recomeça o futuro sem esquecer o passado

31 de julho de 2022

perguntas e respostas

Me sento no passeio à frente da minha casa. 
Deve ser por ser Domingo à tarde que não está ninguém na rua. Cansaram na praia, estão a fazer os trabalhos de casa ou somente estão a descansar parece é Domingo de tarde. 
Vadiamente estou sozinho na rua e me pergunto porque é que eu não desisto e automaticamente me respondo porque não sei desistir.
Assim num logo de imediatamente sai-me outra pergunta que respondo quase sem ter tempo de pensar: porque é que não desapareço? eu não sei fazer truques!
Olho para ambos lados e continuo sem ver viva alma nas redondezas. 
Decidi, sem mais nem menos: vou atirar tudo para trás das costas e ser feliz. 
Como se atira tudo para trás? me esqueci de que não sabia responder a esta pergunta que me fiz


Sanzalando



#lugaresincriveis


29 de julho de 2022

a velocidade do caminho

Se eu caminhasse à velocidade do meu pensamento eu voava. Acho eu ia andar o dia no ar. Eu me perdia no espaço porque tem vezes que a realidade me faz apressar as coisas e o meu eu quer fazer tudo ontem para amanhã descansar. No meu caminhar tenho sempre a sensação que me falta qualquer coisa. Eu espero o fim do caminho mesmo que eu não saiba onde ele fica, mesmo que eu não saiba como é que ele é. Nesta pressa de caminhar, tantas vezes em passo lento para ter tempo de desembaraçar o turbilhão veloz de pensamentos, eu me perco nas poucas ruas da vida, no tempo curto da mesma, no azul céu do meu sossego, no zulmarinho da minha calma e no celeste azul da minha impaciência.
Afinal das contas, as coisas boas da vida acontecem devagarzinho



Sanzalando

28 de julho de 2022

telefones e a minha rua

Todas as minhas ruas têm estórias para contar. Umas sei e outras não. Umas me contaram outras ainda não e tantas mais que nem me passam pela cabeça. Se na minha adolescência as minhas ruas eram poucas, na adolescência do meu avô nem quero nem pensar. Mas estou certo tinha muitas estórias que não me contou. Os meus tios têm as suas estórias. Os amigos têm as suas estórias. Que estória me falta contar das que sei? Deslembrada memória que me falta... 
Todas as minhas ruas vão dar a um porto seguro. Em todas as ruas eu tinha um abrigo, um amigo, uma família. Que pena eu não ter dado mais importância às minhas ruas quando brincava nelas. Se tinha tamarindos eu me lembro. Se tinha castanhas também e figueira nem se fala. Mas eu queria lembrar todos os amigos e ia fazer uma lista parecia a lista dos telefones do tempo em que não havia lista a não ser a escrita no livro do meu avô. 
- Bom dia. Faça-me o favor de me ligar ao 200.
Cortesia e os CTT faziam a ligação. Simpatia no serviço tantas horas tem o dia. Ou então era pedir para ligar para a casa do Sr. X e a ligação de pronto era feita. Uma estória contada ao telefone não era a voz corrente porque ele não servia para essas mundanas fofocas. Era um utensilio de utilidade e não de diversão. Às vezes servia para uma ou outra brincadeira, diria agora de mau gosto. Mas na altura era um alegre adolescente irresponsável. Mas as senhoras do CTT faziam a ligação pedida... Mas quase sempre era apanhado, mais dia menos dia lá vinha a reprimenda muitas vezes escondida num sorriso de quem também tinha achado piada, apesar de tudo. 
Todas as minhas ruas tinham nome, todos os nomes tinham uma rua. Ficaram na memória os que deixaram as minhas ruas e partiram já para parte incerta.


Sanzalando

27 de julho de 2022

meu silêncio

Me despi de palavras para fazer um silêncio. Um minuto ou o tempo suficiente para pensar no quão perdido posso ter andado pela vida passada. Não queria nem gostaria de repeti-los. Mas para isso preciso de os saber. Medito! Silêncio que não quero ser distraído. Quero ter a certeza que não perdi vida. Mesmo nas horas mais tristes, nos momentos de desabar o meu mundo, quero estar vivo, ver e sentir-me vivo. Assim saberei tirar alguma lição, guardar uma memória, ter saudades no futuro. Se não estiver vivo no presente não terei saudades no futuro, diria La Palisse e eu lapalissei.
Me dispo de palavras com vontade de estar em silêncio, o tempo suficiente para me ver por dentro, já que não me quero morto. Quero ver-me amar sabendo que às vezes o amor é só uma coisa interior, intima e secreta. Que melhor posso ter que o meu silêncio?


