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18 de setembro de 2023

ironia

Me olho e penso que ironia seria uma outra pessoa olhar-me e ficar surpreendida. Esclarecido o olhar de surpresa: me olhou atentamente e me disse que pensava eu era uma pessoa que ela tinha visto faz 40 anos e até que nunca mais lhe viu. Tudo lhe chamou a atenção porque tudo era igual ao que lhe estava na memória. Na verdade não podia estar mais longe da realidade embora me dissesse coisas que coincidiam com a pessoa que eu era. A pessoa ria e chorava ao mesmo tempo. Me interiorizei num olhar e pensei que estava por aqui um dos dois era louco. Ela quase dizia as coisas que esse eu de anos atrás lhe fazia rir ou chorar, contar estórias que quase eu acreditava era eu, mas na verdade não me lembrava nem uma.
Não vou ser simpático e dizer era eu só que mais muitos anos em cima., porque na realidade eu não podia ser. Os quilómetros não coincidiam, os lugares não podiam bater certo porque eu nunca estive nesses lugares. 
Tenho um sósia de 40 anos atrás e desconheço. Foi difícil dizer que não era eu. O pormenor até dava ideia que tinha havido ali apaixoneta no meio, mesmo tendo-me dito que não. Mas na realidade eu não era porque eu nunca fui outro para além de mim e não me lembro de ter sido raptado por extra-terreste e levado para outra dimensão, para além que na minha vida não tem hiato assim perdidamente num esquecimento. 
Foi só ironia do destino fazer um outro gajo tão bonito que nem eu.


Sanzalando

13 de agosto de 2023

ao meu pai

Se era madrugada, dia alto ou noite, não me lembro. Apenas sei que a minha boca ficou calada, desconseguia pronunciar palavras ou até emitir sons que poderiam ser gritos ou apenas sons impróprios para consumo diário. A cidade parou, o mundo da minha mãe parou, a minha família chorou. Era o peso da perda, ponto alto de uma vida que estava a começar. Se eu fosse mais velho muito teria para dizer, mas eu era criança e pouco sabia o que se estava a passar. Me devem ter contado contos de fadas e outros sonhos. Minhas mãos não deviam tremer. Era só o meu silêncio e o choro dos que me rodeavam. 
Se fosse hoje eu compreenderia, diria palavras de circunstância, de apelo à compreensão e era mais um adulto nos adultos que choravam. A cidade, me disseram mais tarde, faz pouco tempo, parou. O silêncio da cidade era assim como que o meu. Descompreendiam o que tinha acontecido. Meu pai partira no auge da sua vida a começar. 
Ele devia ter defeitos, porque da perfeição estou tão próximo que a distância daqui à lua nem parece centímetro, mas ainda não ouvi um. Virtudes todos dizem era era um poço.
Mas eu não sabia nada e nada me disseram e o que disseram foi distração. Cresci a lhe honrar, penso eu. 
Não tem dia especial, foi só porque acordei e pensei no meu pai. Lhe gosto muito mesmo não tendo tido tempo de lhe conhecer de cor e salteado.



Sanzalando

1 de julho de 2023

desesti da poesia

Desisti de ser poeta. É assim mais ou menos quando ao entardecer entra a noite. Não tinha jeito, não consegui dizer que o beijo sabe a flor ou que o colibri é o beija-flor da minha infância, o nectar da minha vida, a rima perdida, a dose da intolerância, a teia duma aranha como se fossem as minhas veias, aquilo que me apanha, no todo e não a meias. Perdi noites a pensar, tropecei em caminhos, não fui a nenhum lugar dos velhos pergaminhos, não salvei almas nem as atormentei, fui sempre nas calmas pelas estradas que apanhei. 
Desesti de ser poeta, de tropeçar no tempo, de deixar uma porta aberta à chuva ou ao vento. Desesti porque sei que o fiz.



