo é verdade.

A acústica era excelente. 

Bastava alguém comprar um disco novo para a cidade inteira ficar informada. Não existiam redes sociais, mas existia o senhor da casa ao lado, que tinha o volume no máximo e uma janela estrategicamente aberta.

E depois havia os discos. Ah, os discos!

Um disco de vinil era uma coisa séria. Não se comprava com a ligeireza com que hoje se escolhe uma música no telemóvel. Era preciso poupar, procurar, comparar, negociar com a consciência e, por vezes, convencer os pais de que aquela aquisição constituía um investimento cultural de primeira necessidade.

O problema era explicar-lhes por que razão um rapaz precisava de mais um disco quando já tinha vários. Porque este é diferente, respondia eu, sem poder dizer que aquele era comprado escondido porque não se podia vender.

Era o argumento universal da juventude. Servia para discos, calças à boca de sino, camisas extravagantes e namoradas que os pais consideravam não termos idade para isso.

Quanto às namoradas, a minha argumentação era menos convincente. Mas isso é outra história, embora também pudesse ser acompanhada por música brasileira.

O mais curioso é que, sem o saber, eu andava a fazer aquilo que muitos anos depois receberia um nome pomposo: consumir cultura lusófona.

Na década de 70, porém, ninguém dizia «consumir cultura lusófona». Dizia-se que se gostava de música angolana, brasileira ou portuguesa. E, quando uma canção nos tocava, não precisávamos de saber a nacionalidade exacta do compositor, a classificação do género musical ou o enquadramento histórico da obra. Gostávamos. Ponto final. A língua portuguesa era o fio que nos ligava, mas a música fazia muito mais do que isso. Transportava ritmos, sotaques, maneiras de sentir, histórias de amor, saudades, alegrias e tristezas que atravessavam o Atlântico sem necessidade de visto.

Só mais tarde alguém se lembrou de chamar lusofonia a esta família de culturas e de línguas. A palavra é útil, tem dignidade e até fica bem em cartazes institucionais. Permite organizar festivais, promover encontros e escrever discursos com muitas referências à diversidade cultural.

Mas desconfio de que, se os músicos dos anos 70 tivessem esperado pela invenção da palavra para começar a fazer música, ainda hoje estaríamos à espera do primeiro concerto.

Felizmente, ninguém lhes pediu autorização.

Raul Indipwo e Milo MacMahon não precisaram de um gabinete de cooperação linguística para fazer os Duo Ouro Negro. Os músicos brasileiros não precisaram de uma comissão para atravessar o oceano. E os cantores portugueses não tiveram de preencher um formulário para chegar aos nossos ouvidos. A música circulava porque havia quem a tocasse e quem quisesse ouvi-la. E nós ouvíamos.

Podia ter-me tornado uma autoridade na matéria. Quem sabe, até ser consultor musical de algum organismo internacional. Passaria os dias a explicar a importância da circulação das expressões artísticas no espaço da língua portuguesa, enquanto alguém me servia um café e me perguntava se eu conhecia aquela canção brasileira que tinha ouvido na rádio. Eu responderia com ar grave:

- Conheço, naturalmente. Ouvi-a em 1973, antes da institucionalização do conceito. - E cobraria honorários. Mas não. Naquele tempo, eu era apenas um jovem apaixonado por música. Não tinha grandes teorias, não dominava o vocabulário académico e não fazia ideia de que um dia alguém inventaria uma palavra para juntar tantas coisas de que eu já gostava.

Tinha apenas discos, rádio, curiosidade e uma língua que me permitia reconhecer, em vozes diferentes, qualquer coisa de familiar. Talvez seja essa a verdadeira história da lusofonia: antes de ser uma palavra, já era uma emoção. E, se me perguntarem hoje o que é a lusofonia, posso dar uma resposta muito mais simples do que a de qualquer conferência internacional. É aquela canção angolana que me faz lembrar a terra. É aquela música brasileira que me faz acreditar que o amor ainda é possível, apesar das evidências em contrário. É aquela voz portuguesa que nos deixa melancólicos mesmo quando está sol. É o prazer de descobrir que, do outro lado do oceano, alguém canta numa língua que também é nossa, mas com uma maneira diferente de lhe dar vida. E é, sobretudo, a liberdade de gostar de tudo isso sem pedir licença a ninguém. Nos anos 70, eu já sabia. Só me faltava a palavra. E, francamente, entre ter a palavra certa e ter um bom disco para ouvir, sempre preferi o disco. Até porque a palavra não dá música. E um discurso sobre lusofonia, por muito bem escrito que seja, não substitui os Duo Ouro Negro a tocar na sala, com o vizinho a bater à porta e a minha mãe a gritar da cozinha:

- Ó rapaz, baixa isso!

Aí está uma expressão de verdadeira universalidade cultural. Em Angola, em Portugal ou no Brasil, há coisas que nunca precisam de tradução.