Sanzalando

26 de julho de 2022

beleza

O que é a beleza? Nesta caminhada, nestes caminhos percorridos para lá da imaginação e da memória, sempre estive rodeado de beleza, das pessoas mais formosas porque todos, para lá dos estados negativos, têm um lado lindo, assim como os melhores têm um lado horroroso. Claro que a beleza é subjectiva e sem parâmetros funcionais de qualificação. A virtude é beleza! A sinceridade é beleza! A alegria no olhar é beleza! O amor é beleza!
Nestes caminhos, mesmo nos defeituosos, há oportunidade de encontrar a beleza. Só preciso caminhar com imaginação e memória.


Sanzalando

#imbondeiro


25 de julho de 2022

eu e a imaginação

Me detenho no alto da minha imaginação, no ponto onde não há nem calor nem frio, alegria ou tristeza, ventos ou chuva, árvores ou deserto. Estou apenas eu e a minha estória inventada, mesmo que a tenha vivido. Eu e a imaginação moramos num andar dum lugar que não tem nem interior nem exterior, areia ou pedra, sem muros ou castelos. Temos que pôr lá tudo o queremos. Num resumo bem espremido: eu e a imaginação nos baralhamos no vazio. 
Já vi tranças no cabelo, cabelo curto, cabelo longo, castanho ou cinzentado, cabelos de rainha. Já a vi pisar a areia da praia e parece não deixa pegada, porque na minha imaginação não ficou lá o desenho. Já a vi correr mais forte que o vento que deixou para trás. Já a vi parada a olhar para lá da minha imaginação. Já a vi pensar e já a vi com ar de bravo mar que avança terra adentro.
Na minha imaginação ela tem tom de voz, mesmo que as palavras possam parecer um emaranhado de inacabados pensamentos que eu imagino ela teve.
Do alto da minha imaginação não há meninice nem velhice e lhe vejo igual que nem num ontem qualquer.
Daqui, donde eu posso inventar as minhas estórias, eu lhe vi boiar num zulmarinho de tempos, nas ondas dum mundo onde sem tempo nem que o tempo não pare.
Da minha imaginação ao mundo real vai um espaço que nem eu sei onde começa e acaba.


Sanzalando

21 de julho de 2022

#mangueira em casa nova


caminho

Cá vou eu por mais um caminho. Já imaginei que esta vida é o inferno duma outra. Eu ia ter de acreditar na encarnação, reencarnação, encadernação em novas roupagens. Eu ia ter que rever todo o caminho que tinha caminhado. Eu sei que não andei por caminhos errados. No meu ponto de vista que é o que mais me importa.
Mas nestes caminhos tenho de ter a mente aberta para novas páginas, novas palavras e discussões. Cada página lida é vida ganha. Eu fui os que sei, sou o que sou mas nada sei do que serei. 
Estes caminhos complicados que me levam a ver que emprego não é o mesmo que trabalho. No primeiro é ganho dinheiro e no segundo é prazer. Se juntar um no outro é que é virtude. Todos falam em trabalho de parto e não em emprego de parto. São caminhos simples que levam a lugares simples, pequenos passos para grandes caminhos.
Sigo caminhando.


Sanzalando

20 de julho de 2022

tem dias

Sigo o meu caminho. Umas vezes lento e outras correndo. Sigo mesmo que não saia do meu lugar, mesmo que os meus passos sejam estáticos. Pensamento em pensamento como se fossem pequenos passos dados em sentido certeiro, num carreiro de formigas mentais, num dançar de bando de pardais, sigo caminhando num cuidar-me, num resolver-me, ultrapassando dificuldade em dificuldade com a naturalidade da vida. Se tem dias que parece eu não consigo, eu me supero no seguinte, nem que eu tenha que ir na memória me ultrapassar, porque sei que nunca é tarde para recordar que dificilmente a gente se esquece das coisas ruins, mas deixa de se lembrar. Confundi? Lembra só que a memória é um registo que está lá gravado parece faz parte da essência, da circunstância e até da própria substância. Não tem dia sim ou dia não. Tem dias.


