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Conversas à Mesa
PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio
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- Perinências 5 - Prof. Carlos Fiolhais
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- Pertinências 23 - Jornalismo de Investigação
- Pertinências 24 - Teolinda Gersão
- Pertinências 25 - Júlia Domingues e João Ventura
13 de setembro de 2026
Pertinências 26 - A Música na Feira do Livro
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdível
12 de setembro de 2026
eu e os jogos de futebol
Ah, nos anos 70 era a era de calças à boca de sino, camisa mil-flores e cabelos compridos e uma bola de cabedal que pesava três quilos quando seca e quarenta e dois quando molhada. Se não era assim é porque já me esqueci como é que era. Mas se havia coisa que unia a vizinhança era o futebol de rua, mesmo na minha rua que uns jogavam a descer e outros a subir. Mas havia um problema que era quando a paixão pelo jogo excedia radicalmente a capacidade motora, o chamado jeitinho, o que era o meu caso.
Eu era aquilo a que as pessoas daquele tempo chamavam de desprovido de talento, mas que no bairro se resumia a um simples e cristalino: Ó pá, tu ficas à baliza ou vais para a ponta do pé de microfone! O ritual começava sempre no momento sagrado das escolhas. Dois capitães, habitualmente os rapazes com mais cabedal ou donos da bola, mediam pés para decidir quem escolhia primeiro. Pé, calcanhar, bico, sola... O primeiro a ser escolhido era o melhor dos jogadores, que fintava até a própria sombra e mesmo assim se saía bem. O último era invariavelmente eu. A escolha para me escolher para a equipa não era feita por tática, era porque sim.
As regras do futebol de rua nos anos 70 eram simples, elegantes e imprevisíveis: As Balizas eram duas pedras, duas mochilas ou duas chinelas porque havia quem ia jogar descalço no alcatrão. A altura da baliza era sempre uma discussão filosófica e conforme dava jeito. Qualquer golo por cima do guarda-redes, o verdadeiro chapéu, gerava dez minutos de debate com o clássico passou por cima dos dedos, não conta! O dono da bola era o imperador absoluto. Se ele se chateasse porque levou um túnel que é o mesmo que dizer uma cueca, o jogo acabava, a bola ia para debaixo do braço e nós ficávamos a olhar para o alcatrão a ponderar o sentido da vida. Quanto ao tão falado fora de jogo simplesmente não existia. Existia apenas o conceito de babuja, que consistia em ficar a um centímetro da pedra-baliza adversária a esperar por um milagre.
Como eu não tinha pés para a bola, a minha função principal era a de obstáculo móvel. Uma vez cortei um passe decisivo com o joelho esquerdo enquanto tentava atar o sapato. Fui aclamado como um estratega do desarme.
Jogar na rua nos anos 70 tinha também o factor fauna e flora. Havia o carro do senhor Santos estacionado perto do campo, uma raspadela de bola no espelho lateral equivalia a correr como se não houvesse amanhã, a vizinha que odiava crianças e guardava as bolas que caíam no quintal e o alcatrão gasto que nos deixava os joelhos em carne viva. O mercurocromo da avó fazia milagres.
No fundo, eu nunca soube se jogava à bola ou se a bola é gozava comigo. Mas quando a luz do candeeiro da rua se acendia o sinal universal de que estava na hora de ir jantar antes de levar um raspanete, ficava aquela sensação de dever cumprido. Tinha os pés doridos, as calças rasgadas no joelho, zero golos marcados e uma felicidade que nenhum troféu do mundo conseguiria pagar. Mas que raio havia de me acontecer. Gostava tanto de futebol mas a falta de jeito fez-me um dia ser médico e entrar em campo de braçadeira de médico. Entrei ou não entrei em jogos importantes?
Bom dia Mercado 18 - Rádio Portimão
10 de setembro de 2026
Fui ao Cinema domingo de manhã
As manhãs de domingo cheiravam a café fresco na cozinha da minha avó e a pão torrado no fogareiro com azeite. A mim, vestiam-me os calções de algodão, que podiam ser de chita ou outro tecido qualquer que eu não protestava desde que não picassem nas coxas, meias altas até ao joelho e um par de sapatos de fivela encerados até parecerem espelhos. Era domingo, que é que julgam.
O meu avô agarrava-me pela mão e marchávamos pelo passeio a caminho do Cine Moçâmedes. Marchávamos porque não podíamos chegar tarde e não havia distrações no caminho. Para mim, ele era uma espécie de capitão de mar e guerra, impecável e postura ereta, mas com um ponto fraco terrível, não gostava de ir à praia.
Naquele domingo em particular, a fita era do Cantinflas. O cinema estava composto por uma legião de miúdos irrequietos e avôs resignados. Os projetores arranjaram vida, o feixe de luz cortou o escuro e, exactamente aos três minutos de filme, ouvi o ruído, gargalhada geral. Não era uma gargalhada qualquer. Era uma sinfonia, num crescendo que parecia competir com a orquestra da banda sonora.
