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Programas K'arranca às Quartas no Blog

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17 de outubro de 2007

voltar

Me sento por aqui e num nada apetecer fazer desato a pensar e concluo que voltar, é assim por definição, o regressar a um lugar ou estado em que já se tenha estado. A um lugar conhecido e recordado. Então pode acontecer que não encontre a palavra, ou se calhar ela não existe, para indicar que voltei mas não ao mesmo lugar, a um lugar novo, a um novo estado, a uma nova linha de pensamento, a uma nova maneira de estar e ser. Não é um chegar, embora possa parecer. É assim um mais ou menos estar perdido e se reencontrar novamente em qualquer parte, um reencontrar-me por fim.
Imagina assim um lugar isolado onde a neblina só nos deixa ver a nós mesmo e nos esconde a nossas próprias ideias, um lugar carregado de medos e indecisões donde não se sabe nem como sair e nem se se consegue sair, uma prisão sem paredes, um lugar que se aprende a conhecer desde a absoluta escuridão até ao silêncio total, um lugar sem aromas nem odores, um lugar sem sabor, um carrossel de vazio. Nada te detêm e nada te indica como sair.
Mas de qualquer maneira sinto que voltei e imagino a levar-te comigo a voltar para um lugar que eu já conheci.

Sanzalando

16 de outubro de 2007

despertar

Me sento por aqui e tento recordar-me, buscando no fundo da memória, o perfume da terra molhada, o calor sufocante dum meio dia, o barulho ensurdecedor dum engarrafamento permanente.

É, porque sempre que é noite regressam as sombras ténues das recordações que vivi. Com elas regressam todos os sons, todas as cores e todo o ciclo de passos incertos duma aposta de vida.
Aqui me sento como um ferido que se deve cuidar, abafando a dor da perda, a dúvida medida em certezas dum copo vazio de vida.
Aqui me sento tentando ver como irá acabar a ilusão da incerteza duma mudança de vida que se transforma num pouco a pouco de recordações e memórias. Aqui me sento sabendo que deixo para trás uma cama desfeita de sonhos e um caminho iluminado por uma vela acesa de esperança num despertar diferente.


Sanzalando

15 de outubro de 2007

sussurro

Por aqui me sento e acaricío as palavras com meus lábios de modo a que lhas ouças docemente.
Penso sentir-te mesmo sabendo que não nos voltamos a encontrar. Sei que fazes parte da sombra do meu ontem perseguindo-me no hoje e num calhar até amanhã. És assim mais ou menos uma luz crepuscular que me faz balançar na parede como uma sombra a preto e branco carregada de cinzentos.
Eu sei que ainda não é o ocaso da nossa união constantemente adiada, porque uma infinita parede foi construída de tempo, mas é um intervalo de carícias, uma brisa passageira, um horizonte de vistas mais alargadas.
Eu me sento aqui na esperança dum suspiro, num encadeado de letras soltas que te chegam como um murmúrio.

Sanzalando

12 de outubro de 2007

a carta que não escrevi ainda

Me sento por aqui e atiro palavras ao vento como que a querer semear uma seara de ideias. Faz tempo que te quero ditar uma carta, mas só a penso e depois me calo. Talvez seja a tristeza em que navego neste mar de incertezas que carrega o meu coração para a solidão do silêncio e essa carta nunca mais chega às ondas do vento. E depois lhe ia colar o selo com ajuda duma lágrima?
Na verdade é que te penso constantemente e assim a nostalgia se afoga em ansiedade e esta se afunda em tristeza. E assim as palavras não saem para a carta que eu te queria escrever e assim tu não recebes por viva voz as palavras que eu não escrevi.
Te pode parecer um absurdo que mesmo assim eu tenha alegria que me faz dourado o meu dia que se parece assim com um cinzento de chumbo a querer ameaçar uma chuva forte interrompido por raios de sol.
Me sento aqui e ainda não é hoje que te escrevo a minha carta.

Sanzalando

11 de outubro de 2007

saudades de mim

Me sento aqui, longe do zulmarinho, com saudades de sentir a maresia, de enterrar os pés na areia em caminhadas que parece não tinham fim. Já eu mesmo sinto saudades de me ouvir dizer as palavras que parece que beijam e abraçam, que ao entrarem nos ouvidos iam directas na alma. Aquelas palavras que pareciam mesmo carícias que curavam as feridas recentes e restauravam orgulhos perdidos. Me parecia era mago de mim mesmo. Palavras que mesmo que carregadas de melancolia transpareciam um sorriso.
Vou fazer mais como então? Me procuro e até parece me escondo de mim.
Mas um dia, aqui sentado ou deitado, ou noutro sítio qualquer, eu encontrarei as palavras que te disse, secarei as lágrimas e retribuir-te-ei o sorriso.

