recomeça o futuro sem esquecer o passado

20 de novembro de 2021

insubstituível nunca

Um dia, num outono do norte, parti. Como um jovem adulto parte de casa. Não olhei para trás e a minha despedida quase passou despercebida. Parti por amor sabendo que ia levar comigo todas as memórias que um dia poderiam virar saudades. Levei recordações comigo, trouxe as minhas versões e cada dia passou a ser uma novidade, cada momento único.
De jovem adulto fui lentamente amadurecendo, deixei de encontrar nos meus sonhos os desejos e construi um novo caminho, perdi dons e ganhei experiência e alguma sabedoria. A magreza substituída por algum rechonchudo aspecto e aos poucos o corpo foi-se curvando para a frente num aspecto que visto de fora ia dizer era o peso da consciência que me vergava ou apenas a força da terra a chamar pela minha cabeça. Fui clareando memórias, pentanto de cores garridas as memórias tropicais e desenhando com palavras toda a minha juventude vivida. 
Um dia lá mais para a frente pintarei com palavras um epitáfio onde se lerá apenas: Por aqui passou um gajo porreiro que não era insubstituível.


Sanzalando

#selfie


19 de novembro de 2021

eu e a imaginação

Não sei o dia da semana. Sei que são cinco de uma tarde. Não chove, não faz sol, parece é outono lá dum norte desde aqui. Faz tempo de não sei quando que não vou lá. Me sinto livre de pensar no que lá está, como é que está lá, como é que é. O pensamento é-me livre. As palmeiras que tinham 2 metros devem ter agora alguns 10, eram direitinhas e agora devem estar tortas como as palmeiras que apanham vento. Sou livre só de imaginar como é que elas devem estar. A relva do parque infantil que não se podia nem pisar deve estar verde e linda porque imagino a tratam bem. Os carros circulam suavemente e sem engarrafamentos, porque a minha imaginação não a vê com confusão dos tempos modernos. A linha do horizonte deve unir o Saco e a Ponta do Noronha. As pessoas falam em surdina porque não é necessário gritar como fazem nas grandes cidades para se ouvirem.
A minha imaginação não me leva para nenhum abismo, apenasmente me leva ao lugar onde fui sempre feliz, mesmo quando imaginava que não.

Sanzalando

18 de novembro de 2021

ponte de memória

Hoje me sento na ponte velha, que eu conheci já era velhinha, já lhe faltavam tábuas e já se via o mar lá em baixo. Hoje vou ficar por aqui a olhar o Saco, olhar o horizonte e ver este zulmarinho que não é turquesa, nem celeste, é só da cor dele mesmo. É uma baia perfeita, um quase arco visto daqui redondo que nem uma roda de bicicleta que deram uma dentada num lado, que por acaso fica no lado de fora da baía.
Eu sei que não há duas baías iguais. Há grandes e mais pequenas, pronunciadas ou quase impercetíveis. Eu gosto da minha baía porque sinto nela uma paixão e porque me trás tantas recordações que eu posso dizer boas. 
Eu sei que esta ponte já teve melhores dias, eu sei que eu mesmo já tive melhores dias. A gente vai fazer mais o quê ao tempo? Vivê-lo é o que nos resta. Esta ponte dá-me vida. A memória desta ponte é parte da minha vida. 
É uma ponte de memória.


Sanzalando

17 de novembro de 2021

#zulmarinho


regresso ao passado parte qualquer

Como me é estranho estar agora sentado aqui na escadaria do tribunal a olhar a avenida que parece não tinha fim, no meu olhar de garoto. O campo de futebol que fica lá nos confins desta avenida parece era longe e só de pensar me canso pois todos os dias a minha mãe ia a pé lá no trabalho. Era sacrifício fazer esse caminho tão longe. Hoje até parece  a subida da fortaleza não é tão inclinada como era. A curva contra curva do tribunal que era feita em modo rally agora parece é normal e desinclinada para fora. 
Como é estranho estar aqui sentado e ver-me com os meus olhos de criança tanta coisa difícil que afinal até que é fácil fazer. Naquele meu mundo eu era pequenino e tudo parecia era enorme. 
Eu estava só a dormitar naquela vida porque eu não lhe vivi como acho hoje eu lhe ia viver. Eu acho hoje que eu não devia ter crescido sem ter vivido todo o passado que lá passei e não tomei consciência.
Perdi os meus melhores tempos. Perdi, forma figurativa e não real, porque na realidade eu ganhei-me.