Às tantas, na tela, o Cantinflas saltou para cima de um comboio em movimento e disparou um tiro para o ar, o meu avô deu um pulo na cadeira, e eu e eles os miúdos todos. Inesperadamente estávamos aos gritos. A sala de cinema parou. Pelo menos uns vinte miúdos atiraram-se literalmente para debaixo das cadeiras, espalhando medo por todo o lado. Eu, de calções e meias altas, encolhi-me no assento, dividindo-me entre a vergonha absoluta e uma gargalhada histérica.
O meu avô gargalhou como eu nunca tinha lhe visto. Era domingo e era um filme para crianças
Quando voltámos para casa, a minha avó perguntou se o filme tinha sido bonito. O meu avô piscou-me o olho e disse:
- Uma palhaçada, Leovegilda. Mas o miúdo tem bons reflexos
9 de setembro de 2026
Programa K'arranca às Quartas 131
8 de setembro de 2026
A humildade política
A humildade política é uma espécie rara. Quase tão rara como um político que, depois de perder umas eleições, diga simplesmente:
- Perdemos. O povo não gostou. Vamos pensar no assunto.
Em vez disso, ouvimos:
- Tivemos uma vitória moral. - rebuscando palavras e ideias que nada têm a a haver com o número final.
A vitória moral é uma coisa extraordinária. Não aparece nas urnas, não consta dos resultados oficiais e não se sabe muito bem onde se guarda. Mas é sempre muito útil quando faltam votos.
Há também o político humilde que diz:
- Eu não estou aqui por interesses pessoais.
E imediatamente pensamos: que homem extraordinário! Depois percebemos que está rodeado por quinze assessores, três carros, quatro câmaras, dois microfones e uma equipa de comunicação que já publicou nas redes sociais uma fotografia dele a apertar a mão a uma senhora de oitenta anos. A humildade foi fotografada de vários ângulos. Na política, até a modéstia precisa de produção.
O problema é que muitos políticos confundem humildade com baixar ligeiramente o tom de voz. Falam mais devagar, fazem uma pausa dramática e dizem:
- Eu sou apenas um servidor do povo.
Servidor até que é uma palavra bonita. Sobretudo quando quem a pronuncia está há vinte anos a tentar continuar a servir. Eu cá gostava de ver um político verdadeiramente humilde. Um que entrasse numa conferência de imprensa e dissesse:
- Meus amigos, não sei! - seria revolucionário. E repetia - Não sei resolver isto! - e acrescentava depois de uma pausa para desembargar a voz - Enganei-me e enganei-vos! - seria revolucionário.
Aí, provavelmente, teríamos de chamar a UNESCO para classificar aquele instante como património imaterial da humanidade. Porque reconhecer um erro, na política, parece ser mais difícil do que reconhecer uma vitória.
E há outra forma muito interessante de humildade, ouvir. Não aquela coisa de ficar calado enquanto o outro fala, já preparando mentalmente a resposta. Ouvir mesmo. Ouvir quem discorda. Ouvir quem não votou em nós. Ouvir aquele cidadão que aparece numa reunião e faz uma pergunta incómoda. Aliás, uma pergunta incómoda é, para certos políticos, uma espécie de exame médico, preferem não fazer.
Porque a humildade não diminui ninguém. Pelo contrário: aproxima. O cidadão não espera políticos perfeitos. Espera políticos humanos. E talvez a maior demonstração de humildade política fosse perceber que o poder é emprestado. Hoje estamos no palco. Amanhã estamos na plateia.
E o público, esse, tem uma memória extraordinária. Não precisa sequer de apontamentos. Guarda tudo. Por isso, se algum político quiser realmente praticar a humildade, proponho-lhe um exercício muito simples - De vez em quando, desligue o microfone, deixe o teleponto em casa e vá ouvir as pessoas. Porque, às vezes, a verdadeira humildade política começa precisamente quando ninguém está a olhar.
7 de setembro de 2026
Pertinências 25 - Júlia Domingues e João Ventura
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdível
no barco do Luís
O zulmarinho estava de um azul de capa de revista, mas o barco do Luís inspirava bem menos confiança que a própria física. O barco de madeira e lona, montado na própria praia e muita fé, rangia só de olhar para ele. Era de compra mas era único. Parecia uma construção de papel que se ia abrindo e ficava uma canoa de puxar estilo quando paraleleava a beira mar e elas me olhavam.
- Isto aguenta quanto peso? - perguntavam...
- Aguenta três pessoas! - respondi ajustando um boné cheio de salitre, enquanto pensava que só tinha lá andado com o Luís, mas a maior parte das vezes andava sozinho porque ele o tinha deixado à minha guarda, vantagem de não ser trabalhador das 8 às 17 e sim estudante em partime.
A viagem começou gloriosa. O motor, um monstro de dois tempos, uma remada para a direita, uma para a esquerda e um rastro de água revolta na retaguarda que chamam de ré e que por acaso fica nas minhas costas. Eu parecia um campeão olímpico.
