Depois, tive uma fase mais mística e rústica com a Blimunda Sete-Luas. Que mulher! Enquanto eu mal consigo ver o que tem dentro da minha geleira, que aprendi faz tempo se chama frigorífico, sem acender a luz, ela via o interior das pessoas. O nosso namoro foi longo, caminhando por Mafra, e ela ensinou-me que o amor é uma construção literalmente falando. Mas, seja eu honesto: viver com alguém que sabe exatamente o que eu comi no mata-bicho só de olhar para a minha vontade seria um bocado invasivo para o dia a dia, quanto mais para a vida.
E falar de casos de paixão múltipla? Dona Flor e os seus dois maridos! O meu conflito ético favorito. Eu, um cavalheiro, pelo menos tento ser, via-me dividido entre a segurança do Vadinho e o tédio do Teodoro. A Flor ensinou-me que o coração tem dois quartos e que, às vezes, a chave de um deles é a malandragem pura. E a Gabriela e os Capitães de Areia traziam mulheres que cheiram a cravo e canela, e eu cheiro a banho e desespero de quem tem mil coisas por fazer. A nossa compatibilidade era baixa, mas o flirt foi inesquecível.
Recentemente, tentei sair com as mulheres de Clarice Lispector. Quase que era uma relação intensa, mas acabou confusa. Eu convido-as para um café e elas ficam meia hora a olhar para uma barata ou para um ovo, filosofando sobre o ser. É fascinante, mas saio do encontro com a sensação de que preciso de umas férias e ao mesmo tempo de um abraço. Elas não querem o meu carinho; elas queriam a minha essência desintegrada. E quem sou eu para negar?
No fundo, a minha vida amorosa literária é uma sucessão de abandonos. Eu fecho o livro, elas ficam lá, imortais, e eu volto para a minha realidade onde ninguém fala em metáforas e ninguém morre de tísica por amor às margens do Mondego.
Falta-me sempre uma página, ou talvez apenas a coragem de ser tão interessante quanto um parágrafo da Sophia de Mello Breyner.
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