Sanzalando
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23 de novembro de 2023
23 de outubro de 2019
1 de janeiro de 2016
depois da viagem
Um dia, de chuva, acordo e penso que passou um ano cheio de coisas, boas, más e outras não qualificáveis neste parâmetro. Acordo e fico cansado ao dizer que o ano passado, que foi ontem, correu sobre mim.
Cansado da cidade, das luzes, dos barulhos. Cansado de não saber qual o destino do futuro desenhado num papel invisível desta peça chamada vida. Cansado de não saber onde é o ponto final e o caminho a percorrer até lá. Cansado de saber coisas inúteis e de desconhecer tantos pontos uteis. Um ano de impostos, cálculos e tempo perdido em erros cansa.
Cansado de não saber porque estou cansado.
A meio de quase nada parti em viagem. Areia e pó me esperavam. Gente em fila caminhando em todas as direcções porque elas vão dar ao caminho, não importa qual. Gente sorrindo e acenando com a cabeça. Sem avenidas ou alamedas, sem jardins nem luxos porém montes de lixo em ilhas contornáveis pelos pés descalços calejados á última da hora.
Assim, cansado parei e repensei até ver que não valia a pena estar cansado. Terei tempo depois de morrer.
Caminho sorrindo sem vontade de desdizer-me as lágrimas que alguns dias chorei em vão.
Caminho directo ao frenesim mantrando
Sanzalando
30 de dezembro de 2015
caminhei por estradas fora
Caminhei por estradas boas, más e assim assim. Respirei pó, tossi fumos mas não parei. Caminhei falando ou calado. Nunca o fiz sem pensar nem ignorar as certezas, as dúvidas e as incógnitas. É certo que não apaguei os sentimentos de culpa, de raiva e ciúme, arrependimento ou tristeza. Mas caminhei com desapego, sem obsessões e sem passados escondidos. Tentei sempre caminhar, quer nas estradas da certeza, sem perdas e sem ganhos, sem vitórias nem derrotas, mesmo quando não sabia para o que ia. Mas certo é que caminhei por estradas de todas as qualidades, com esperança de crescer, aceitar mudanças e perceber que o remédio mais forte está aqui, no coração, na mente, em mim mesmo onde quer que isso seja.
Caminhei por caminhos livres, sem necessidade de abrir portas, sem necessidade de luzes extras. Caminhei e ouvi sempre alguém, algures, a pedir, mesmo que em silêncio.
Caminhei sorrindo, desapegado e sem bloquear a memória nem travar o futuro.
Sanzalando
21 de dezembro de 2015
Índia: a riqueza do coração

Eu andei por aqui com um maço destas. Eu fui às compras e fazia cambios mentais. Rupias. Curioso que todas as notas de todos os valores eram com a mesma foto de Ghandi. Acho nunca tive noutro sítio assim. Pormenor, mas nem tanto.
Na verdade eu vi quem muito tinha e vi quem nada tinha. Eu nalguns casos fiquei sem saber quem é que era o rico. Há quem não tenha nada e se considere auto-suficiente, satisfeito interiormente e sem necessidade de nada. Há quem nada tenha e que aparenta estar na mais completa escuridão de ignorância e afinal é um ser de paixão a Krishna e diariamente faz a sua doação, de coração. Há quem esteja em constante construção mental mesmo que aparente um desmoronamento físico.
Afinal de contas eu andei aqui, cresci e sonhei ao mesmo tempo. A verdadeira riqueza está mesmo é no nosso coração.
Sanzalando
18 de dezembro de 2015
ver a cidade como local
Andei eu por Vridavan. Não é um lugar turístico, posso dizer com a certeza de não ofender ninguém, nem é um lugar bonito. É um lugar para meditar, para conhecer e aprender. Cidade simples. Plana. Tirando a ligeira subida para um viaduto, não me lembro de ver alguma outra.
