Há um momento exato na vida de um homem em que o espelho deixa de ditar as regras e o conforto assume o poder absoluto. Para mim, esse momento chegou algures entre o terceiro analgésico para as costas e a descoberta de que o suspensório é a maior invenção da humanidade. Hoje, aos meus cinquenta e muitos quês (vamos ficar por aqui), assumi a minha forma final, sou o kota de calções e chinelos.
Tem gente que diz que pareço um turista alemão que se perdeu a caminho de Portimão em 1996. Eu chamo-lhe pragmatismo estival porque se fosse para lá da linha recta que é curva eu chamaria apenasmente de ser Eu em letra de mais velho.
Sair à rua nesta figura é um acto de libertação e comodidade. Os calções que idealmente deviam ter bolsos laterais suficientes para guardar as chaves do carro, a carteira, os óculos de leitura e um canivete suíço, nunca se sabe quando é preciso descascar uma maçã no banco do jardim, revelam ao mundo dois joelhos com mobilidade e que veem a luz do sol, não como os do meu avô que não a viam desde o Mundial de 46, se é que houve algum antes de eu nascer. Estão aqui para as curvas, os joelhos. Mas que importa? O vento passa por ali e eu sinto-me o rei da marginal ou do areal. Estou somente a ser Eu.
Depois, temos os chinelos. São uns chinelos de marca, daqueles fininhos que dão estilo na praia ou no passeio de fim de tarde. Não são os de pneu que esses já eram faz tempo. São os clássicos chinelos de enfiar no dedo, sola de cortiça e suspensão última geração. Mas que tenho saudades daqueles que quase pareciam ser de pneu de trator. O som que faço ao andar pela calçada portuguesa é a minha assinatura sonora: pateca, pateca, pateca. É o fado do homem livre. Diz o povo que andar de chinelos deforma o pé. Eu digo que deforma é a paciência de quem tem de apertar atacadores com o estômago a fazer pressão contra o cinto e quase a deitar o conteúdo gástrico boca fora.
A melhor parte de ser um kota nesta fatiota é a ida ao café. Entro com o meu pateca, pateca, a vizinhança olha, as miúdas da esplanada desviam os olhos, provavelmente encandeadas pelo reflexo das minhas canelas, e eu sento-me a ler o jornal. O empregado já nem pergunta, traz a bica e o pastel de nata. Há hábitos que não se perdem.
Os jovens de hoje sofrem muito. Vejo-os ali, com trinta graus à sombra, de calças de ganga justas até ao tornozelo e ténis brancos que custaram os olhos da cara, a transpirar pelas costuras só para parecerem giros no Instagram. Olho para eles, dou um gole na bica, ajusto os meus calções que sobem quase até ao umbigo e penso: Coitados. Ainda não sabem o que é a verdadeira felicidade.
Aos vinte anos, queremos engatar o mundo. Aos cinquenta e muitos quês, só queremos que o mundo nos deixe andar frescos. E entre um par de calças que aperta e uns calções que respiram, o kota aqui já escolheu o seu campeonato. Podem rir-se dos meus chinelos. Mas enquanto vocês sofrem com o calor, eu vou ali dar mais uma patecada até à sombra.
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