Sanzalando

4 de outubro de 2026

senta aí e vamos conversar

Puxa só assim uma cadeira e senta. Vem lamentar ou chorar comigo.
Há umas semanas, deitei-me a pensar que o meu verdadeiro propósito de vida era ser um eremita numa cabana autossustentável no planalto da Huíla. Imaginei tudo: a madeira tratada, os painéis solares topo de gama, uma horta biológica onde as alfaces cresciam ao som do semba e eu, vestido com uma camisola de lã velha, a escrever o próximo grande romance em português enquanto bebia chá de de cachinde plantado e colhido por mim.
No dia seguinte, acordei, olhei para o tecto do meu quarto, avivendado, que tem uma mancha de humidade que parece o mapa da Austrália e fiz as contas. Para comprar o terreno na Huíla, precisava de um rim. Para os painéis solares, o outro rim. Para me sustentar antes de ser autosustentado precisava vender o pulmão e talvez um pâncreas. Para a camisola de lã velha de marca sustentável, teria só que abrir a caixa de plástico onde guardo as roupas de inverno. Conclusão médica: o meu sonho de comunhão com a natureza era biologicamente inviável, a menos que eu planasse pela Huíla em formato de fantasma bem agasalhado.
Gente como tu e eu sofre de uma maleita terrível chamada Hiperatividade Criativa sem Cobertura de Saldo Bancário. Nós temos ideias brilhantes a cada meia hora. Temos o conceito, o logótipo idealizado na mente e até o discurso de agradecimento planeado para quando formos entrevistados na televisão. Só nos falta um pequeno detalhe técnico: o capital de subordinação. O guito. Os fundos dos bolsos já estão gastos de tanto serem revistados pelas mãos que acompanham a mente dos sonhos.
A verdade é que gerir grandes sonhos sem meios para os realizar é uma arte marcial. Exige uma ginástica mental digna de Jogos Olímpicos. Quando o comum dos mortais quer ir a Paris, compra um bilhete de avião e reserva um hotel. Quando nós queremos ir a Paris, passamos quatro horas no Google Maps em modo street view, compramos um croissant congelado no supermercado da esquina, aquecemo-lo no micro-ondas e dizemos que a experiência imersiva de olhar para a Torre Eiffel digitalizada enquanto se mastiga massa folhada de marca branca. Tudo em nós tem outra poesia. Não é pobreza, meus amigos, é romantismo de conceito.
O mais divertido, para não dizer trágico, é que a nossa falta de meios afina-nos o engenho de uma maneira quase assustadora. O rico que quer abrir um estúdio de gravação compra equipamento banhado a ouro. Nós gravamos um podcast dentro do roupeiro, embrulhados num edredão de inverno para fazer isolamento acústico, rezando para que o vizinho não decida usar o berbequim a meio da introdução e o camião do lixo não venha esvaziar a meio do parágrafo o contentor que está mesmo na esquina da nossa casa. E o resultado? Fica com aquele som orgânico e cru que os críticos tanto elogiam. Se corre bem, somos visionários; se corre mal, estávamos só a experimentar uma vertente naife.
Por isso, se estás aí desse lado a olhar para o teu projeto de vida, aquele que está guardado numa pasta chamada Ideias_2026_Final_A_Sério no ambiente de trabalho do teu computador spectrum e a suspirar porque não tens um investidor anjo a bater-te à porta, não desistas. Continua a sonhar em grande, mesmo que o teu orçamento actual seja em ponto pequeno. Afinal de contas, os melhores impérios começaram nas garagens. E se tu nem sequer tens dinheiro para alugar uma garagem, olha… o roupeiro continua a ter uma excelente acústica.

Sanzalando

24 de setembro de 2026

à conversa com o tempo

Quando eu estava noutra latitude não tinha esse de verão, outono ou primavera. Fazia calor ou cacimbava. Era simples. Mudei latitude e se complicaram as voltas e dou comigo com esse de outono ameaça a bater à porta, mas me recuso a arrumar a toalha de praia. Para mim, o final de setembro na praia não é uma simples mudança de estação, é um retiro espiritual que dura esse de outono e inverno. Me acinzento.

Agora me sento no areal praticamente deserto, ajusto os óculos de sol já ligeiramente tortos da sua idade e suspiro com uma sonoridade poética. O mar de fim de verão ganha uma transparência nostálgica, como se guardasse nos murmúrios da água o segredo de todos os dias quentes. E vêm-me à memória outros mares, outros azuis, outras gentes.

- Pá, podes parar de falar sozinho? Estás a assustar as gaivotas — resmungou alguém que me era totalmente invisível, talvez fosse só a minha consciência. E ainda disse mais:

- Vieste para aqui apanhar uma pneumonia ou quê?

Ninguém percebe a minha sensibilidade. Mantendo o olhar fixo no horizonte fico com uma serenidade mágica na praia. Quando as multidões desaparecem e o mar volta a ser apenas sopro, espuma, imensidão e marulhar com sabor a maresia.

Não a bola de Berlim, não há a gastronomia da marmita da salada fria, da geleira de esferovite, do toldo ou sombrinha a cortar o olhar. Inspiro fundo, fecho os olhos e se tivesse cultura viajava se calhar até à Grécia antiga, mas sendo assim fico-me pela minha adolescência, pelo ardor do pica-pica, pela saudade dos meus dotes atléticos, pelo meu tempo em que tinha tempo e agora vejo que ele se encurta em cada onda de sonho. Aqui consigo conversar com o tempo.


