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2 de setembro de 2026

Joselito, Marisol e a minha infância cinematográfica

Quando eu era criança, havia uma coisa que eu levava muito a sério, os filmes de Joselito e Marisol que o avô Serafim me levava a ver no Cine-Moçâmedes. Ontem estava a falar com um amigo sobre as memórias que os avós deixam na nossa infância. E eu me lembrei e lhe disse que as melhores memórias que tenho desse tempo é mesmo com os avós. Com os pais estamos todos os dias e vira rotina. Os avós marcam, tatuam a alma e grafitam o nosso cérebro. Eles acabam por ser os nossos heróis.

Hoje penso nisso e acho extraordinário. 

O meu avô Serafim levava-me ao cinema.

Eu podia não perceber grande coisa da vida, mas sabia perfeitamente que, num filme de Marisol, haveria sempre uma menina loira, um vestido impecável, uma canção e alguém a tentar estragar-lhe a felicidade. E Joselito tinha sempre aquela voz que parecia vir de um sítio onde as crianças normais nunca tinham entrado.

Eu ia ao cinema preparado para tudo.

Sentava-me na cadeira, olhava para o ecrã e, quando começava a música, ficava completamente hipnotizado. Aquilo era cinema a sério. Não havia super-heróis, efeitos especiais nem explosões. Havia uma criança a cantar e nós, na plateia, em absoluto silêncio, como se estivéssemos perante um acontecimento histórico.

Eu, naturalmente, também queria cantar como Joselito.

O problema é que a minha voz não tinha sido informada dessa decisão. Lá em casa, eu cantava qualquer coisa que me lembrasse os filmes. A família ouvia com aquela expressão de quem está a tentar perceber se aquilo era uma manifestação artística ou um pedido de socorro.

- Cala-te, miúdo! - dizia-me um mais velho que não fosse um dos avós.

Eu interpretava aquilo como falta de sensibilidade musical.

Com Marisol era diferente. Marisol não precisava de fazer grandes esforços. Bastava aparecer e sorrir. Eu ficava convencido de que a vida era assim: as pessoas bonitas sorriam, cantavam, tinham bons vestidos e os problemas acabavam antes de aparecer em inglês que o filme tinha acabo.

Mais tarde descobri que não era bem assim.

Na infância, porém, o cinema ensinava-nos uma coisa maravilhosa, tudo podia acabar bem.

Se havia um órfão, aparecia alguém para o adoptar. Se havia uma injustiça, fazia-se justiça. Se havia uma menina triste, começava uma canção. E se Joselito cantava, até os adultos pareciam acreditar que o mundo tinha solução.

Eu saía do cinema convencido de que também podia ser artista. Chegava a casa, pegava numa vassoura como se fosse um microfone e começava o espectáculo. A família, que não tinha comprado bilhete para a sessão seguinte, tentava discretamente abandonar a sala. Eu não desistia. Porque naquela altura eu ainda não sabia que havia pessoas que nasceram para cantar e outras que nasceram para assistir aos que cantam. Eu pertencia claramente ao segundo grupo. Mas ficaram Joselito, Marisol e aquelas tardes de cinema. Ficou a música, ficou a emoção e ficou sobretudo aquela sensação de que, durante duas horas, o mundo lá fora podia esperar.

Hoje, quando penso nesses filmes, já não vejo apenas Joselito ou Marisol. Vejo o miúdo que eu era, sentado numa sala escura, olhos bem abertos, a acreditar que o cinema era capaz de explicar a vida. E talvez fosse. Pelo menos ensinou-me uma coisa que continuo a praticar: há memórias que não precisam de legendas. Basta começar a música.



Sanzalando

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