Riquexó é o taxi ali ao virar de olhos. Milhentos. Gasolina uns, porém muitos eléctricos, o que me surpreendeu já que respirar é uma dificuldade devido ao pó e poluição. Eu, tal qual nativo, usava-os. Nunca andei com mais de seis companheiros de viagem. Vi um com pelo menos 16 pessoas, contando as que no tecto iam. O preço era negociado à entrada. Descia ao sabor da discussão e parava ao leve sinal de alguém querer desistir. Mas o facto é que parava ao menor sinal de alguém precisar dele. Sempre cabe mais um. Mas o preço anteriormente estabelecido não era de modo algum alterado.
As ruas são autênticos caos. Desorganizadamente organizados no ultimo instante. Trânsito à inglês no último segundo, porque nos anteriores eu não fazia a mínima ideia qual era a minha posição geográfica. Ia.
Não descobri quem era peregrino ou habitante. Eram milhares em fila indiana a caminhar 24 horas por dia nas ruas de Vridavan.
Agora, a milhares de quilómetros de distância posso dizer que foi das viagens mais emocionantes que fiz.
Levei 10 kg de bagagem e trouxe muito para pensar.
Sanzalando
16 de dezembro de 2015
Nidhivam, um jardim de Krishna
Era manhã, ou seria de tarde, que não marquei as horas, e fui visitar Nidhivan. Um jardim marcado e remarcado com KumKum nos troncos, no chão. Pó sagrado. Escusam de ir procurar porque vos digo que é um pó vermelho que misturado com água serve para fazer a parte interna da Tilaka, que segundo uns se deve usar sempre, outros que dizem que quando se fazem orações e outros que nada têm de relegioso usam apenas porque sim. Mas a verdade é que aqui me foi dito por um monge, pastor ou responsável do altar, que durante o dia faziam ali oferendas, ao fim do dia era tudo fechado mas na manhã seguinte tudo estava revirado, Krishna visita o seu quarto. Fazes uma oferenda e recebes para alem da graça divina um presente anteriormente oferecido e abençoado por Krishna.
Ouvida a estoria, repetida mentalmente, ombros encolhidos a dizer que sim e em passo rapido para outro ponto do jardim, que aqui peregrinos são muitos e nao quero ser atropelado.
Sentei-me à sombra duma arvorezita, posivelmente ja dera sombra a Krishna, e olho a fila indiana que segue interruptamente.
Passei assim por um sagrado lugar recebendo oferendas e colhendo sabedorias.
Ouvida a estoria, repetida mentalmente, ombros encolhidos a dizer que sim e em passo rapido para outro ponto do jardim, que aqui peregrinos são muitos e nao quero ser atropelado.
Sentei-me à sombra duma arvorezita, posivelmente ja dera sombra a Krishna, e olho a fila indiana que segue interruptamente.
Passei assim por um sagrado lugar recebendo oferendas e colhendo sabedorias.
Sanzalando
15 de dezembro de 2015
como indiano na Índia
Tudo no lugar, num jeito de ser, indiano na Índia. Não tive falhas no roteiro porque não tinha roteiro e se o tivesse era apenas para saber o que ia ser alterado. Porem sentia uma constante ressaca de conhecer mais e mais. Centenas de belos templos adornam a cidade e a região circundante. Uns ricos e ornamentados, outros mais pobres e simples, todos cheios de gente devido à ligação a Krishna.
Olhava à volta e via-me no filme errado e deixava-me ir sorrido e feliz. Afinal algo me diz que pertenço a este lugar e caminhava, descalço por vezes, como indiano na Índia.
A cidade é, segundo dizem, a cidade das viúvas. As mulheres que vestem de branco e ali buscam refúgio. Para ali se dirigem constantemente centenas delas, dizem-me que não as contei, diariamente, porque são desprezadas após o desencarnar dos maridos, nas outras regiões do país. Ali, cidade Santa, elas encontram razões de viver em troca de orações.
Foi bom ter conhecido Vridavan. Um sonho de conhecimento e de energia. Um pó de respirar.
