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31 de março de 2006
Uma estória verdadeira (83)
Temos que ir e vamos fazer mais como?
Sei que dei por mim a falar baixinho na frente da Kipola parecia estava a rezar. Sei que o meu silêncio se foi tornando um marco de cimento armado, carregando o meu semblante como se tivesse caído num sarcófago de vários andares e tivesse me esquecido de qual era a minha prateleira. Não sei quantos quilómetros andei assim. Eu estava de luto de mim. Aos poucos fui recuperando o fôlego, fui caminhando para a realidade e me encontrei estava perto do desvio que nos ia levar até à primeira paragem prevista que era o desvio da Lucira para almoçar. Mas foi engano porque ainda parámos
no Bentiaba para fazer uma homenagem silenciosa a todos aqueles que antes do antigamente ali estavam fechados porque tiveram a ousadia de pensar.
Foi coisa rápida que o tempo na auto-pista não pode ser de escuridão se não a gente não vê um calhau que lá está à nossa espera e corta a lateral. As coisas que eu aprendi nesta viagem. A lateral é mais importante que o rasto mesmo. Seguimos viagem na estrada tipo sandes, de asfalto e terra conforme os buracos eram muito ou poucos. No desvio eram horas de almoço. O reforço do café Avenida com umas birras e umas latas de atum foram o nosso repasto. Aí aparecem dois naturais dali mesmo que apontaram para cima da serra que era ali, e nos fizeram companhia na admiração da abertura fácil da lata de Atum.
A catana já estava pronta para a abertura quando o Ti lhes explicou que era só puxar a argola e já estava. Foi gargalhada que começou neles. Mais uns dedos de conversa, uns saberes de outros tempos, umas vidas vividas debaixo de fogo assim mais ou menos que disseram ali não ouviram muita coisa só mesmo alguma pouca. Como se poderá quantificar? Fiquei sem saber e também se diga que não interessado, é passado para ser enterrado.
Retomemos a aventura de fazer a serra, as subidas e descidas sobre calhau, pedra pontiaguda, precipício, andar de lado como se o Tico fosse um barco à vela. Co-pilota estava perita. Vais ver se conduz melhor assim nesta estrada que noutra bem feita. Vimos uns primatas grandes lá no meio das mini árvores mas os sacristas não se deixaram fotografar para a posteridade, ou será que o cachet era alto. Foi mesmo foto assim de raspão.
Sanzalando em AngolaSei que dei por mim a falar baixinho na frente da Kipola parecia estava a rezar. Sei que o meu silêncio se foi tornando um marco de cimento armado, carregando o meu semblante como se tivesse caído num sarcófago de vários andares e tivesse me esquecido de qual era a minha prateleira. Não sei quantos quilómetros andei assim. Eu estava de luto de mim. Aos poucos fui recuperando o fôlego, fui caminhando para a realidade e me encontrei estava perto do desvio que nos ia levar até à primeira paragem prevista que era o desvio da Lucira para almoçar. Mas foi engano porque ainda parámos
no Bentiaba para fazer uma homenagem silenciosa a todos aqueles que antes do antigamente ali estavam fechados porque tiveram a ousadia de pensar.
Foi coisa rápida que o tempo na auto-pista não pode ser de escuridão se não a gente não vê um calhau que lá está à nossa espera e corta a lateral. As coisas que eu aprendi nesta viagem. A lateral é mais importante que o rasto mesmo. Seguimos viagem na estrada tipo sandes, de asfalto e terra conforme os buracos eram muito ou poucos. No desvio eram horas de almoço. O reforço do café Avenida com umas birras e umas latas de atum foram o nosso repasto. Aí aparecem dois naturais dali mesmo que apontaram para cima da serra que era ali, e nos fizeram companhia na admiração da abertura fácil da lata de Atum.
A catana já estava pronta para a abertura quando o Ti lhes explicou que era só puxar a argola e já estava. Foi gargalhada que começou neles. Mais uns dedos de conversa, uns saberes de outros tempos, umas vidas vividas debaixo de fogo assim mais ou menos que disseram ali não ouviram muita coisa só mesmo alguma pouca. Como se poderá quantificar? Fiquei sem saber e também se diga que não interessado, é passado para ser enterrado.Retomemos a aventura de fazer a serra, as subidas e descidas sobre calhau, pedra pontiaguda, precipício, andar de lado como se o Tico fosse um barco à vela. Co-pilota estava perita. Vais ver se conduz melhor assim nesta estrada que noutra bem feita. Vimos uns primatas grandes lá no meio das mini árvores mas os sacristas não se deixaram fotografar para a posteridade, ou será que o cachet era alto. Foi mesmo foto assim de raspão.

Carlos Carranca
30 de março de 2006
Uma estória verdadeira (82)

A cada metro da saída da cidade um baque eu ia sentindo. Estava que parecia ia entrar em convulsão. Eu só pedia no silêncio do meu pensamento que o Tico andasse mais depressa não fosse dar-me uma coisa na tola e segurar uma palmeira, um pé de Buganvília, um candeeiro da Avenida, e começar a gritar eu daqui não saio e ninguém me tira. Cada metro me custava a deixar
para trás. As oliveiras das hortas, o leito seco do rio, a
linha paralela do caminho de ferro, tudo parecia estava a atirar-me os seus braços e segurar-me. Mas eu tenho de ser forte e sair para voltar. Como posso eu voltar se não sair?
Mas sabes, falta-me ver tanta coisa. Falta-me decorar cada fachada de casa, cada lancil onde me sentei, cada lage de passeio que eu já tinha pisado. Ainda me falta tocar em tanta coisa. Apetece-me entrar no Liceu. Invadir o Colégio das Madres, entrar na Igreja. Apetece-me agora que eu estou a ficar na distância do atrás, fazer coisas que na altura eu não tive no pensamento.
