recomeça o futuro sem esquecer o passado

13 de junho de 2006

Fazendo bustos de Neptuno

Caminho de lá para cá na beira do zulmarinho, deixando pegadas bem vincadas na areia húmida que parece ser toda castanha em contraste com as mil cores da areia seca, que sendo a mesma só porque se molhou com as lágrimas do zulmarinho até perece que estou noutro lugar. Caminho e não falo nem penso. Hoje me limito a caminhar como se fosse possível eu estar sem contar uma estória à minha pessoa. Mas hoje não falo nem penso. Não falo nem penso porque pode alguém ouvir e vai logo pensar que eu estou a fazer estiga, a querer passar rasteira, fazer bassula ou outra coisa por aí a cima ou abaixo, dependendo do jogo de cintura. Caminho num passo vazio com a sensação de cheio de nada. Não dá. Não me fica bem comigo mesmo caminhar parece é fantasma em noite de lua cheia. Dou um mergulho no zulmarinho num encarpado perfeito, pelo menos eu penso que foi assim, sacudo a cabeça num respingar de lágrimas para longe, esfrego os olhos e não só vejo melhor como também penso e falo bem melhor ainda. O campo de visão. Consigo ver coisas que não via com aqueles olhos arranhados de tentar não ver, não falar e não ouvir nada.
Agora que vejo direito mesmo por cima de linhas curvas que são rectas, linhas paralelas que se cruzam nalguns cruzamentos de canto, percebi uns detalhes que não havia percebido antes.
Por exemplo, eu pensava que trabalhava numa fábrica de bustos de Neptuno, quando na verdade trabalho num escritório de importação e exportação de jogos da memória, numa fábrica de sonhos sonhados e vividos de vida fácil.
Também descobri que durante estes anos errei na casa quando voltava do trabalho árduo de embustar, as pessoas que eu pensava era família na verdade era gente que nem conhecia, dormia num quarto que, na verdade, era um posto de transformação e via TV no que afinal era uma aquário de peixes dourados e olhos esbugalhados.
Só agora, com olhos lavados como novos, vejo que o carro que pensei que tinha comprado era, na verdade, uma caixa de sabão com rodas de cortiça. Isso explica o eu nunca ter conseguido encontrar o botão do ar consagrado que refresca as ideias.Chega a ser espantoso como nestes anos eu consegui conversar comigo pensando que estava a conversar com os outros.
 Posted by Picasa

Não sou Nada


Sanzalando

12 de junho de 2006

Falar é brincar de viver


Hoje volto a caminhar na beira do zulmarinho. Neste meu caminhar eu ganho o céu porque vou como que absorvido em mim e esqueço todas as outras latitudes e longitudes. Claro está que não estou a pensar esquecer o outro lado da linha recta que é curva. Essa só me dá alegrias e é assim como que gasolina que faz funcionar o meu motor. Num sabias que a gente tem um motor? Ai uê que andas distraído. Se no motor não tem faísca vai trabalhar mais como mesmo? Num faço ideia de onde é que ele está, mas que está eu tenho a certeza.
Neste caminhar eu sigo as pisadas do meu pensamento e vejo que alguém mais sábio que eu disse que o beijo é um procedimento inteligentemente desenvolvido para a interrupção mútua da fala quando as palavras se tornam desnecessárias. Como tu já sabes que este amor não é nem secreto nem platónico eu te queria dar um beijo agorinha mesmo. Na impossibilidade de o fazer eu caminho. Assim me canso e assim me torno mais facilmente teu.
Bebo uma birra para ter capacidade de eu mesmo acompanhar a velocidade do que penso. Às vezes tenho de caminhar mesmo quase que a correr, pois se assim não lhe faço sou ultrapassado por mim, num picar de olhos e eu já mudei de rota e já vou noutro pensamento sem saber que saí do que estava a pensar.
Caminho navegando na magia de imaginar pensamentos que me levam quase sempre para perto de ti.
A verdade é que sou muito terra na terra quando não faço suspense e uma boa prosa falada deve te hipnotizar, te fazer instiga, deixar-te de ouvido do início até mesmo no fim. Eu queria ter esse dom.Falar pensamentos, no meu caso, é mais que uma necessidade - é tentar desvendar esse adulto estranho que se instalou em mim, mas acima de tudo falar é uma brincadeira da criança que habita aqui dentro de mim e que ainda consegue me fazer sorrir com suas doces travessuras.
Falar é brincar de viver
Sanzalando