Sanzalando

22 de maio de 2023

caminhos

Me deixo embalar enquanto caminho. Quase durmo. Vou assim num pensar que quase sai de mim e fui para outra paragem longe de mim. Será que sou o inquilino perfeito para o meu corpo? O meu corpo tem imperfeições e eu sou quase perfeito... Tenho coisas boas, tenho coisas más. Mas eu sou maravilhoso. Não tenho medo dos anos que passam nem da vida vivida, não tenho saudades doentias e a nostalgia é uma parte integrante de mim. Tenho medo que haja vida que não vivi. Tenho emoções, quando triunfo ou quando não.
Tenho tempo para ir aprendendo. E vou.


Sanzalando

20 de maio de 2023

as minhas vozes

Todos os meus caminhos têm uma voz. Nem que seja a voz da minha consciência. Às vezes é a voz dos meus medos, outras da minha alegria e outras são vozes que nem chegam aos céus. Eu às vezes ligo-as e outras lhes olho com olhos de ver vozes insignificantes e sigo selectivamente surdo sigo o meu caminho. Há vozes que gosto de ouvir ao fim de tarde porque contrastam com a cor de fogo do pôr-do-sol, outras que gosto de ouvir noite alta no sossego do meu quarto, outras ao amanhecer. Gosto de ouvir a voz do romper da aurora. É ela mesmo que me molda o dia. É rara a vez que ela não é o meu bálsamo, o meu banho de argila. 
A voz que às vezes me engasga, a outra que me segura, outra que me enerva, outra ainda que me grita, são vozes da minha consciência. Acho que ela é assim um pouco a dar para o doidice. 
Eu gosto das minhas vozes e gosto de as contrariar, quanto mais não seja para eu ter liberdade de escolher a minha voz de cada momento.


Sanzalando

19 de maio de 2023

andando por aí

Quando ando por aí, tropeçando pensamentos, ideias ou sonhos, vejo cada coisa que até parece eu deliro em febre alta. Eu sei que cada ferida tem a sua própria estória de cicatrização, cada dor tem a sua causa, cada morte tem o mesmo fim.
Tem momentos que necessito de cada minuto meu e tem alturas que parece tenho a mais.
Quando ando por aí encontro caminhos cruzados e penso noutros que o poderiam ser mas teimam em ser paralelos. 
Quando ando por aí, sabendo que eu sou a personagem principal da minha estória, mesmo sabendo que às vezes tenho de ser secundário. Não há ciência que explique a realidade de cada instante, porque é único e tem variações de espectativa.
Quando ando por aí, sem ser aos caídos por mim, dou comigo a viver cada instante como se fosse o último.

Sanzalando

18 de maio de 2023

culturalmente vago

Deixo-me ir pelo meu caminho, mente aberta porem encerrada para qualquer distúrbio. Ruídos e distrações supérfluas me deixam irritado porque me desconcentram do nada fazer e do ser livre de levar as minhas palavras mentais pelos caminhos que eu entender. 
Não dou valor aos meus bens de riqueza, ao meu lado bolorento e rançoso, ao meu defeito genético ou feiura facial. 
Dou importância à embriaguez cultural, às páginas dum livro novo ou velho, que acrescentem mais valias ao meu conhecimento, aos curiosos que tudo querem saber e fazem coisas por isso, às viagens humildes onde não me encerro em lugares fechados, mas vou em busca de coisas comuns, de pobreza à riqueza, aos extremos da condição humana. Dou importância â amizade desperguntada ou julgativa, desconseguida de segundas intenções. Dou importância à presença inesperada e ao lado criativo dum estar constante mesmo que ausente.
Desconsigo ter saudades doentias de estares que foram passado, de momentos que alicerçaram o meu estar. Descristalizei o meu estado de espírito e levo-me pelos caminhos que quero, como quero, na liberdade criativa dum ser pensante. 
Não me cobrem rancores nem outras dores que eu não causei. 
Não me obriguem a ser uma cópia falsificada de mim.
Deixem-me ser livre no meu canto fechado, no meu quadrado mental, na minha solidão recheada de gente boa.
Genghis Khan sentia-se como executor de uma missão divina "Um único sol no céu, um único soberano na terra", falando de si mesmo. 