Não me grites que temos de voltar em Luanda para tratar de coisas que ainda ficaram para tratar. Eu sei e não é preciso estares sempre a repetir. Eu sei que nem abres a boca, mas a verdade é que os meus ouvidos te estão a ouvir. Eu sei que me apetece mandar vir contigo. É um escape, uma manobra de descompressão. Mas bolas eu vou só ali e já volto. Espero que este ali não seja cerca de trinta anos.
A rua dos Pescadores, a Rua das Hortas, a Rua da Fábrica essas continua a ter os mesmos nomes, continuam a ter os mesmos números nas portas. As outras ruas eu não sei e nem nunca soube o nome. Eu quero é saber outras coisas. Tas a ver? Temos que voltar para trás porque eu tenho de ver mais coisas. Eu tenho que decorar porque sabes que eu não uso caderninho para rascunho ou apontamentos. Tudo fica só gravado na minha tola e como é que eu vou ter a certeza que não estou a esquecer nada se não fizer uma revisão? Vamos voltar para trás e rever tudo direitinho? Já sei que este diálogo só se passou entre mim e eu. Co-pilota e Ti nem me ouviram e nem adivinharam o que ia na minha cabeça. O meu corpo estava a ir com eles e eu, o meu pensamento, a minha alma estava sentado na Pastelaria Oásis.
Sanzalando em Angola
linha paralela do caminho de ferro, tudo parecia estava a atirar-me os seus braços e segurar-me. Mas eu tenho de ser forte e sair para voltar. Como posso eu voltar se não sair?Mas sabes, falta-me ver tanta coisa. Falta-me decorar cada fachada de casa, cada lancil onde me sentei, cada lage de passeio que eu já tinha pisado. Ainda me falta tocar em tanta coisa. Apetece-me entrar no Liceu. Invadir o Colégio das Madres, entrar na Igreja. Apetece-me agora que eu estou a ficar na distância do atrás, fazer coisas que na altura eu não tive no pensamento.
Não me grites que temos de voltar em Luanda para tratar de coisas que ainda ficaram para tratar. Eu sei e não é preciso estares sempre a repetir. Eu sei que nem abres a boca, mas a verdade é que os meus ouvidos te estão a ouvir. Eu sei que me apetece mandar vir contigo. É um escape, uma manobra de descompressão. Mas bolas eu vou só ali e já volto. Espero que este ali não seja cerca de trinta anos.

A rua dos Pescadores, a Rua das Hortas, a Rua da Fábrica essas continua a ter os mesmos nomes, continuam a ter os mesmos números nas portas. As outras ruas eu não sei e nem nunca soube o nome. Eu quero é saber outras coisas. Tas a ver? Temos que voltar para trás porque eu tenho de ver mais coisas. Eu tenho que decorar porque sabes que eu não uso caderninho para rascunho ou apontamentos. Tudo fica só gravado na minha tola e como é que eu vou ter a certeza que não estou a esquecer nada se não fizer uma revisão? Vamos voltar para trás e rever tudo direitinho? Já sei que este diálogo só se passou entre mim e eu. Co-pilota e Ti nem me ouviram e nem adivinharam o que ia na minha cabeça. O meu corpo estava a ir com eles e eu, o meu pensamento, a minha alma estava sentado na Pastelaria Oásis.
Carlos Carranca
29 de março de 2006
Uma estória verdadeira (81)

Mas o que tem de ser tem muita força. O sair ficou marcado para as sete horas porque é a hora que abre o café Avenida e a gente vai lá mesmo tomar o matabicho, depois de ir no Xonera comprar gelo para encher a caixa dos caranguejos que a gente vai levar até à capital.
No deitar senti uma dor que me apertava. Sentia o chão a fugir-me debaixo dos pés. Tas a ver, né? Custa ter que partir outra vez. Mas voltarei. Com este pensamento adormeci e rapidamente se passou a noite. Estas noites têm sido tão curtas, todas que se fosse no outro lugar eu estaria assim já como que a rastejar por falta de forças, mas aqui estou forte e vigoroso. Na hora marcada os despertadores tocaram e foi um aviar. Havia que arrumas as bicuatas e carregar o
Tico bem carregadinho para nada se perder pelo caminho. Não nos esquecendo que a gente ia voltar pela auto-pista da Lucira. Passámos ainda pela que foi a minha casa e que agora é, nos meus olhos, a casa mais bonita e bem cuidada da cidade do Namibe. Um adeus e até breve, que ela merece.Lá fomos nós até quase que na subida da SOS buscar o gelo. Está aberto 24 horas em cada dia da semana. Tudo bem acondicionado para os ditos bichos não secarem nem ficarem assim com cheiro que depois a gente nem os podia ver, quanto mais comer. Dali directos ao café Avenida matabichar e comprar uns bolos para a viagem, uns pães com chouriço. Tas a ver, coisas práticas para comer assim sem parar. Mas depois nos lembrámos que tínhamos que voltar na área de Serviço da Laurinda para dar o último abraço desta viagem ao Lan. Foi o que fizemos e depois, já passava das oito da manhã quando descolamos o nosso Tico em direcção ao Rio Bero e depois da Kipola virar na direita e seguir até ao Giraul e depois aí apanhar a estrada que nos havia de levar até à Lucira. Que é como quem diz, ao desvio que desvia para a Lucira que a gente vai seguir mesmo em direcção ao Dombe Grande que fica já ali depois daquelas pedras todas
