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Programas K'arranca às Quartas no Blog

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12 de março de 2026

eu e os livros proibidos

Quando eu era assim com barba mas sem ela, que chamavam que eu era adolescente, descobri uma coisa espantosa, os melhores livros eram sempre os proibidos.

Não era preciso ler a capa. Bastava alguém me dizer com ar grave ou voz quase silenciosa:
— Esse livro não é para a tua idade.

Pronto. Naquele momento, o livro transformava-se imediatamente numa mistura de tesouro arqueológico com bomba atómica literária. Eu tinha de o ler. Era uma questão científica. Nem que tivesse que ir na Quipola a pé. Eu tinha a certeza que eu ia lhe ler.

Na minha garagem havia uma pequena biblioteca, guardada com zelo quase religioso, porque a minha mãe não queria que ninguém abrisse aquele caixote que eram os livros do meu pai. Eu achava a minha mãe pensava aquilo era perigoso só de pensar abrir. Ela conhecia-os bem e nunca tinha aberto nenhum deles.

Só me dizia

- Estes… nem pensar. - mas na verdade, mesmo estando de baixo do caixote das loiças do seu enxoval, eu conseguia tirar um de cada vez. 

Ora, o problema é que “nem pensar” para um adolescente é praticamente um convite ao crime.

Um dia reparei num livro tirado ao acaso porque por acaso media-se a mão e não conseguia meter os olhos, ele chegou na minha mão inocente de juventude. Título sério, capa discreta, aquele ar de coisa perigosa. Tirei e arranjei um sítio seguro para o guardar quando não estava a ler. 

Mas o raio da mãe descobre coisas e logo ao terceiro dia me disse com aqueles olhos de quem vais levar e nem sabes porquê:

— Este? Tu não tens idade para isto e eu já te avisei. Vou pegar fogo aquilo tudo e assim já não cais na tentação....

Fiquei logo convencido de que era uma obra-prima absoluta. Talvez tivesse revelações sobre a vida, o amor, a política e provavelmente três ou quatro pecados mortais e umas tantas piruetas imorais.

Passei uma semana a arquitetar um plano digno de filme policial depois de ter jurado a pés juntos que o tinha voltado a pôr no caixote e prometido que nunca mais o ia abrir.

Tudo correu bem até ao momento em que, com o livro escondido debaixo da camisola, ia a sair de casa para um encontro de amigos.

- Que tens aí?

- Nada, mãe! - e esperei que a rainha santa fizesse um novo milagre

Mas quando um adolescente diz nada, os adultos percebem logo que se trata de um problema ou qualquer coisas indevida.

Ela mandou-me abrir a camisola. Lá estava o livro, envergonhado, como um cúmplice apanhado em flagrante sem se ter transformado em rosas, nem sequer em flor de capim..

A minha mãe suspirou quase em surdina:

- Sabes qual é o problema?

Eu pensei que ia ouvir uma grande lição filosófica sobre juventude e responsabilidade, sobre a palavra e a promessa. Essas coisas de mãe..

Mas ela disse apenas:

- Tu queres sempre ler os livros mais chatos primeiro.

Fiquei desorientado, estupefacto e ao mesmo tempo mais curioso.

- Chat… chato? - disse gaguejando ao mesmo tempo surpreendido

- Claro. Esse é um tratado de economia do século XIX, uma estória de como nasceu esta cidade e os seus arredores.

Voltei para casa com o livro, decidido a provar que ela estava enganada.

Li três páginas.

Na quarta adormeci profundamente, provavelmente o único adolescente da história a ser vencido por estatísticas sobre batatas, casas e lugares que eu sabia eram passado.

Nesse dia aprendi duas lições importantes:

Primeira: os adultos às vezes têm razão, o que é profundamente irritante.
Segunda: nem todos os livros proibidos são perigosos.

Alguns são apenas… terrivelmente aborrecidos.



Sanzalando

11 de março de 2026

O Dia em que o Agualusa me raptou dos afazeres

Tudo começou de forma inocente. Tinha lido as grandes referência dos escritores da minha terra e havia um fulaninho da minha idade que me diziam que até que escrevia coisas giras. Peguei o livro  O Vendedor de Passados, tirei um café, já tinha deixado a era dos cimbalinos, e pensei: 
- Vou ler só vinte minutinhos antes de lavar a louça. - maneira de dizer que era pôr a louça na máquina e ela que fizesse o trabalho

Erro fatal. Cheguei à fase do "Espera, isso aconteceu?"