Sanzalando
9 de dezembro de 2015
reflexo duma viagem
Era por volta das tantas duma qualquer manhã dum sonho de viagem. Olhei para a fotografia e reflexo em reflexo reflecti que foi bom ter aprendido tanta coisa que dou por mim a pensar se ainda alguma coisa funciona bem para de tantas estórias que me contaram,
Vasculhei a memória e acho que foi nesta água que as sagradas vacas que respondiam por nome se dessedentavam.
Afinal de contas as fotografias são pedaços fragmentados de memória.
Neste caso da minha e daqueles que passeiam comigo, ouvindo estórias, participando neste pedaço de tempo meu.
De reflexo em reflexo quase me reflectia na água porém um piscar de olhos me fez desviar um pouco da objectiva.
Sanzalando
4 de dezembro de 2015
Brevíssimo resumo dum sonho de viagem
Se é para ir que o seja: vamos e assumimos. Pois foi mais ou menos assim que me dei a ir ali à Índia. Sim, sim, aquele subcontinente que fica na Ásia, a umas horas largas desde aqui.
A modos de não saber porquê o meu telemóvel desfunciou-se após mandar mensagem à família a dizer cheguei. Assim foram 10 dias de isolamento do mundo, que não o meu.
Foi viagem de sonho?
Esta é a pergunta que mais ouço. Resposta pronta e não hesitante: não! Mas garanto que foi um sonho de viagem.
Mais de mil fotos. Paisagens? Tudo. Porem não encontro uma paisagem que possa dizer esta é bela. A verdade é que foi um sinto. Foi uma viagem de sentimento, de alma, de aprendizagem, de cultura, experiência de vida. Aqui apareço de tilaca que deve ter um significado que por mero acaso desconheço, mas umas eram assim, outras transversais, outras só um ponto. Mas noutras estou como que a viver a vida do lugar, a comer como se come a comida do lugar.
Puro exibicionismo? Não. Opção!
Ah! aprendi a vestir os 'cortinados' como diz e bem o meu amigo Karipas. Mas foi uma das coisas que por força da repetição aprendi como se faz: vestir um sari.
Comprei roupa indiana? comprei e usei por comodidade.
Vivi o dia a dia, desloquei-me, senti e respirei o ar de ser.
Satisfeito porque fiz um sonho de viagem mesmo que não tenha sido a minha viagem de sonho.
Sanzalando
27 de outubro de 2010
fim dia viagem
Hoje é o ultimo dia por aqui. Dei no duro e não perdi nada, antes pelo contrário. Fiquei feliz não só pelos sorrisos que fui vendo numa língua que não entendo, como por mim mesmo. Dei de mim e não houve intermediários a ganhar o quê que seja. Agora vou beber uma ou duas birras, Hansa de preferência.
Voltarei dentro de dias já sem viagens no meio.
Um abraço e até lá.
Sanzalando
26 de outubro de 2010
missionei-me
Hoje me apeteceu ser criança outra vez e sair de casa apenas com os meus calções feitos de calças velhas. Tronco nu. Mal vesti a camisa e já eu escorria água de transpiração. Agora, se fosse na rua assim iam dizer mais como? Loucou! gritaria a pequenada que brinca na rua desde madrugada para mim e tarde na hora deles.
Mas eu tenho de estar apresentável e por isso eu tenho de vestir roupa de gente - moderna civilização que me assimilou.
Estou ensonado e s olhos com tanta luz parecem que me ardem de fogo. Eu já não estou habituado a ver claro. E em silêncio. Esta língua não é meu forte. Gaguejo mas lá vou indo onde quero ir, percebo até onde quero perceber, gesticulo que acho estou a fazer ginástica. Me entendo e me entendem. Isto aqui é que é importante. Vamos bulir mais um pouco que dia de festa acho não vou ter. Missionei-me ou quê?