A duzentos metros paralelo à costa e eu era sorriso e peito inchado. Eles, os que estavam na areia acho me invejavam. Bem, gente acabou na areia e dou a volta para regressar. O vento está do contra, Um tempo para a frente, um vento para trás. Acho já me faltava de ar no carburador, coração e pulmões, com autoridade remei mais forte mas o remo acho encolheu e ficou assim tipo colher de pau. Ao menos eu não saía do lugar pelo que optei por vir para terra. .
- Calma, que o centro de gravidade disto é dinâmico, pelo que deitei-me na areia como que a banhar-me de sol. Recuperei o folego. Fechei o barco como quem o põe dentro dum envelope e à beira mar fiz a circunavegação de regresso. Não sei se foi por acaso ou se foi de propósito, fiz esse regresso sempre a olhar para o horizonte.
E assim, com o barco do Luís fiz muitas viagens de beira-mar remado ou a pé
6 de setembro de 2026
Fiquei na esquina
Naquele meu tempo a tarde caía lentamente, parecia até que era pesada daquele calor quente de verão que colava a camisa às costas e fazia o asfalto parecer cemitério de tampinhas. Naqueles fins de tarde a minha missão era de importância capital, quase a pedir estratégia militar, ficar na esquina da Rua da Fábrica com o caminho do Impala Cine, encostado ao poste, com um ar perfeitamente banal para ninguém desconfiar. A ideia, claro, era parecer que eu tinha acabado de aterrar ali por mero acaso. Assim do estilo alguém que passava, sentia uma súbita vontade de contemplar o trânsito de carros e motorizadas, e que, por coincidência divina, se cruzaria com ela.
A estratégia exigia treino e muita preparação. Cruzar os braços? Muito defensivo. Mãos nos bolsos? Demasiado descontraído, corria o risco de parecer um miúdo sem rumo. Ficar de pé, com um pé apoiado no poste e o olhar fixo no horizonte, parecia a pose ideal. O problema do horizonte é que ele não mudava, mas as pernas começaram a tremer ao fim dos primeiros vinte minutos.
- Estás à espera do machimbombo, ó miúdo? — perguntou o Sr. Latinhas, ao passar saído da barbearia. - Olha que aqui só passa o lá vai um de vez em quando. - e desatou a rir Engoli em seco e tentei esboçar um sorriso de sabedoria incompreendida:
- Não, Sr. Latinhas. Estou só a apanhar ar.
- A apanhar ar na esquina deste tempo? Tá bem, tá. Vê lá no que te metes...
Aos trinta minutos, o ar de verão já me tinha cozido o lado esquerdo da cara a se notar pelo encarnado que estava. A camisa de manga curta, passada a ferro começava a colar-se à pele. Cada carro que eu via ao longe fazia o coração disparar para batimentos cardíacos incompatíveis com a vida humana. Olhava de lado, disfarçando com uma tossezinha seca, só para ver chegar o carro da Laurinda da Quitanda.
Uma hora depois a esquina já não era um posto de observação; era uma tortura como as que eu tinha aprendido nas aulas de História. E então, aconteceu. A esquina iluminou-se e até parece ganhou uma outra luz de fim de tarde. Lá vinha ela, como sempre sentada no banco de trás, mesmo atrás do pai. O carro passou e acho ela nem olhou para esquina.
Acho era eu estava do lado escondido do candeeiro. Foi assim que naquele dia parece ela se tinha evaporado. Pensei rápido e rápidamente decidi que tinha que mudar de lugar, seguindo a rota diária daquele passeio de fim de tarde, de todas as tardes.
5 de setembro de 2026
O ininfluenciador
Antigamente as pessoas precisavam de ter um talento, uma profissão ou, no mínimo, uma história bizarra para contar nas reuniões de família para serem ouvidas. Hoje, graças à democratização do ecossistema digital, basta ter um telemóvel, uma luz circular de de 15 euros e uma determinação inabalável para chamar comunidade a três amigos, duas tias e um robô algures no mundo que vende criptomoedas e tem bué de perfis nas redes e eis que surge a figura mais fascinante do nosso século: o Influenciador Digital.
O influenciador vive num estado perpétuo de prontidão executiva. Acorda às seis da manhã — não para trabalhar, mas para fotografar uma chávena de café fumegante acompanhada pela legenda: A preparar as grandes novidades de hoje. Fiquem atentos!. Ninguém fica atento. O seu público é composto por pessoas que clicaram em seguir por engano, ou até por vício, enquanto tentavam fechar um anúncio de aspiradores.
O seu momento de maior apogeu acontece quando recebe a primeira parceria. Não estamos a falar de marcas de luxo ou estadias em Bora-Bora, mas sim de uma marca de chá de hibisco que lhe envia uma caixa de amostras em troca de dez vídeos, três reels e a alma da sua avó. O influenciador grava um vídeo de dez minutos a fazer o unboxing da caixa de cartão com as mãos a tremer de emoção:
- Vocês têm-me perguntado MUITO sobre o meu chá favorito...