Sanzalando

17 de maio de 2023

introspectivamente

Meto-me ao caminho de mim, forma certa de me encontrar e ser feliz. Eu sei que não posso estar disponível para os outros o tempo todo. às vezes sinto-me saturado, descozinhado, maltrapilhadamente só e necessito o meu espaço, o meu tempo de desasfixiar-me, de me reencontrar no meu mundo, porque tem coisas que pesam mais do que eu posso aguentar, porque me entristecem mais do que eu devo e porque me irritam o que me é por mim vedado. Assim meto-me ao caminho de mim e desapareço dos olhos estranhos que me vêm e não sabem que eu não sou aquele ali. Descomplico-me na solidão do reencontro.
Afinal de contas que melhor prenda me posso dar se não tempo, atenção pessoal e reconhecimento?!
Mas nem todo o tempo do mundo me permite a constante introspecção e por isso eu sigo adiante como se não tivesse futuro. Estou sempre no meu presente, assente os pés no meu passado. 


Sanzalando

16 de maio de 2023

me olho em debate comigo mesmo

Como é bom olhar-me no espelho e ver que a criança ainda existe em mim. Estamos no ano 2023 mas posso bem estar a pensar em 1965 e por aí em diante. A minha existência tem passado, passado esse que é a minha memória, alicerce do que sou hoje. Não olho para as rugas, pé de galinha ou alopecia esbranquiçada duma moleirinha a pelar por sol em demasia.
Olho no espelho e me apetece falar de tantas coisas que pensei ao longo deste tempo que passou. Sabes também gostava de te ouvir falar sobre o tempo que passámos. Não vou entrar em ansiedades nem querer obrigar-te a falar. Tenho tempo para esperar te  venha a vontade de saber como estou, quem sou e me dizeres como me viste. 
Não, não vou pensar que o teu pensamento sobre mim seja uma mancha escura, um erro, uma caligrafia mal desenhada, um amor desamortizado pelas minhas incoerências, minhas ausências e minhas aventuras. Eu sempre fui muito mais que isso, te avanço numa previsão de pensamento teu. Amar amei sem pedir nada em troca, fui e voltei sem que alguém me chamasse. Deambulei desenhando um norte que podia ser outro ponto cardeal, despreocupado estava desde que eu soubesse onde ir. 
Não vou pensar nos meus erros nem no que podias ter feito para que eu não os cometesse. Não vou entrar em debate. Não o quero de todo, porque a vida levou-me a tantas partes que todas elas fazem parte de mim neste agora.
Se te olhava como um derretido, nunca te olhei como um súbdito. 
Anda daí e dar uma volta na nossa adolescência, falar de coisas bonitas, ver as nossas ruas e nossos caminhos. Anda, vamos recordar.


Sanzalando

14 de maio de 2023

olhos

Vou só por essa estrada faz de conta não tenho fim à vista. No meu tempo de criança tudo parecia distante, tudo era longe e o grande era enorme. Cresci, vi meio mundo e as mesmas coisas deixaram de ter as ditas cujas distâncias. Mas nesta estrada eu não olhava nem nos olhos das pessoas nem admirava a cara. Os olhos por si definem a cara. Os olhos alegres transformam a cara. Só os olhos para descrever uma cara, mostrar o rosto duma pessoa. Falar com alguém e olhar nos olhos dá outro encanto. E quando eles vertem lágrimas, essa água salgada que pode ser tristeza como alegria. Os olhos têm sentimento, têm sentido e dão intensidade. Há olhos que gritam, olhos com mágoa, olhos que sorriem, olhos com saudade, olhos mortos em vida. 
Vou só por essa estrada e num sem fim de coisas me lembro. Hoje me lembrei de olhos e rostos. Mona Lisa tem sorriso mas tem olhar. 
Os olhos definem, desenham a cara.
Não deixem morrer o olhar.