Leãozinho


Sanzalando

11 de junho de 2006

Torço


Caminho sereno neste paredão. Lá ao fundo consigo ver a areia de muitas cores ser molhada pelas ondas desse zulmarinho que começa lá e acaba aqui em gestos espreguiçados estendendo-se nela como a querer apanhar o maior número de sol possível. Tas a ver a cena, né?
Do lado de lá da linha recta que é curva tas a ver o nervosismo de uma torcida torcendo. David e Golias daqui a umas horas. O que eu sei de certo mais certinho é que antes de eu nascer e renascer já havia gente que puxava por ti. Tinha gente que no alto dos seus cabelos brancos puxava por ti desde que ainda eram meninos como eu já fui. Torciam por ti, beleza impar que não sai na mãe nem no pai. Torciam-te por perfeição. Torciam pelo teu primeiro sorriso, pelos teus primeiros passos, pelas tuas primeiras palavras como ser independente. Torciam-te pelo teu primeiro tudo.
Hoje, cabelos cor de sal, cabelos ralos de recém-nascido torcem por ti. Pelo teu primeiro passe, pelo teu primeiro remate, pelo teu primeiro gesto de alegria.
Hoje eu torço por ti, desde o cimo deste paredão que me faz ficar mais uns metros perto de ti.

Sanzalando

Angola - Mundial 2006


Sanzalando

10 de junho de 2006

O olhar na gravidade

Me mantenho aqui firme na ponta do pontão. Umas vezes vou olhar a linha recta que é curva e que me parece está na mesma distância de quando lhe olho desde lá da areia da muitas cores. Vais ver o peso do olhar cai com a gravidade e assim aquilo que devia estar daqui mais perto está na mesma distância de desde a beira do zulmarinho. Ou então é por este pedaço que ocupo no espaço é mesmo como uma bola e eu estou para aqui sempre na mesma distância, quer de um lado quer do outro. E me lembrei de que bola pode fazer heróis ou criar mercenários. Tudo depende mesmo do chuto mais certeiro, da sorte e do azar, do estar ali no sítio certo no momento certo e fazer o gesto certo. Para mim já está ganho mesmo que o ganho seja só o estar lá, bandeira ao vento e hora de festa ser festa. Mas não vim para aqui para falar dessas coisas mais mundanas e como que mais terrenas como que o mundo estivese em dia feriado.
Eu aqui me sinto um ser, daqueles espíritos tagarelas, que se enchem de palavras que tomarão outra forma para além do túmulo.
Se eu soubesse dizer tudo aquilo que sinto vontade de dizer talvez eu pudesse convence-te dos meus pontos de vista e das causa de cada um dos meus nãos. Eu pouparia algumas das tuas lágrimas, aquelas poucas que eu vi caindo dos teus olhos naquela tarde já noite de Outubro. Eu te digo que a única coisa que me dói nesta vida é ter sido a causa daquelas poucas lágrimas que vi cair do teu céu, é ter sido a causa dalguns traços traços tristes que te vi nas tuas faces. Se eu soubesse falar as palavras certas eu encerraria toda esta tristeza magoada que transporto na minha alma, no meu suor, no meu corpo cicatrizado de dor, com um pedido de desculpas. Se eu soubesse falar tudo isto que eu te queria dizer, tudo isso, meu bem, eu te falaria. Acredita.
Sanzalando

Que o diga o Mar


Sanzalando

9 de junho de 2006

Queria dominar a rima

Hoje nem caminho nem estou sentado na beira-mar desse zulmarinho que está aqui no seu tom de azul mar mesmo debaixo dos meus pés. Hoje estou mesmo no pontão que entra dentro dele e me faz ficar mais perto de ti. 50 metros, 60? Que me importa, desde que eu esteja mesmo mais perto de ti? Eu trouxe o meu saco cheio de birras geladinhas para ficar aqui esvaziando, lenta e docemente como quem chama por ti. Onde foi mesmo que eu já ouvi qualquer coisa assim? Mas eu vim para aqui para te poder dizer coisas bonitas, saídas do meu coração, para ti. Queria conseguir traduzir este descompasso, essa fixação, esse meu desespero em palavras devidamente encadernadas e audíveis de modo a te provar que neste mundo inteiro há pelos menos um ser que te gosta mesmo na força do gosto. Queria assim como que dominar a rima perfeita para criar declarações de amor tão coerentes que fossem capaz de convencer-te que eu sinto um sentimento tão profundo por ti que a tua falta é capaz de me matar num qualquer dia. Eu queria contar para ti os meus dilemas, de forma que não te cansasses, antes pelo contrário, te provasse que são todos de fácil solução, especialmente se tu estiveres por perto do ar que eu respiro um respirar de serenidade. Queria saber palavrear e depois colocar num papel todos os meus choros, todas as minhas lágrimas e soluços, todos os meus sonhos e as minhas esperanças. Então tu poderias ver que nem sempre eu choro de tristeza, nem sempre eu lastimo por mágoa, nem sempre me deprimo por ansiedade. Eu choro porque é linda a vida e porque todo sentimento me atrai-te. Eu choro sempre movido por sentimento. Não é ser sensível. É ser de verdade. É não ser de pedra. Se eu tivesse capacidade para te dizer direito estas coisas, tu entenderias que se a gente juntasse nossos corpos e alma ia dar uma coisa a valer. Eu queria saber quantificar a falta, a saudade, o querer e então eu te diria detalhadamente num recado, porque os recados são mais sucintos e mais charmosos do que cartas longas. Mas eu também te escreveria cartas. Monografias. Teses. Queria fazer do amor equações, de modo que fizesse sentido e assim eu poderia, usando de uma ou duas fórmulas, dominá-lo em resultados redondos.
Queria dizer-te tanta coisa, que se eu soubesse como dizer-te, talvez uma vida fosse curta. Acabei as birras pelo que tenho de voltar atrás e voltar a encher o saco para voltar aqui e um dia poder-te recadar com as palavras simples que brotam na minha boca mas tem a nascente lá dentro do coração.
 Posted by Picasa