Sanzalando

16 de novembro de 2021

seguir

Sigo ponto por ponto nos meus delírios em busca duma verdade que acho todos procuram e ninguém encontra. Não sou eu que vou encontrar, mas não é por isso que deixo de procurar. Tem de haver uma constante busca dessa dita cuja para podermos seguir numa frente comum de sorrisos e encantamentos. Às vezes a gente chega tão perto que até os sorrisos parecem ser ali mas num ápice as estrelas deixam de brilhar e os sorrisos se apagam. 
Sigo olhando os olhos sem receios e sem vaidades. Vou indo calcetando caminhos com pensamentos de pedra e cal, com ideias livres de redes e amarrações.


Sanzalando

15 de novembro de 2021

palavras e silêncios

Pé ante pé sigo pelas minhas estradas, meus caminhos, meus nadas, filosofando estados de alma, procurando viver a vida com calma, sem medos ou pesadelos, sem tormentas em enredados novelos. Sigo por ai, sem medo de amar, sem ter medo que me amem, sem me calar ou não responder mesmo que me chamem. Sigo palavras meias com silêncios, cruzados olhos em horizontes definidos, sem ter um fim à vista, mesmo que a vista seja limpa pelo brilhar do sol, ou alaranjado pelo pôr do mesmo.
Sigo sem olhar para trás, sabendo que esse atrás é o que sou hoje. Amanhã logo verei quem sou e como sou. 
Quem foi que nunca teve um coração partido? Prova existencial duma tentativa. É bom que tenha tido e que algumas até possam ter falhado. Hoje elas fazem parte das minhas palavras e meus silêncios.


Sanzalando

#comida E a amizade vale milhões @mariadorosariomarreiros


#lugaresincriveis


14 de novembro de 2021

introspectivamente

Pelas ruas da minha cidade interior, dentro de mim, passeio como um caminhante errante do mundo. Gosto de ter momentos de solidão interior, de estar num monólogo interno, num aumento da intimidade interna, numa forma de conectar todos os meus pontos, ao ponto de dizer que o amor não é isso que tantos cantam, mas é o que poucos usam. O amor é para ser usado, até na forma mais interna da nós, na forma mais sentimental da nossa solidão, no nosso ponto de conquista interior. 
Se me gosto mais facilmente hão-de gostar de mim.
Nas minhas ruas internas, avenidas e passeios, eu encontro tanto deste mundo que sobra para dar ao mundo exterior. Estas ruas são iluminadas por livros que li, obras que vi, estórias que ouvi e tanto que me ensinaram, muitos sem saber que o faziam. São ruas cheias de luz, brilhantes, cintilantes, em festa permanente porque me alegram cada segundo de mim.
Nestas ruas quando lhes bate o sol ou a saudade eu os agarro e guardo.

Sanzalando

#lugaresincriveis


#lugaresincriveis


13 de novembro de 2021

foi e serei

Tás a escrever mais para quê?
Então não estás a ver que estou só a procurar carinho para continuar o caminho da minha juventude, assim num estrilo ao contrário? Dás de conta que se eu me falo do passado é porque lhe gostei e não lhe quero nem esconder ou esquecer? Se vou na praça dos taxis não é porque tenho saudades do Sr. Teles ou de ir na sua Farmácia, ou de andar de carro de praça, é mesmo só porque eu gostava de estar parado na bomba da Fina a olhar as pessoas que passavam e diziam bom dia miúdo e eu educadinho lhes agradecia. Se vou no Horto não é porque eu gosto de flores a esse ponto, é mesmo porque a beleza do lugar me levou lá, antes de ir no Mucaba cumprimentar os amigos e amigas que tenho espalhado por uns aí da minha pequena cidade que se esconde na areia e entra no mar.
Eu me cuidei, eu olhei bem, eu decorei pormenores, eu me recordo de nomes só para poder dizer assim num dia como o que é hoje eu sou o que me deixaram ser desde esses tempos mais profundos até num agora que me sento a palavrear estas recordações nostálgicas que até parecem o filme da minha vida passado a cores


Sanzalando

#lugaresincriveis


12 de novembro de 2021

porque gosto

Aproveito o brilho do sol para pôr os meus caminhos em dia. Sempre me disseram que os dias se fazem caminhando. Faço-o. De vez em quando tropeço numa ideia. Por vezes vaga por vezes cheia. Na verdade vejo que a solidão se trata com amor-próprio. Propriamente dito. 
Se eu não me gostar como é que tem gente que me possa gostar?
Passo entre passo e passo-me a palavra ao pensamento e tropeço nesta ideia que me faz caminhar o dia inteiro. Faço-me por me gostar. Não faço para agradar. Gosto. Não posso gostar do erro. E às vezes erro. Dou conta e corrijo. Às vezes não dá, porém sei que este não vai ser repetido. Gosto-me por ser assim. 
Aproveito o sol e vou por aí tropeçando-me em labirínticos pensamentos que me agradam. Deixo-me ir com gosto.