Sanzalando

15 de setembro de 2026

eu e a inteligência artificial

Me sento, já não com a sebenta de capa encarnada mas frente ao computador. Haverá no mundo desgraça maior do que a página em branco duma tela a cintilar para mim? Aquele cursor a piscar, implacável, como uma lombriga vertical  à espera que eu o faça avançar à frente de letras. Ele pisca mas não avança. Olho-o como que hipnótizado e ele nada, melhor, pisca. Durante séculos, um escritor sofria em silêncio, fumava cigarros baratos, bebia café frio ou vinho de fraca qualidade, amassava papéis e culpava a musa inspiradora pela esterilidade mental de uma terça-feira ventosa. Hoje, o sofrimento acabou, temos a Inteligência Artificial, essa grande colega que nunca dorme, nunca reclama e finge que acha os nossos pensamentos profundamente originais.

A verdade nua e crua é que a Inteligência Artificial veio democratizar a preguiça mental. Antigamente, para ser um preguiçoso de elite, exigia-se algum talento, era preciso inventar desculpas mirabolantes para não entregar o trabalho, adiar prazos com pretextos vagos ou simplesmente olhar para o teto durante três horas seguidas à espera de uma epifania que nunca vinha. Agora, não. Basta abrir uma janela do computador, escrever "escreve aí uma crónica sobre a minha inércia existencial com um tom espirituoso" e ir ver se o vento acalmou. Uns segundos depois, temos um texto impecável, polido, cheio de metáforas sobre o vazio cósmico e sem um único erro ortográfico. É obra. Nem uma letra trocada, nem uma vírgula num deserto plantada, só travessões e dois pontos, como quem semeia trigo num campo de letras. Ou será joio?

O problema é que este atalho está-nos a transformar em caracóis intelectuais. Se continuarmos a delegar o esforço de juntar sujeito, verbo e predicado a um servidor localizado num armazém gelado na Conchichina, que não sei bem onde fica, mas deve ser lá para os lados do fim-do-mundo, daqui a uns anos o nosso cérebro vai atrofiar ao ponto de só conseguirmos comunicar através de grunhidos e polegares levantados ou emojis préviamente desenhados. O ser humano evoluiu a caçar mamutes, bisontes, a inventar a roda, a criar uma linha de montagem mas o cume da nossa evolução vai ser a admirável capacidade de carregar na tecla Enter para que uma máquina faça o esforço por nós.

Ironias à parte, há algo profundamente poético nesta simbiose entre a nossa preguiça ancestral e a alta tecnologia. A máquina oferece o engenho e nós oferecemos a nobre arte de não fazer nada. Juntos formamos a equipa perfeita. E se me perguntam se fui eu que escreveu este texto ou se recorri a um algoritmo, respondo com a honestidade que me caracteriza, deixem-me ir ver o que a inteligência artificial tem a dizer sobre o assunto, porque pensar dá um trabalho terrível e como ainda não acabou o verão, não trabalho para aquecer.



Sanzalando

8 de setembro de 2026

A humildade política

Há uma coisa que a política moderna ainda não conseguiu ter que é a humildade. Inventou sondagens, assessores de imagem, especialistas em comunicação, consultores de estratégia, discursos com teleponto e até aquela expressão maravilhosa que tantos dizem humildemente, temos de reconhecer e que é normalmente pronunciada por alguém que, cinco minutos antes, acabara de explicar ao país que tinha razão em tudo.

A humildade política é uma espécie rara. Quase tão rara como um político que, depois de perder umas eleições, diga simplesmente:

 - Perdemos. O povo não gostou. Vamos pensar no assunto.

Em vez disso, ouvimos:

 - Tivemos uma vitória moral. -  rebuscando palavras e ideias que nada têm a a haver com o número final.

A vitória moral é uma coisa extraordinária. Não aparece nas urnas, não consta dos resultados oficiais e não se sabe muito bem onde se guarda. Mas é sempre muito útil quando faltam votos.

Há também o político humilde que diz:

- Eu não estou aqui por interesses pessoais.

E imediatamente pensamos: que homem extraordinário! Depois percebemos que está rodeado por quinze assessores, três carros, quatro câmaras, dois microfones e uma equipa de comunicação que já publicou nas redes sociais uma fotografia dele a apertar a mão a uma senhora de oitenta anos. A humildade foi fotografada de vários ângulos. Na política, até a modéstia precisa de produção.

O problema é que muitos políticos confundem humildade com baixar ligeiramente o tom de voz. Falam mais devagar, fazem uma pausa dramática e dizem:

 - Eu sou apenas um servidor do povo.

Servidor até que é uma palavra bonita. Sobretudo quando quem a pronuncia está há vinte anos a tentar continuar a servir. Eu cá gostava de ver um político verdadeiramente humilde. Um que entrasse numa conferência de imprensa e dissesse:

- Meus amigos, não sei! - seria revolucionário. E repetia - Não sei resolver isto! - e acrescentava depois de uma pausa para desembargar a voz - Enganei-me e enganei-vos! - seria revolucionário.

Aí, provavelmente, teríamos de chamar a UNESCO para classificar aquele instante como património imaterial da humanidade. Porque reconhecer um erro, na política, parece ser mais difícil do que reconhecer uma vitória.