I have a dream


Sanzalando

8 de junho de 2006

Fotos Dizem Tudo


Pôpilas, mermão, a gente bebe umas e outras bem geladinhas e a sede de tanto calor parece que não evapora. A gente se comesse gelado, picolé ou sorvete ia ficar mais como? Gordo e com sede na mesma! Ainda andam para aí a dizer que as birras nos homens diminui a possibilidade de ter doenças do coração. Que a gente saiba, doença de coração só mesmo essa de paixão. É mesmo amor de paixão à cova. As lágrimas desse zulmarinho que salpicam nas nossas caras, primeiro parecem frescas mas rapidamente se tornam quentes. Vais ver ficam a ferver quando nos contactam. É o que se podia dizer que somos uma brasa. Mas nada de cair em confusão e outras tentações. Brasa mesmo por estarmos quentes e não como aquelas que se espraiam na beira-mar desse zulmarinho com biquinis caríssimos e que por isso são pequininos que quase precisa de ficar com os olhos em bico para lhes ver.
Tá mais que visto, mermão, que a vida não foi feita para ser fácil. Os motivos porque estamos aqui, num nível mais elevado do que aquele que imaginamos, e a nossa passagem por esta vida, serve para a gente aprender alguma coisa de importante. E quando a gente aprende alguma coisa a gente começa a reflectir sobre a importância do que está para lá do que os olhos vêem, do que está para lá da linha recta que é curva, e aí ficamos com a trabalheira de entender as razões de cada elemento. Às vezes fracassamos, ou porque fica além da nossa limitada capacidade de entender, ou porque a nossa capacidade de ver sobressalta o entender. Mas a verdade mesmo, mermão, é que não temos que entender. Não é essa a ideia. A gente está aqui para viver e mais nada. Até parece fácil. Às vezes sou apanhado a pensar se as coisas acontecem é porque tem um de propósito por trás disso. A felicidade se atinge passando por momentos de infelicidade? Será que as coisas podiam ser diferentes se as atitudes, minha, tua e dos outros fosse diferente? Acho mesmo tá tudo programado para ser assim. Vais ver tem um programador atrás dessa coisa de vida. Desacredito, mas que pode haver um Arquitecto/Programador a cuscar atrás da gente.
Manda só aí mais uma birra loira estupidamente gelada, é que não estou a ver nenhuma luz no fundo do túnel
Sanzalando

7 de junho de 2006

Vagueando


Calor aperta, mermão.
Trás aí mais uma birra que estou a precisar de arrefecer a corrente de ar quente que me percorre o corpo.
Olhar o zulmarinho, vaguear por aí, num olhar desperto com pensamento disperso, faz um calor que nem lembra ao Diabo no meio do seu inferno encharcado de chamas.
Anda daí navegar comigo pelos mares da imaginação, pelos caminhos dos sonhos, pelas florestas da beleza. Pega na tua birra e puxa a âncora e foge do medo. Vamos vaguear.
Olha aí, mermão, com olhos de me ouvir bem. As mentes podem ser convencidas, mas o corações esses não mudam. Olha bem com a atenção redobrada que o que os outros têm de bom, tu também tens, os defeitos deles são iguais aos teus e por aí fora até num virar de esquina.
Não te esqueças, mermão que tu só podes reconhecer, se conheceres primeiro. A beleza que tu vês à tua volta também existe em ti. Esse mundo que te rodeia em toda a tua volta não é mais que um espelho do que tu és. Não te esqueças nunca que para mudares o mundo tu tens de mudar primeiro. Admira a criatividade e vais ver que, assim num estalar dos dedos, a tua mente se torna criativa e o mundo cinzento vai ter mais cores que o arco-íris.
Quando chegares a casa, mermão, te olha bem no espelho. Mostra o teu sorriso franco nele e vais ver que vais ficar feliz com o que vais ver.
Puxa, mermão, deu uma sede assim num repente que acho melhor ires buscar uma caixa delas bem geladinhas.