Sanzalando

12 de maio de 2023

a vida

Caminhando por aquis, indefinição própria de quem não quer dizer por onde anda, dou comigo a meditar de quantas vezes fui herói, às vezes obscuro, outras vezes na penumbra do desconhecido e outras vezes descaradamente? Quantas vezes podia ter feito mais e não tê-lo feito por desconhecimento ou por falta de percepção? Quantas vezes eu fui sombra de mim, vilão do próprio?
Se eu pudesse devolver-me o tempo das indefinições, dos cortes que deveria ter feito, dos dias obscuros que perdi no conforto dum sofá... não seria melhor do que sou por quanto sou o somatório de todos os meus passos passados, perdidos e encontrados, dados ou arrastados. 
Caminhando por aquis, dos lados todos da vida que vivi, dos planos e pensamentos que ainda não concretizei parece que não me esqueci de ser um ser vivo que vive a vida com gosto. Faço o que faço porque gosto de fazê-lo, porque devo-me fazê-lo e porque o mereço. 
Eu não seria diferente se a minha vida não tivesse dados as voltas que eu lhe dei.



Sanzalando

11 de maio de 2023

tem dias

Tem dias que sorrio quando me apetecia chorar, falar quando queria estar em silêncio. Porém não deixo de estar feliz. Até parece eu sou um paradoxo de mim. Mas a realidade é que tem dias que me pergunto se eu mereço o que tenho, se eu fiz algo para o ter? Tem dias de dúvida e incerteza. É assim mais ou menos com os dias de chuva e dias de sol. A gente não lhes manda nem solicita. Tem-nos e vai ter que ter a vida com eles. 
Tem dias que parece estamos prontos para a queda e outros em que caímos de surpresa. Nos primeiros até nem dói e nos segundos, mesmo que não doa fisicamente, dói na alma. 
Tem dias que a solidão e a tristeza parece acordaram juntas. Mas afinal o que falta é termos vontade de preencher o vazio, animar a ansiedade e dar corda aos músculos da alma.
Tem dias em que o maior de todos os vícios é a confiança. Se ela falha até parece um sismo e o nosso corpo se desfaz em pó. Isto quando temos a capacidade de sair do nosso corpo e nos vermos de fora para dentro. 
Tem dias que as palavras escritas parecem sanar a alma, libertar a mente e nos acalmar o coração.
Até parece que um poema triste não pode ter um final feliz. 



Sanzalando

10 de maio de 2023

um dia de cada vez

Olho-me por dentro olhando o zulmarinho. Perco tempo ganhando-me. É a minha forma salutar de saber quem sou e o que quero. Não atropelo nem faço feridas a ninguém. Mas ainda tenho tempo de esfolar os joelhos brincando no alcatrão, à trouxa lavada, ao garrafão e ao picles. Já não me lembro das regras do prego e já não tenho berlindes para jogar nem parceiros que se lembrem de ganhar tempo ao tempo que têm. 
Vou fazer mais o quê desta vida errónea, desta nostalgia sadia que faz mal a tanta gente porque não a têm?
Um sorriso, irónico ou real, levam a minha ingénua vida à invulnerabilidade de ser feliz. Se eu soubesse cantar eu estaria agora a fazê-lo. Parece estranho, mas é real. 
Sempre fui feliz? Não! Era mundano e fatalista, agarrado ao fado e à fatalidade de ter os olhos cravados num amanhã de arco-íris e festa de rua. 
Mas aprendi que afinal eu sou o que sou e tenho o que tenho. Os alicerces fui buscá-los desde o berço, as paredes mestras construí e este edifício vai-se construindo andar por andar até que o terraço esteja concluído. Quando? Não faço a mínima ideia e nem me preocupa.
Olho-me e sou feliz, um dia de cada vez