No deitar senti uma dor que me apertava. Sentia o chão a fugir-me debaixo dos pés. Tas a ver, né? Custa ter que partir outra vez. Mas voltarei. Com este pensamento adormeci e rapidamente se passou a noite. Estas noites têm sido tão curtas, todas que se fosse no outro lugar eu estaria assim já como que a rastejar por falta de forças, mas aqui estou forte e vigoroso. Na hora marcada os despertadores tocaram e foi um aviar. Havia que arrumas as bicuatas e carregar o
Tico bem carregadinho para nada se perder pelo caminho. Não nos esquecendo que a gente ia voltar pela auto-pista da Lucira. Passámos ainda pela que foi a minha casa e que agora é, nos meus olhos, a casa mais bonita e bem cuidada da cidade do Namibe. Um adeus e até breve, que ela merece.Lá fomos nós até quase que na subida da SOS buscar o gelo. Está aberto 24 horas em cada dia da semana. Tudo bem acondicionado para os ditos bichos não secarem nem ficarem assim com cheiro que depois a gente nem os podia ver, quanto mais comer. Dali directos ao café Avenida matabichar e comprar uns bolos para a viagem, uns pães com chouriço. Tas a ver, coisas práticas para comer assim sem parar. Mas depois nos lembrámos que tínhamos que voltar na área de Serviço da Laurinda para dar o último abraço desta viagem ao Lan. Foi o que fizemos e depois, já passava das oito da manhã quando descolamos o nosso Tico em direcção ao Rio Bero e depois da Kipola virar na direita e seguir até ao Giraul e depois aí apanhar a estrada que nos havia de levar até à Lucira. Que é como quem diz, ao desvio que desvia para a Lucira que a gente vai seguir mesmo em direcção ao Dombe Grande que fica já ali depois daquelas pedras todasSanzalando em Angola
Carlos Carranca
28 de março de 2006
Uma estória verdadeira (80)

Acho mesmo que só faltou uma. A rua que passa entre os Correios e os Caminhos de Ferro. Todas as outras foram passadas a olho fino. Aqui era isto, ali aquilo, aqui morava cicrano e ali beltrana. Corri a cidade com todos os olhos, ao mesmo tempo que sentia um medo enorme. Mas sinto medo mesmo de que? De não a voltar a ver? Mas se eu sai daqui foi mesmo só o corpo, porque a mente essa não desbou daqui nem um segundo. A cidade estava mais igual à cidade da minha memória. Ruínas quase nenhumas, reconstruções mais que muitas. E me disseram depois que não há mais porque há falta de cimento. Mas também ouvi dizer que é por pouco tempo. Se eu ouvi é porque vai ser. Tudo mexe e isso é importante. O trânsito de Luanda tem muito que aprender com o trânsito daqui.
Penso eu, que não sou especialista. Também numa cidade desenhada com régua e esquadro e sem compasso, não é difícil dizer que se esta sobe, aquela desce e assim sucessivamente. Olha, aqui foi o primeiro trabalho sério que tive. Porque o primeiro mesmo era na câmara escura da casa de fotografias que o Bauleth abriu por trás da DTA. Estava a falar do Rádio Club. Hoje mora lá gente que o rádio agora é mais em baixo, quase a chegar ao Impala que ali está igual, a Sanzala dos vBrancos tá na igualmente igual ao que era. Cores e tudo. O Bairro da Mineira, por trás do colégio das madres idem aspas e tudo.
No Impala só falta mesmo os cartazes a dizer que filme é que eu vou ver hoje à noite, sentado num daqueles bilhetes que estão sempre marcados nas três primeiras cadeiras da terceira fila, a contar de cá de cima. Como era divinal ir ao cinema com ela. Mas agora é de tarde e não há filme. Nem logo à noite vai haver filme. Se houvesse, te juro, que ia comprar os referidos ditos cujo bilhetes. Hoje parece que só abre para festas. Passámos e rodopiámos no Bairro Heróis do Mucaba, Bairro da Facada, subimos a rua dos Pescadores até à
Casa de Saúde, virámos em direcção à casa do Lara e dali seguimos até à escola 56. Com este passeio, este meu mostrar-me a cidade, chegou a hora combinada para o jantar que era na casa do Zeca e da Té. Vamos aviar os que vimos acabadinhos de chegar, que os outros foram embalados para o Huambo. Nos esperavam à porta. Foi sentar e começar as marteladas e saboreamentos. Foi mesmo até que a mente ainda saliva. Um gosto. Muita conversa depois chegou a hora de ir para o Hotel. Amanhã é dia de iniciar o regresso à Capital. Porque é que eu tenho de partir. Vão vocês e me deixem aqui de onde eu nunca saí. Olha, eu monto uma Cubata lá na Lagoa do Arco e fico ali mesmo a pensar nos problemas do mundo. Pode ser? Não digas que não. Eu não quero mesmo sair daqui. Olha que faço birra como quando era criança.
Penso eu, que não sou especialista. Também numa cidade desenhada com régua e esquadro e sem compasso, não é difícil dizer que se esta sobe, aquela desce e assim sucessivamente. Olha, aqui foi o primeiro trabalho sério que tive. Porque o primeiro mesmo era na câmara escura da casa de fotografias que o Bauleth abriu por trás da DTA. Estava a falar do Rádio Club. Hoje mora lá gente que o rádio agora é mais em baixo, quase a chegar ao Impala que ali está igual, a Sanzala dos vBrancos tá na igualmente igual ao que era. Cores e tudo. O Bairro da Mineira, por trás do colégio das madres idem aspas e tudo.