Sanzalando
25 de outubro de 2010
estrangeiradamente calado
Eram pouco depois das sete daqui, ainda eram seis por ai, e estava a conhecer os cantos da casa. Em estrangeiro, é claro. E eu pedia, segundo a segundo, mais devagar por favor. Agora é hora de trabalhar. Vai fazer o que aqui vieste fazer. Silenciosamente, porque não domino o estrangeiro e antes calado do que asneirento. Não tenho tradutor. Canso-me mais e, mais consigo chegar longe se for devagar. Comecei bem o dia. A primeira correu bem e houve um abraço no fim. Pausa e paro para pensar. Que faço eu aqui tão longe e tão perto. Volto a ter que falar e agora tenho tradutor que me traduz para um estrangeiro que não domino mas arranho. Ok, é para avançar. Silenciosamente e o silêncio se contagia nos que me rodeiam. Faço gestos simples e assim nos vamos entendendo. 3 horas num bip bip de silêncios. Terminou. Não consigo saber se estou satisfeito ou não. Acho só amanhã eu vou ficar a saber.
Agora vou beber uma birra, deixar a cabeça arrefecer e se ela quiser navegar por mares a norte daqui que navegue. Eu não lhe vou levar até lá.
Alguém fala o que eu entendo. Pergunto donde e palavra puxa palavra ainda somos parentes de parentes conhecidos. Duas birras depois dizemos adeus e até breve num atré breve que pode durar outra eternidade como demorou esta a acontecer. Promessas...
Deito a cabeça na almofada e vou viajar para lá da imaginação, para além donde os sonhos não dormem.
Sanzalando
24 de outubro de 2010
um segredo bem guardado
Por aqui vou num caminhar ininterrupto. Ali acima, como quem olha num mapa, estás tu. Mas eu não te consigo alcançar. Me falta tempo, me falta um pouco de vontade e tenho a mais um pouco de vaidade ou teimosia. Areia tenho muita, mar nenhum que está longe e não me chega aqui o sabor salgado da maresia. Me disseram choveu faz pouco tempo e me custa acreditar. Acho aqui não choveu nunca, desde a criação do mundo. Mas também não é isso que é importante. Aqui é assim e ponto final que eu não estou aqui para mudar o mundo tal qual ele é. Tomara eu conseguisse mudar o meu e dar o saltito pequenino e te chegar num instante depois voltava e não ofendia a minha vaidade nem ofuscava a minha teimosia.
Não. Eu vim aqui para estar aqui e é aqui que eu vou ficar. Teimosamente como sempre o foste para mim. Orgulhosamente teimoso como aprendi a ser contigo.
Tiver eu tempo e vou ver o mar. Frio como o mar que te banha. Mas ver não magoa ninguém e o mar deve dizer-me mais segredos por tão perto que te está.
Amanhã vou bulir, devagarinho que os 34 graus não deve dar para mais, e não vou pensar em ti. Penso eu que sou teimosamente orgulhoso.
Hoje sou carcamano e ninguém sabe de mim.
Sanzalando
14 de dezembro de 2009
A 7ª e última desde aqui
O sol nasceu cinzento como nasce cinzento todos os dias por aqui. Deixei o dia acordar num bem acordado e lá fui eu para mais um verde onde as ideias brotam - deve ser da humidade - como brotam os verdes campos daqui. A estória vai crescendo, desta vez no papel, as personagens, algumas parecidas com personagens reais, vão tomando corpo e vida própria me obrigando a travar-lhes os ímpetos. Letra redonda para mais tarde conseguir reler antes de fazer como que nem fiz nas outras - desaparece para todo o sempre a Sebenta de capa vermelha. Mas por enquanto ela vai ficando travestida de letras em azul marinho, letra legível, parágrafos definidos num mais que perfeito saber por mim apresentado.
Pior mesmo é o frio que regela os dedos, o corpo que empacotado em muitas folhas como se fosse um bolo, fica de movimentos agarrados aos mais elementares.