Lá pela página dez, comecei a franzir a testa. Agualusa tem esse hábito de descrever coisas impossíveis com a naturalidade de quem dita uma lista de compras.

  • Uma lagartixa que fala e tem crises existenciais? Check.

  • Uma mulher que vive trancada num apartamento por trinta anos enquanto o mundo acaba lá fora? Check.

  • Alguém que ganha a vida inventando árvores genealógicas para novos ricos? Absolutamente check.

Olhei para o lado, para conferir se a minha própria parede não estava prestes a dar flores ou confessar um segredo de família.

Depois de uma hora de leitura, percebi que meus pensamentos mudaram de ritmo. De repente, não estava apenas a ler português; estava a ouvir a música de Angola. Acho a música entrou no corpo vinda na forma de fantasma.

Fui até na cozinha e, em vez de pensar  que preciso lavar os pratos, minha mente sussurrou: 

- A porcelana, exausta de silêncios e gorduras, aguardava o baptismo da espuma como quem espera uma chuva de milagres em Luanda." 

A louça continuou suja. O café só não gelou porque não estava frio para isso. O sol se pôs e eu nem dei por isso, porque estava ocupado demais a tentar entender se o narrador era um homem, um fantasma ou uma metáfora bem escrita.

Ao fechar o livro, suspirei profundamente. O mundo parecia um pouco mais colorido, um pouco mais absurdo e definitivamente mais poético. Descobri  que, com o Agualusa, a verdade é apenas uma das muitas versões possíveis da mentira e a mentira dele é muito mais divertida. 

"A ficção é a única forma de dizer a verdade sem ferir ninguém." — Provavelmente algo que um personagem do Agualusa diria enquanto toma um gin.



Sanzalando

10 de março de 2026

Eu li Pepetela e aprendi

Adolescente queria saber tudo. Quem falou de quê, porquê e da terra. Comecei com Luandino e depois agarrei outro e de repente, o quarto desaparece. Já não estou sentado numa cadeira bem cómoda mas sim estou no meio da floresta do Mayombe. O Wi-Fi desapareceu literalmente, porque nem sequer ainda foi inventado, e em vez de notificações do Instagram, ouço o som de ramos das árvores a dançar sob a música do vento.

À minha frente, surge um homem com um olhar sábio e um bigode que impõe respeito. É o Pepetela. Me levantei e respeitosamente lhe dirigi a minha timida voz:

- Mestre, vim para aprender. Quero ser culto, quero entender o mundo!" 

Ele me olhou, baloiçou o bigode e atirou:

- Ótimo. Toma lá esta mochila, uma G3  que estava descarregada por causa das coisas e agora vamos caminhar 40 quilómetros pela lama para discutir a ética do socialismo e a identidade nacional.

- Mas... não dá para fazer um resumo por WhatsApp ou IA?

Não, eu não estava a delirar nem em crise de paludismo. Estava só a entrar no mundo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos.

Ele não te dá uma aula com slides. Ele atira-te para dentro dos livros dele como quem atira um telemóvel para uma piscina para ver se ele flutua:

Comecei com Mayombe onde ele me apresentou o Sem Medo. Uau, que personagem incrível, lindo de nome mas pensador de constância: ter dúvidas é o mais inteligente que posso ser.

Depois acho agarrei a Geração da Utopia onde eu quis queimar o mundo, me empolguei e agora mais velho vejo que os ideais são bonitos mas a prática dá muito trabalho e às vezes não corre bem.

Depois ri com Jaime Bunda, eu estava na minha crise existencial e aquele mataco grande me mostra a corrupção e o esquema o que me fez rir da confusão do mundo.

Depois de ler tudo, voltei ao meu quarto. Olhei no espelho e já não sou um adolescente a fazer scroll. Agora tenho um olhar de Pepetela: um olho focado na justiça e o outro a ver a ironia de tudo o que te rodeia.

Saí da aula sem um diploma de papel, nem certidão de cumpridos deveres, mas com algo muito mais perigoso que foi a capacidade de pensar por mim próprio. E, possivelmente, uma vontade súbita de usar palavras como "utopia" e "burocracia" só para ver a cara de confusão dos meus amigos.



