recomeça o futuro sem esquecer o passado

16 de setembro de 2026

A esplanada dos mais velhos

Em 1970, sentar-me numa esplanada era uma forma bastante eficiente de aprender coisas que ninguém tinha intenção de me ensinar. Na Oásis eu era recebido como o puto que queria ser grande. Me gostavam e eu gostava de estar ali. Eu era miúdo e os adultos tinham aquela qualidade extraordinária de falar como se soubessem tudo. E, pior ainda, falavam com uma segurança que tornava desnecessário verificar. Não é como agora que a gente tem de verificar tudo porque tudo pode ser mentira, mesmo a verdade que a gente pensa que está a ver. Mas deixemos este futuro e voltemos àquele presente.

Os mais velhos sentavam-se sempre no mesmo sítio. Tinham mesa marcada sem que houvesse marcação. Bastava aparecerem e a mesa já era deles. O café podia estar cheio, mas aquela mesa tinha donos. Talvez por direito adquirido. Talvez por cansaço dos empregados. Talvez apenas por respeito e todos sabiam que eles não iam faltar. Acho mesmo que o único motivo válido para faltar era morrer.

Eu sentava-me por perto e ouvia. Eu e uma catrefada de adolescentes sentávamos duas mesas mais para o lado direito deles.  Falavam de futebol, de mulheres, de política, de pesca, de doenças e, sobretudo, do tempo. O tempo era um assunto muito importante.

- Antigamente é que fazia calor!

 - Agora já não há calor como havia.

 - E as chuvas? Essas então...

Tudo antigamente era melhor. Até o frio. Depois começavam as histórias. Um dizia que tinha conhecido um homem que tinha pescado um peixe tão grande que precisara de três homens para o tirar da água. Outro corrigia rindo e dizia que achava que tinham sido quatro. Eu ficava fascinado, de olhos arregalados a lhes ouvir. Não pelo peixe, que provavelmente nunca tinha sido pescado, mas pela facilidade com que aqueles homens mais velhos podiam aparecer numa história onde inicialmente só havia um silêncio. Era assim que funcionava a memória. Uma história começava pequena e, à medida que passava de pessoa para pessoa, engordava. O mais engraçado era que ninguém parecia preocupado com a verdade. A verdade era uma coisa pouco interessante. O importante era a história ser boa. E eu aprendi ali uma coisa que só muito mais tarde compreendi: os adultos também inventavam. A diferença é que chamavam àquilo memória.

Às vezes perguntavam-me:

 - Estás a ouvir?

Eu dizia que sim, porque tinha aprendido que, quando um adulto conta uma história, o mais prudente é não interromper. Pode haver um peixe enorme pelo meio. E havia sempre. Hoje, quando penso nessas tardes de 1970, lembro-me menos do que diziam e mais da maneira como diziam. Tinham tempo. Tempo para contar uma história que podia durar meia hora e não chegar a lado nenhum. Tempo para discutir uma coisa que já tinha acontecido há vinte anos. Tempo para beber um café lentamente. Nós hoje temos relógios que sabem tudo. Eles tinham relógios que só sabiam uma coisa: que ainda era cedo. Talvez seja por isso que aquelas esplanadas ficaram na minha memória. Porque eu era miúdo, eles eram velhos e, durante algumas horas, ninguém tinha pressa de chegar ao futuro.

O futuro podia esperar. Até porque, naquela época, ainda não sabíamos que um dia íamos ter telemóveis, internet e tanta pressa para não dizer absolutamente nada.




Sanzalando

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