Agora, num misto de tristeza e alegria, é hora de arrumar a mochila porque está quase na hora de pôr o ar serio de outras tarefas, guardar a sebenta vermelha, rever o que pode ficar para trás e amanhã poderá fazer falta, imaginar mais um ou dois parágrafos da estória que afinal vai passar aqui mesmo porque foi assim que ela quis.
Amanhã será outro dia noutro lado que ainda não vai ser o lado de lá onde o sol aquece, onde a minha alma renasce junto ao espírito da placenta se vê se a viagem tem continuação para além da memória.
12 de dezembro de 2009
A 6ª desde aqui
Altas horas da tarde, noite dentro. As pernas tremem de cansaço, os pulmões parecem não caber na caixa. Já nem me lembrava que o ombro direito está emperrado. A polícia também não perguntou nada, arriou em quem estava e em quem por acaso estava no acaso daquele instante, que era o meu caso. Eles gritavam com tanta quanta força eram capazes, na língua que nem com esforço entendo quanto mais no meu esforço de sair dali. Foi sábado, eles se manifestaram e eu corri. Coisas que fazia noutros tempos com alegria, agora mesmo cansado mas ainda com capacidade de sorrir e de saber que afinal eu também estava lá a apelar pela Terra.
Foi um Sábado diferente
11 de dezembro de 2009
A 5ª desde aqui
O Sol nasceu parece brilho de diamante.
Hoje está um dia que eu vou gastar o cartão da máquina fotográfica. Se fosse no antes eu nem metade ia tirar só para não pagar a revelação. Agora tem esse de cartão, descarrega num PC perto de si e já tá andar para outra. Mas hoje essa luz vai me ajudar, eu sei. Pena mesmo é que eu tenha de andar parece é daquelas bonecas russas que tira uma e tá outra e assim sucessivamente. Mas frio eu nem gosto nem de pensar quanto mais de sentir. Tambem se eu escorregar numa pedra mais geladinha eu não vou nem me magoar de tão almofadado eu estou. Ai como eu gostava de estar no outro ponto onde mesmo que chove está uns 29. Mas não estou e não vou nem mais lembrar hoje essa tristeza que me acompanha. Vou ver os carcamanos daqui e quando estiverem distraídos lhes arranco uma fotografia, porque teimoso sou eu e mais nada.
Até breve, de algures no mato gelado do norte da Europa que me enganaram a dizer que aqui é que é bom e coisa a tal, uma ova.
10 de dezembro de 2009
A 4ª desde aqui
Enjaulado numa jaula de frio percorro a cidade e o campo. Chamar cidade a este lugar é o mesmo que a antiga estória da cidade e o mato, mas isso não é para aqui chamado a não ser para aquecer o ambiente.
Hoje metendo as pernas ao caminho fui ver verde, muito verde, aqui e ali interrompido por um casarão que só de pensar em limpar um dia eu fico logo a transpirar e por isso sigo caminho. Mas se me falam do lugar onde eu devia estar e que não é este onde estou a dizer cobras e lagartos então deviam conhecer este canto do mundo que é conhecido quer por Gram Bertanha, Inglaterra, Reino Unido, Velha Albion e sei lá mais o quê... vê-se logo que eles não se entendem. Mas a educação ficou na esquina ao sair de casa. Só pode... Se tem possa de água da muita chuva que aqui está sempre a cair, só para para refrescares os olhos num brilho solar por segundos, eles passam todas as rodas do carro só para te darem um monumental banho. E é de propósito que eu bem vejo. Se estás na passadeira e queres atravessar... melhor mesmo é esperar que não venha nenhum pois te passam a ferro sem cerimónia. E se estás a tirar fotografia... ISSO É PARA QUÊ perguntam eles na língua deles e com ar de quem te vai arrancar o coração mesmo através da roupa toda que trazes vestido. Como a gente não se entende, eu finjo lhes desconhecer a língua, lá vou eu para a praia mais umas tantas vezes e até apaguei uma foto que apenas tinha um sinal de trânsito que a casa atrás nem se percebia... Outro mundo, dizem-me sem me conseguir convencer.