(Spoiler: ninguém perguntou. A caixa de mensagens está tão deserta quanto um centro comercial às quatro da manhã de uma terça-feira. Mas a ilusão precisa de continuar.)
O verdadeiro drama do influenciador reside no impacto real da sua palavra. Se ele disser não comprem este casaco, a loja esgota o stock por pura coincidência estatística. Se organizar um evento de encontro com seguidores num parque público, a única entidade a marcar presença é a polícia municipal, intrigada com aquele jovem a falar sozinho para um tripé enquanto segura um um stick com um telemóvel na ponta.
E, no entanto, há algo de profundamente poético e admirável nesta bravura. O influenciador é o último romântico da internet. Ele mantém a fé num algoritmo que o ignora com a mesma dedicação com que continua a partilhar o look do dia no meio da paragem do autocarro, debaixo de chuva, sorrindo como se estivesse na semana da moda de Milão ou no Festival de Cannes.
No fundo, todos devíamos aprender com eles. Num mundo obcecado por métricas, alcance e conversões financeiras, o ininfluenciador (é de propósito) é a prova viva de que é possível ter uma autoconfiança de nível olímpico sem ter absolutamente nenhum resultado para mostrar. E se isso não é inspirador, então não sei o que será.
4 de setembro de 2026
relaxamento de bicicleta
Há uma ilusão perigosa que circula na nossa sociedade que é a ideia de que subir para cima de um selim de dois centímetros de largura é uma forma válida de relaxamento.
Dizem os entendidos e por entendidos refiro-me às pessoas que usam fato de treino de licra fluorescente, justíssimo ao corpo mostrando a famosa barriguinha criada pela idade, e mais nada para além disso, às oito da manhã de um domingo, que pedalar limpa a mente. O que ninguém avisa é que limpa a mente porque a substitui imediatamente por instintos primitivos de sobrevivência. Não há espaço para pensar nas contas da água ou nos prazos do trabalho quando 90% do cérebro está focado em manter o equilíbrio e os outros 10% em rogar pragas ao inventor das estradas de paralelepípedos irregulares, ou asfalto com várias formas de arrefecimento tipo buracos e buraquinhos. Para não contabilizar os 100% do subconsciente, que vai com a sua atenção virada para os automóveis e seus palavrões.
O ritual do descanso sobre rodas começa logo na escolha da vestimenta. Olhamo-nos ao espelho enfiados num equipamento justo e a pergunta surge inevitável: estarei pronto para o Tour de France ou apenas para ser confundido com um pirilampo gigante em crise da idade? Superada a fase estética, vem a afinação da máquina. Pinta-se a ideia idílica de deslizar suavemente pela brisa marinha, mas a realidade do primeiro quilómetro resume-se a uma batalha campal contra um vento frontal que parece ter sido destacado pessoalmente pelo Instituto do Mar e da Atmosfera para nos testar a paciência e transformar um plano em subida que ontem ao fim do dia não estava ali.
Depois há a relação com o relevo. No mapa, a subida parecia apenas uma ligeira inclinação poética. Na prática, transforma-se no Evereste. A partir do terceiro minuto de subida, o tal descanso evapora-se com o suor que se solta. O coração bate num ritmo que faria inveja a um baterista de heavy metal, os joelhos emitem estalidos em código morse e a respiração ganha o tom melodioso de um fole de acordeão estragado. É neste preciso momento que cruzamos com outro ciclista que desce a montanha, fresco como uma alface, e nos lança um alegre Bom dia! A nossa resposta, claro, é um aceno de cabeça, agonizante e um esboço de sorriso, que tenta transparecer dignidade, enquanto internamente ponderamos vender a bicicleta ao primeiro que passe a pé.
Mas o verdadeiro milagre acontece quando finalmente paramos. Encaminhamo-nos para a esplanada mais próxima, arrastando os pés como quem acabou de completar uma maratona nas dunas, e pedimos uma imperial. Sentamo-nos. Os músculos das pernas ainda tremem ligeiramente, a brisa finalmente sabe bem e o mundo parece rodar a um ritmo imensamente mais calmo.
É aí que se percebe a grande mentira do ciclismo recreativo, andar de bicicleta não descansa rigorosamente nada durante o percurso. O verdadeiro descanso é a paz absoluta, a glória incomparável e o alívio indescritível de, finalmente, conseguir desmontar da dita.
3 de setembro de 2026
2 de setembro de 2026
Programa 130 - K'arranca às Quartas
Joselito, Marisol e a minha infância cinematográfica
Hoje penso nisso e acho extraordinário.
O meu avô Serafim levava-me ao cinema.
