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Programas K'arranca às Quartas no Blog

24 de outubro de 2026

Fui à pesca… mas esqueci-me de levar a cana!

E porque hoje tenho um programa que se chama Conversas à Mesa e vai falar de Pesca e Áreas Marítimas Protegidas que me deu para dissertar sobre mim. Não sou peixe, nem de signo se é que isso poderia significar alguma coisa. Mas aqui sentado, a olhar o mar da minha imaginação recordei-me que podia ter sonhado, embora isso não tenha acontecido, em que há dias em que um homem acorda com uma vocação irresistível para a aventura. Não quer saber de política, de contas para pagar, nem sequer das notícias que anunciam o fim do mundo para a próxima terça-feira ou no dia de Todos os Santos que nos valham. Quer saber apenas de paz, sossego e uma boa pescaria, seja lá o que isso significa.

Foi assim que decidi ir à pesca.

Acordei cedo, com aquela determinação própria dos grandes exploradores. Disse em casa que ia passar umas horas junto ao mar, em contacto com a natureza, a ouvir o silêncio e a refletir sobre os grandes mistérios da existência. A família olhou para mim com uma expressão de quem já conhece os meus grandes projectos e sabe que, mais cedo ou mais tarde, haverá sempre qualquer coisa que corre mal.

- Vais pescar? — perguntou alguém que para além de ter cara de quem estava a gozar comigo sabia o que eu ia responder.

- Claro! — respondi, não sei se convincente ou só porque sim.

E lá fui eu.

Cheguei à praia, escolhi um lugar magnífico, sentei-me numa pedra e contemplei o oceano. O mar estava lindo, as ondas vinham e iam, as gaivotas gritavam como se estivessem a discutir a proibição de que peixes apanhar, e eu senti-me um homem verdadeiramente integrado na natureza.

Foi então que decidi começar a pescar. Abri o saco. Olhei para dentro. Voltei a olhar. O saco continuava tão vazio como vazio eu o tinha deixado o ano passado.

Não tinha cana de pesca. Não tinha anzóis. Não tinha linha. Não tinha isco. Não tinha sequer uma minhoca que pudesse apresentar às autoridades marítimas como prova das minhas intenções, caso elas aparecessem por ali. Na mochila tinha levado levado uma garrafa de água, duas sandes e um optimismo absolutamente injustificado. Tinha me esquecido de levar tudo aquilo que distingue um pescador de um simples cidadão sentado numa pedra. Durante alguns minutos, fiquei imóvel, a olhar para o mar. Talvez um peixe, impressionado com a minha postura contemplativa, resolvesse saltar para a areia e entregar-se voluntariamente. Nunca se deve subestimar a força da esperança, sobretudo quando não se tem mais nada à mão. Mas os peixes, pelos vistos, não apreciavam a minha filosofia.

Passavam ao largo, indiferentes à minha presença. Um deles chegou mesmo a dar um salto fora de água, num gesto que interpretei como provocação pessoal.

 - Está bem, está bem!  -murmurei. - Não precisas de te armar em importante. Um dia pode calhar-te um azar.

O peixe desapareceu, provavelmente para contar aos amigos que tinha encontrado um maluco na praia.

Entretanto, chegaram pescadores, carregados de canas, baldes, redes, caixas de isco e equipamentos que pareciam preparados para capturar desde uma sardinha até ao próprio Adamastor. Um deles, vendo-me sentado, perguntou:

- Então, amigo, está a dar alguma coisa?

Olhei para o mar, depois para as minhas sandes e respondi com a dignidade de um homem que não admite derrotas:

- Está a dar uma excelente manhã. Quanto a peixe, ainda estamos em negociações. Se decido pescar ou se os deixo crescer mais um pouco.

O homem olhou para mim, olhou para o saco vazio e percebeu tudo.

- Não trouxe a cana?

- Hoje estou a experimentar uma modalidade nova. Pesca por telepatia ou simples simpatia.

Ele riu-se tanto que quase deixou cair a caixa dos anzóis.

- E funciona?

- Funciona lindamente! Até agora, nenhum peixe me incomodou.

E continuei ali, firme, a praticar aquela modalidade desportiva que consiste em esperar por alguma coisa sem ter os meios necessários para a conseguir.

Ao meio-dia, comi as sandes. Não apanhei peixe, mas consegui capturar duas migalhas na camisa e uma mancha de mostarda nas calças. Foi a única captura documentada da manhã.

Regressei a casa de mãos vazias, mas com a consciência pacificada. Afinal, não tinha gasto dinheiro em isco, não tinha perdido anzóis, não tinha partido a cana e, sobretudo, nenhum peixe poderia acusar-me de perturbar a sua vida privada.

Quando me perguntaram se tinha pescado alguma coisa, respondi:

- Claro! Pesquei uma grande lição de vida.

- Qual?

- Para ir à pesca, é preciso levar o material.

Houve um silêncio.

Depois acrescentaram:

- E peixe?

- O peixe é secundário. O importante é a experiência adquirida!

Desde então, quando anuncio que vou à pesca, a família faz sempre a mesma pergunta:

- Já verificaste se levas tudo?

E eu respondo, ofendido:

- Sou um homem experiente! Sei perfeitamente o que estou a fazer!

Depois saio de casa, dou meia-volta e nem sempre vou buscar a cana. Porque a idade ensina-nos muitas coisas. Ensina-nos a distinguir o essencial do acessório, a aceitar as derrotas com humor e a perceber que nem sempre conseguimos aquilo que procuramos por mais apetrechados que estejamos.

Mas há uma coisa que a idade ainda não conseguiu ensinar-me: que, para apanhar peixe, convém levar uma cana. E assim continuo a ir à pesca, cada vez mais sábio, cada vez mais experiente e, invariavelmente, cada vez mais desconfiado da minha própria memória. A única vantagem é que, quando não apanho nada, nunca preciso de inventar desculpas sobre o tamanho dos peixes que me escaparam. Afinal, como se costuma dizer entre pescadores, há dias em que o mar não dá nada. E há outros em que o mar até dava, mas o pescador esqueceu-se de levar com quê!


Sanzalando

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