Mas na verdade lá vou andando à procura da inspiração para uma ideia que me surgiu faz tempo e a preguiça tem impedido...
Verdade verdade é que eu prefiro o campo à cidade, seja aqui seja lá.
9 de dezembro de 2009
A 3ª desde aqui
Faz agora são meio dia mas parece ainda é madrugada. Acho hoje alguém se esqueceu de pôr despertador e o tal de astro rei hoje não veio trabalhar. Chove parece vai acabar agora a água do céu e amanhã o dia vai ser igual ao dia que eu estava a imaginar que eu merecia estar agora a usufruir. Assim como assim e como os músculos não aguentam mais fazer as caminhadas da guerrilha do conhecimento por entre ruas estreitas e húmidas, braços segurando capas, chapéus e gorros optei por ficar da janela a ver o mundo circular por ali em baixo faz conta eu sou o senhor central.
Olha aquele ali vai de manga curta pensa deve ser o Tarzan dos tempos de agora, ou então desregulou o central computador da tola dele mesmo e nem sente está frio de rachar que gente humana que nem eu não consegue nem aguentar só de pensar.
Meninas, aquecedores ao máximo que o vosso lord, your sweet lord, vos ordena. De facto ninguém me ouve e estou eu aqui de sobretudo vestido em quase impossibilitado de esticar os dedos para te falar as coisas que eu te queria dizer. Como é que eu logo à noite posso ir ver o Peter Pan no teatro se nem consigo respirar o ar frio que não me entra na casa?
8 de dezembro de 2009
A 2ª desde aqui
Olhei pela janela e estava sol. Afinal aqui deve ser o lá, pensei eu com os meus botões, quando reparei que eu estava de t-shirt e por isso eu estava mais que enganado. É certo que ainda não tinham batido as oito no relógio da Lageosa que é a mesma hora que aqui e deve estar frio como está frio aqui. Experimentei ir sentir o sol brilhante e logo me arrependi pois tudo congelou que se fosse necessário só de lupa eu me ia encontrar. Salsichei-me com mais roupa e gorro e luvas e ainda mais um outro casaco. Não sou esquimó nem pinguim mesmo que assim vestido o meu andar lhe pareça. Como é necessário manter a moleirinha arejada, esquecer as luzes amarelas e pretas da vida vivida, há que fazer caminhadas. Não posso ficar enlatado dentro do meu quarto a ver o tempos se solidificar no gelo conservador de memórias. Lá fui salsichado pelos caminhos desta terra que tem língua que nem sei como eles se entendem neles mesmo. Tank you disse eu num quase soletrado a quem me deixou atravessar a estrada como que tivesse adivinhado que eu ia olhar primeiro para o lado errado. Andei e andei horas por subidas que aqui são assim ladeirinhas de trazer por casa. Cansado eu precisa dum poiso para pousar a bunda e retirar os tantos kilos destes pobres pequenos pés.
Encontrei o Royal Bowls Club, Pareceu um sítio bom e num envergonhadamente passo lá fui entrando. Estava quente e tinha uns sofás que me convidaram a sentar. Olhei e não estava ninguém a quem pedir licença pelo que sentei mesmo sem estar com licença. um grande tapeie verde feito de alcatifa de pelo curto estava bem esticada por aquele chão. Duas dúzias que eu não contei mas calculei ali estavam a tirar bolas que parecem queijos contra um bola verdadeiramente redonda e mais pequena que atiravam primeiro. Das duas dúzias eu quase dizia que dúzia e meia joga aqueles queijos há mais de um século. Se estiver errado não é por muito. Só estou a imaginar se não inventassem uns ferros para os apanhar do chão alguns deles iam lá em baixo lhes buscar e depois tinha de vir a ambulância lhes levar para um esticar de corpo.
Retemperada a força e recuperada a energia dum nescafé quente lá voltei a pôr as pernas ao caminho.
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