Sanzalando

6 de junho de 2006

A vida nos dá sempre dois caminhos


Me mantenho sentado, vagueando pela enorme massa de mar que está ali na minha frente como que a chamar por mim. Não lhe respondo se não com os olhos. A preguiça de mexer é mais que muita pelo que só olhos e cérebro é que trabalham. Deve de ser mesmo do calor ou será das amarelinhas geladinhas que ando aqui a emborcar para arrefecer os ditos e olear a goela na hora de contar estórias? Venha o diabo e escolha que eu agora estou menos ralando para isso.
A vida nos dá sempre dois caminhos. Quando escolhemos um, o outro se apaga. Podes no máximo imaginar como seria viver o outro. Mas nunca terás a certeza que a tua imaginação seria certa por mais lógica que tu lhe ponhas dentro. Nunca saberemos.
Já olhaste bem, com toda a atenção, na trajectória de um sorriso?
Olha só que ele se forma rapidamente, mas se desfaz aos poucos. Porquê?
Acho que o nosso corpo quer simplesmente manter esse vestígio de felicidade por mais um tempo na nossa cara. Ele é nos olhos e na boca, todos os músculos da cara se mexem e se fixam de forma que tu transpareças nessa felicidade.
Prestei atenção nisso e comecei a pensar um pouco sobre essa coisa de felicidade e no como ela pode ser diferente para cada pessoa. Ela pode ter tantas formas e se manifestar de tantas maneiras que só de pensar mais um pouco ia dar uma de doido que é coisa que sabes que ainda não sou. A felicidade pode ser mesmo sinónimo de antónimo de mim. Mas ela que pode ser assim, pode!
Vais ver que eu estou errado e essa coisa de felicidade só tem nos filmes e só acontece nos contos de fadas.
E eu busco o quê mesmo? A felicidade é o meu objectivo, mesmo que eu tenha de viver um conto de fadas ou fugir com o cavalo como faziam nos tempos dos filmes de cóbois.
Só pena mesmo que este corpo que me transporta já não ter pachorra de caminhar quer á direita, quer à esquerda desse zulmarinho que está ali a me chamar e eu lhe respondo com o olhar disfarçado de sem importância.

Sanzalando

5 de junho de 2006

Perdido um comboio, outro vai passar


Hoje me vergo ao cansaço. Pego na birra estupidamente gelada e me sento. Costas viradas para o mundo, olhar fixado mesmo na linha recta que é curva e deixa andar o volátil, que o físico esse mesmo é para estar aqui parado. Tas-me a ver a pensar? Então senta aqui e me conta uma estória. Se eu não te ouvir escusas de zangar. Eu te ouço voando nos meus pensamentos. Come o chuinga, bebe uma e outra geladinha, faz companhia mas, se eu me ausentar do meu corpo, escusas de ir atrás que eu te ouço na mesma, mesmo parecendo que não te estou a ligar nenhuma.
Hoje estou com a sensação de que cheguei tarde na estação e perdi o comboio. Hoje me deu a impressão que vi muita gente a correr para apanhar esse comboio e eu mantive o meu passo lento e parece que lhe perdi. Nem um bocado de fumo eu lhe vi na estação. Eu tenho a impressão que vi gente mesmo a correr na escada rolante para ainda correr com mais pressa e eu me deixei estar ali a ser levado na vagarosa velocidade dela. Assim, quando lhe cheguei na estação não havia comboio nem gente. Também não havia sinal que ele tinha passado. Estava só eu e o vazio. Nem rasto, nem fumo, nem cheiro de lenha queimada. O relógio da estação parecia que estava com a berrida toda, com os ponteiros dos minutos parece era o dos segundos. Tas a ver? Pois é! Eu hoje estou de costas viradas para o mundo.
Fico mesmo só a olhar para o zulmarinho que hoje está assim mais virado de verdemarinho. Vais ver ele ainda vai ficar parecido com o arco-íris. Deixa só, não te importes, não te rales, deixa o tempo correr que eu vou voltar no meu corpo depois de espaciar num voo planado nesse mar dos meus segredos.
Preocupado eu? Nem que penses nisso. Outro comboio vai chegar. Nem que seja um que vem atrasado. Mas um comboio eu lhe vou apanhar e lhe agarrar, mesmo que seja dia em que sem mala eu esteja na estação. Lhe apanho e depois logo lhe pergunto onde ele vai.