No Impala só falta mesmo os cartazes a dizer que filme é que eu vou ver hoje à noite, sentado num daqueles bilhetes que estão sempre marcados nas três primeiras cadeiras da terceira fila, a contar de cá de cima. Como era divinal ir ao cinema com ela. Mas agora é de tarde e não há filme. Nem logo à noite vai haver filme. Se houvesse, te juro, que ia comprar os referidos ditos cujo bilhetes. Hoje parece que só abre para festas. Passámos e rodopiámos no Bairro Heróis do Mucaba, Bairro da Facada, subimos a rua dos Pescadores até à
Casa de Saúde, virámos em direcção à casa do Lara e dali seguimos até à escola 56. Com este passeio, este meu mostrar-me a cidade, chegou a hora combinada para o jantar que era na casa do Zeca e da Té. Vamos aviar os que vimos acabadinhos de chegar, que os outros foram embalados para o Huambo. Nos esperavam à porta. Foi sentar e começar as marteladas e saboreamentos. Foi mesmo até que a mente ainda saliva. Um gosto. Muita conversa depois chegou a hora de ir para o Hotel. Amanhã é dia de iniciar o regresso à Capital. Porque é que eu tenho de partir. Vão vocês e me deixem aqui de onde eu nunca saí. Olha, eu monto uma Cubata lá na Lagoa do Arco e fico ali mesmo a pensar nos problemas do mundo. Pode ser? Não digas que não. Eu não quero mesmo sair daqui. Olha que faço birra como quando era criança.Sanzalando em Angola
Carlos Carranca
27 de março de 2006
Um abraço meu amigo
Uma estória verdadeira (79)

Essa praia mesmo devia ser chamada das Rochas porque o que ela sempre teve muito era ondas grandes e muita pedra e não está nada diferente. Aproveitamos para brincar e ver desde caranguejos até espinhos do mar, peixes e outras lapas nas pequenas piscinas que eram do nosso contentamento quando a gente não tinha ainda idade para pensar. Parecia mesmo ainda tinha voltado nessa idade. Depois o Lan disse que a gente tinha de ir mais a norte. Eu pensava que o meu mundo tinha acabo ali pois eu não conhecia mais nada para o lado norte dali. Andámos por altos e baixos, aos esses desviando de pedras e rochas que até que parámos. Outra maravilha do Arquitecto. Outro recanto do mundo que eu nunca tinha tido o privilégio de conhecer. A foz do rio Giraul visto daqui de cima. Uma enorme lagoa que terminava a dez metros do mar. Quando o rio enche vai no mar. Mas agora ele fica preso em terra, alimentando um vale que merece a pena ser visto. O Arquitecto não dorme em serviço.
Entre o mar e a lagoa se vê uma praia que é uma outra maravilha. Infelizmente a gente está uns 30 metros em cima de uma escarpa que não sendo alpinista não dá para descer e depois subir, mas que até apetece dar um mergulho desde aqui de cima isso dá. Mas como é que a gente desconhecia esta coisa?
Vais ver era só eu que não conhecia. Mas também a minha kota não ia por o mini dela a andar nestas estradas. Além de que a carta de condução dela acho que dizia que só podia conduzir de casa para a Estação do Caminho de Ferro e vice versa. Lá ao longe se vêem as duas pontes do rio Giraul, a dos comboios e as carros que vão no caminho do Lubango. Fiquei embevecido. Como o Lan tinha que ir bulir que ele não está de férias que nem a gente, pelo que a gente voltou na cidade do deserto e do mar. Que é que vamos fazer agora? No regresso passámos por outro quartel militar com aqueles supositórios mais grandes que um camião a apontar, penso, já coisa nenhuma. Passámos ao largo mas deu para ver que havia jogo de bola para lá dos arames que o delimitam. Perguntei eu como que alguma resposta surgisse dum lado nenhum. Deixamos o Lan no sítio que ele pediu. Fomos na Praia Amélia cumprimentar Zeca que ainda não lhe tinha visto por manifesta falta de tempo de ambos os lados, na concomitância que ele tinha que bulir e eu de decorar cada pedra, cada caminho, cada rua, cada casa, cada rosto. É verdade que eu não estava aqui para ver rostos. Sabia que X e Y e mais uns Z estavam bem. Eu estava aqui para ver a minha História, para ver as marcas marcadas no tempo que eu vivi. Chegados na Praia Amélia encontrámos Zeca a descarregar o barco que tinha acabado de chegar carregado daquelas coisas que chamam caranguejos e que tinham um aspecto de quem ainda estava vivo. Abraços grandes na hora. Recuar anos e vivê-los na memória.
Visitámos a fabrica e logo combinámos que o jantar estava já marcado. Dali fomos para a Praia Azul. Desta vez eu ia que mais que preparado para mergulhar no início do zulmarinho que me estava a chamar e eu ainda não lhe tinha feito a vontade. Dei mergulhos. Mas desta vez, perdido que estava o fulgor de outros anos, estes eram mais assim perto da areia que as ondas, por serem maiores que arranha céus da cidade me assustaram que eu não consegui destravar as minhas pernas para andar mais uns passos à frente e ficar onde os meus olhos queriam e o meu corpo se recusava. Co-pilota e Ti não se aventuraram. Eu comigo mesmo também fiquei na retranca e foi como disse.
O corpo se recusou a ir onde queriam ir os olhos. Mas saboreei quanto pude o salgado mar da praia Azul. Pic-Nic na praia e ali ficámos a saborear um sol que estava tímido mas era o meu sol. Ao começo do fim da tarde voltámos no hotel. Banho de dessalinização tomado e agora, ainda dia vamos percorrer todas as ruas da cidade.
Entre o mar e a lagoa se vê uma praia que é uma outra maravilha. Infelizmente a gente está uns 30 metros em cima de uma escarpa que não sendo alpinista não dá para descer e depois subir, mas que até apetece dar um mergulho desde aqui de cima isso dá. Mas como é que a gente desconhecia esta coisa?
Vais ver era só eu que não conhecia. Mas também a minha kota não ia por o mini dela a andar nestas estradas. Além de que a carta de condução dela acho que dizia que só podia conduzir de casa para a Estação do Caminho de Ferro e vice versa. Lá ao longe se vêem as duas pontes do rio Giraul, a dos comboios e as carros que vão no caminho do Lubango. Fiquei embevecido. Como o Lan tinha que ir bulir que ele não está de férias que nem a gente, pelo que a gente voltou na cidade do deserto e do mar. Que é que vamos fazer agora? No regresso passámos por outro quartel militar com aqueles supositórios mais grandes que um camião a apontar, penso, já coisa nenhuma. Passámos ao largo mas deu para ver que havia jogo de bola para lá dos arames que o delimitam. Perguntei eu como que alguma resposta surgisse dum lado nenhum. Deixamos o Lan no sítio que ele pediu. Fomos na Praia Amélia cumprimentar Zeca que ainda não lhe tinha visto por manifesta falta de tempo de ambos os lados, na concomitância que ele tinha que bulir e eu de decorar cada pedra, cada caminho, cada rua, cada casa, cada rosto. É verdade que eu não estava aqui para ver rostos. Sabia que X e Y e mais uns Z estavam bem. Eu estava aqui para ver a minha História, para ver as marcas marcadas no tempo que eu vivi. Chegados na Praia Amélia encontrámos Zeca a descarregar o barco que tinha acabado de chegar carregado daquelas coisas que chamam caranguejos e que tinham um aspecto de quem ainda estava vivo. Abraços grandes na hora. Recuar anos e vivê-los na memória.