Sanzalando

8 de março de 2026

Crónica de um Coração Literário carregado de mulheres

Dizem que o primeiro amor a gente nunca esquece. O meu atendia pelo nome de, possa nem posso soletrar o nome, ia chover na minha cabeça . Durante todo o tempo do liceu, eu não olhava para as raparigas da turma; eu olhava para ver onde ela estava, tentando decifrar se os meus próprios olhos eram de espiões. A nossa relação foi pautada pela dúvida. Até hoje, quando alguém me pergunta se ela traiu alguma vez o seu pensamento, eu respondo: 
- Não sei, mas se traiu, ele provavelmente mereceu por ser tão chato, tão recto e tão imaculado. Foi aí que me lembrei de Capitu, é uma das personagens mais icónicas e enigmáticas da literatura brasileira, protagonista do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. foi a minha primeira lição de que o silêncio de uma mulher é um oceano onde muito boa gente se afoga.

Depois, tive uma fase mais mística e rústica com a Blimunda Sete-Luas. Que mulher! Enquanto eu mal consigo ver o que tem dentro da minha geleira, que aprendi faz tempo se chama frigorífico, sem acender a luz, ela via o interior das pessoas. O nosso namoro foi longo, caminhando por Mafra, e ela ensinou-me que o amor é uma construção literalmente falando. Mas, seja eu honesto: viver com alguém que sabe exatamente o que eu comi no mata-bicho só de olhar para a minha vontade seria um bocado invasivo para o dia a dia, quanto mais para a vida. 

E falar de casos de paixão múltipla? Dona Flor e os seus dois maridos! O meu conflito ético favorito. Eu, um cavalheiro, pelo menos tento ser, via-me dividido entre a segurança do Vadinho e o tédio do Teodoro. A Flor ensinou-me que o coração tem dois quartos e que, às vezes, a chave de um deles é a malandragem pura. E a Gabriela e os Capitães de Areia traziam mulheres que cheiram a cravo e canela, e eu cheiro a banho e desespero de quem tem mil coisas por fazer. A nossa compatibilidade era baixa, mas o flirt foi inesquecível.

Recentemente, tentei sair com as mulheres de Clarice Lispector. Quase que era uma relação intensa, mas acabou confusa. Eu convido-as para um café e elas ficam meia hora a olhar para uma barata ou para um ovo, filosofando sobre o ser. É fascinante, mas saio do encontro com a sensação de que preciso de umas férias e ao mesmo tempo de um abraço. Elas não querem o meu carinho; elas queriam a minha essência desintegrada. E quem sou eu para negar?

No fundo, a minha vida amorosa literária é uma sucessão de abandonos. Eu fecho o livro, elas ficam lá, imortais, e eu volto para a minha realidade onde ninguém fala em metáforas e ninguém morre de tísica por amor às margens do Mondego.

Falta-me sempre uma página, ou talvez apenas a coragem de ser tão interessante quanto um parágrafo da Sophia de Mello Breyner.



Sanzalando

7 de março de 2026

eu li Luandino quando comecei a ter dinheiro

Eu, quando comecei a ganhar dinheiro, porque antes não podia, sujeito dado a leituras que me eram dadas, mas de pouco balanço, resolvi comprar o Luuanda. Cheguei em casa, sentei-me na na cadeira de cordas e abri o livro com aquela pose de quem vai resolver um algoritmo que nem sabia existia essa palavra, mas queria saber quem eram os escritores que escreveram a minha terra.

Primeiros 10 minutos li uma frase e o cérebro fazia um barulho de engrenagem enferrujada. Luandino escrevia "estória" com "e", inventava verbos que não pediam licença ao dicionário e as palavras pareciam que estavam a dançar sem música.

- Mas esse gajo está a escrever em português ou está a semear sementes de palavras no papel e eu vou ter que esperar elas cresçam? perguntei-me.

Depois de uma hora,  a magia começou a bater, já não estava na sala de leitura. Eu estava lá, no meio do pó da rua, a ouvir o banzé dos miúdos e o cheiro do peixe a fritar. O problema é que o Luandino tem um feitiço, ele desarruma a gramática de um jeito que a gente começa a achar que o erro é que é o certo.