Sanzalando

4 de junho de 2006

Neste caminhar encontrei certezas

Me vens dizer que aqui a areia está molhada, gruda nos pés, faz impressão nos dedos e coisas e tal. Que praia é para outras gentes, que o zulmarinho isto e aquilo, te causa arrepio que até faz tremer a coluna mais vertical. Mas aqui não tens a têvê que te faz grudar os olhos, te arrepia e te mostra as coisas mais cinzas da vida que está a passar tão rápido que a gente está aqui e está a dar os pêsames a ela num ápice. Tu aqui, na ajuda do silêncio marulhar do zulmarinho se espreguiçando na areia podes cantar e podes sorrir, podes sonhar e navegar, podes ser as tuas fantasias. Guarda esse fato velho num sótão, atira para o lixo essa carranca triste e enrugada em que se tornou a tua cara. Anda sentar aqui, falar mesmo que seja no silêncio dos lábios. Vem porque aqui tu és mesmo tu, o teu eu que está lá dentro à espera de um dia ser largado e no teu rosto martirizado pelo tempo volta a aparecer o sorriso, a criança que nunca deixaste de ser porque dentro da gente existe sempre, muitas vezes bem escondido o nosso lado infantil. Só de olhar na tua cara eu estou a ver as perguntas que estás a fazer dentro de ti. Esse gajo loucou de vez, cacimbou, fundiu os fusíveis visíveis e invisíveis. Mermão, eu simplesmente libertei prisões, elevei-me num patamar de sensibilidades, numa palete de cores vivas. Tudo, mermão foi nas minhas caminhadas aqui ao lado do zulmarinho, tudo foi aqui nas estórias que conto e ouço. Sabes que dá arrepio só de lembrar que nesta vida que vivo, posso passar ao lado das muitas coisas que eu gostava de saber, só mesmo por falta de tempo eu não as vou saber. A nossa vida, quando vivida empoeirada, está só mesmo à espera de um empurrãozinho para se desequilibrar perigosamente para o lado falso da encarnação. Tá na tua cara mais uma pergunta se é que eu virei filósofo. Quem sabe, mermão. Neste caminhar encontrei certezas, descobri dúvidas que procuro tirar a limpo como que a fazer os trabalhos de casa dos tempos de infância. Tas a ver como aqui se encontra o equilíbrio do mim e do eu?
Aqui não tens a pressão de ver se a novela vai começar, se o golo foi ou não foi. Aqui vertes umas e outras, falas, calas e ouves, nos respeitos dos silêncios, nos olhos trocados, esboço de sorriso. Aqui, mermão, foges do fingimento de fingires que és outro. Aqui, no perfume da maresia, podes ser tu que ninguém tem nada com isso. Fazer mesmo mais como? Sendo só mesmo tu!Tas cansado? Senta aí um pouco, verte mais uma para te olear as ideias. Respira o ar que vem desde lá do início dele
 Posted by Picasa

3 de junho de 2006

Reolha para ti e vê longe

Hoje, mermão, não vamos parar sentados a olhar esse zulmarinho que em cada onda que se espraia em nossa volta está a parecer que nos está a chamar. Hoje vamos caminhar num vai e vem, assim numa ginástica de saúde física mas também de paz interior. Perdes a noção exacta do tempo que aqui estás, viajas sem necessidade de saíres daqui. Anda, anda mesmo comigo. Não penses eu estou cacimbado, eu me evaporei nos éteres da vida, arco-íris de sonhos. Estou são e tu também podes chegar a este degrau. Sabes, que me conheces de faz tempo, que eu só acredito no que vejo e que o mundo existe porque existem os homens. Mas, fica a saber que aqui, eu sou outro, eu vejo Arquitectos capazes de moldar a natureza na forma de que os teus olhos se encantam, a tua vida se embeleza e a tua alma se eleva na potência impossível de sabes qual é. Anda, vamos caminhar. Deixa transparecer a tua felicidade infantil, mostra-a no teu rosto, mostra no teu corpo em forma descurvado dos tempos vividos e sofridos. Faz como que um novo acordar. Um renascimento de ti.Sente esta brisa a te acariciar e vais ver são miles beijos que te dão. As formas dos teus pés moldados nessa areia molhada pelos braços espraiados do zulmarinho, são os pedaços dos teus desejos marcados na terra, esse planeta que te gravita a ele.Olha para lá da linha recta que é curva e sentes o prazer de estar lá, orgasmo de ilusão e prazer. Mermão, liberta-te da encruzilhada e traça um rumo de magia, um navegar lento sobre a brisa até lá.Bebe mais uma e outra e me acompanha nesta caminhada de sonho e ilusão. Não me consegues acompanhar? Vais ver ainda te falta libertares das prisões que te prendem no cinzento dessa vida do meio.Sente o perfume. Sente as gotas que mais não são que as lágrimas que querias ter chorado mas desconsegues porque pensas que homem não chora. Olha no espelho da tua vida e vês o tempo que passou, não é tempo passado mas aula de futuro. Não tenhas medo do desequilíbrio perigoso que esse já tiveste faz tempo que até já nem lembras mais qual era.Reolha para ti e vê lá longe. Morena, grande, perfumada, quente, húmida por vezes seca, vermelha, outras vezes branca outras ainda mais negra que o negro carvão, verde, outras castanhas. Lisa, outras vezes enrugada nas suas escarpas. As muitas cores que ela toma, as muitas formas em que ela se transforma.
Sanzalando
 Posted by Picasa