Eu podia não perceber grande coisa da vida, mas sabia perfeitamente que, num filme de Marisol, haveria sempre uma menina loira, um vestido impecável, uma canção e alguém a tentar estragar-lhe a felicidade. E Joselito tinha sempre aquela voz que parecia vir de um sítio onde as crianças normais nunca tinham entrado.
Eu ia ao cinema preparado para tudo.
Sentava-me na cadeira, olhava para o ecrã e, quando começava a música, ficava completamente hipnotizado. Aquilo era cinema a sério. Não havia super-heróis, efeitos especiais nem explosões. Havia uma criança a cantar e nós, na plateia, em absoluto silêncio, como se estivéssemos perante um acontecimento histórico.
Eu, naturalmente, também queria cantar como Joselito.
O problema é que a minha voz não tinha sido informada dessa decisão. Lá em casa, eu cantava qualquer coisa que me lembrasse os filmes. A família ouvia com aquela expressão de quem está a tentar perceber se aquilo era uma manifestação artística ou um pedido de socorro.
- Cala-te, miúdo! - dizia-me um mais velho que não fosse um dos avós.
Eu interpretava aquilo como falta de sensibilidade musical.
Com Marisol era diferente. Marisol não precisava de fazer grandes esforços. Bastava aparecer e sorrir. Eu ficava convencido de que a vida era assim: as pessoas bonitas sorriam, cantavam, tinham bons vestidos e os problemas acabavam antes de aparecer em inglês que o filme tinha acabo.
Mais tarde descobri que não era bem assim.
Na infância, porém, o cinema ensinava-nos uma coisa maravilhosa, tudo podia acabar bem.
Se havia um órfão, aparecia alguém para o adoptar. Se havia uma injustiça, fazia-se justiça. Se havia uma menina triste, começava uma canção. E se Joselito cantava, até os adultos pareciam acreditar que o mundo tinha solução.
Eu saía do cinema convencido de que também podia ser artista. Chegava a casa, pegava numa vassoura como se fosse um microfone e começava o espectáculo. A família, que não tinha comprado bilhete para a sessão seguinte, tentava discretamente abandonar a sala. Eu não desistia. Porque naquela altura eu ainda não sabia que havia pessoas que nasceram para cantar e outras que nasceram para assistir aos que cantam. Eu pertencia claramente ao segundo grupo. Mas ficaram Joselito, Marisol e aquelas tardes de cinema. Ficou a música, ficou a emoção e ficou sobretudo aquela sensação de que, durante duas horas, o mundo lá fora podia esperar.
Hoje, quando penso nesses filmes, já não vejo apenas Joselito ou Marisol. Vejo o miúdo que eu era, sentado numa sala escura, olhos bem abertos, a acreditar que o cinema era capaz de explicar a vida. E talvez fosse. Pelo menos ensinou-me uma coisa que continuo a praticar: há memórias que não precisam de legendas. Basta começar a música.
1 de setembro de 2026
uma história de amor que não aconteceu
O destino tem um sentido de humor muito particular. Brinca com a gente e a gente lhe olha de espanto. Não estou a falar daquele humor refinado do estilo dos ingleses, é mais no género vamos atirar uma casca de banana à vida deste ser humano só para ver no que é que dá.
Eu e ela tínhamos tudo para ser o casal do século passado transposto para este. Não me refiro a um século modesto, refiro-me àqueles romances de proporções que até dá dor nos braços de levar a tira-colo e que fazem as pessoas suspirar no cinema. Partilhávamos o mesmo ódio visceral por passas e frutas cristalizadas, gostávamos de bandas desenhada se ela ensinava alguma coisa e gostávamos de algo tipo alforrecas que só três pessoas na Islândia também gostavam e ambos achávamos que salsa é uma planta divina na comida e não uma dança latina. Em termos, falando numa língua actual, de algoritmo amoroso, a taxa de compatibilidade era de 99,9% para não ser número quadrado e totalmente redondo.
O problema afinal estava nos restantes 0,1%. Essa margem de erro microscópica vestia-se de desencontros com uma pontualidade britânica, que não teve piada nenhuma vez.
Na primeira vez em que devíamos ter ficado juntos, numa festa de aniversário, ganhei coragem para ir falar com ela. Quando estava a meio metro de distância, uma perna de frango voadora arremessada por um convidado demasiado entusiasmado bateu no meu peito e fez o meu prato de croquetes voar diretinho para a camisa branca dela. Foi uma tonelada de maionese que me estragou a coragem e a oportunidade. Passei o resto da tarde a pedir desculpa e a tentar tirar as nódoas com Pedras de Água que alguém disse que limpava tudo, o que, como se sabe, é uma das atividades menos romântica do planeta. E afinal as Pedras Água sé tiram a azia e os gases do estômago, porque as nodoas lá ficaram. Pelo menos na minha cabeça e na raiva dela.