Visitámos a fabrica e logo combinámos que o jantar estava já marcado. Dali fomos para a Praia Azul. Desta vez eu ia que mais que preparado para mergulhar no início do zulmarinho que me estava a chamar e eu ainda não lhe tinha feito a vontade. Dei mergulhos. Mas desta vez, perdido que estava o fulgor de outros anos, estes eram mais assim perto da areia que as ondas, por serem maiores que arranha céus da cidade me assustaram que eu não consegui destravar as minhas pernas para andar mais uns passos à frente e ficar onde os meus olhos queriam e o meu corpo se recusava. Co-pilota e Ti não se aventuraram. Eu comigo mesmo também fiquei na retranca e foi como disse.
O corpo se recusou a ir onde queriam ir os olhos. Mas saboreei quanto pude o salgado mar da praia Azul. Pic-Nic na praia e ali ficámos a saborear um sol que estava tímido mas era o meu sol. Ao começo do fim da tarde voltámos no hotel. Banho de dessalinização tomado e agora, ainda dia vamos percorrer todas as ruas da cidade. Sanzalando em Angola
Carlos Carranca
26 de março de 2006
Hoje foi Domingo
Hoje foi dia de cortar á faca. Escrito assim alguém vai logo pensar que houve maka aí num sítio qualquer. Mas a verdade é que não. Hoje não posso ver o zulmarinho, não posso sentar na areia que ele vem acariciar com a suavidade das suas ondas. Hoje foi dia de bulir e sentir na virtualidade o perfume da maresia, misturado com o hálito de um febril, sentir o massajar do rebentar de ondas numa mistura de encontrar com a ponta dos dedos uma massa abdominal. Mas sempre tem de haver uma pausa. Um relaxar recuperador. Uma conversa Sunguilar, um prazer de ver que o PI não é 3,14, ou será que é? - que a régua e o esquadro servem para mais do que rabiscar uns traços, que a areia do deserto precisa de ser ornamentada com uma flôr, que o Teorema de Pitágoras nada tinha a haver com a bruma, que a Fénix não era mais que uma figura da mitologia, qua a Atlantida não tem a haver com a fábrica de cristais, que uns scones só se comem no Inverno e outras coisas mais.Como eu gosto de estar sentado a ver o Zulmarinho embalar os meus sonhos. Como eu gosto de olhar para trás e gostar do que vejo.
Como eu gosto de gostar.
Se acabou o Domingo mais curto do ano!
Sanzalando em AngolaCarlos Carranca
25 de março de 2006
Mais um sábado
Chegou o meu dia preferido. Mas já está acabar e este ainda por cima vai ter menos uma hora que ou outros. Estou infeliz por isso.
Assim, pouquinho, escrevi num sábado!
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca
Assim, pouquinho, escrevi num sábado!
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca
24 de março de 2006
Uma estória verdadeira (78)
Nova manhã e descobrimos o Café Avenida. Novo no sítio do velho. Metade é café outra metade é restaurante. Assim a gente tenha tempo e vem aqui dar umas garfadas em qualquer coisa. Hoje ficamos só pelo matabicho que é um café e um pastel de nata. Bom por sinal. Gostei do sítio. Ficou feita a promessa. Se combinou com o Lan que a gente hoje ia visitar as praias da costa norte. Se a gente não sabia de geografia estava feito. Ponto de encontro na área de Serviço da Laurinda que fica ao lado da antiga escola de condução que agora é a sede local da Sonangol. Mais um café que é para estar bem acordado, mesmo que não precise. Antes de irmos para norte a gente vai até à ponta do Noronha. Faz muito tempo que eu não vinha nem aqui. No tempo em que não pensanete a gente ia ver o par de namorados que escolhia estes sítios para conversar, penso eu. Outras idades, outros tempos. Vimos a cidade como quem vê quando vem do mar. Como ela cresceu para dentro do deserto. O antigo aeroporto está mesmo quase rodeado de casario. Cidade linda que é esta.
Palácio e Igreja de Santo Adrião ali estão imponentes marcando o olhar. Bem depois arrancámos que não temos todo o tempo do mundo. Aí vamos nós a caminho da Aguada. Passámos no Mamede dos Caranguejos das Hortas, passámos no Rio Bero que continua vazio que é sinal que anda a chover pouco lá nas terras altas, na Quipola que continua no mesmo sítio e no mesmo estádio de conservação. Hoje não há procissão pelo que não tem paragem, fizemos o S grande que é para passar sobre a linha do caminho de ferro que antes corria do lado esquerdo da estrada e depois passa para o lado direito, e seguimos rumo ao Saco. Parámos no porto mineiro, depois de termos avistado uma fábrica de iodização do sal. No porto mineiro vimos toda aquela maquinaria parada e cor de ferrugem, quase a mesma cor que tinha antes de terem parado a exploração de Mavinga. Também chamarem Companhia Mineira do Lobito e estar tudo entre o Lubango e Namibe não fica bem, né? Eu ia jurar que tinha visto fotos de há cerca de um ano com aqueles espaços ainda com minério que tinha ficado ali assim como que esquecido.
Agora não resta nem nada mais que o pó. Do porto propriamente dito está a funcionar a parte de combustíveis que é logo no primeiro terço daquela ponte qie é o porto. O resto está parado. Me disseram estão a pensar reabrir tudo. Nova vida está à espera daquela gente. Subimos a falésia e seguimos rumo até na Praia das Conchas.