Sanzalando

9 de maio de 2023

tem dias

Tem dias que me ponho a pensar e parece tenho um novelo emaranhado de pensamentos em que se puxo uma ponta sai uma escada de nós complexos e desconsigo encontrar um pensamento limpo e claro. Sei que faz parte da natureza humana por vezes complexar o simples, cegar perante o óbvio e ensurdecer perante o som puro da natureza. Nesses dias dá uma gana de nada pensar, de nada ver e muito menos rever. Mas teimoso como sou, calma e serenamente vou descomplicando o novelo e  aos poucos vou clareando a trovoada de pensamentos ao ponto de ter um céu limpo.
Na verdade tem dias que tudo parece um ponto final e se olharmos bem lá na frente vemos que há mais praia para navegar.
Tem dias que parece o tempo não tem fim mas o tempo não tem complexos elásticos nem pensamentos de me lixar, pelo que eu me acalmo vejo que o tempo tem tempo para me dar tempo que o tempo tem.
Tem dias, hoje é só mais um dia que eu tenho para viver.


Sanzalando

8 de maio de 2023

morri de amor

Era ainda uma criança quando me lembro que me apaixonei de morrer. Era imaturo e inexperiente, usava calções e sandálias, joelho esfolado de brincar na rua mas escondidamente estava apaixonado. Não disse nada a ninguém e todas as músicas que ouvia eu lhe dedicava em silêncio. Acho ela nunca soube que tinha roubado o meu coração de mim. Mas me olhava e parecia feliz. Imaginava eu, porque nunca nos falámos, nunca trocámos mais que um olhar. Era a minha primeira morte de amor. E foi assim num silêncio solitário que também fiz o meu primeiro luto de uma amor que devia durar para a vida toda.
Outras paixões foram aparecendo. Cada uma aparentemente mais mortal que a anterior. Sobrevivi a tantas mortes de amor que se houvesse borboletas no estômago como me disseram, eu estaria morto por casulos a me ocuparem todo o meu interior. Morto de amores e morto por amor.
Afinal de contas é bom morrer de amor. Por isso morri todas essas vezes incontáveis que eu sei de cor.

Sanzalando

14 de abril de 2023

Vou de férias. Até já

Estaciono o carro na marginal. Ouço música no rádio. Aleatoriamente escolhida por quem está de serviço. Ouço-a sem tomar consciência dela. Se a desligasse eu ia notar a falta, porém não é importante. Necessito dessa melodia para admirar o zulmarinho e entrar nos meus pensamentos como quem vai viajar. Vou a Nairóbi e a Mombaça, vou africanizar o sangue, o pensamento e acalmar o desejo ardente desta saudade. Vou-me deixar ir por aí, recordando criancices e outras travessuras próprias da idade e do ambiente, vou à procura de mais versos, poemas e canções de bandido para mais uma ou outra cerveja. 
No fundo da baía percebo que há um barco que chega ou sai. Daqui a pouco entenderei. Agora não sei se vejo a popa se a proa. Mas não é importante, porque não entra nos meus pensamentos, não percorre a minha vida. Decora apenas o ambiente.
A música fala-me de ti. Acho que todas as músicas falam-me de ti. É sugestão, só pode, se eu não estou com atenção nela.
Passas num silêncio pela minha vida, deixas um rasto que marcou num até hoje e mesmo assim não existes da forma física e palpável. És a minha imaginação, o meu desejo, o meu passado feito hoje. Afinal de contas não sou mais que um utilizador de coração alheio para aguentar a dor do meu. 
Distraio-me a ver os pequenos barcos ancorados atoa na baía. Todos com a proa virada para o mesmo lado, qual formação militar. Se eu pegasse num e fosse gingar por aí? Certo seria levado pela corrente ou não sairia do mesmo lugar. Se eu tivesse trazido um fio e um anzol tentaria pescar. Nunca o fiz e não sei o que poderia acontecer para lá de ficar preso numa pedra que protege a marginal. Eu vim aqui para viajar pelos pensamentos e passados. Distraio-me e perco-me em presentes desfundamentados. 
Vou de férias. Até já.