E há outra forma muito interessante de humildade, ouvir. Não aquela coisa de ficar calado enquanto o outro fala, já preparando mentalmente a resposta. Ouvir mesmo. Ouvir quem discorda. Ouvir quem não votou em nós. Ouvir aquele cidadão que aparece numa reunião e faz uma pergunta incómoda. Aliás, uma pergunta incómoda é, para certos políticos, uma espécie de exame médico, preferem não fazer.

Porque a humildade não diminui ninguém. Pelo contrário: aproxima. O cidadão não espera políticos perfeitos. Espera políticos humanos. E talvez a maior demonstração de humildade política fosse perceber que o poder é emprestado. Hoje estamos no palco. Amanhã estamos na plateia.

E o público, esse, tem uma memória extraordinária. Não precisa sequer de apontamentos. Guarda tudo. Por isso, se algum político quiser realmente praticar a humildade, proponho-lhe um exercício muito simples - De vez em quando, desligue o microfone, deixe o teleponto em casa e vá ouvir as pessoas. Porque, às vezes, a verdadeira humildade política começa precisamente quando ninguém está a olhar.

(não falo de política, de futebol ou religião mas hoje cansei-me de ouvir as notícias. Todas!)

Sanzalando

5 de setembro de 2026

O ininfluenciador

Antigamente as pessoas precisavam de ter um talento, uma profissão ou, no mínimo, uma história bizarra para contar nas reuniões de família para serem ouvidas. Hoje, graças à democratização do ecossistema digital, basta ter um telemóvel, uma luz circular de de 15 euros e uma determinação inabalável para chamar comunidade a três amigos, duas tias e um robô algures no mundo que vende criptomoedas e tem bué de perfis nas redes e eis que surge a figura mais fascinante do nosso século: o Influenciador Digital.

O influenciador vive num estado perpétuo de prontidão executiva. Acorda às seis da manhã — não para trabalhar, mas para fotografar uma chávena de café fumegante acompanhada pela legenda: A preparar as grandes novidades de hoje. Fiquem atentos!. Ninguém fica atento. O seu público é composto por pessoas que clicaram em seguir por engano, ou até por vício, enquanto tentavam fechar um anúncio de aspiradores.

O seu momento de maior apogeu acontece quando recebe a primeira parceria. Não estamos a falar de marcas de luxo ou estadias em Bora-Bora, mas sim de uma marca de chá de hibisco que lhe envia uma caixa de amostras em troca de dez vídeos, três reels e a alma da sua avó. O influenciador grava um vídeo de dez minutos a fazer o unboxing da caixa de cartão com as mãos a tremer de emoção:

- Vocês têm-me perguntado MUITO sobre o meu chá favorito...

(Spoiler: ninguém perguntou. A caixa de mensagens está tão deserta quanto um centro comercial às quatro da manhã de uma terça-feira. Mas a ilusão precisa de continuar.)

O verdadeiro drama do influenciador reside no impacto real da sua palavra. Se ele disser não comprem este casaco, a loja esgota o stock por pura coincidência estatística. Se organizar um evento de encontro com seguidores num parque público, a única entidade a marcar presença é a polícia municipal, intrigada com aquele jovem a falar sozinho para um tripé enquanto segura um um stick com um telemóvel na ponta.

E, no entanto, há algo de profundamente poético e admirável nesta bravura. O influenciador é o último romântico da internet. Ele mantém a fé num algoritmo que o ignora com a mesma dedicação com que continua a partilhar o look do dia no meio da paragem do autocarro, debaixo de chuva, sorrindo como se estivesse na semana da moda de Milão ou no Festival de Cannes.

No fundo, todos devíamos aprender com eles. Num mundo obcecado por métricas, alcance e conversões financeiras, o ininfluenciador (é de propósito) é a prova viva de que é possível ter uma autoconfiança de nível olímpico sem ter absolutamente nenhum resultado para mostrar. E se isso não é inspirador, então não sei o que será.

nota - tem por aqui palavras que tive que ir ver se as havia em português mas desencontrei e nem sei bem o que querem dizer.