2 de junho de 2006

Silêncio de Tocar e fazer Sombra

Anda cá! Senta aqui mesmo no meu lado. Tanto faz seja esquerdo como direito que isso aqui não tem importância. Senta só e escuta comigo esse silêncio que faz vibrar a alma. É um silêncio tão assim de grande que até lhe apetece tocar. Até parece que faz sombra. Uma sombra mesmo acolhedora que torna este zulmarinho aconchegante, que até parece tem olhos de azul mar, que dá até para ver as muitas cores que ele transporta. Vais ver essas cores são recados que chegam desde o lado de lá, desde o início dele. Olha-lhe nos olhos e vês a calma, a docilidade dos sonhos, a ternura dos desejos, o gemer do gosto. Olha-lhe no intimo e absorve os gestos parcimoniosos de quem parece estar a acordar de uma noite bem dormida.
Abre as nossa birras loiras estupidamente geladas e vamo-nos oleando de gosto e prazer.
Deixa mesmo que os braços dele que se espraiam aqui na areia te acariciem, te contornem o corpo. Deixa-te levar nesse sonho acordado, dessa carícia intermitente que ele te quer fazer. Sente o toque dessa areia de muitas cores, move as tuas mãos lentamente, as centenas de pontos de atrito que sentes e se renovam em cada teu gesto levam-te a um sentimento de comodidade que nem as palavras escritas com a água desse zulmarinho não são suficientes para as descrever no seu todo. Este contacto simultâneo de zulmarinho e areia é tão envolvente que parece não faz distinção entre o teu corpo e esse mar que nos trás os recados das kiandas, as mucandas das sereias, o carinho das gentes, o perfume e o calor de desde lá do início dele. Olha bem nesse grão de cor vermelha, tenho a certeza vem desde lá. É um sinal que nos chega de lá.
Abre aí outra birra.
Jamais em lado nenhum tu consegues sentir esta sensação que sentes aqui. Aqui, sentado ou caminhado nesta praia que é baía, tu consegues sentir cada teu milímetro e consegues ver que existe, do lá de lá da linha recta que é curva, o que amas. Aqui, mermão, consegues libertar-te dessa letargia que te invade despercebidamente. Aqui vibras com um conjunto de sensações que parece te têm estado tristemente adormecidas desde que nasceste aqui no final do zulmarinho. Esqueceste que tiveste dois nascimentos, o lá onde começa ele e o cá onde estás agora assim nessa cara triste, nessa duvida de existência. Vê só que só agora pareces estar a sair do teu nevoeiro. Só agora parece que estás a ver uns raios de sol que até parece aqueles santinhos de antigamente com o Espírito Santo a descer na terra, descrevendo assim rios de sol por entre a neblina.
Agora, aqui, a meu lado no meio deste silencio marulhado até que pareces o centro do mundo. Não te parece que o universo foi construído só para ti?
Agarrados nessas birras, sentindo os sentidos que nos faz sentir esta paz interior que de modo assim ilusionisticamente a gente põe no exterior cate parece gente nova que acaba de renascer.
Deixa-te levar neste sonho, faz as malas e caminha na levitação sobre este zulmarinho que estremunhadamente parece acordar duma noite bem dormida.