Palácio e Igreja de Santo Adrião ali estão imponentes marcando o olhar. Bem depois arrancámos que não temos todo o tempo do mundo. Aí vamos nós a caminho da Aguada. Passámos no Mamede dos Caranguejos das Hortas, passámos no Rio Bero que continua vazio que é sinal que anda a chover pouco lá nas terras altas, na Quipola que continua no mesmo sítio e no mesmo estádio de conservação. Hoje não há procissão pelo que não tem paragem, fizemos o S grande que é para passar sobre a linha do caminho de ferro que antes corria do lado esquerdo da estrada e depois passa para o lado direito, e seguimos rumo ao Saco. Parámos no porto mineiro, depois de termos avistado uma fábrica de iodização do sal. No porto mineiro vimos toda aquela maquinaria parada e cor de ferrugem, quase a mesma cor que tinha antes de terem parado a exploração de Mavinga. Também chamarem Companhia Mineira do Lobito e estar tudo entre o Lubango e Namibe não fica bem, né? Eu ia jurar que tinha visto fotos de há cerca de um ano com aqueles espaços ainda com minério que tinha ficado ali assim como que esquecido.
Agora não resta nem nada mais que o pó. Do porto propriamente dito está a funcionar a parte de combustíveis que é logo no primeiro terço daquela ponte qie é o porto. O resto está parado. Me disseram estão a pensar reabrir tudo. Nova vida está à espera daquela gente. Subimos a falésia e seguimos rumo até na Praia das Conchas. Carlos Carranca
23 de março de 2006
Uma estória verdadeira (77)

Porque é que só agora eu vou descobrindo estas coisas nas minhas duas terras? Aqui só pode ter mau olhado. Eu vi mal ou andava mesmo cego. Vais ver esses matumbos que viveram ao lado da minha vida, também não sabem disto. Serão poucos os que sabem, porque se muitos soubessem eu quase de certeza seria um deles. Já sei que nessa altura os meus olhos e o meu pensamento estavam virados para outra coisa que eu pensava ser mais digna de um adolescente. Será que tou a virar cota e a ligar a coisas assim? Hum, não me cheira que seja assim. Andavam era a esconder estas coisas para a gente não solidificar algumas coisas na cabeça. Penso eu, que dessas coisas pouco sei. Já conheci mais maravilhas do Arquitecto nestes dias que numa vida que passou.
Depois dali e de ter desistido de ir no Tombua , virámos e fomos andar no deserto.
Ver o pôr-do-sol no deserto com a esperança de ver alguma gazela. Mas acho era dia de folga delas e por isso nem uma só a gente viu. Como já estava escuro a gente ao longe vu mais alguém que estava a passear no deserto. Depois a gente viu-se a placa a dizer Virei e aí a gente virou para trás. Nos esperava um banho quentinho que a gente já merecia de tanta emoção que até fez transpirar a alma. Voltámos no nosso Hotel e nos lavámos. Hoje era dia da gente ir jantar os três. Fomos comer, para não variar, no mesmo sítio, um peixinho mais fresco e saboroso que até apetecia repetir, mas isso foi logo ali repensado que era impossível pelo excesso de peso que a gente podia acusar no Tico quando a gente voltasse para trás na auto pista da Lucira. Fizemos questão e Lan fez-nos companhia para jantar e depois para mais uns quantos dedos de conversa no Murianga Bar.
Foi assim que a gente terminou o dia 2 na terra que me viu cair das pernas a primeira vez e onde eu bebi o primeiro gole de água.
Depois dali e de ter desistido de ir no Tombua , virámos e fomos andar no deserto.
Ver o pôr-do-sol no deserto com a esperança de ver alguma gazela. Mas acho era dia de folga delas e por isso nem uma só a gente viu. Como já estava escuro a gente ao longe vu mais alguém que estava a passear no deserto. Depois a gente viu-se a placa a dizer Virei e aí a gente virou para trás. Nos esperava um banho quentinho que a gente já merecia de tanta emoção que até fez transpirar a alma. Voltámos no nosso Hotel e nos lavámos. Hoje era dia da gente ir jantar os três. Fomos comer, para não variar, no mesmo sítio, um peixinho mais fresco e saboroso que até apetecia repetir, mas isso foi logo ali repensado que era impossível pelo excesso de peso que a gente podia acusar no Tico quando a gente voltasse para trás na auto pista da Lucira. Fizemos questão e Lan fez-nos companhia para jantar e depois para mais uns quantos dedos de conversa no Murianga Bar.Foi assim que a gente terminou o dia 2 na terra que me viu cair das pernas a primeira vez e onde eu bebi o primeiro gole de água.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca
22 de março de 2006
Uma estória verdadeira (76)

Depois, espírito lavado, seguimos em frente e parámos naquela árvore que ali está faz anos e que se esqueceu de crescer. Também quem foi que foi plantar uma árvore ali? A árvore dos desejos. Silenciosamente eu fiz o meu. Depois optamos que não íamos ao Tombua. Vais lá fazer o quê? Ver, disse eu com voz de quem não estava também muito virado. Então no rio flamingo se virou em direcção ao mar para ir ver Welvitchias. A gente foi mas aí o Tico pregou partida na gente. Não entrou com a tracção nas quatro rodas e se ficou atolado que até parecia areia movediça. Tira ar nos pneus. Se empurra e nada. Engrena. Desengrena.
Co-pilota vai no guiador e os três marmanjos fazem força na substituição do reforço. Lá saiu ele dali e nós com quilos de areia em cima que é bom e deve fazer bem à pele. Digo eu que não sei. Vimos e fotografámos as referidas dita cuja planta que dizem que só há naquele deserto, mas que me garantem tem também na Namíbia. Não sei nem vou discutir. Mas que é a planta do meu deserto aí ninguém vai discutir comigo que eu não deixo. Voltámos à estrada e descemos mais um pouco para sul até que virámos à esquerda e vamos no Arco. Pensei vamos ver mais Welvitchia.