Sanzalando

9 de outubro de 2007

...eu não teria outono

Me sento por aqui. Descanso o meu corpo dum verão que não tive, sinto um frio de Outono que me envolve, convidando-me a deitar aconchegado numa manta de retalhos e a procurar a tranquilidade suprema. Faz tempo que noto a mudança de temperatura do meu corpo, a luz se me parece mais cinzenta, a chuva outunal parece que cai soterrando os odores dum verão que não tive.
Muda-se. Tudo muda.
As horas são intermináveis e as recordações parece que faltam. Escuto, escuto-me e me deixo envolver nas vozes fantasmas que me falam em surdina dentro da minha cabeça como se fosse um coro de protesto fora do contexto.
Se eu pudesse sentir agora o teu calor, molhar-me nas tuas chuvas, transpirar-me nos teus calores…
Se eu pudesse acariciar-te…
… eu não teria Outono.

Sanzalando

8 de outubro de 2007

há dois anos

Caminho concentrado nos meus botões quando me recordei de ti e foi como se tivesse recebido uma lufada de ar fresco. Faz dois anos que te dei o primeiro abraço depois de muito tempo e de muita tristeza passada. Estavas na minha memória fresca como sempre, atractiva e sensual desde os meus tempos de adolescente.
Estavas viva em mim e assim ficaste até aos dias de hoje.
Quando te penso é como quando se abre os olhos depois dum sonho. Misteriosa e enigmática, real ou imaginária, longe ou perto. Todo eu estremeço ao ouvir-te sussurrar ao meu ouvido, nem que sejam sons de imaginação. Me transformo num atleta na fragilidade deste corpo quando inicio a vagueação pelo teu corpo. Respeito todos os códigos, a minha timidez sobressai. Aos poucos, como piloto de corrida, me atiro a toda a velocidade nas tuas curvas, travo um combate entre o corpo e a razão num espontâneo desfruto.
Dou todas as voltas possíveis, pensadas, imaginadas e as que surgem do nada. Prioridade não é reconhecida. Neste trânsito de saudade o importante é reconhecer, não importa o quê desde que seja tudo. Posso, quero e desejo. Química abrasiva dum náufrago em vista de porto seguro.
Empreendi uma viagem sem retorno aos abismos do meu desejo numa coreografia de desespero e paixão. Ternura e exaltação.
Estou prisioneiro de ti.

Sanzalando

21 de julho de 2007

Construção

Me sento aqui. Bebo uma birra estupidamente gelada e reflito.
Verdade que às vezes me olho por dentro e dou de contas a falar-me.
Não me vejo no zulmarinho que hoje está encrespado vais ver é da brisa forte que lhe vem de leste ou doutro canto cardinal qualquer. Por isso ele não me serve de espelho nem me pode mostrar o reflexo do que lhe penso e ficciono.
Por isso mesmo, protegido no meu canto reflito ao som duma sinfonia marítima.
Palavra depois de palavra e crio um sonho.
Sonho atrás de sonho e construo uma ilusão.
Ilusão depois de ilusão, formo uma vida.
De vida em vida e o mesmo dono.


Sanzalando

1 de julho de 2007

Caminhos (5) - quero ser criança

Quando eu era criança achava que todas as casas era grandes, que todas as ruas eram avenidas e que todos os prédios eram assim arranhacéus. Mas mais importante que tudo isto, era que eu tinha a certeza que todos os adultos eram pessoas responsáveis.
Na caminhada para crescer fui vendo que tudo ia mudando e eu pensava era uma questão de relatividade.
Agora vou vendo que as casas grandes são as casas dos ricos, que as avenidas são apenas ruas difíceis de cruzar e os arranhacéus meros prédios de fachada. E os adultos são assim pessoas que vistas de bem perto e durante muito tempo ficamos sem saber se lhes encontramos alguma coisa parecida com responsabilidade.
Quando era criança acho tinha os olhos de inocência, conseguia ver para além do que eles me mostravam. Agora olho e vejo os plásticos uniformes de contornos pouco nítidos e imperfeitos rabiscos.
Quando era criança não pensava que um dia ia perder a capacidade de apagar as emoções. Hoje choro sem que ninguém veja.
Quando era criança não imaginava que um dia eu ia olhar para um prédio e não lhe ia ver um sinal de presença humana, não lhe ia sentir um claustrofóbico arrepio de estar sozinho.
Por isso continuo a caminhada em busca da minha liberdade de ser criança.