 

Sanzalando

13 de abril de 2023

é a vida

Sigo estrada fora, sempre em direcção ao zulmarinho, sempre com os olhos postos no meu início e no meio pois lá longe eu não consigo nem quero ver o meu futuro, ouvindo a minha musiquinha no rádio. 
As vezes que me perdi pelo tal de Cupido, num olhar ou num sorriso, num estar ou forma de ser, acho fui feito reacção química que me fez perder a razão e entrou a paixão. Assim numa forma aditiva de estremecer a alma e o corpo faz de conta eu entrei numa tremideira de ansiedade e desejo, deixando de olhar o mundo tal qual ele é. Custa dizer que a gente se perde nesse tal de Cupido, mas nem razão a gente tem mais, o juízo se desmorona, o olhar se desfoca. Tudo por causa dessa tremideira que esse Cupido nos faz. Nem faz tentar se por de lado a ver, desconsegue-se distinguir a realidade e a razão da ficção apaixonada. Tudo fica inexplicável, incomparável e impuro.
Esse de cúpido até nos faz perder o paladar porque o sabor sabe sempre a amor, musa perfeita da mais pura imperfeição.
A música toca no rádio, o carro segue automaticamente ao azul desse zulmarinho, as recordações chegam à superficialidade do pensamento e eu não tenho maneira de fugir-me e negar os amores que se iniciam sempre perfeitos.
Quantas tantas vezes me despedi dessas ilusões, desses amores de morte, dessas almas encantadas? Vida de ser humano tem destas coisas, ainda por cima quando se é normal e se tenta normalmente viver a vida de cada vez ao dia.


Sanzalando

12 de abril de 2023

distraio-me e caio

Me sentei numa esplanada e sob ruído de fundo bebi um café. Não me apetecia fazer nem sequer pensar. Quase adormecido, em pensamentos cruzei o inferno de todas as indiferenças e naveguei por mares agitados de medos infernais, subi montanhas e desci ravinas de intranquilidade. As dúvidas e indecisões que formam a minha ambiguidade mental me atiram para picadas e caminhos tenebrosos que não me permitem planear destinos, rotas e marcar chegadas. 
Arrepiantes pensamentos me levam a infernais pesadelos. Eu, delicado senhor duma pacata existência, atormentado pelos espíritos maléficos dos meus pensamentos vadios e, quem sabe, freudianos passados, dou comigo sentado numa esplanada transpirando medos e dúvidas.
Arre. 
Sorri, abri os olhos, admirei a realidade do momento, vi que o sol brilhava, que os meus olhos olhavam para um mar sem fim e eu estava intacto mentalmente. Fora só um momento de distração.


Sanzalando

11 de abril de 2023

imaginação e realidade

Antes de ser um ávido ouvinte de música do rádio sou um livre pensador das minhas ideias e sonhos. Misturados, remexidos, batidos ou simplesmente agitados, estes factores me fazem sentir feliz. Não me deixo enrolar pela vida fria e melancólica, vazia ou agónica. Vou, ao som dos sons dos outros fazendo a minha caminhada, entre sorrisos e apreensões, entre dúvidas e certezas, assumindo cada uma como uma força natural da essência, não me esquecendo que já fui menino, de diabruras, travessuras, que fui crescendo e apurando certos sinais e comportamentos, ao ponto de poder dizer sou quem sou porque assim me fiz.
Esfolei joelhos e chorei. Amassei barros e moldei. Fiz rir e fiz chorar. Humano sou. 
Afinal de contas o que é real? Como sabemos que estamos frente a algo real? Na verdade o real é mais, muito mais que a observação cientifica e certificada. O sentimento da subjectividade faz parte do meu real. Assim sendo há varias realidades para o mesmo real. 
Qual o real que eu sou? A imaginação e a realidade me fazem sentir o momento que existo.




Sanzalando

28 de março de 2023

há

Entre as saudades de futuro e o ter de esconder a emoção, o tempo vai correndo lentamente.
Eu sei que um dia aqui chegaria. Não imaginava como, nem que dores podia sentir. Era um desejo que seria futuro que quase virou presente e que custa virar a página.
Há dores que não deviam doer, há momentos que deveriam ser saltados. Há estados de alma desconhecidos que deveriam ser substituídos por momentos de festa interior. Há, mas nem são verdes nem falam em silêncios surdos e pardos.


Sanzalando