Mas que nada. Andámos aos zigue-zagues, falésia à direita e falésia à esquerda e nós a nos afastar da estrada do asfalto. Bem, vimos uma cubatas de barro e capim e a bandeira do meu partido ali, no meio de nenhures. Depois de mais uns metros andados encontrámos uma floresta. No meio do deserto pode ter assim uma floresta? Pode sim, tanto que está aí na tua frente. Encontramos uma cambas que estavam a pic-nicar. Eu estava assim com a boca bem aberta de espanto. Como pode estar aqui esta maravilha e eu aqui tão perto e não sabia dela? Vais ver foi feita pela dipanda, me disse um dos pic-niqueiros. Rimos a bom rir e depois a boca não dava para abrir mais. Tem um lago de agia doce que até a vista não alcança. Pode haver assim tanta água num deserto e ele não lhe bebe toda? Como é? Não tas a acreditar nos teus olhos? Minha cabeça começou logo ali a fazer um filme. Não vos conto porque depois vocês iam copiar e lá se ia o meu Óscar das Américas. Escalámos, percorremos uma infinitésima parte da lagoa. Fotografias muitas. Eu não podia perder a oportunidade de fixar o paraíso do deserto. Por mim montava ali a minha cubata e ali ficava em contemplação por um período indefinido de tempo. Só mesmo o tempo necessário para pôr o equilíbrio entre mim e eu numa horizontalidade que nem balança do antigamente, daquelas em que se tinha que ir pondo pesos até que os dois patos estivessem com o bico mesmo frente a frente. Mas me dizem que não pode ser. Mas tem ali cavernas que davam suites que eu nem te conto para não ficares a salivar de inveja. Como é que é possível que eu nunca tenha ouvido falar deste canto paradisíaco aqui ao lado da terra que me viu cair das minhas pernas pela primeira vez?
Co-pilota vai no guiador e os três marmanjos fazem força na substituição do reforço. Lá saiu ele dali e nós com quilos de areia em cima que é bom e deve fazer bem à pele. Digo eu que não sei. Vimos e fotografámos as referidas dita cuja planta que dizem que só há naquele deserto, mas que me garantem tem também na Namíbia. Não sei nem vou discutir. Mas que é a planta do meu deserto aí ninguém vai discutir comigo que eu não deixo. Voltámos à estrada e descemos mais um pouco para sul até que virámos à esquerda e vamos no Arco. Pensei vamos ver mais Welvitchia.
Mas que nada. Andámos aos zigue-zagues, falésia à direita e falésia à esquerda e nós a nos afastar da estrada do asfalto. Bem, vimos uma cubatas de barro e capim e a bandeira do meu partido ali, no meio de nenhures. Depois de mais uns metros andados encontrámos uma floresta. No meio do deserto pode ter assim uma floresta? Pode sim, tanto que está aí na tua frente. Encontramos uma cambas que estavam a pic-nicar. Eu estava assim com a boca bem aberta de espanto. Como pode estar aqui esta maravilha e eu aqui tão perto e não sabia dela? Vais ver foi feita pela dipanda, me disse um dos pic-niqueiros. Rimos a bom rir e depois a boca não dava para abrir mais. Tem um lago de agia doce que até a vista não alcança. Pode haver assim tanta água num deserto e ele não lhe bebe toda? Como é? Não tas a acreditar nos teus olhos? Minha cabeça começou logo ali a fazer um filme. Não vos conto porque depois vocês iam copiar e lá se ia o meu Óscar das Américas. Escalámos, percorremos uma infinitésima parte da lagoa. Fotografias muitas. Eu não podia perder a oportunidade de fixar o paraíso do deserto. Por mim montava ali a minha cubata e ali ficava em contemplação por um período indefinido de tempo. Só mesmo o tempo necessário para pôr o equilíbrio entre mim e eu numa horizontalidade que nem balança do antigamente, daquelas em que se tinha que ir pondo pesos até que os dois patos estivessem com o bico mesmo frente a frente. Mas me dizem que não pode ser. Mas tem ali cavernas que davam suites que eu nem te conto para não ficares a salivar de inveja. Como é que é possível que eu nunca tenha ouvido falar deste canto paradisíaco aqui ao lado da terra que me viu cair das minhas pernas pela primeira vez?
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca
21 de março de 2006
Carta a meu pai
Só tenho 4 anos e tu partiste para uma viagem que não tem retorno. Lembro de 2 ou 3 coisas que se passaram entre ti e mim. Não me lembro de mais nada. Lembro-me de uma birra que fiz numa noite que querias ir ao cinema com a mãe e eu fiquei com a Maria, empregada de alguns anos lá de casa, mas agarrado a um bidon dos Caminhos de Ferro, berrei tanto que vos foram chamar ao cinema. Será que quem fez a birra fui eu ou foi a mana? Lembro-me que um de nós foi. Lembro-me de tu me ires chamar á cubata da Titia, nunca soube o nome dela pois foi sempre assim que a chamavamos, pois o que eu gostava mesmo de comer era o pirão que ela fazia, e tu chamavas para ir almoçar. Lembro-me ainda da tua NSU vermelha. Não me lembro mais nada. Depois, muito depois, boca aqui, boca ali, vim a saber coisas de ti - tirando o facto de seres 'doente' do Benfica até que parece que eras mesmo porreiro. Que pena eu não ter tido tempo de ter aprendido e vivido coisas contigo. Aprendi-as indirectamente e agradeço por teres deixado tantos amigos que nos deram a mão. Quero ser como tu, meu pai.
carta escrita em 19 de Março de 2004
porque o meu filho faz anos hoje lembrei-me de ressuscitar esta carta. Hoje e estória verdadeira fica parada.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca
20 de março de 2006
Uma estória verdadeira (75)
Amiga Té a nos pôr a par de tudo. Falámos que ninguém sentiu nem a barriga a dizer que as horas tinham passado e era hora de ir almoçar. Voltámos e fomos ver as casas, o cinema cogumelo, o Hospital, a Escola Industrial, o Colégio das Madres, a escola 55
e saltei de propósito a 56 que foi onde andei da 2ª à 4ª classe. Saltei porque me apeteceu e a máquina estava sem bateria. Porque tem de falhar sempre alguma coisa nos momentos importantes? Na 55 andei só na primeira classe e depois a senhora directora se lembrou de dizer que eu fazia parte da área da outra e lá tive que mudar e deixar o Professor Amaral que dava reguadas e era grande como vara de caniço. Feita a ronda escolar deixámos a Té e a sua melancia na casa dela e lá fomos nós para outras paragens. Como o único sítio que a gente conhecia era o restaurante da Praia das Miragens optámos por lá ir almoçar.