Sanzalando

31 de agosto de 2026

Fui ver o zulmarinho

Sempre tive um objectivo de vida muito claro, embora todos a chamassem de vadiagem profissional. O plano consiste em sentar-me numa falésia, exatamente às quatro da tarde, e olhar para o zulmarinho. Não um olhar apressado de turista, mas uma contemplação profunda, quase científica. Analisava a crista das ondas com a seriedade de um engenheiro aero-especial, prestes a lançar um foguetão de ideias e fantasias.
Às vezes, o oceano exibe um tom azul-turquesa digno de cartão-postal, ajeito os meus óculos na ponta do nariz, cruzo as pernas e suspiro, pronto para entrar em num transe filosófico interior. Uma vez ou outra sou interrompido por um turista, carregado com três boias de flamingo, duas cadeiras de praia, um guarda-sol e um cobertor que aparenta pesar metade do seu peso e parou mesmo à minha frente. O homem bloqueou-me totalmente a linha de visão.
Resmunguei num entre-dentes, mas o homem estava demasiado ocupado a tentar espetar o guarda-sol no chão duro da falésia. Vendo que a força bruta não funcionava na rocha portuguesa, o turista virou-se para o veterano da falésia, eu mesmo, e perguntou-me se a maré ia subir muito nas próximas duas horas.
Olhei para o homem, depois para o mar escondido atrás bóia plástica do flamingo gigante, e respondi que dependia muito do humor da lua, mas que o verdadeiro perigo eram os ataques iminentes de caranguejos acrobatas que costumam assaltar turistas naquela zona específica da falésia. O turista arregalou os olhos, agarrou o flamingo pelo pescoço e arrastou toda a sua tralha dez metros para o lado, deixando livre a paisagem.
Novamente a sós com a imensidão atlântica, voltei a focar o horizonte. Eu gosto do mar porque a água não pede satisfações, não reclama do preço do quilo do carapau e, acima de tudo, muda de assunto a cada onda que quebra contra a falésia. Um jovem windsurfista passou a deslizar sobre a água, afastando umas tantas gaivotas que repousavam com água pela cintura. Sorri e murmurei para mimmesmo que a comédia marítima era muito superior a qualquer programa de televisão.
O transe foi quebrado de forma definitiva quando o telemóvel no meu bolso começou a vibrar intensamente. Era a dona de mim, exigindo saber se eu já tinha descoberto o sentido da vida e se podia passar na padaria para comprar quatro carcaças para o lanche antes que o sol se pusesse. Levantei-me a contra-gosto, sacudi a areia imaginária das pernas e dei um último aceno cúmplice ao oceano, prometendo regressar no dia seguinte para mais uma sessão gratuita de terapia salgada.


Sanzalando

28 de agosto de 2026

uma biblioteca

Há lugares onde vamos para fazer coisas. Ao supermercado vamos comprar, ao café vamos beber, ao estádio vamos sofrer e, se a nossa equipa perder, vamos imediatamente procurar culpados. Mas há um lugar onde, aparentemente, não se faz grande coisa. A biblioteca.

Ali não há máquinas de café a fazer barulho, televisões a gritar notícias, nem pessoas a discutir se o árbitro viu ou não viu. Há mesas, cadeiras, livros… e pessoas a pensar. O que, convenhamos, nos dias de hoje, já é uma actividade quase radical para não dizer rara.

Na biblioteca descobrimos uma coisa extraordinária, podemos estar sentados sem estar distraídos.

É verdade que também podemos estar sentados no sofá em casa. Mas aí aparece o telemóvel. Depois uma mensagem. Depois outra. Depois uma notícia que não pedimos. Depois um vídeo de um gato que sabe abrir uma porta. E, quando damos por nós, passaram duas horas e não sabemos absolutamente nada sobre a nossa própria vida, mas sabemos que o gato abriu a porta.

Na biblioteca é diferente. Pegamos num livro. Abrimos. E começamos a pensar. Pensar é uma actividade curiosa. Não faz barulho, não ocupa espaço e não precisa de carga nem ligar à eletricidade. E, pior ainda, não tem botão para desligar.

Um livro pode fazer-nos pensar sobre uma personagem, uma ideia, uma época, uma injustiça, um amor ou até sobre nós próprios. É talvez por isso que algumas pessoas têm medo das bibliotecas. Porque numa biblioteca ninguém nos diz exactamente o que devemos pensar.

Um livro apenas abre a porta. Depois somos nós que entramos.

E há livros que nos levam para lugares onde nunca estivemos. Outros levam-nos para lugares onde já estivemos, mas que tínhamos esquecido. E alguns, mais atrevidos, levam-nos directamente para dentro da nossa cabeça. A biblioteca é, por isso, um lugar de silêncio, mas não é um silêncio vazio. É um silêncio cheio de vozes. As vozes dos escritores, dos personagens, dos poetas, dos que viveram antes de nós e dos que imaginaram mundos que ainda não existem.

Podemos parar. Ler. Pensar. Voltar atrás. Discordar. Mudar de ideias. E até descobrir que estávamos enganados, uma experiência cada vez mais rara, porque hoje parece que toda a gente nasce já com opinião definitiva sobre tudo.

Na biblioteca, pelo contrário, podemos ter uma dúvida. E uma dúvida, às vezes, vale mais do que uma certeza mal pensada. Por isso gosto das bibliotecas.

São lugares onde se guardam livros, mas também onde se guarda uma coisa ainda mais importante, tempo para pensar. E talvez seja por isso que, quando entro numa biblioteca, sinto que estou a entrar num lugar muito especial. Um lugar onde o silêncio não manda calar ninguém. Pelo contrário. O silêncio dá-nos finalmente oportunidade para ouvir aquilo que pensamos. E, nos tempos que correm, isso já é um luxo. Ou, melhor ainda, uma pequena revolução. Uma revolução feita de livros, silêncio e cadeiras.



Sanzalando

27 de agosto de 2026

ter ou não ter tempo

Há pessoas que dizem que não têm tempo para ler. Eu compreendo. Também já tive dias em que não tinha tempo para nada: nem para ler, nem para pensar, nem sequer para procurar os óculos que estavam em cima da minha cabeça.

O problema é que o tempo tem esta mania de nos enganar. Dizemos que não temos tempo e, entretanto, passamos vinte minutos a olhar para o telemóvel, meia hora a ver coisas que amanhã já esquecemos e uma quantidade respeitável de minutos à espera que alguma coisa aconteça.

Para ler, porém, achamos sempre que é preciso uma tarde inteira, uma poltrona confortável, silêncio absoluto e talvez uma chávena de café ao lado. Como se para abrir um livro fosse necessário reservar um hotel, marcar mesa e quem sabe esperar resposta no mail.

Não é.

Às vezes, bastam dez páginas. Ou cinco. Ou duas, se o dia estiver particularmente mal-educado para a gente e não nos respeitar. Tem dias que isso pode acontecer. A gente se chateia com ele e tudo..

Porque ler não é apenas ocupar o tempo. É uma maneira de o multiplicar. Quando leio, entro numa história que aconteceu ontem, hoje ou daqui a cem anos. Conheço pessoas que nunca encontrei, lugares onde nunca estive e ideias que talvez nunca me ocorressem sozinho.

Ler é abrir uma janela. E, melhor ainda, é abrir um caminho.

Talvez seja por isso que os livros têm uma coisa extraordinária, enquanto nós envelhecemos, eles continuam a abrir futuros.

Um livro pode levar-nos para trás, à infância, à juventude, às ruas onde fomos felizes. Mas também pode levar-nos para diante, para aquilo que ainda não sabemos, para perguntas que ainda não fizemos, para futuros que ainda nem sequer imaginámos.

E aqui está uma pequena contradição: dizemos que não temos tempo para ler, precisamente quando mais precisamos de tempo para imaginar o futuro.

Talvez o segredo não seja encontrar tempo para ler.

Talvez seja perceber que ler é uma das melhores maneiras de dar sentido ao tempo que temos.

Porque o relógio só sabe contar horas. Um livro sabe transformá-las em caminhos.

E eu, quando penso que não tenho tempo para ler, lembro-me de uma coisa simples: posso não ter tempo para acabar um livro hoje. Mas tenho, certamente, tempo para abrir uma porta e começo pela primeira página e logo vejo quando fecho.



Sanzalando

24 de agosto de 2026

liberdade de expressão

Há quem pense no que o que será que me deu para ter mudado o que escrevia para o que agora escrevo. Respondo simples: apeteceu e desenvolvo, justifico e comento.

Há uma coisa extraordinária na liberdade de expressão que é permitir-nos dizer aquilo que pensamos. E há outra ainda mais extraordinária nessa frase, permite-nos pensar antes de dizer.

Mas o grande problema é que esta segunda parte parece estar a cair em desuso.

Vivemos num tempo em que algumas pessoas confundem liberdade de expressão com licença para dizer tudo, sobre todos, a qualquer hora e, se possível, em público, mesmo que seja atrás de um teclado no silêncio da solidão. Como se a liberdade viesse acompanhada de um megafone e da imunidade diplomática.

A liberdade de expressão é um direito fundamental. Mas não é um salvo-conduto para a calúnia, a mentira ou a ofensa. Posso dizer que não gosto de alguém. Posso criticar o que essa pessoa fez. Posso até dizer que o acho um péssimo cozinheiro, se tiver provas suficientes depois de experimentar o arroz, a batata ou o suflé.

O que já é outra coisa é inventar factos, espalhar falsidades ou destruir a reputação de alguém apenas porque me apetece ou porque não gosto dele.

A diferença parece simples - opinião não é mentira, crítica não é insulto e liberdade não é impunidade.

Antigamente, para espalhar uma calúnia era preciso encontrar três pessoas no café, contar-lhes a história e esperar que elas a contassem aos seus cem melhores amigos. Hoje basta um telemóvel, um dedo e cinco segundos de desnorte mental.

E a mentira viaja depressa. Às vezes chega antes da verdade, instala-se confortavelmente no sofá e ainda pede um café, cruza as penas e fica a olhar.

Há também quem diga: Eu só estou a dar a minha opinião.

É uma frase muito útil. Serve para tudo. Serve para a crítica, para o insulto, para a invenção e até para aquela barbaridade que alguém acabou de publicar e que, cinco minutos depois, já está arrependido de ter escrito, apaga mas há sempre alguém que teve tempo para fazer um print-scren préviamente.

Mas uma opinião não transforma uma falsidade em verdade. Dizer acho que ele é incompetente é uma opinião. Dizer que ele roubou é uma acusação de facto. E entre uma coisa e outra existe uma enorme diferença, felizmente, porque senão qualquer discussão de café acabava no tribunal.

Também podemos discordar sem humilhar.

Aliás, talvez essa seja uma das grandes artes que estamos a perder, discordar de alguém sem querer destruí-lo.

Podemos combater ideias sem atacar pessoas. Podemos dizer não concordo sem acrescentar e quem pensa assim é um idiota. Podemos criticar uma decisão sem transformar o autor da decisão num inimigo pessoal.

A liberdade de expressão não fica mais forte quando gritamos alto. Fica mais forte quando conseguimos usá-la com responsabilidade.

Porque as palavras, depois de ditas, não voltam para a boca. E há palavras escritas na internet que parecem ter comprado casa própria e direito a primeira página.

No fundo, talvez precisemos de recuperar uma velha e sábia tecnologia, anterior ao telemóvel, às redes sociais e aos comentários instantâneos: o bom senso. Não precisa de bateria, não exige actualização e, tanto quanto sabemos, ainda não ficou fora de prazo.