Anos mais tarde, o universo fez sinal com outra oportunidade. Num encontro por acaso, encontrámo-nos no Monte do Estoril. A iluminação era péssima, mas a química era palpável e via-se a olhos vistos. Trocámos olhares, sorrisos e a promessa de que desta vez era a sério e não nos iríamos perder. Ela me perguntou se eu andava à procura dela e eu disse que não. Era mesmo por acaso. Fez um sinal com a mão, apontou para uma cabine de telefone, mas as portas do comboio fecharam-se com um barulho dramático. Foi lindo, digno de Hollywood. O pequeno detalhe é que nenhuma das portas tinha deixado passar a informação importantíssima, nenhum de nós tinha o número do outro.
E assim o tempo foi-se gastando ao ritmo dele. Eu tinha decidido ter uma crise existencial e mudar-me para uma cidade desconhecida chamada de Porto, não para comer regueifas nem brincar ao S. João. Ficámos assim tipo dois cometas com órbitas impecáveis, programados para brilhar juntos, mas condenados a passar um pelo outro a quatrocentos quilómetros por hora, a contar na distância.
Um dia vi-a passar na rua a caminho de um Congresso que eu também ia. Ela não sorriu, não acenou e eu preparei-me para atravessar a estrada e finalmente resolver esta dependência de anos. Dei o primeiro passo com a determinação de quem vai tomar o destino nas mãos. Foi exatamente nesse segundo que lhe disse olá e ela respondeu que não falava com estranhos que eu senti que tinha sido atropelado por um tractor. Quando o tractor saiu de cima de mim, recuperei o olhar e já não voltei a vê-la. No Congresso desviou a cara sempre que o meu olhar lhe marcava tipo raio laser. Descruzamo-nos para todo o sempre.
Acho que o universo não queria que ficássemos juntos porque sabia que, se a coisa funcionasse, seríamos felizes demais. E um amor perfeito, sem drama nem desencontros, estragaria qualquer boa história.
31 de agosto de 2026
Fui ver o zulmarinho
30 de agosto de 2026
Pertinências 24 - Conversa com... Analita Santos com Teolinda Gersão
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdível
29 de agosto de 2026
a praia
28 de agosto de 2026
uma biblioteca
Há lugares onde vamos para fazer coisas. Ao supermercado vamos comprar, ao café vamos beber, ao estádio vamos sofrer e, se a nossa equipa perder, vamos imediatamente procurar culpados. Mas há um lugar onde, aparentemente, não se faz grande coisa. A biblioteca.
Ali não há máquinas de café a fazer barulho, televisões a gritar notícias, nem pessoas a discutir se o árbitro viu ou não viu. Há mesas, cadeiras, livros… e pessoas a pensar. O que, convenhamos, nos dias de hoje, já é uma actividade quase radical para não dizer rara.
Na biblioteca descobrimos uma coisa extraordinária, podemos estar sentados sem estar distraídos.
É verdade que também podemos estar sentados no sofá em casa. Mas aí aparece o telemóvel. Depois uma mensagem. Depois outra. Depois uma notícia que não pedimos. Depois um vídeo de um gato que sabe abrir uma porta. E, quando damos por nós, passaram duas horas e não sabemos absolutamente nada sobre a nossa própria vida, mas sabemos que o gato abriu a porta.
Na biblioteca é diferente. Pegamos num livro. Abrimos. E começamos a pensar. Pensar é uma actividade curiosa. Não faz barulho, não ocupa espaço e não precisa de carga nem ligar à eletricidade. E, pior ainda, não tem botão para desligar.
Um livro pode fazer-nos pensar sobre uma personagem, uma ideia, uma época, uma injustiça, um amor ou até sobre nós próprios. É talvez por isso que algumas pessoas têm medo das bibliotecas. Porque numa biblioteca ninguém nos diz exactamente o que devemos pensar.
Um livro apenas abre a porta. Depois somos nós que entramos.
E há livros que nos levam para lugares onde nunca estivemos. Outros levam-nos para lugares onde já estivemos, mas que tínhamos esquecido. E alguns, mais atrevidos, levam-nos directamente para dentro da nossa cabeça. A biblioteca é, por isso, um lugar de silêncio, mas não é um silêncio vazio. É um silêncio cheio de vozes. As vozes dos escritores, dos personagens, dos poetas, dos que viveram antes de nós e dos que imaginaram mundos que ainda não existem.
Podemos parar. Ler. Pensar. Voltar atrás. Discordar. Mudar de ideias. E até descobrir que estávamos enganados, uma experiência cada vez mais rara, porque hoje parece que toda a gente nasce já com opinião definitiva sobre tudo.
Na biblioteca, pelo contrário, podemos ter uma dúvida. E uma dúvida, às vezes, vale mais do que uma certeza mal pensada. Por isso gosto das bibliotecas.
São lugares onde se guardam livros, mas também onde se guarda uma coisa ainda mais importante, tempo para pensar. E talvez seja por isso que, quando entro numa biblioteca, sinto que estou a entrar num lugar muito especial. Um lugar onde o silêncio não manda calar ninguém. Pelo contrário. O silêncio dá-nos finalmente oportunidade para ouvir aquilo que pensamos. E, nos tempos que correm, isso já é um luxo. Ou, melhor ainda, uma pequena revolução. Uma revolução feita de livros, silêncio e cadeiras.
