recomeça o futuro sem esquecer o passado

13 de julho de 2026

O dia em que a tristeza se cansou de esperar

A tristeza é uma nuvem cinzenta e gorda que adorava sentar-se na cabeça das pessoas. Aloja-se, aninha-se e por ali permanece. Um dia, ela escolheu-me. 
Aqui vou eu, disse-me a tristeza, ajeitando as malas sobre os meus ombros enquanto procurava maneira de entrar.
No primeiro dia, a tristeza soprou um desânimo pesado. Senti a carga, mas disse:
- Bom, a pia está cheia. E comecei a lavar os pratos que ali jaziam faz horas. 
A tristeza achou estranho, pois esperava que eu chorasse no sofá. Ela pesou mais nos meus ombros como que a querer dizer que estava ali para me entristecer.
No segundo dia, a tristeza tentou apagar o sol. Olhei para o céu nublado, calei as sapatilhas velhas e fui caminhar. ~
- Só uma volta no quarteirão - murmurei. 
A tristeza, arrastada pelo vento da caminhada, começou a ficar despenteada e irritada. Sujeito teimoso, pensei eu tê-la ouvido.
No terceiro dia, a tristeza atacou com memórias melancólicas. Suspirei, sentei-me à mesa e peguei num caderno. Em vez de me lamentar, comecei a escrever uma lista de piadas ruins que me lembrava. A tristeza tentou ler, mas achou os trocadilhos tão infames que começou a ter uma enxaqueca existencial.
No quarto dia, a tristeza já estava exausta. Eu tinha mudado os móveis de sítio, insistia em regar as plantas e até tentava assobiar mesmo desafinado as músicas da minha infância. A persistência estava a ser uma máquina de moer a paciência dela.
No quinto dia, acordei, abri a janela e sorri para um pátio vazio. Foi o limite.
A tristeza pegou nas suas malas, indignada. 
- Desisto! Não há quem consiga trabalhar com este homem a mexer-se o tempo todo - reclamou ela, quase arrancando-me os ombros ao sair dali.
Senti o peso desaparecer, respirei fundo e percebi: a tristeza até pode ser forte, mas não tem pernas para acompanhar quem decide continuar a andar.


Sanzalando

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