Nós os três nos abancámos e pedimos as coisas e comemos fazendo planos para essa tarde e dias seguintes que não seriam muitos. Entrou a tia e mais a sua família. Como minha prima cresceu…já tem filho na marinha e filha ainda com os dez anos. É a filha quem comanda agora os negócios. Bem comidos e lá íamos nós com outro destino quando descobrimos que a tia tinha pago o nosso almoço. Não havia necessidade. Depois dos agradecimentos lá seguimos a nossa rota.
Esta tarde estava destinada a fazer-se uma visita ao sítio onde o kota caiu por terra nos idos anos de 1961. Apanhámos a estrada doe Tombua e lá fomos. Estrada boa em grande parte do percurso. Lan estava connosco e era o nosso guia. Mais ou menos no quilómetro 65 parámos e lá estava o marco que marcava o local.
Quando fizeram o realcatroamento da estrada fizeram uma coluna maior e lá estava ele bem visível. Parámos e eu fiquei ali parado. Eu sei o que pensava mas não conseguia nem mexer, não conseguia segurar as lágrimas que voltaram a inundar a minha cara que até parecia tempo de chuva. Incontrolável! Reflecti. As decisões se estavam assim como num equilíbrio na corda do pensamento se fixaram na solidez de uma decisão. Estava decido qual o rumo definitivo que a minha vida vai ter. Ali no meio do deserto, ali na aridez de um horizonte de perder de vista, escrevi com tinta permanente no meu pensamento a decisão decidida. Já não tem retorno. Falámos, conversámos ali junto ao marco que marca o sítio onde houve dois falecimentos.
No mesmo dia dois períodos de grande reflexão. No dia de finados se acendeu a luz de uma forma permanente. Essa luz andava a oscilar qual falta de intensidade. Se fixou e por isso a rota no GPS da vida foi marcada não em quilómetros mas em meses que não podem ser mais que 24. Assinatura reconhecida na forma presencial por mais três ávilos. Lan com sorriso nos lábios disse que sim. Lhe vi uma alegria no rosto. Ou pensei que vi. No meu estava estampada a felicidade de ter desfeito a indecisão.
e saltei de propósito a 56 que foi onde andei da 2ª à 4ª classe. Saltei porque me apeteceu e a máquina estava sem bateria. Porque tem de falhar sempre alguma coisa nos momentos importantes? Na 55 andei só na primeira classe e depois a senhora directora se lembrou de dizer que eu fazia parte da área da outra e lá tive que mudar e deixar o Professor Amaral que dava reguadas e era grande como vara de caniço. Feita a ronda escolar deixámos a Té e a sua melancia na casa dela e lá fomos nós para outras paragens. Como o único sítio que a gente conhecia era o restaurante da Praia das Miragens optámos por lá ir almoçar.
Nós os três nos abancámos e pedimos as coisas e comemos fazendo planos para essa tarde e dias seguintes que não seriam muitos. Entrou a tia e mais a sua família. Como minha prima cresceu…já tem filho na marinha e filha ainda com os dez anos. É a filha quem comanda agora os negócios. Bem comidos e lá íamos nós com outro destino quando descobrimos que a tia tinha pago o nosso almoço. Não havia necessidade. Depois dos agradecimentos lá seguimos a nossa rota.Esta tarde estava destinada a fazer-se uma visita ao sítio onde o kota caiu por terra nos idos anos de 1961. Apanhámos a estrada doe Tombua e lá fomos. Estrada boa em grande parte do percurso. Lan estava connosco e era o nosso guia. Mais ou menos no quilómetro 65 parámos e lá estava o marco que marcava o local.
Quando fizeram o realcatroamento da estrada fizeram uma coluna maior e lá estava ele bem visível. Parámos e eu fiquei ali parado. Eu sei o que pensava mas não conseguia nem mexer, não conseguia segurar as lágrimas que voltaram a inundar a minha cara que até parecia tempo de chuva. Incontrolável! Reflecti. As decisões se estavam assim como num equilíbrio na corda do pensamento se fixaram na solidez de uma decisão. Estava decido qual o rumo definitivo que a minha vida vai ter. Ali no meio do deserto, ali na aridez de um horizonte de perder de vista, escrevi com tinta permanente no meu pensamento a decisão decidida. Já não tem retorno. Falámos, conversámos ali junto ao marco que marca o sítio onde houve dois falecimentos.No mesmo dia dois períodos de grande reflexão. No dia de finados se acendeu a luz de uma forma permanente. Essa luz andava a oscilar qual falta de intensidade. Se fixou e por isso a rota no GPS da vida foi marcada não em quilómetros mas em meses que não podem ser mais que 24. Assinatura reconhecida na forma presencial por mais três ávilos. Lan com sorriso nos lábios disse que sim. Lhe vi uma alegria no rosto. Ou pensei que vi. No meu estava estampada a felicidade de ter desfeito a indecisão.
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca
19 de março de 2006
Para pensar
Para pensar
Heróis de verdade
Heróis de verdade
são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida,
e não para impressionar os outros.
Roberto Shinyachiki
Qualquer um pode zangar-se - isso é fácil!
Mas zangar-se com a pessoa certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa - não é fácil.
"Aristóteles"
Sanzalando em Angola
Carlos Carranca
18 de março de 2006
Porque hoje é sábado
Porque hoje é sábado e como tal é dia da santa preguiça, dia que não escrevo, dia de leitura e audição. Hoje só sou ouvidos.
Bom Sábado para todos
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