Sanzalando

1 de junho de 2006

Sempre o Tempo porque há Tempo


Continuo à beira-mar. Olho nos olhos o zulmarinho, deserto de água que se estende para lá da minha vista cansada, dunas se modificando em ondas, ondulação de capim ao vento depois de uma chuvada. Eu sei que é imaginação. Eu sei que no zulmarinho não nasce capim, mesmo que lhe chova dias seguidos. Zulmarinho é um deserto diferente, um deserto de água e não como o deserto dourado que me trás saudade de sentir a sua areia fina escorrendo pelos dedos e me pica nas pernas como alfinetes nos dias de vento. Água ondulada nas arritmias marcadas pelo Tempo. Faz bom Tempo. Tenho Tempo. É-lhe um tempo intemporal que se despercebe que passa e como lhe está. Ele, o zulmarinho, está ali. Separa-me do perfume e do calor dela que está para lá da linha recta que é curva. A última fronteira. Segredos o zulmarinho tem aos montes. Desde a origem das suas gotas que imitam as minhas lágrimas, até que no interior dele esconde magias, sonhos e vidas.
Hoje não caminho. Hoje me sento só para lhe olhar e deixar-me sair do corpo e navegar-lhe por dentro no escafandro da imaginação.
Quem dorme com ele na noite? Mistério, segredo guardado nas sete chaves. Quem guarda essa quantidade enorme de mar durante a noite?
Sentado, num vaivém de solidão, ouço o meu silêncio que fala com as vozes das ondas se espraiando nesta areia onde agora me sento, com a sua voz móvel que estala ao longo da praia, como pianista que percorre com os seus dedos todas as teclas dum piano, ele me perturba na razão de não conseguir caminhar sobre ele. Que farei quando, deitado, noite escura, longe do marulhar, fitando o espaço vazio que me torna uma ilha de mim? Grito-lhe no espaço fintado como que eu esteja a dormir a seu lado? Gritar? Quem poderá salvar-me de dentro de mim? Mas eu sei que tenho de esperar-me, pé ante pé, conseguir-lhe caminhar como numa ponte até ao fim, que será no início desse zulmarinho que me espreita e salpica numa atitude provocadora.
Caminhar?! Não me custa nada! Mas estes mini passos que dou vão encurtando a estrada que parece ainda nem começou. Eu sei que a ansiedade faz parar o tempo. Sempre o tempo porque há tempo!
Sempre há alguma coisa parecida com o tempo. Sensação repetitiva que parece tem sempre a mesma cadência e chega sempre da mesma forma. Se fecho os olhos por alguns instantes e me concentro dentro de mim, ao abri-los noto que o tempo passou porque percebo os meus sonhos que quase me matam de serem sonhados, que quase se explodem na forma de borbulhas se não são recapitulados. Sigo por dentro deste final de zulmarinho, apoiado na rotação invariável do tempo. Busco uma saída deste labirinto em que me meti, neste labirinto que não é mais que nem eu dentro de mim a me olhar para fora e esperar.
A vida segue o seu ritmo, o seu tempo e eu sigo-me no meu silêncio.

Sanzalando

Quem?


Sanzalando

31 de maio de 2006

Quero Chorar


Sanzalando

Sigo meu caminho. Sigo meu sonho


Continua a minha caminhada na borda deste zulmarinho que termina aqui mas tem o início dele lá, do outro lado da linha recta que é curva e, se eu me ponho em bicos de pé parece ela fica mais longe, portanto mais perto do seu início. Dou pulinhos como que imitando quem faz ginástica para ver se vejo ainda mais além. Ainda não consegui daqui ver o início dele, mas me cheira que é mesmo ali, depois dela.
Mas a verdade é que o cheiro só cheira depois de ser cheirado.
À esquerda tenho o zulmarinho no seu ar azulado de sombras e soles que é um enorme campo de pensamento, de mistérios e de sonhos. À direita tenho o mundo e todas as coisas que esse mundo tem. O arco íris dos dias, somatórios de vidas, sonhos, pesadelos, tormentas, bonanças. Aqui, terra de ninguém, fronteira do sonho e da magia, terra do Tempo e da capacidade de viajar nele. Aqui me encontro comigo na paz de estar isolado dos pobres de espírito que cada dia mais mostram que não são capazes de estar sem mim, lhes ilumino os escuros dias por onde vivem as suas almas, que se fossem gémeas, já se tinham morto de dor no cotovelo. São os meus dependentes, precisam da minha ajuda, do meu carinho e quem sabe de que eu lhes indique o caminho, como é costume de se dizer, o norte. Mas eu não consigo ficar-lhes indiferente. Tenho dó deles, coitados.
A brisa que me trás a maresia, perfume das entranhas do zulmarinho, resquícios dos ares que vêm desde lá da linha recta que é curva, que me trás a força de ouvir e contar as estórias, que me trás a capacidade de sonhar, me trouxe um papel que se me colou que nem na canela e por mais que eu tentasse que ele seguisse o seu caminho, desconsegui. Só depois de o ler ele seguiu o seu caminho, se calhar até se colar numa outra perna. Ele dizia tão pouco que ao mesmo tempo era tanto: "Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te".Apocalipse 3, 15-16
Já que parei para ler, aproveito e me sento de costas para o mundo, de frente para o sonho.
Trocar o certo pelo duvidoso? Mas e quem me garante que este certo é realmente certo? Quem garante que amanhã o pássaro não encontra alguém disposto a lhe abrir a gaiola e o deixa voar até ao sonho dele. E aí eu fico sem o certo e sem o duvidoso. Afinal, as certezas que temos na vida são tão poucas.
Olha só que me deu para continuar os sonhos de ontem. Vais ver foi esse pedaço de papel que me deu novo caminho?!
Sigo o meu caminho. Sigo o meu sonho!

