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22 de outubro de 2026

as voltas na Mini-honda

Nesta altura o cacimbo já tinha ido para outras paragens, o sol já espreitava tímido nas manhãs de praia e durante a tarde aquecia que até apetecia passear. 

O sol de final de tarde batia no asfalto quente e o som que se ouvia ao longe não enganava ninguém, era o zumbido inconfundível, agudo e sobressaltado de uma Mini-Honda a aproximar-se.

Podiam ser vários, desde o Edgar, ao Matias ou o César. Mas o meu desejo é que fosse ela.

Ela vinha ao volante se é que se pode chamar "volante" àquele guiador elevado que a fazia parecer uma heroína de filme em escala reduzida. Tinha o cabelo a esvoaçar, um sorriso de quem dominava o mundo sobre duas rodas, de dez polegadas que aprendi muito depois, e uma capacidade extraordinária de transformar qualquer tristeza minha numa acrobacia ensaiada para que eu a pudesse ver.

Eu, se estava parado no passeio, a tentar manter a postura de quem tinha tudo sob controlo. Na verdade, tinha anos que o meu coração batia ao ritmo de dois tempos e um plano infalível para a impressionar, plano esse que se desmoronava a cada vez que ela acelerava.

- Vens dar uma volta ou vais ficar aí a ganhar raízes? gritou ela, travando à minha frente.

A Mini-Honda era uma maravilha da engenharia moderna, mas a verdade é que parecia um brinquedo sofisticado. Com ela ao guiador, porém, parecia um veículo de alta competição. O meu grande problema não era a mota; era a forma como ela olhava para mim. Havia sempre um brilho de troça nos olhos dela, uma diversão constante, como se eu fosse a sua comédia favorita em exibição diária. Eu não tinha motorizada e bicicleta era bem velhinha que até os travões eram uma história que eu quase não conheci.

- Posso ir - respondi, tentando parecer natural e baixando a voz. - Mas olha que esse motorzinho vai sofrer com a minha velocidade de corrida.

Ela deu uma gargalhada que até parece fez eco na rua inteira.

- Não te preocupes.

Sentei-me como pude no lancil do passeio. Para quem queria manter uma distância charmosa e misteriosa, a Mini-Honda era uma péssima escolha: a única forma de não cair de costas ao primeiro arranque era agarrar-me com força à cintura dela. Se ela me desse boleia. Mas ela desafiava mas não havia maneira de dar boleia. Segurança era nome do meio dela. Eu ali sentado, olhando-a a sonhando uma cena que sabia nunca iria acontecer. E ela sabia perfeitamente disso.

Engatou a mudança e acelerou, começou o espetáculo. Ela foi embora e deixou-me ali especado. Algum tempo depois voltou. 

- Queres dar uma volta? perguntou ela com um misto de pena e uma provocaçãozinha.

- Dás-me boleia?

- Estás com medo? - perguntava ela por cima do ombro, a rir-se com a minha aflição ou má intenção.

- Medo? Eu? Nada disso, só estou a apreciar a paisagem! - garantia eu, de dentes cerrados.

E lá ia e voltava provocantemente. Para ela, eu era pura brincadeira, um passeio divertido com o rapaz prestável que suspirava. Para mim, era o evento do século. Ela brincava comigo, provocava-me, dizia que eu era o seu amigo favorito porque nunca me zangava nem irritava.

Ela tirou as chaves depois de desligar a Mini-Honda, entrou em casa, ainda olhou para mim com aquele ar divertido de quem sabia exatamente o efeito que causava.

E lá ia eu para casa, sentar-me na varanda, na cadeira de baloiço que alguém tinha feito para o meu avô com duelas de barris de vinho, possivelmente chegados u dia à loja do João Padeiro, com o olhar atirado para a varanda dela. Eu sempre fazia apostas, se ela viesse à varanda era porque gostava de mim. Às vezes sim e outras não.




Sanzalando

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