27 de agosto de 2026
ter ou não ter tempo
Há pessoas que dizem que não têm tempo para ler. Eu compreendo. Também já tive dias em que não tinha tempo para nada: nem para ler, nem para pensar, nem sequer para procurar os óculos que estavam em cima da minha cabeça.
O problema é que o tempo tem esta mania de nos enganar. Dizemos que não temos tempo e, entretanto, passamos vinte minutos a olhar para o telemóvel, meia hora a ver coisas que amanhã já esquecemos e uma quantidade respeitável de minutos à espera que alguma coisa aconteça.
Para ler, porém, achamos sempre que é preciso uma tarde inteira, uma poltrona confortável, silêncio absoluto e talvez uma chávena de café ao lado. Como se para abrir um livro fosse necessário reservar um hotel, marcar mesa e quem sabe esperar resposta no mail.
Não é.
Às vezes, bastam dez páginas. Ou cinco. Ou duas, se o dia estiver particularmente mal-educado para a gente e não nos respeitar. Tem dias que isso pode acontecer. A gente se chateia com ele e tudo..
Porque ler não é apenas ocupar o tempo. É uma maneira de o multiplicar. Quando leio, entro numa história que aconteceu ontem, hoje ou daqui a cem anos. Conheço pessoas que nunca encontrei, lugares onde nunca estive e ideias que talvez nunca me ocorressem sozinho.
Ler é abrir uma janela. E, melhor ainda, é abrir um caminho.
Talvez seja por isso que os livros têm uma coisa extraordinária, enquanto nós envelhecemos, eles continuam a abrir futuros.
Um livro pode levar-nos para trás, à infância, à juventude, às ruas onde fomos felizes. Mas também pode levar-nos para diante, para aquilo que ainda não sabemos, para perguntas que ainda não fizemos, para futuros que ainda nem sequer imaginámos.
E aqui está uma pequena contradição: dizemos que não temos tempo para ler, precisamente quando mais precisamos de tempo para imaginar o futuro.
Talvez o segredo não seja encontrar tempo para ler.
Talvez seja perceber que ler é uma das melhores maneiras de dar sentido ao tempo que temos.
Porque o relógio só sabe contar horas. Um livro sabe transformá-las em caminhos.
E eu, quando penso que não tenho tempo para ler, lembro-me de uma coisa simples: posso não ter tempo para acabar um livro hoje. Mas tenho, certamente, tempo para abrir uma porta e começo pela primeira página e logo vejo quando fecho.
26 de agosto de 2026
e assim escrevi o romance mais pequeno do mundo
Há momentos na vida em que começamos a desconfiar do que aquilo que nos está a acontecer não é simplesmente vida. É literatura. Oral ou escrita. Sonho ou sonhada.
Estou precisamente num desses momentos.
Olho para trás e vejo que a minha vida já tem personagens mais que suficientes para um romance, episódios suficientes para vários capítulos e algumas situações que, se fossem inventadas por um escritor de renome, o editor provavelmente pediria: Menos imaginação, faz favor.
Nasci em Angola, cresci entre o mar, o deserto e aquelas certezas absolutas da infância que duram até ao jantar. Depois viera a adolescência, os sonhos, os namoros que não aconteceram, os que aconteceram e os que talvez tivessem sido melhores se não tivessem acontecido. Vieram os estudos, a Medicina, o Porto, os doentes, a cirurgia, os medos que um cirurgião nunca confessa em voz alta e aquela estranha sensação de que, enquanto estamos ocupados a viver, a vida vai escrevendo por nós.
Agora, sentado numa falésia, olhar o Zulmarinho e retocando tudo isso, penso: isto dava um romance.
O problema é saber quem seria o autor.
Porque há vidas que parecem escritas por um génio e outras que parecem ter sido entregues a um argumentista de telenovela numa sexta-feira à tarde, já com vontade de ir de fim de semana.
A minha tem um pouco das duas coisas.
Há capítulos que eu escreveria de outra maneira. Há personagens que mandaria desaparecer mais cedo. Há outras que gostaria de trazer de volta. E há episódios que, por mais que tente, continuam sem explicação, talvez porque a vida também tem direito aos seus mistérios e segredos.
O mais curioso é que, quando somos jovens, pensamos que a vida é uma história que estamos a começar. Mais tarde percebemos que já vamos a meio do livro e ainda não sabemos qual é o título.
E talvez seja essa a graça.
Hoje, se a minha vida pudesse ser um romance, não seria certamente um romance de aventuras, nem uma história de amor perfeita. Seria antes uma espécie de romance com humor, algumas cicatrizes, muitas memórias e personagens que entraram sem cerimónias.
Teria Angola no primeiro capítulo, o mar de Namibe a aparecer de vez em quando, o Porto como cenário de aprendizagem, a Medicina como profissão e os doentes como professores inesperados.