Sanzalando

29 de junho de 2007

Caminhos (3) - quero ser vento

De volta ao caminho, matutando nas palavras sábias dos mais velhos, saboreando as frases dos mais novos, caminho em busca da minha porta, que sei está algures por mim entreaberta como na espera de mim.
Dou voltas e voltinhas, caminho dentro da alma e ouço o sibilar do vento como se estivesse a me cantar uma canção de embalar.
Não é aquele vento que leva tudo de arrasto como que a fazer remoinhos de areia que vem do deserto e mais parece alfinetes que me picam as pernas nuas de quem anda de calções e calça uns nonkakos. È um vento suave que lhe ouço parece canção de namorar, um som magnífico se eu soubesse o que é que isso quer dizer mas te traduzo na minha palavra desconstruída que é uma silêncio de carícia.
Eu sei que este matutar me está a levar aos anos de calções, futebol de rua, gargalhadas inofensivas, namoros inconsequentes e irresponsáveis, aos cacimbos da manhã, à asma da humidade que vem do mar e que serve de desculpa para tudo quando convém, aos tempos em que queria ser vento, sobrevoar o jardim da vizinha que faz de conta não sabe quem eu sou só porque sabe eu lhe gosto mais que muito e ela não quer nem saber disso e chegar à sua janela e lhe sibilar como agora lhe estou a ouvir, numa canção de amor. Mas às vezes eu queria ter o seu poder, de abrandar ou enfurecer conforme lhe está ou não de feição, ficando tão forte que não há força que lhe sustenha e me consiga levantar do chão me arrancando os pensamentos que me trazem uma lágrima a rebolar na cara, deixando um carreiro de sal.
Mas agora eu queria ser este vento que ouço com música de amor e poder sair por aí e lhe abraçar com ternura, com a minha leveza lhe acariciar o corpo num gesto de carinho como se fosse seda mais pura que a pura seda.
Mas afinal de contas já não ando de calções e de nonkakos, já não jogo à bola na rua, já não gargalho inofensivamente.
Mas afinal eu tenho mesmo é saudade de sentir o cacimbo do mar e de querer ser vento ainda.


Sanzalando

28 de junho de 2007

Caminhos (2)

Tentei correr sobre as águas para ver se conseguia assim diminuir a distância que me separava da linha horizontalmente curva.
Corria e me afogava na incapacidade respirar, no cansaço e no desespero de não conseguir atingir a linha.
Foi neste momento que encontrei um velho mais velho que o tempo. Tinha aspecto venerável por trás da sua branca barba. Me perguntou na sua voz doce para onde eu ia naquele louca correria. Lhe respondi ofegante que procurava a porta da horizontal linha curva.
- Está ali! me indicou ele com o indicador da sua mão direita carregada de rugas marcadas pelo tempo, apontado como se para mim.
Pensei calado que o velho devia estar louco, pois faz tanto tempo que enveredei pelo caminho, continuo a ver a linha recta que é curva na mesma distância com que iniciei a marcha, a corrida e as paragens de repouso e ele me diz que está ali. Como poder estar ali a porta da minha liberdade?
O velho falou como se tivesse escutado o que eu pensei, que eu sei que foi mesmo dentro de mim que me falei.
- Te enganas. Essa porta não está na linha do horizonte, porque ela não está lá, assim tão longe. Essa porta está mesmo contigo e tu só tens de a encontrar e atravessar. Como pudeste pensar que as aves eram livres, que as toupeiras o eram, assim como os golfinhos? Tu podes fazer isso tudo! Tu pensaste que as aves, as toupeiras e os golfinhos falam? Não, eles não falam, agora tu tens um dom que te faz livre que é tu podes imaginar. Tens a capacidade de imaginar o coração da terra e os limites do céu. O universo é o teu ilimitado espaço.
Parei a caminhada, fechei os olhos e tentei recuperar os anos perdidos na caminhada. Assim matutei sobre como me saberia agora um prato de matete comido na infância e cujo a receita a minha avó não me deixou em testamento adornado com o carinho que ela lho fazia e descobri que os sonhos são a minha porta da liberdade.






Sanzalando

27 de junho de 2007

Caminhos (1)


Olha só como é que eu estou. Assim mais ou menos como que entalado entre o céu e a terra, encarcerado sem liberdade, e vejo como única saída possível é fugir para a linha do horizonte. É por isso que eu caminho sobre o zulmarinho, subindo e descendo ondas, parando nas passadeiras para que os barcos passem, pulando sobre rios de água gelada que lhe correm na indiferença da mistura. Quando quero descansar paro à sombra duma nuvem. Aqui parado consigo ver as aves que parecem me imitam, só que caminham no céu usando a sua leveza de ser. Elas me olham e devem imaginar coisas deste que caminha sobre o zulmarinho na direcção da linha recta que é curva. Eu devo ter dito em voz de pensamento que sorte eles têm de poder voar, porque ali naquele deserto de mar eu ouvi um voz quase muda me dizer que não é por voar que se é livre, pois não pode voar mais alto que as nuvens altas, portanto era um prisioneiro do céu. Na minha voz de pensar retorqui, porque não sou de ficar calado, que a prisão dele era mais larga, mais ampla que a minha, bastando lhe dar uso nas asas. E recomecei a marcha sem saber se houve resposta ou não, em direcção à linha recta que é curva que me parece sempre à mesma distância independente do comprimento dos meus passos.
Cada passo eu vivi um pensamento. Posso conhecer a terra mas não lhe sei os segredos. Posso conhecer o céu, mas não lhe consigo tocar. Uma toupeira conhece melhor a terra que eu, pois lhe está mais perto do coração. Mas ela não lhe pode ver porque os olhos não lhe permitem ver. A toupeira é prisioneira da terra também.
Mudei a velocidade dos passos encurtando o seu cumprimento e segui rumo à linha recta horizontalmente curva.
Fui bafejado com a visita de golfinhos. Lhes imaginei a sorte de nadarem livremente por aquelas águas. Mas meu pensamento deve estar surdo porque devo ter dito em voz alta uma vez que o delfim que parecia quem era o mandador daquele rebanho me olhando nos olhos me respondeu que só podia sair daquela água para morrer, pelo que era um prisioneiro deste zulmarinho por onde caminho.


Sanzalando

21 de junho de 2007

caminhos de silêncio

Vamos caminhar ao longo do zulmarinho, beber-lhe o perfume e embriagar na suave ondulação com que se atira na areia das mil cores. Hoje não deixo marcados os meus passos porque levito sobre a areia fina levantada pela brisa enquanto tu me segues mais esguia e longa como nunca te tinha visto.
Troco as palavras por silêncios. Os salpicos salgados do zulmarinho se me confundem com as lágrimas, o brilho do sol parece faz estrelas cintilarem no suave azul do zulmarinho.
Eu caminho e tu me segues. Serenos e sem destino, rumo aos sonhos sonhados nas insónias do dia a dia, nas dores da saudade e no cinzento da alegria feita recordação.
Eu me calo e tu me ouves os silêncios escutando todas as palavras que eu já te disse.
Amar-te-ei eternamente, mesmo que a eternidade termine já ali, mesmo que me feches as portas e construas muros de fantasia.
Amar-te-ei mesmo que os meus passos já não consigam levar-me a lado nenhum.
E tu, sombra, acompanhar-me-às, mesmo que eu não me mova para além do silêncio.

Sanzalando

20 de junho de 2007

o vento de mar

Anda, vamos dar de caminho, deixar os meus pés marcados nesta areia de mil cores até que uma onda assim mais rebelde lhes venha apagar.
Vamos caminhar neste final de zulmarinho sem rumo. Encadernando as palavras que eu te digo e tu me acompanhas neste caminhar de solidão. Caminhamos aproveitando ventos e marés, por portos de águas mansas e transparentes.
Agora estou aqui atracado sem poder, ou querer, sair. Tens de ser tu a ajudar-me a encontrar o caminho de volta que ainda tenho a certeza de querer conhecer. Ainda quero sentir o perfume, ainda quero ver os lugares, ainda quero viver a vida.
Vê se ouves algum recado que chega de desde o lado de lá da linha recta que é curva, se encontras algum sinal nas nuvens.
Vamos dando passos nas palavras como quem monta um caminho.
O vento me sussurra que talvez devesse aproveitar a corrente que nos é favorável para nos encontrarmos e saber alguma coisa mais de nós. Consegues ouvi-lo? Talvez devêssemos caminhar mais juntos, eu sem sombra e tu sem corpo, numa repartição de tarefas, de silêncios e de palavras, de lágrimas e de sorrisos, de euforia e angústia.
Vamos aproveitar o vento que está a trazer o sabor a mar.

Sanzalando

18 de junho de 2007

os olhos, entrada da alma

Anda, senta-te junto a mim. Olha o zulmarinho e me ouve no teu silêncio de sepulcro.
Anda, senta-te junto a mim e falemos o tempo que nos apetecer perdendo tempo de falar com dois loucos que falam ao mesmo tempo de nadas, mesmo que permaneçam em silêncio.
Anda, senta-te ao pé de mim e sorrimos as palavras que nos apetecer, no tempo que quisermos.
Anda, senta-te ao pé de mim, de olhos no zulmarinho, à espera duma mukanda que vai chegar desde lá do início dele.
Anda, senta-te ao pé de mim e vamos fazer a lista dos desejos e não esquecer que a minha glória é amar o mundo, em particular aquela fracção que está ali ao virar da linha recta que é curva. Eu sei que não devo fazer crer que ela é importante nem que lhe sou estranho, que lhe estou distante, porque lhe gosto mais do que muito. Eu sei que não quero a felicidade instantânea que nem café que só tem que juntar água quente, porque essa dura pouco tempo e destrói tudo lentamente. Eu quero lhe ver os olhos com os meus olhos, escutar os seus sons e lhe viver os sonhos e pesadelos.
Anda, senta-te ao pé de mim e me ouve com o teu silêncio carregado de sons calados.
Te lembras de eu já te ter dito que os olhos são a entrada da alma? O quê? Eu não disse? Acho mesmo já não tens a memória das coisas que te digo. Se calhar nem eu.
Mas então te digo hoje. Os olhos são a entrada da alma e por eles ela deve entrar quando eu lhe olho, porque é sinal que a minha alma está aberta para ela. Se ela entrar poderá ver todos os cantos que lhe apetecer, procurar esconderijos que possa haver, perguntar-lhe tudo o que lhe apetecer, do que entender e do que não entender. Acaricia-la, beija-la, suspirar e até pode estar em silêncio, gritar ou sussurrar. Sabes, tudo o que ela lhe fizer não cairá no vazio porque sei que a minha alma lhe pedirá apenas que ela olhe nos olhos dela, porque ela é a sua alma também.
Te explico, desde já, que não é sonho nem pesadelo. Se a minha alma está aberta para ela então é dela e ela lhe pode sonhar também.

Sanzalando

10 de abril de 2007

Saudade de Alma

Quando a alma chora, não há lágrimas para limpar nem ocorrem palavras para explicar o que ocorre. Talvez não se entenda a dor nem se compreenda que só haja sombras num dia de sol. Talvez não se entenda que só haja perguntas sem respostas. Talvez não se entenda que a cabeça se alague em tristezas.
Talvez seja saudade, palavra que parece só existir na língua portuguesa porém acredito que exista o sentimento nas outras também.
Há que dar tempo ao tempo para deixar de ter saudades da saudade.
Há que recorrer da imaginação para se afogar a alma em afagos.
Há que lhe dar o presente de estar presente na vida vivida em cada dia.
Sabes, tanto quanto eu, que quando caminhamos nesta praia de final de zulmarinho estamos a viver o presente de ter imaginação que nos afaga da saudade, nos seca as lágrimas da alma e nos encaminha para os sonhos reais de navegar ao sabor das velas do coração.
Te digo que quando te parece que eu preciso do teu desprezo, de ser esquecido por ti, porque estou intragável, lembra-te que é nesse momento que eu mais preciso de amor porque me chora a alma, a imaginação caminha por pesadelos e o corpo se encontra calado pela força da inércia do repouso.
Mas agora vês, temos uma praia com aspecto de novo, agradável, pensas tu que eu bem te conheço e te vejo nos olhos, airosa e ampla sendo a mesma praia do costume, temos a bandeira dourada que merecemos por causas dos amigos que nos acompanham no silencio das caminhadas.
Com tantas coisas boas que nos rodeiam porque ainda nos chora a alma no seu calado lugar?
Já sei. Falta-nos plantar a árvore e escrever o livro!

Sanzalando