Sanzalando Angola

30 de maio de 2006

Entre a dúvida da certeza e a certeza da dúvida


Agarrado na minha birra loira e estupidamente gelada faço a minha caminhada ouvindo as estórias que quero ouvir ou as que me quero contar. Conto-me para mim que sou o melhor ouvinte de mim.
Mas a birra tá tão gelada como alguns cérebros que se esparramam na areia tentando absorver com os olhos míopes aquilo que nem conseguem ver à frente do nariz.
Esta minha caminhada, peça de teatro de vida em que os actores principais sou que nem eu e mais a minha paixão de vida.
A vida é uma paixão, somatório de cores, sabores e cheiros. Encruzilhada de coisas boas e de coisas menos boas. A vida não tem coisas más, porque a vida é sempre vida e a gente tem tempo de sobra para estar morto um dia qualquer.
Eu nem tenho tempo para ter um mínimo de pena desses míopes, apenas tristeza de ver a infelicidade da ignorância, o emaranhado de vazios ocos fervendo nos primeiros raios de um sol nublado.
Mas eu caminho na beira do final do zulmarinho sempre com os olhos postos nela, mesmo que não a veja, sabendo que ela está lá, do outro lado da linha recta que é curva. Mas ao mesmo tempo ela está aqui, dentro de mim! Ou será que sou eu que quero estar dentro dela?
Eu já tenho algo seguro e certo, mas também tenho a dúvida e a hipótese de viver um turbilhão de emoções. E isso está a deixar-me assim como que muito incomodado, pois não sei ao certo que caminho seguir de modo a não atrofiar a minha capacidade de raciocinar, a minha capacidade de ser feliz, a minha hora de ter o prazer de me viver. Quando estou quase a tomar a decisão, acontece algo que me faz parar e repensar a minha decisão e ver se é realmente isso o que eu quero.
Por um lado sei que a certeza é algo mais tranquilo, afinal mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Porém, sinceramente na sinceridade que me reconheço, não sei até que ponto vale a pena prender este pássaro. Talvez eu esteja a fazer com que ele perca a oportunidade de seguir o seu caminho. Por outro lado, tenho a dúvida, algo totalmente subjectivo, mas que minha intuição diz que dará certo. É uma questão de tempo.
Sanzalando Angola

TEATRO




Sanzalando Angola

29 de maio de 2006

Caminho porque sei para onde vou


Caminho, passo desconcertado, ritmado nas ondas. Linha recta marcada, pelos buracos dos meus pés, no chão de areia molhada que uma ou outra onda mais rebelde se estendeu por mais adentro da areia, encortando o meu espaço em relação ao mundo real. Caminho de olhos abertos e pensamento fechado. Hoje é dia de ver, talvez por ser segunda-feira o pensamento ainda está no domingo dele, e nem que lhe berre ele hoje acorda. Servem os olhos que vão servindo bem.
Esta é a vista que se vê de qualquer lugar, dando uma volta de 360 graus em torno de mim. Não, não me cansa. Nem de andar, nem de ver. Nem de subir, nem de descer, nem de aproximar e nem de afastar os olhos. De tanto ver, de tanto zulmarinho, de tantas montanhas de água que até parece se vai derramar toda aqui na areia, de tanto ar puro, que até parece que nos falta. Falta mesmo é a coragem de partir numa marcha acelerada por esse zulmarinho dentro. Nó no peito, olhos cheios de avidez querendo absorver tudo, pernas cansadas mas fortalecidas num treino diário de percorrer esta beira-mar, sempre à espera do momento certo que um dia vai chegar assim num estalar de dedos. Força para continuar a andar e constatar de que há muito que se ver, há muita terra que andar, há muita gente para conhecer.
Caminhar à beira-mar, na borda deste final do zulmarinho é o tipo de lugar onde se tira a prova real de que o céu é azul e o mar lhe acompanha. Que a vida é cheia de cores bizarras e improváveis, que depois ou antes há sempre uma subida ou uma descida, depois de uma planície há um monte, um planalto, um vale, uma encruzilhada, uma linha recta. Nesta minha caminhada onde ouço as kiandas a me contar estórias, encontro-me e perco-me. Tudo aqui pode acontecer. Mesmo que nada, isso é um nada acontecido porque foi vivido.
Brigado Árthemis pela divinal composição gráfica

Sanzalando Angola

Mulher vestida de Azul


Sanzalando Angola