Sanzalando

#mangueira mudando de casa


19 de julho de 2022

#flores


me deixa ir

Deixa só ir por aí sem destino ou fim à vista. Vou pé ante pé, a correr ou só de olhar, mas me deixa ir ver sem pensar. Mesmo que eu não consiga, por egoísmo ou só porque me gosto, me deixa ir por caminhos da memória, pelas surpresas que vivi, pelas esperas que esperei, pelas ruas desertas ou cheias de gente, procurar o que já nem sei. Me deixa levar a minha visão até ao meu desligar, como se eu tivesse ganho memória dos sorrisos que me sorriram, das perdas que perdi, dos olhos que me olharam. Me deixa ir levar a minha beleza ou feiura pelos caminhos que eu entender, até encontrar a memória que nem sei que perdi. 
Quantas vezes dou por mim a pensar em algo que já não fazia parte da minha estória porque era uma folha solta do livro de memória?
Me deixa só ir por aí á procura das minhas páginas tantas, folhas soltas ou pontos parágrafos.


Sanzalando

18 de julho de 2022

mais logo

Hoje me sento nas pequenas bancadas do velho Atlético. Faz conta vai ter um jogo logo e isto vai estar que nem rebentar. Jogo importante neste velho e minúsculo campo não dá para esta criança entender. Faz de conta vêm jogar as estrelas dos patins que jogam nas importantes equipes de todo o território. Mas isso é só mais logo. Agora estou aqui a ver os meus botões, a recapitular os pontos negros, não os que alguma namorada mais tarde, um dia, vai forçar virem para fora. Mesmo assim, num só jeito de tentar ser feliz. Aqui sentado me tento viver sem pensar que não te tenho, que não existes num constantemente fervilhar de pensamentos. Que se existes és vento, chuva tropical, mosquito zunindo meu ouvindo ou ferrando minhas pernas desnudadas. Aqui sentado, me imagino mais logo, perdido, no meio da multidão que vai gritar os nomes, um a um das estrelas dos patins, enquanto me deslargo de ideias fixas em que tu não és corpo presente. Mais logo serei desapaixonado de todo.
Aqui, mais logo, imagináriamente, vou tirar-te da minha cabeça, afastar-te do meu coração e dizer-me que é um sonho ser feliz assim. Vou deixar de estar ocupado com pensamentos teus, com inexplicáveis razões de mostrar um rosto baço e não terei preocupações de procurar os motivos de sorrir escondendo as lágrimas da saudade.
Aqui, onde num logo mais tarde, gritarei golos, como se fosse eu o herói do jogo.

Sanzalando



#mangueira


17 de julho de 2022

#momentos dessalinização


quadricular

Eu nasci numa cidade e ainda com dias fui morar na minha cidade quadriculada. Eu me quadriculei na infância e na adolescência. Faz conta só adulto eu me desquadriculei, mental e urbanamente. Eu sou dum mato com muita estória e carregado de História. Mas quadriculadamente eu não gostava de incomodar ou contrariar quem quer que fosse. Eu tinha medo que elas fossem dizer eu era um quadricular chato. Eu sei que a quadriculada cidade me moldou nestes termos, mas era também no meu interiormente falado e calado assim. Culpa minha e não só da quadriculada cidade donde afinal eu sou sem ter lá nascido.
Na cidade onde realmente se ficou a placentaria parte de mim que me ligava à minha mãe não era quadriculada porque não sendo plana eles inventaram muitas curvas e rectas encurvadas. E só lá passava uma terça parte do ano. Era diferente. Nesse lugar eu arriscava mais, eu me importava pouco se me chamavam besta ou era só bestial. Eu estava de passagem e por isso não ia magoar ninguém, a não ser por esquecimento no ano seguinte.
Na minha quadriculada cidade era bem diferente. Eu tinha a minha máscara e com ela fui crescendo. E a máscara se quadricualizou-se à alma pelo que nem em adulto desquadriculei-me por inteiro. 
Talvez o consiga quando eu fôr velhinho com o corpo curvado porque a terra me está a puxar e eu quadriculadamente me vou mantendo à tona.


Sanzalando

#lugaresincriveis