Liberdade é podermos falar. Responsabilidade é sabermos o que estamos a dizer e respeito é lembrarmo-nos de que, do outro lado da frase, também está uma pessoa.

Até porque a liberdade de expressão é demasiado importante para ser confundida com a liberdade de ofender. E a verdade é demasiado preciosa para ser deixada à toa de quem tem pressa de publicar.



Sanzalando

20 de julho de 2026

abraço pensado

Dizem os entendidos em física que nada viaja mais rápido do que a luz. Claramente, esses cientistas nunca experimentaram a velocidade a que a saudade aperta quando se está longe de quem se gosta. A saudade é aquele passageiro clandestino que se instala sem pedir licença, toma conta do peito e, se não tivermos cuidado, ainda nos faz suspirar para a janela como se estivéssemos num momento trágico dos anos 70 do século passado.

Mas a distância, essa grande desenhadora de mapas e fazedora de quilómetros, cometeu um erro grave ao subestimar a ferramenta mais poderosa do ser humano, a imaginação sem vergonha nenhuma.

Quando os quilómetros teimam em fazerem-se de fortes, a mente assume o papel de engenheira de pontes invisíveis. Afinal, a geografia é apenas uma convenção burocrática inventada por quem desenha mapas. No mundo real do pensamento, a física quântica é um jogo de crianças. Na impossibilidade de dobrar o espaço-tempo ou de inventar uma máquina de teletransporte que, convenhamos, estaria constantemente avariada ou presa na alfândega, a mente desenvolve os seus próprios truques de ilusionismo. De repente, aquela chávena de café de manhã não é tomada a solo. A mente encarrega-se de puxar a cadeira em frente e colocar lá o sorriso de quem está longe. O café continua a ser um expresso normal, mas o sabor passa a ser o de uma conversa cruzada a uns tantos fusos horários de distância. Fecha-se os olhos e, num piscar de pestanas, faz-se uma viagem e estamos lá. A gargalhada ouvida ontem ao telefone ecoa hoje na sala como se estivesse a ser emitida em som surround de alta definição. A verdadeira magia da criatividade é que ela recusa-se a aceitar o ditado longe da vista, longe do coração. Na verdade, quanto mais longe da vista, mais a mente se desdobra em acrobacias para manter tudo perto.

Criam-se piadas privadas que só o ecran do telemóvel entende, inventam-se rituais absurdos de presença à distância e descobre-se que a saudade, quando devidamente temperada com bom humor, perde aquele peso poeirento e transforma-se numa espécie de combustível. Um combustível estranho, é certo, mas capaz de fazer a mente voar por cima de qualquer oceano sem pagar taxa de bagagem de mão.

A distância pode mandar nos quilómetros, no relógio e no preço da viagem. Mas a mente? A mente ri-se do GPS, traça um atalho na imaginação e encarrega-se de encurtar o mundo até caber inteirinho dentro de um abraço pensado.

É, a minha mente, a minha imaginação, o meu sonho, tudo está numa conjugação de tempo e espaço, numa equação em que as incógnitas X ou Y não são meras ilusões, mas apenas sentimentos de simplicidade.


Sanzalando

14 de julho de 2026

quem me dera descriançar

O processo voluntário de descriançar, a transição oficial para o mundo dos adultos, devia vir com um manual de instruções e um aviso de letras garrafais: Atenção, contém altos níveis de stress e dores nas costas. A verdade é que nenhum de nós quer realmente crescer. Nós fomos enganados pela falsa promessa de que ser adulto significava apenas comer gelado quando apetece e ir para a cama à hora que quisermos. Ninguém nos avisou sobre o preço da eletricidade ou sobre a humilhação que é escolher uma marca de detergente para a roupa com base no nível de suavidade, no perfume e na qualidade da água.
O diagnóstico de que fomos definitivamente descriançados não vem com a certidão de nascimento, mas sim com pequenos e trágicos sinais do quotidiano. O entusiasmo que antes sentíamos no corredor dos brinquedos foi substituído por uma alegria genuína ao encontrar um gel anti-inflamatório em promoção. Antigamente, dormir era um castigo penoso e havia birra na hora de ir. Hoje, dormir oito horas seguidas sem acordar com o pescoço preso é considerado um milagre divino e o ponto alto da semana. Damos por nós a discutir a qualidade do isolamento térmico das janelas com vizinhos que nem sequer conhecemos pelo nome.
Que saudades de quando o único despertador era o grito da mãe a dizer que já estás atrasado, em vez deste toque eletrónico infernal que nos causa micro-enfartes diários. E agora é o relógio de pulso que até parece está a ter uma convulsão no braço.
Se a maturidade é obrigatória por lei, a nostalgia devia ser um direito constitucional com direito a subsídio. Há dias em que a única coisa que realmente apetece é acionar um botão de emergência, encolher um metro de altura e voltar para o tempo em que o mundo se resolvia com uma moeda de dois e quinhentos na Oásis.