Sanzalando

11 de novembro de 2021

Nasci de morte para morrer de parto

Nos dias de vento até que fico mais que assustado. É que a vida é um sopro e vai-se num instante. As caminhadas vão-se fazendo e a vida vai-se gastando. Se a gente começasse do fim até que dava jeito, embora não tivesse a piada da incerteza, a ansiedade do futuro e o prazer da descoberta. Não tinha piada saber do amanhã que foi o nosso ontem. 
Nasci de morte para morrer de parto. 
Complicado mundo este das caminhadas pensantes.
Todas as estradas antes eram nada, depois arranjado caminho, feitas todas as correções, requalificadas as imperfeições e se chegam a estadas. A vida também é assim, mesmo que tenhamos tendência para piorar com o tempo, aprimorar defeitos e esconder virtudes . Afinal de contas é melhor ser um pessimista contente que um optimista deprimido.



Sanzalando

10 de novembro de 2021

Vai-te embora solidão...

Neblina matinal, calor vespertino e frio ao pôr do sol. E eu caminho pelas ideias feitas, pelos caminhos imperfeitos, cansado de parecer parvo.
Às vezes tem hora da gente se perguntar se está tudo bem. Cansa de correr atrás, repetir, insistir e ver se está tudo no como deve ser.
Eu dou abraços a quem quero, beijos a quem merece, lágrimas na hora certa e causa devida. Errar humano é porém não aguentar o peso da consciência não é natural nem  suportável. Desconsciencializei o pensamento de culpa, erro porque sim e não porque quero, vivo a vida do dia e sem trocar de passado a olhar o futuro.
Se a minha voz fizesse eco num quarto vazio, se os meus olhos não se cruzassem com um outro olhar, se os meus lábios não sorrissem, eu saia pela rua fora e ia ver-me o que tinha de errado, independentemente do estado do tempo, do arfar do coração batido num faz tempo que até me esqueço que o tenho.
Eu estou aqui com tudo o que tenho direito e também o esquerdo. As lágrimas seco-as, os sorrisos sorriu e as dores esqueço-as. ~
Vai-te embora solidão...


Sanzalando

9 de novembro de 2021

#imbondeiro


culturalmente Lorca

Um dia, caminhava entre mim e eu enquanto lia Lorca. Quase cem anos depois a frase ainda me tem significado: ' não me preocupei em nascer, não me preocupo em morrer'. Simples e directo enquanto ando eu aqui em rodriguinhos a ver se tenho tempo para o tempo que gostaria de ter. Ando aqui a ver se a renuncia à minha origem me mantém nas asas da liberdade e a dor da saudade me faz recuar ao tempo de nascer. 
Volta Lorca, preciso compreender o teu desapego, ao passado e ao futuro. 
Sei que não sou poeta, sei que ando nos círculos das frases musicadas no tom duma voz que me diga para onde ir sem ser por ali, caminho fácil e sem espinhos. Sei que não é poeta quem quer e a 'poesia não quer adeptos, quer amantes'.
Sei que para ser feliz não preciso de razões. Sou-o.

Sanzalando

8 de novembro de 2021

certidão de nascimento

Fui na Paróquia pedir uma Certidão de Nascimento Narrativa Completa. Foi assim que a minha mãe disse para eu dizer. É assim mesmo uma folha de papel escrita à mão a dizer que eu sou aquele ali sem tirar nem por. A caligrafia que hoje já não se usa está ali desenhada uma leitura tão fácil que não deixa dúvida de letra nenhuma. Se fosse hoje era uma impressão em jato de tinta ou laser, impessoal e perfeitamente reprodutível numa forma qualquer. Mas a minha Certidão de Nascimento Narrativa Completa nem apetece deixar na escola de condução. Acho desisto de tirar a carta e vou moldurar para nunca me esquecer quem sou. 



Sanzalando

#lugaresincriveis


7 de novembro de 2021

caminhar

Caminho lentamente sobre cada pensamento. Acompanho o ritmo lento do frio que me chega aos ossos. Faz de conta ouvi o rugido dum leão dentro da minha cabeça, os seus enormes dentes arranham-me a alma, a sua juba esvoaçando no movimento da cabeça roçam a minha cara, interiormente sorrio porque me sinto ainda vivo.
Caminho lentamente contrariando um furacão que se forma dentro de mim, uma vontade estranho de desmontar o mundo. de bater portas, assas e voar num daqui para longe, ao mesmo tempo que sorrio porque tudo é sinal que estou ainda vivo.
Caminho lentamente como quem acompanha o passo lento dum amigo avançado na idade, como quem não tem pressa de ir mais além, nem vontade de chegar. Sorri porque ambos ainda estamos vivos.


Sanzalando

#momentos