Lá pelas tantas, os companheiros me gritaram vais jantar ou ficas por aqui o comer palavras?

Eu, possuído pelo espírito do Ngangula, olhou para eles e respondi: 

- Ó pá, não me venham com estórias de comer que o meu estômago está a fazer maka com a minha fome. A vida é um desassossego de palavras e eu estou aqui a "estoriar" com os meus botões!

Eles me olharam estupefactos e pararam. Nunca me tinham ouvido dizer "maka" na vida. Mas me deixaram ali a passear as palavras ou a ser passeado por elas.

O livro foi lido em três dias. No quarto dia, fui ao banco. O gerente, muito engomado, veio explicar-me as taxas de juro: 

- Veja bem, a flutuação do mercado... blá blá - por aí fora, conversa de banco

Eu, com aquela cadência que só quem leu Luandino entende, interrompi: 

- Ouça-me, deixe lá esses papéis. O que o senhor está a fazer é uma conversa de fiado, um banzé de números que não têm coração. O dinheiro é como o vento no capim: assobia mas não se apanha!

O gerente ficou mudo. Eu sai do banco a gingar, sentindo-se o dono da língua de estalar.

A Lição da Estória

Ler Luandino Vieira é um perigo público:

Risco 1:  começas a achar que a gramática tradicional é uma camisa de forças dois tamanhos abaixo do meu, que nem respirar consegues.

Risco 2: passas a ver poesia num pneu velho ou numa conversa de vizinha.

Risco 3: a boca ganha um balanço que nenhum curso de oratória consegue ensinar. Até gingas a falar.



Sanzalando

5 de março de 2026

Eu e o Lobo Antunes

Conheci o António Lobo Antunes apenas uma vez, ou pelo menos gosto de contar a história como se tivesse sido um encontro memorável. Na verdade, foi mais um daqueles encontros de circunstância em que duas pessoas ocupam o mesmo espaço, o mesmo ar e, durante alguns segundos, tive uma dúvida existencial: será que devo dizer alguma coisa inteligente?.

Eu estava num café da cidade do Porto, armado em intelectual, estudante de Medicina, com um livro aberto à minha frente a fazer horas para a sessão do Fantasporto. Não o estava propriamente a ler; estava na fase mais avançada da leitura moderna: olhar para a página com ar profundo enquanto se pensa noutra coisa qualquer, geralmente no preço dos pastéis de nata.

De repente, entra Lobo Antunes. Coincidência do caraças. O livro que eu tinha: Memória de Elefante. Será que há por acasos ou está tudo escrito nos céus do destino? Depois de ter devorado Fernando Namora eu estava a devorar António Lobo Antunes. E não é que ele entra ali. Desfila na minha mente ainda hoje.

Há pessoas que entram num café. Ele entra como quem atravessa um romance de 600 páginas: devagar, com peso literário e uma certa aura de quem sabe coisas que nós ainda não percebemos.

Sentou-se numa mesa ao lado.

E foi então que começou a luta interior.

Uma voz dentro de mim dizia:
- Vai lá cumprimentar o homem. Diz qualquer coisa sobre literatura!

Outra voz, muito mais sensata, respondia:
- Tu mal consegues explicar a conta da cantina, quanto mais a literatura do Lobo Antunes.

Fiquei ali, entre a coragem e a prudência, que é o sítio onde a maioria dos portugueses vive.

Finalmente, levantei-me. Dei dois passos. Parei. Voltei para trás. Sentei-me outra vez. Pedi outro café, porque o pensamento profundo seca a garganta e eu precisava cafeína ou julgava precisar.

Nisto, ele levanta-se para sair.

Ao passar por mim, olhou para o meu livro aberto há meia hora na mesma página e disse, com um sorriso muito leve:

- Esse capítulo é difícil, não é?

Eu respondi com a maior honestidade literária da minha vida:

- É… mas estou quase a vencê-lo.

Ele acenou, compreensivo, como quem reconhece um colega de profissão na arte nacional de demorar a ler.

E saiu.

Desde esse dia gosto de dizer que tive uma conversa profunda com António Lobo Antunes.

Durou sete palavras.

Mas, convenhamos, para certos escritores… já foi um diálogo bastante longo. 



Sanzalando