Sanzalando

13 de julho de 2026

O dia em que a tristeza se cansou de esperar

A tristeza é uma nuvem cinzenta e gorda que adorava sentar-se na cabeça das pessoas. Aloja-se, aninha-se e por ali permanece. Um dia, ela escolheu-me. 
Aqui vou eu, disse-me a tristeza, ajeitando as malas sobre os meus ombros enquanto procurava maneira de entrar.
No primeiro dia, a tristeza soprou um desânimo pesado. Senti a carga, mas disse:
- Bom, a pia está cheia. E comecei a lavar os pratos que ali jaziam faz horas. 
A tristeza achou estranho, pois esperava que eu chorasse no sofá. Ela pesou mais nos meus ombros como que a querer dizer que estava ali para me entristecer.
No segundo dia, a tristeza tentou apagar o sol. Olhei para o céu nublado, calei as sapatilhas velhas e fui caminhar. ~
- Só uma volta no quarteirão - murmurei. 
A tristeza, arrastada pelo vento da caminhada, começou a ficar despenteada e irritada. Sujeito teimoso, pensei eu tê-la ouvido.
No terceiro dia, a tristeza atacou com memórias melancólicas. Suspirei, sentei-me à mesa e peguei num caderno. Em vez de me lamentar, comecei a escrever uma lista de piadas ruins que me lembrava. A tristeza tentou ler, mas achou os trocadilhos tão infames que começou a ter uma enxaqueca existencial.
No quarto dia, a tristeza já estava exausta. Eu tinha mudado os móveis de sítio, insistia em regar as plantas e até tentava assobiar mesmo desafinado as músicas da minha infância. A persistência estava a ser uma máquina de moer a paciência dela.
No quinto dia, acordei, abri a janela e sorri para um pátio vazio. Foi o limite.
A tristeza pegou nas suas malas, indignada. 
- Desisto! Não há quem consiga trabalhar com este homem a mexer-se o tempo todo - reclamou ela, quase arrancando-me os ombros ao sair dali.
Senti o peso desaparecer, respirei fundo e percebi: a tristeza até pode ser forte, mas não tem pernas para acompanhar quem decide continuar a andar.


Sanzalando

11 de julho de 2026

Não vale nada fugir ao tempo

No dia em que a minha amiga decidiu fugir, ela não fez as malas. Ela levou apenas a roupa do corpo, a carteira e uma determinação feroz de deixar o passado para trás. 
- Não olho mais para trás - decretou para si mesma, pisando no acelerador do seu corpo. Ela queria fugir da rotina, das cobranças, dos olhares e, acima de tudo, do tempo que parecia correr depressa demais na cidade da vida.
Cinco quilómetros depois, uma primeira paragem para abastecer o olhar e repousar o corpo do cansaço, Ela olhou para o lado.
Ali, confortavelmente sentado ao seu lado e a ajustar um par de óculos de leitura imaginários, estava o Tempo. Não o tempo metafórico, mas um senhor de barba cinzenta, vestido com um fato feito de folhas de calendário e a segurar uma ampulheta como se fosse uma caneca de café.
- O que é que estás aqui a fazer? - gritou ela, assustada. - Eu fugi!
- Eu sei - disse o Tempo, bocejando. - Mas tu fugiste à pressa. E quem corre contra o tempo, acaba por me levar de boleia. Tu não olhaste para trás, mas eu estava no banco da tua frente.
Ela tentou ignorar a assombração cronológica e continuou o caminho para bem longe, em direção a um outro qualquer litoral. Pensou que, se vivesse sem horários, ele acabaria por desaparecer.
Não funcionou.
No dia seguinte, na praia, ela decidiu relaxar e não fazer absolutamente nada durante horas. Olhou para o lado e o Tempo estava deitado numa espreguiçadeira, a banhar-se em protetor solar fator 50.
- Ah, o ócio! - exclamou o Tempo, satisfeito. - Adoro quando não fazes nada. É aí que eu passo mesmo devagarinho. Repara como este minuto está a parecer uma hora?
Irritada, ela decidiu mudar de estratégia. Começou a fazer tudo a correr. Comeu o pequeno-almoço em trinta segundos, correu dez quilómetros na areia e limpou o quarto da vida duas vezes. Quando olhou para o lado, o Tempo estava a fazer flexões ao ritmo de uma música de aeróbica dos anos 80.
- Uau! - disse o Tempo, transpirando ponteiros. - Assim passamos num sopro! Já é noite, viste? Nem deste por ela!
Ela percebeu que não importava o quanto rápido corria, para onde viajava ou o quanto tentava ignorar o relógio. O Tempo era o passageiro mais fiel e irritante que ela alguma vez teria. Ele mudava de forma: às vezes pesado como chumbo quando ela estava aborrecida, às vezes veloz como um foguetão quando ela se estava a divertir.
Uma noite, sentada num restaurante a beber um copo de vinho e a ver o pôr do sol, ela parou de lutar. Olhou para o Tempo, que agora operava o saca-rolhas com uma precisão cirúrgica.
- Sabes - disse ela, a sorrir pela primeira vez em dias - eu fugi para não te ver passar.
O Tempo serviu o vinho, sentou-se e cruzou as pernas.
- O teu erro foi achar que eu estava a perseguir-te. Eu só estava a acompanhar-te. O truque não é fugir de mim. É saber o que fazer comigo enquanto estamos na estrada.
Ela brindou ao seu companheiro inevitável. Ela tinha fugido sem olhar para trás, mas percebeu que o futuro só valia a pena porque o Tempo tinha decidido ir com ela.

Sanzalando