Teria amores perdidos pelo caminho, amigos que ficaram, outros que se perderam nas curvas do tempo, e uma quantidade razoável de disparates porque a vida sem disparates é certamente uma biografia, não uma vida vivida com alma e coração.
E teria, sobretudo, uma personagem principal que continua sem perceber muito bem o que está a fazer.
Essa personagem sou eu, é claro e talvez por isso ainda não tenha escrito o romance. Como é que eu posso saber o fim? Eu estou à espera do fim e quando ele chegar recebê-lo-ei contrariado, isso é certo que nem a certeza absoluta.
Mas há um problema: cada vez que penso que cheguei ao último capítulo, a vida aparece com uma nova página debaixo do braço e diz:
- Ainda não acabámos.
E eu, que já devia saber que não se discute com a vida, pego na página e continuo.
Afinal, se isto é um romance, pelo menos que tenha uma coisa que os bons romances têm: vontade de chegar ao capítulo seguinte e assim sucessivamente até ao ponto final parágrafo sem travessão.
24 de agosto de 2026
liberdade de expressão
Há quem pense no que o que será que me deu para ter mudado o que escrevia para o que agora escrevo. Respondo simples: apeteceu e desenvolvo, justifico e comento.
Há uma coisa extraordinária na liberdade de expressão que é permitir-nos dizer aquilo que pensamos. E há outra ainda mais extraordinária nessa frase, permite-nos pensar antes de dizer.
Mas o grande problema é que esta segunda parte parece estar a cair em desuso.
Vivemos num tempo em que algumas pessoas confundem liberdade de expressão com licença para dizer tudo, sobre todos, a qualquer hora e, se possível, em público, mesmo que seja atrás de um teclado no silêncio da solidão. Como se a liberdade viesse acompanhada de um megafone e da imunidade diplomática.
A liberdade de expressão é um direito fundamental. Mas não é um salvo-conduto para a calúnia, a mentira ou a ofensa. Posso dizer que não gosto de alguém. Posso criticar o que essa pessoa fez. Posso até dizer que o acho um péssimo cozinheiro, se tiver provas suficientes depois de experimentar o arroz, a batata ou o suflé.
O que já é outra coisa é inventar factos, espalhar falsidades ou destruir a reputação de alguém apenas porque me apetece ou porque não gosto dele.
A diferença parece simples - opinião não é mentira, crítica não é insulto e liberdade não é impunidade.
Antigamente, para espalhar uma calúnia era preciso encontrar três pessoas no café, contar-lhes a história e esperar que elas a contassem aos seus cem melhores amigos. Hoje basta um telemóvel, um dedo e cinco segundos de desnorte mental.
E a mentira viaja depressa. Às vezes chega antes da verdade, instala-se confortavelmente no sofá e ainda pede um café, cruza as penas e fica a olhar.
Há também quem diga: Eu só estou a dar a minha opinião.
É uma frase muito útil. Serve para tudo. Serve para a crítica, para o insulto, para a invenção e até para aquela barbaridade que alguém acabou de publicar e que, cinco minutos depois, já está arrependido de ter escrito, apaga mas há sempre alguém que teve tempo para fazer um print-scren préviamente.
Mas uma opinião não transforma uma falsidade em verdade. Dizer acho que ele é incompetente é uma opinião. Dizer que ele roubou é uma acusação de facto. E entre uma coisa e outra existe uma enorme diferença, felizmente, porque senão qualquer discussão de café acabava no tribunal.
Também podemos discordar sem humilhar.
Aliás, talvez essa seja uma das grandes artes que estamos a perder, discordar de alguém sem querer destruí-lo.
Podemos combater ideias sem atacar pessoas. Podemos dizer não concordo sem acrescentar e quem pensa assim é um idiota. Podemos criticar uma decisão sem transformar o autor da decisão num inimigo pessoal.
A liberdade de expressão não fica mais forte quando gritamos alto. Fica mais forte quando conseguimos usá-la com responsabilidade.
Porque as palavras, depois de ditas, não voltam para a boca. E há palavras escritas na internet que parecem ter comprado casa própria e direito a primeira página.
No fundo, talvez precisemos de recuperar uma velha e sábia tecnologia, anterior ao telemóvel, às redes sociais e aos comentários instantâneos: o bom senso. Não precisa de bateria, não exige actualização e, tanto quanto sabemos, ainda não ficou fora de prazo.
Liberdade é podermos falar. Responsabilidade é sabermos o que estamos a dizer e respeito é lembrarmo-nos de que, do outro lado da frase, também está uma pessoa.
Até porque a liberdade de expressão é demasiado importante para ser confundida com a liberdade de ofender. E a verdade é demasiado preciosa para ser deixada à toa de quem tem pressa de publicar.
23 de agosto de 2026
Pertinências 23 - Jornalismo de Investigação
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdível













